Nas sombras
Marcas de Batom e Mentiras Elegantes
O sol de Hogwarts ainda não havia cruzado a linha do horizonte quando Harry Potter se esgueirou para fora da Sala Precisa, ajeitando a capa de invisibilidade sobre os ombros. Seus músculos estavam doloridos de uma forma deliciosa, um lembrete físico da noite intensa que passara nos braços de Draco. Ele sentia o cheiro de sândalo e maçãs verdes — o perfume característico de Malfoy — impregnado em sua própria pele, um segredo invisível que ele carregaria durante todo o café da manhã.
Horas depois, no Grande Salão, a cena era o oposto absoluto da ternura da noite anterior.
— Olhem só, se não é o Cicatriz, chegando atrasado como se fosse o dono do castelo — a voz de Draco arrastou-se pelo salão, carregada de um veneno perfeitamente ensaiado.
Ele estava sentado à mesa da Sonserina, a postura impecável, cercado por Pansy Parkinson e Blaise Zabini. Draco desdenhou com um movimento de mão, sem sequer olhar diretamente para Harry, embora seus dedos estivessem brincando nervosamente com um anel de sinete, um sinal que Harry agora reconhecia como pura ansiedade contida.
— Pelo menos meu cabelo não leva duas horas para ficar apresentável, Malfoy — Harry retrucou, sentando-se ao lado de Rony e Hermione.
— O seu cabelo nunca fica apresentável, Potter. Parece que você acabou de sair de um combate com um Visgo do Diabo — Draco rebateu, arrancando risadas dos colegas de casa.
Rony revirou os olhos, enfiando uma salsicha na boca.
— Eu não sei como vocês conseguem — sussurrou o ruivo, inclinando-se para Harry. — Se ele falasse assim comigo, eu já teria azarado ele. E pensar que ontem à noite ele estava provavelmente implorando por carinho...
— Rony! — Hermione o repreendeu em um sussurro sibilante, embora seus olhos brilhassem com diversão por cima do "Profeta Diário". — Mantenha a voz baixa. E Harry, você tem uma marca logo abaixo da orelha. Ajeite essa gola.
Harry sentiu o rosto esquentar e rapidamente puxou o colarinho da camisa da Grifinória. Ele arriscou um olhar para a mesa verde e prata e viu Draco observando-o por um breve segundo. O loiro deu um sorriso de canto quase imperceptível e piscou. Um desafio.
A aula de Poções daquela tarde foi um exercício de tortura e autocontrole. O Professor Slughorn os dividira em duplas, e, por uma "ironia do destino" (que Harry suspeitava ter o dedo de Hermione), ele acabou na mesma bancada que Draco.
— Não toque nos meus ingredientes, Potter — Draco rosnou para que os outros alunos ouvissem, enquanto picava raízes de valeriana com uma precisão cirúrgica. — Suas mãos são desajeitadas demais para uma Poção da Paz.
— Engraçado — Harry murmurou, aproximando-se o suficiente para que apenas Draco ouvisse, sentindo o calor do corpo do outro tão perto do seu. — Você não achou minhas mãos desajeitadas ontem quando eu estava massageando seus ombros.
Draco quase deixou a faca escorregar. Ele respirou fundo, as pontas das orelhas ficando levemente rosadas.
— Cale a boca — Draco sibilou, mas sua mão esquerda desceu por baixo da bancada, encontrando a coxa de Harry e apertando-a com força, um gesto possessivo e faminto. — Ou eu vou te dar uma detenção particular que você não vai esquecer tão cedo.
Harry soltou um suspiro baixo, sentindo o arrepio percorrer sua espinha. Ele adorava quando Draco tentava manter a pose de dominador em público, mesmo quando ambos sabiam que, assim que as portas se fechassem, o loiro se tornaria a criatura mais carente e dedicada do mundo.
Aproveitando que Slughorn estava ocupado ajudando Neville com um caldeirão fumegante, Harry inclinou-se mais, roçando o ombro no de Draco.
— Você está muito tenso, Dray — Harry sussurrou, usando o apelido que Draco só permitia entre quatro paredes. — Precisa de um tempo no colo do seu Grifnório favorito?
Draco soltou um rosnado abafado, os olhos cinzentos faiscando de desejo e irritação.
— Você é um perigo para a minha saúde mental, Potter. Agora, mexa essa poção antes que ela exploda na sua cara.
O restante do dia passou como um borrão de olhares roubados e provocações ácidas. Para o resto de Hogwarts, Malfoy e Potter continuavam sendo os arqui-inimigos de sempre. Mas para Rony e Hermione, o teatro era quase cômico.
Ao anoitecer, Harry encontrou um bilhete dobrado em seu bolso, entregue provavelmente durante a troca de aulas. "Sala Precisa. 21h. Não se atrase, ou eu vou ter que punir você por sua insolência".
Harry sorriu. Ele sabia que a "punição" de Draco geralmente envolvia muitos beijos, abraços apertados e o loiro escondendo o rosto em seu pescoço enquanto murmurava o quanto o odiava por fazê-lo se sentir tão dependente.
Quando Harry entrou na Sala Precisa naquela noite, o ambiente estava diferente. Não havia o sofá de veludo, mas sim uma enorme banheira de mármore cheia de água quente e bolhas com cheiro de lavanda. Draco já estava lá, apenas de calça de pijama, sentado na borda da banheira, parecendo exausto.
A máscara de herdeiro Malfoy havia caído completamente. Seus ombros estavam caídos e a expressão era de pura vulnerabilidade.
— O dia foi longo? — perguntou Harry suavemente, aproximando-se e colocando as mãos nos ombros pálidos de Draco.
— O Blaise não para de falar sobre garotas — Draco resmungou, fechando os olhos sob o toque de Harry. — E a Pansy insiste que eu deveria convidar a Astoria Greengrass para o próximo passeio em Hogsmeade para "manter as aparências". Eu sinto que estou vivendo uma mentira vinte e quatro horas por dia, Harry.
Harry começou a massagear os músculos tensos do pescoço de Draco, sentindo o outro relaxar instantaneamente.
— Você não precisa fingir aqui — Harry disse, inclinando-se para beijar a têmpora do loiro. — Aqui é só você e eu.
Draco virou-se, puxando Harry pela cintura para que ele ficasse entre suas pernas. O loiro abraçou a cintura de Harry, encostando a bochecha no abdômen do moreno, suspirando pesadamente. Era a imagem da entrega. O grande Draco Malfoy, o ativo que se orgulhava de sua linhagem, estava ali, agindo como uma criatura pequena em busca de abrigo.
— Senta comigo? — Draco pediu, a voz rouca.
Harry não hesitou. Ele se despiu rapidamente e entrou na água quente, sentando-se entre as pernas de Draco. O loiro imediatamente o envolveu por trás, puxando Harry contra seu peito, os braços circulando o peito do Grifnório com uma possessividade doce.
— Você é tão macio — Draco murmurou, beijando o ombro de Harry. — Às vezes eu acho que vou enlouquecer se não puder te tocar assim o tempo todo.
Harry inclinou a cabeça para trás, oferecendo seu pescoço.
— Morda — pediu Harry, a voz carregada de desejo. — Deixe uma marca que eu não consiga esconder. Quero ver você tentar explicar isso amanhã.
Draco soltou uma risada baixa, um som vibrante contra as costas de Harry.
— Você quer me ver em apuros, não é? — Draco cravou os dentes levemente na pele do ombro de Harry, deixando uma marca avermelhada. — Mas você sabe que sou eu quem manda aqui, Potter. Mesmo quando eu deixo você me mimar.
— Claro, Draco — Harry sorriu, virando-se na banheira para ficar de frente para ele. — Você manda em tudo, menos no seu coração. Esse já é meu faz tempo.
Harry subiu no colo de Draco, a água transbordando pelas bordas da banheira. Ele segurou o rosto do loiro com as duas mãos, olhando profundamente naqueles olhos cinzentos que agora brilhavam com uma adoração indisfarçável.
— Eu adoro quando você faz isso — Draco confessou, suas mãos descendo para as nádegas de Harry, apertando-as com firmeza. — Adoro como você me olha como se eu fosse a única coisa que importa no mundo.
— Porque você é — Harry respondeu, antes de selar seus lábios nos de Draco.
O beijo começou lento, um sabor de alívio e pertencimento, mas rapidamente escalou para algo mais urgente. A língua de Draco explorava a de Harry com uma fome que parecia insaciável. Harry gemia contra a boca do outro, suas mãos puxando os cabelos loiros agora molhados, sentindo o corpo de Draco reagir sob o seu.
Draco o levantou da água com uma força surpreendente, levando-o para o tapete felpudo em frente à lareira. Ele deitou Harry com cuidado, mas seus olhos eram puro fogo.
— Hoje — Draco ofegou, posicionando-se sobre Harry —, eu não vou ser gentil. Eu precisei ser o "Malfoy perfeito" o dia todo. Agora eu só quero ser o seu homem.
Harry abriu as pernas, convidando-o a entrar, um sorriso desafiador e amoroso nos lábios.
— Então me mostre, Draco. Mostre-me quem você realmente é quando ninguém está olhando.
A noite seguiu com uma intensidade que fazia as paredes da Sala Precisa vibrarem. Draco era um amante vigoroso, mas cada movimento seu carregava uma nota de carinho desesperado. Ele beijava cada cicatriz de Harry, cada centímetro de pele, como se estivesse tentando memorizar o mapa da alma do outro através do corpo.
Quando finalmente alcançaram o ápice, Draco desabou sobre Harry, escondendo o rosto na curva do pescoço do moreno, a respiração errática.
— Harry... Harry... — ele sussurrava o nome como se fosse uma oração.
Harry passava as mãos pelas costas suadas de Draco, fazendo carinhos lentos, acalmando a tempestade que sempre parecia habitar o peito do Sonserino.
— Estou aqui — Harry respondeu. — Eu não vou a lugar nenhum.
Eles ficaram ali, abraçados no chão, enquanto as chamas da lareira diminuíam. Draco, o "bad boy" heterossexual de Hogwarts, estava agora ronronando praticamente como um gato sob o toque de Harry, permitindo que o moreno o abraçasse e fizesse tranças improvisadas em seu cabelo loiro.
— Sabe — Draco disse, a voz sonolenta —, o Weasley me viu olhando para você no jantar. Ele quase engasgou com o suco de abóbora.
— Ele ainda não se acostumou — Harry riu. — Ele acha que você é um monstro.
— Eu sou um monstro — Draco concordou, beijando a ponta do nariz de Harry. — Mas sou o seu monstro. E se alguém descobrir que eu gosto de ser mimado por um Grifnório... eu vou ter que transformar essa pessoa em um furão.
— Você não transformaria ninguém em furão — Harry provocou. — Você tem um coração mole demais por baixo dessa armadura.
Draco bufou, mas não discutiu. Ele apenas puxou Harry para mais perto, cobrindo ambos com um feitiço de aquecimento.
— Amanhã na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas — Draco começou, seu tom voltando a ser o de um conspirador —, eu vou te desafiar para um duelo. Vou dizer que você é um herói de fachada.
— E o que eu ganho em troca por ser humilhado em público? — Harry perguntou, mordendo o lábio inferior de Draco de forma provocante.
Draco sorriu, um brilho perigoso nos olhos.
— Você ganha o direito de me fazer o que quiser amanhã à noite. E eu prometo que vou ser uma cadelinha muito bem comportada para você.
Harry riu, sentindo um calor subir pelo peito. A dinâmica deles era estranha, cheia de contrastes e mentiras sociais, mas no fundo, era a coisa mais real que ele já tivera.
— Negócio fechado, Malfoy.
Eles adormeceram ali mesmo, no chão, entrelaçados. Na manhã seguinte, Draco Malfoy acordaria cedo, usaria um feitiço para esconder as marcas de mordida no pescoço e caminharia pelo Salão Comunal da Sonserina com o queixo erguido e um olhar de desprezo para qualquer um que cruzasse seu caminho. Ele falaria sobre linhagem, sobre poder e sobre como Harry Potter era um estorvo.
Mas por dentro, ele estaria contando os minutos para ser, novamente, apenas o Draco de Harry. O homem que encontrava sua força na doçura de um abraço e sua paz no calor de um segredo compartilhado.
Pois para Draco Malfoy, ser a "cadelinha" de Harry Potter era o papel mais importante e satisfatório que ele já interpretara em toda a sua vida. E ele não trocaria aquele segredo por todo o ouro de Gringotes.