Nemhum
O Pequeno Furacão e a Dinastia do Loft
O loft de Emanuel, que antes era um templo de silêncio minimalista e design industrial, agora parecia um campo de batalha decorado com brinquedos educativos de madeira e bonecas de porcelana vestidas com alta costura. O sol da manhã entrava pelas imensas vidraças, iluminando as partículas de poeira que dançavam ao som de uma risada estridente e passos rápidos que batiam contra o piso de concreto polido.
— Arthur! Arthur, volte aqui agora! — O grito de Eduarda era suave, mas carregado de um desespero cômico.
Ela corria atrás do filho de dois anos, que era a imagem cuspida e escarrada de Emanuel, mas com uma energia que o pai raramente demonstrava em público. Arthur estava apenas de fralda, segurando uma caneta hidrográfica preta como se fosse uma arma de guerra, e já havia deixado um rastro de "tatuagens" tribais em uma das paredes brancas do corredor.
— Papai! Papai! — Arthur gritava, as perninhas gordinhas movendo-se com uma velocidade impressionante.
Emanuel saiu do escritório, segurando um tablet e um café expresso. Ele parou no meio do caminho, observando o filho avançar em sua direção. O tatuador, agora com vinte e sete anos e ainda mais imponente, não conseguiu evitar que um sorriso de puro orgulho surgisse em seu rosto sério.
— O que o meu campeão está aprontando hoje? — perguntou Emanuel, abaixando-se exatamente no momento em que Arthur se jogava contra suas pernas.
— Ele riscou a parede de novo, Manu! — Eduarda chegou ofegante, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo, algumas mechas caindo sobre seu rosto delicado. Ela usava um vestido de algodão leve, curto e manhoso, que deixava seus ombros alvos à mostra. — Eu não consigo segurar esse menino. Ele é um furacão!
Emanuel pegou o filho no colo, ignorando a mancha de canetinha que Arthur imediatamente transferiu para sua camiseta cinza de marca.
— Ele só está praticando o ofício do pai, Duda — disse Emanuel, dando um beijo sonoro na bochecha do pequeno. — Não é, Arthur? Você quer ser tatuador como o papai?
— Tatu! — Arthur exclamou, apontando para o braço fechado de Emanuel. — Quero tatu!
— Nem pensar! — Eduarda interveio, aproximando-se e encostando a cabeça no ombro de Emanuel, buscando aquele conforto físico que ela tanto amava. — Ele já bota o loft abaixo, Manu. Se ele descobrir como usar uma máquina de verdade, estamos perdidos.
Enquanto o casal compartilhava aquele momento de caos doméstico, a porta da suíte principal se abriu com um impacto dramático. Sara surgiu, impecável como sempre, usando um robe de seda vibrante e saltos agulha. Atrás dela, caminhando com uma postura que desafiava a gravidade para uma criança de quase dois anos, vinha Valentina.
Valentina era uma mini-diva. Sara a transformara em sua própria versão em miniatura: usava um vestido de seda rosa, laços enormes no cabelo loiro perfeitamente penteado e uma expressão de tédio que era assustadoramente parecida com a da mãe em seus dias mais esnobes.
— Pelo amor de Deus, Emanuel! — Sara exclamou, ajeitando os óculos escuros sobre a cabeça. — Alguém pode controlar esse selvagem? Ele entrou no meu closet ontem e tentou "tatuar" a minha bolsa Birkin! Aquela bolsa vale mais do que o curso de História da Arte da Eduarda!
Eduarda encolheu-se levemente, fazendo-se de manhosa, sentindo o olhar de Emanuel se tornar protetor sobre ela.
— Foi um acidente, Sara... — murmurou Eduarda, a voz doce e baixa. — Ele é só uma criança.
— Uma criança que precisa de limites! — Sara retrucou, mas não havia mais aquela amargura cortante de anos atrás.
Com o tempo, Sara aprendera que o mar não precisava ser apenas sal e tempestade; ele podia ser vibrante, azul e cheio de vida. Ela recuperara sua personalidade expansiva, mas agora canalizava sua energia para transformar Valentina na bebê mais famosa do Instagram e em gerenciar a imagem pública da "família" de Emanuel.
— Arthur é... intenso — disse Sara, sentando-se à mesa e pegando um croissant. — Valentina, querida, não sente no chão. A poeira vai estragar o seu vestido de renda francesa.
Valentina olhou para o irmão com um desdém infantil, sentando-se com cuidado em sua cadeirinha alta, cruzando as perninhas gordinhas.
— Arthur feio — disse Valentina, a voz fina e decidida. — Sujo.
— Eu não sou feio! — Arthur gritou, tentando se soltar do colo de Emanuel para ir em direção à irmã. — Sou tatu!
— Chega, os dois — Emanuel comandou, e sua voz de autoridade fez o loft silenciar por um segundo. — Arthur, sem gritos. Valentina, seja legal com seu irmão.
Arthur, sentindo que o pai estava falando sério, emburrou o rosto, cruzando os braços de um jeito que era a cópia fiel de Emanuel quando estava irritado. Ele só se acalmava em dois estados: dormindo ou quando estava no peito de Eduarda. Fora isso, ele era uma força da natureza que não respeitava hierarquias, especialmente as de Sara.
— Manu — Eduarda chamou, puxando a barra da camisa dele com aquele jeito de menina carente que sempre o desarmava —, você vai levá-lo ao estúdio hoje? Eu tenho uma palestra na faculdade e a babá está de folga.
— Eu levo — Emanuel respondeu, observando como Eduarda parecia ainda mais jovem e delicada com o passar dos anos. — Ele ama o estúdio. Ontem ele ficou horas observando o desenho que eu estava preparando para um cliente.
— Ele vai acabar se furando, Emanuel! — Sara interveio, retocando o batom. — E eu não quero a Valentina perto daquelas agulhas. O ambiente é muito... *underground* para ela.
— O estúdio é parte da minha vida, Sara — Emanuel disse, firme. — E os dois vão conhecer o negócio da família. Arthur já é fascinado por isso.
Mais tarde, no estúdio central de Emanuel, o caos se repetiu, mas de uma forma diferente. Arthur corria entre as poltronas de couro, sendo paparicado pelos assistentes e tatuadores de renome que trabalhavam para Emanuel. Ele era o "pequeno príncipe" do império das tintas.
— Olha, papai! — Arthur gritou, apontando para um desenho de uma fênix na parede. — Eu faço igual!
— Um dia, campeão — Emanuel murmurou, enquanto preparava sua bancada para uma sessão.
Eduarda apareceu no estúdio após sua palestra, usando um vestido romântico que contrastava com o ambiente escuro e cheio de arte corporal do local. Ela parecia uma fada perdida em uma caverna de dragões. Assim que Arthur a viu, ele parou sua correria. O furacão subitamente perdeu a força diante da presença da mãe.
— Mamãe! — Ele correu até ela, abraçando suas pernas. — Tetê?
Eduarda corou levemente, olhando para os lados. Embora Arthur já tivesse dois anos, ele ainda buscava o peito dela quando estava cansado ou superestimulado. Emanuel, observando a cena de longe, sentiu aquela onda familiar de possessividade e carinho. Ele amava o fato de que, não importa o quanto Arthur fosse selvagem, ele sempre voltava para o refúgio que era Eduarda.
— Agora não, Arthur — Eduarda sussurrou, acariciando o rosto do filho. — Vamos para o escritório do papai.
Eles se retiraram para a sala privada de Emanuel, um refúgio de couro, livros de arte e silêncio. Lá, Eduarda sentou-se no sofá e Arthur, finalmente vencido pelo cansaço do dia, aninhou-se em seu colo. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som rítmico da sucção e pela respiração pesada do menino.
Emanuel entrou na sala minutos depois, fechando a porta atrás de si. Ele ficou parado por um momento, observando a cena que era o seu maior tesouro.
— Ele finalmente parou — comentou Emanuel, sentando-se ao lado de Eduarda e passando o braço por seus ombros.
— Ele gasta muita energia tentando ser como você, Manu — Eduarda disse, encostando a cabeça no peito dele. — Ele te idolatra. Ele quer ser forte, quer ser tatuado, quer mandar em tudo. Mas no fundo, ele ainda é o meu bebê.
— Ele tem a sua doçura escondida em algum lugar — Emanuel disse, beijando a têmpora de Eduarda. — Só que ele escolheu a minha teimosia para cobrir tudo.
— E a Valentina? — perguntou Eduarda, fazendo um carinho no pé de Arthur. — Sara me mandou uma mensagem dizendo que ela ganhou um concurso de "Mini Miss Simpatia" hoje de manhã.
Emanuel soltou um riso curto.
— Valentina é uma peça. Ela sabe exatamente como manipular a Sara. Ela é esnobe, sim, mas é inteligente. Ela sabe que, se fizer um biquinho e falar sobre a marca do sapato, a Sara dá o que ela quiser.
— Elas são parecidas — Eduarda concordou, fechando os olhos e aproveitando o momento de paz. — Às vezes eu sinto que a Sara finalmente encontrou o papel da vida dela. Ser a mãe de uma diva.
— E você, Duda? — Emanuel perguntou, segurando o queixo dela e forçando-a a olhar para ele. — Você encontrou o seu papel?
Eduarda sorriu, aquele sorriso tímido e manhoso que fizera Emanuel se apaixonar anos atrás, quando ela ainda era uma virgem curiosa que lia livros escondidos sobre prazer.
— Meu papel é ser o seu equilíbrio, Manu. E o porto seguro desse furacãozinho. Eu gosto de ser a pessoa para quem vocês dois voltam quando o mundo fica barulhento demais.
Emanuel a beijou, um beijo lento que carregava a história de tudo o que haviam passado. A rivalidade entre as duas mulheres ainda existia, mas agora era uma dança coreografada de personalidades opostas que, de alguma forma, mantinha o loft de pé.
De um lado, a exuberância de Sara e a sofisticação precoce de Valentina; do outro, a timidez profunda de Eduarda e a energia indomável de Arthur. E no centro de tudo, Emanuel, o homem que aprendera que o controle total era uma ilusão, mas que o amor compartilhado entre pessoas tão diferentes era a única obra de arte que realmente importava.
— Papai... — Arthur murmurou entre sonhos, soltando o peito da mãe e virando-se para o lado.
— Estou aqui, filho — Emanuel sussurrou, cobrindo os dois com seu próprio casaco.
Naquele momento, enquanto o sol se punha sobre a cidade e as luzes do estúdio brilhavam lá fora, o loft não era apenas um espaço de luxo. Era um lar. Um lar onde um pequeno tatuador em formação, uma mini-diva esnobe, uma loira vibrante e uma historiadora manhosa conviviam sob a proteção de um homem que tatuara em sua própria alma o compromisso de cuidar de cada um deles.
Arthur acordaria em breve, provavelmente tentando escalar a estante de livros ou querendo "tatuar" o cachorro do vizinho, e Sara chegaria reclamando de algum novo drama fashion de Valentina. Mas, por enquanto, havia o silêncio. E no silêncio, Eduarda e Emanuel sabiam que, apesar de todo o caos, eles não mudariam absolutamente nada.
— Manu? — Eduarda chamou baixinho, quando ele já se levantava para voltar ao trabalho.
— Sim, pequena?
— Eu li um livro novo ontem... sobre certas técnicas de relaxamento oriental.
Emanuel parou, um brilho de diversão e desejo cruzando seus olhos escuros. Ele conhecia aquele tom de voz. Era a Eduarda curiosa, a Eduarda que usava sua timidez como uma capa para uma sensualidade que só ele conhecia.
— É mesmo? — Ele se inclinou sobre ela, a voz rouca. — E o que o livro dizia?
— Ele dizia que... — ela sussurrou algo no ouvido dele que o fez sorrir abertamente — ...mas só depois que o Arthur dormir à noite. E se a Sara não resolver ter uma crise existencial na sala.
Emanuel riu, puxando-a para um último beijo rápido.
— Eu vou garantir que o ambiente esteja calmo. Agora, volte para o loft. O furacão vai acordar com fome de novo em dez minutos.
Eduarda levantou-se, pegando Arthur no colo com uma força que sua aparência delicada não sugeria. Ela caminhou em direção à saída, parando para olhar uma última vez para Emanuel.
— Te amo, tatuador — disse ela, fazendo um biquinho manhoso.
— Te amo, historiadora — ele respondeu, observando-a ir embora.
O dia continuaria, a vida seguiria seu curso barulhento e cheio de cores, mas Emanuel sabia que, no final de tudo, ele sempre teria aquele refúgio de seda e inteligência esperando por ele. E, claro, um pequeno menino com canetinhas nas mãos, pronto para desenhar o futuro nas paredes de sua vida.