Nemhum
O Labirinto de Seda e Espinhos
O silêncio na cobertura de Emanuel era um luxo que Eduarda apreciava, mas que se tornava cada vez mais raro. O choro de Valentina, agudo e insistente, ecoava pelo corredor de mármore, vindo do quarto decorado com excessos de dourado e rosa. Eduarda, sentada em sua poltrona de amamentação com Arthur adormecido em seus braços, sentiu uma pontada de genuína compaixão. Ela sabia que Valentina era apenas um bebê, uma extensão daquela guerra que ela mesma ajudara a traçar, mas a pequena não tinha culpa das inseguranças da mãe.
Eduarda ajeitou Arthur no berço, cobrindo-o com a manta de fios egípcios que ela mesma escolhera, e caminhou em direção ao som do choro. Ao passar pela sala, viu Emanuel debruçado sobre a mesa de jantar, cercado por plantas arquitetônicas de um novo estúdio em Tóquio. Ele parecia exausto; as olheiras eram profundas e a mão que segurava a caneta tremia levemente.
— Ela não para, Manu — disse Sara, saindo do quarto com os cabelos loiros desgrenhados e o rosto carregado de maquiagem borrada. — Eu já dei o peito, já troquei, já balancei... Essa menina é um demônio! Ela faz de propósito para me enlouquecer!
— Sara, ela tem três meses — Emanuel respondeu sem levantar os olhos dos papéis. — Bebês choram. Talvez ela sinta que você está nervosa.
— Ah, claro! A culpa é minha agora? — Sara cruzou os braços, a voz subindo de tom. — Enquanto a "santinha" ali tem um filho que parece um boneco de cera de tão quieto, eu fico com a barulhenta. Você deveria passar mais tempo com a Valentina, Emanuel. Ela é sua filha também, não apenas o Arthur!
Eduarda aproximou-se devagar, mantendo as mãos cruzadas à frente do corpo, a imagem da mansidão.
— Sara... se você quiser, eu posso tentar pegá-la um pouco — ofereceu Eduarda, a voz doce e baixa. — Você parece precisar de um banho e de um descanso. Eu acabei de colocar o Arthur para dormir, ele está bem calmo.
Sara virou-se para ela com os olhos faiscando de ódio.
— Você quer o quê? Quer roubar a minha filha agora? Já não basta ter o Emanuel na palma da mão com essa sua carinha de quem não quebra um prato?
— Eu só quero ajudar, Sara — Eduarda insistiu, dando um passo à frente. — Valentina é irmã do meu filho. Eu quero que eles cresçam próximos. E eu sei que você está exausta. Ninguém consegue ser uma boa mãe sem dormir.
Emanuel finalmente levantou a cabeça, olhando para as duas. O contraste era doloroso. Eduarda, em seu robe de seda clara, transmitia uma paz quase terapêutica. Sara, mesmo em roupas de grife, parecia estar à beira de um colapso nervoso.
— Deixa ela ajudar, Sara — ordenou Emanuel. — Vá descansar. Eu preciso terminar isso aqui e o choro está me impedindo de pensar.
Resmungando palavrões, Sara entregou a bebê para Eduarda com uma rispidez que fez a pequena Valentina chorar ainda mais forte. Assim que a bebê sentiu o toque suave de Eduarda e o cheiro de baunilha que ela exalava, o choro começou a diminuir para soluços baixos.
Eduarda começou a caminhar pela sala, balançando Valentina com um ritmo hipnótico, sussurrando palavras em latim que havia aprendido em seus livros de história. Emanuel observava a cena em silêncio, sentindo uma admiração renovada pela paciência de sua namorada mais jovem.
— Você leva jeito com ela — comentou ele, recostando-se na cadeira.
— Ela só precisa de calma, Manu — Eduarda respondeu, beijando o topo da cabeça de Valentina. — Os bebês são como esponjas. Eles absorvem tudo o que está ao redor. Eu quero que ela se sinta segura aqui, tanto quanto o Arthur.
— Eu não sei o que faria sem você para equilibrar esse caos — admitiu ele, fechando os olhos por um momento.
— Você não precisa saber. Eu estou aqui.
Horas mais tarde, após Valentina finalmente adormecer e ser colocada em seu próprio berço, Eduarda preparou um chá e levou até a cozinha, onde Sara estava sentada, olhando para o nada com uma expressão amarga. Eduarda colocou a xícara na frente da loira e sentou-se à mesa.
— Sara, nós precisamos conversar — começou Eduarda, sem a fachada de timidez que usava diante de Emanuel. Ali, era mulher para mulher. — Eu sei que você me odeia. Eu sei que você acha que eu sou uma ameaça.
— Eu não acho, eu tenho certeza — Sara rebateu, pegando a xícara com as unhas compridas e bem feitas. — Você é uma manipuladora, Eduarda. Você usa esse jeito de menina para conseguir tudo o que quer.
— Talvez — Eduarda deu um sorriso enigmático. — Mas o fato é que agora temos dois filhos. Valentina e Arthur são irmãos. Eles vão dividir o mesmo pai, a mesma herança e a mesma casa por muito tempo. Eu não quero que eles cresçam vendo a gente se destruir.
— E o que você sugere? Que sejamos melhores amigas? Que eu vá fazer compras com você e a gente troque figurinhas sobre fraldas? — Sara soltou uma risada ríspida. — Me poupe.
— Eu sugiro uma trégua — Eduarda disse, ignorando o sarcasmo. — Pela Valentina. Ela precisa de uma mãe que esteja bem, e não de uma mulher que vive consumida pelo ciúme. Se você cooperar, eu posso te ajudar com ela. Posso te ensinar o que eu li sobre o desenvolvimento infantil, sobre como acalmá-la...
— Você quer me dar aulas? — Sara levantou-se, a voz carregada de veneno. — Você, que mal saiu das fraldas e já engravidou para garantir a pensão? Eu sou formada em Administração, Eduarda. Eu entendo de estratégia. Eu sei exatamente o que você está fazendo. Você quer me transformar em alguém dependente de você para que o Emanuel te veja como a "salvadora" da família.
Eduarda suspirou, sentindo a inutilidade do esforço.
— Você é tão insegura, Sara, que não consegue aceitar um gesto de bondade sem procurar um motivo oculto. Eu sinto pena de você. E sinto mais pena ainda da Valentina, que vai crescer ouvindo seus gritos e suas ofensas.
— Não ouse falar da minha filha! — Sara gritou, apontando o dedo para o rosto de Eduarda. — Você pode ter enganado o Emanuel com esse seu teatrinho em York, mas eu sei quem você é. E eu vou provar que você não é essa santa. Vou provar que você é tão vulgar quanto diz que eu sou, só que você esconde isso entre livros velhos e palavras difíceis.
Eduarda levantou-se com elegância, mantendo a postura ereta.
— Tente, Sara. Mas enquanto você gasta sua energia tentando me derrubar, eu estarei construindo um mundo onde o Emanuel e os bebês se sintam em paz. E nós duas sabemos quem ele vai escolher no final do dia.
Eduarda saiu da cozinha, deixando Sara sozinha com seu chá esfriando e sua fúria fervendo. Ela voltou para o quarto de Arthur, fechando a porta e trancando-a suavemente. O bebê ainda dormia. Ela sentou-se na beira da cama e pegou um de seus livros sobre a vida de Catarina de Médici.
Ela realmente tentara. Uma parte dela, a parte que estudava a natureza humana e as conexões familiares, sabia que uma aliança com Sara seria o cenário ideal para a estabilidade de Emanuel. Mas a outra parte, a estrategista que aprendera a ler as fraquezas alheias, sabia que Sara era seu próprio pior inimigo.
A vulnerabilidade de Sara era sua vulgaridade e sua falta de controle. E Eduarda, com sua timidez calculada e sua inteligência afiada, sabia exatamente como usar isso a seu favor. Se Sara não aceitava a trégua, então ela teria a guerra. Mas seria uma guerra silenciosa, onde Eduarda venceria através da bondade e da eficiência, enquanto Sara se afogaria em seu próprio temperamento.
No dia seguinte, Emanuel decidiu levar as duas e os bebês para um passeio no parque Ibirapuera. Ele queria um momento de "família normal", algo que raramente acontecia. Eduarda preparou tudo: as bolsas com fraldas organizadas, as mantas extras, os lanches saudáveis. Sara apareceu na sala de salto alto e um vestido justo demais para um passeio no parque, reclamando do calor e do sol.
— Emanuel, por que não vamos ao shopping? — Sara insistia enquanto entravam no carro blindado. — Lá tem ar-condicionado. No parque vai ter mosquito, poeira... a pele da Valentina é sensível!
— Nós vamos ao parque, Sara — Emanuel disse, já perdendo a paciência. — As crianças precisam de ar puro. A Eduarda já preparou tudo.
— Ah, claro, a Eduarda sempre prepara tudo! — Sara murmurou, sentando-se no banco de trás e batendo a porta.
No parque, Eduarda estendeu uma toalha de linho sob a sombra de uma árvore frondosa. Ela sentou-se com Arthur, deixando-o observar as folhas balançando ao vento. Emanuel sentou-se ao lado dela, parecendo relaxar pela primeira vez em semanas.
Sara, no entanto, não conseguia ficar quieta. Ela tentava tirar selfies com Valentina, mas a bebê, incomodada com o sol e com a agitação da mãe, começou a chorar.
— Ai, que saco! — Sara exclamou, tentando calar a bebê com uma chupeta que Valentina cuspia repetidamente. — Emanuel, faz alguma coisa! Ela não para!
Eduarda olhou para Emanuel e viu a irritação crescendo em seus olhos. Ela sabia que era o momento de agir.
— Sara, deixe-me segurá-la um pouco — Eduarda disse, levantando-se e caminhando até a loira. — Talvez ela queira apenas deitar aqui na sombra conosco.
— Eu já disse que não quero sua ajuda! — Sara gritou, atraindo a atenção de algumas pessoas que passavam. — Você está tentando me fazer parecer uma mãe incompetente na frente do Emanuel!
— Você está fazendo isso sozinha, Sara — Emanuel disse, a voz fria como gelo. — A Eduarda está tentando ser gentil, tentando criar um ambiente agradável, e você só sabe gritar e reclamar. Se você não consegue se comportar por duas horas em um parque, talvez deva voltar para casa sozinha.
Sara ficou boquiaberta. As lágrimas de raiva começaram a descer, estragando sua maquiagem cara.
— Você está me expulsando? Por causa dela?
— Estou pedindo que você tenha bom senso — Emanuel respondeu, pegando Valentina do colo de Sara com firmeza. — Vá para o carro. O motorista te leva. Eu volto depois com a Eduarda e as crianças.
Sara pegou sua bolsa de grife e saiu marchando pelo gramado, os saltos afundando na terra, uma figura patética de fúria e frustração.
Emanuel suspirou, sentando-se novamente na toalha com Valentina em um braço e Arthur no outro. Eduarda aproximou-se e encostou a cabeça no ombro dele.
— Sinto muito, Manu. Eu realmente tentei conversar com ela ontem, tentei propor que nos déssemos bem pelos bebês...
— Eu sei que você tentou, pequena — ele disse, beijando a testa dela. — Eu ouvi um pouco da conversa na cozinha. Você tem um coração grande demais para este lugar. A Sara... eu não sei o que aconteceu com ela. Ela se tornou uma pessoa amarga.
Eduarda sorriu internamente. Ela sabia exatamente o que acontecera. Sara estava perdendo o terreno que achava que era seu por direito, e não sabia como lutar contra alguém que não usava as mesmas armas barulhentas que ela.
— Eu só quero que todos sejamos felizes — Eduarda sussurrou, acariciando a mãozinha de Valentina que agora segurava seu dedo. — Eu amo o Arthur, mas eu também sinto um carinho imenso pela Valentina. Ela é tão pequena, Manu... ela merece paz.
— Você é um anjo, Eduarda — Emanuel disse, olhando para ela com uma devoção que beirava a adoração. — Eu não sei o que fiz para merecer você na minha vida.
Naquela tarde, enquanto as crianças dormiam sob a sombra das árvores e Emanuel observava o horizonte, Eduarda sentiu o peso do seu poder. Ela não era uma megera, era verdade. Ela não queria o mal de Sara, mas também não permitiria que a loira destruísse o santuário que ela construíra.
Eduarda era como a água: fluida, adaptável, aparentemente inofensiva. Mas a água, com o tempo, era capaz de esculpir as pedras mais duras e inundar os vales mais profundos. Sara era o fogo: barulhento, destrutivo e fácil de apagar se você soubesse onde jogar o balde.
Ao voltarem para a cobertura, o clima era de silêncio absoluto. Sara se trancara em seu quarto, recusando-se a sair para o jantar. Eduarda, com sua eficiência silenciosa, organizou as refeições, deu banho nos bebês e preparou o ambiente para que Emanuel pudesse trabalhar um pouco mais antes de dormir.
Tarde da noite, Eduarda foi até o quarto de Sara. Ela não bateu, apenas entrou silenciosamente. Sara estava deitada na cama, olhando para o teto, com os olhos vermelhos.
— O que você quer agora? — Sara perguntou, a voz rouca.
— Eu vim te dizer que a oferta ainda está de pé — Eduarda disse, parando ao pé da cama. — Eu não quero te tirar do Emanuel, Sara. Eu não preciso disso. Eu já tenho o lugar que eu quero. Mas eu não vou deixar você transformar a vida da Valentina em um inferno. Se você quiser aprender a ser a mãe que ela precisa, eu te ajudo. Se você preferir continuar sendo essa mulher amarga, você vai acabar sozinha. O Emanuel tem um limite, e você está chegando perto dele.
Sara sentou-se na cama, o ódio brilhando novamente.
— Você se acha tão superior, não é? Pois saiba que eu vou descobrir o seu segredo, Eduarda. Ninguém é tão perfeita assim. Você tem um podre, e quando eu descobrir, vou esfregar na cara do Emanuel.
Eduarda deu um passo à frente, a luz do corredor iluminando apenas metade do seu rosto, conferindo-lhe um ar quase sobrenatural.
— Meu único segredo, Sara, é que eu leio. Eu estudo. Eu observo. Enquanto você olha para o espelho, eu olho para o mundo. E o mundo me diz que as pessoas como você são apenas notas de rodapé na história.
Eduarda saiu do quarto sem esperar resposta. Ela caminhou pelo corredor, sentindo a maciez do tapete sob seus pés descalços. Ela passou pelo quarto de Emanuel e viu que ele ainda estava acordado, lendo um contrato. Ela não entrou.
Ela foi para o quarto de Arthur, sentou-se na poltrona e abriu seu livro de arte. Ela sabia que a paz daquela casa dependia dela. E ela estava disposta a mantê-la, mesmo que para isso tivesse que ser a mão de ferro em uma luva de veludo.
Sara continuaria tentando, continuaria gritando, mas cada grito dela seria apenas mais um degrau para a ascensão de Eduarda. A "santinha" não era uma vilã, mas ela entendia que, em um mundo de leões, às vezes era preciso ser a serpente que encantava o domador.
Eduarda olhou para o filho e sorriu. O futuro estava garantido. E Valentina, a pequena órfã de uma mãe presente mas ausente, teria nela o refúgio que Sara nunca saberia dar. O equilíbrio fora estabelecido, e Eduarda era a única dona da balança.