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Nemhum

O Alquimista e a Porcelana

A tensão no triplex de Emanuel não se dissipou com a saída de Eduarda para a faculdade; pelo contrário, ela se assentou como uma poeira pesada sobre os móveis de design italiano. Emanuel estava em seu escritório, as paredes cobertas por esboços de tatuagens que custavam o preço de carros de luxo, mas sua mente não conseguia focar nos traços de um dragão oriental encomendado por um herdeiro europeu.

Ele amava Sara. Era um amor diferente, visceral, nascido da adrenalina e da falta de filtros que ela possuía. Sara era o caos que combinava com as noites de insônia dele, a mulher que não tinha medo de enfrentá-lo e que trazia uma energia carnal que o mantinha alerta. Mas o que ele sentia por Eduarda... aquilo era sagrado. Era como se Duda fosse o santuário onde ele buscava perdão por todas as suas sombras.

O som da porta abrindo tirou-o do transe. Sara entrou, o colar de diamantes brilhando contra a pele, mas sua expressão não era mais de triunfo. Ela parecia genuinamente frustrada.

— Emanuel, a gente precisa conversar sério — disse ela, sentando-se na beira da mesa dele, cruzando as pernas de forma a exibir a fenda do vestido. — Você não pode deixar aquela menina falar comigo daquele jeito. "Carvão sob pressão"? Ela me chamou de morta por dentro!

Emanuel suspirou, massageando as têmporas.

— Sara, você a provoca o tempo todo. O que você esperava? Que ela pedisse desculpas por existir?

— Eu espero que você veja que ela está mudando! — Sara se inclinou para frente, o perfume forte invadindo o espaço pessoal dele. — Ela está ficando abusada. Essa timidez é uma máscara que está começando a rachar. Ela quer me tirar da jogada, Manu. E você está caindo como um patinho.

— Ninguém vai tirar ninguém de lugar nenhum — afirmou ele, a voz ganhando aquele tom de autoridade que costumava calar seus subordinados. — Eu amo você, Sara. Você sabe disso. Mas eu também a amo. E se você não conseguir conviver com isso sem tentar destruí-la a cada café da manhã, o problema vai ser comigo.

Sara bufou, mas antes que pudesse retrucar, o celular de Emanuel vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de Eduarda.

"Manu, desculpa te incomodar... mas aconteceu de novo. Estou no banheiro da faculdade e não sei o que fazer. Acho que preciso ir para casa."

O sangue de Emanuel gelou. Ele se levantou tão rápido que a poltrona de couro rolou para trás.

— O que foi? — perguntou Sara, franzindo o cenho.

— A Eduarda. Ela está sangrando de novo.

— Ah, faça-me o favor! De novo? — Sara revirou os olhos. — Isso é drama, Emanuel. É óbvio que ela está forçando a barra para você cancelar seus compromissos e ficar paparicando ela.

— Chega, Sara! — Emanuel rugiu, pegando as chaves do carro. — Se for drama, eu mesmo resolvo. Mas se não for, eu não vou arriscar a saúde dela.

Ele saiu do escritório sem olhar para trás, deixando Sara sozinha com seus diamantes e sua raiva.

O trajeto até a faculdade de História da Arte foi feito em tempo recorde. Emanuel não se importava com multas ou com a imagem de "homem de gelo" que mantinha no mundo dos negócios. Quando ele chegou, encontrou Eduarda sentada em um banco de pedra no pátio, pálida, segurando a mochila contra o ventre.

— Duda! — Ele se aproximou, ajoelhando-se na frente dela, ignorando os olhares curiosos dos estudantes ao redor. — Você está com dor? O que aconteceu?

— Não dói, Manu... — sussurrou ela, os olhos lacrimejantes. — É só um desconforto. Mas eu me assustei. Eu estava na aula de estética e... eu senti.

Emanuel a pegou no colo sem esforço, como se ela fosse feita de penas.

— Nós vamos ao médico agora. Sem discussões.

— Mas eu tenho prova de iconografia... — tentou protestar, com sua voz manhosa habitual.

— A prova pode esperar. Sua saúde não.

O consultório do Dr. Arnaldo, no coração dos Jardins, era o ápice da discrição. Emanuel era um cliente antigo, e o médico já estava acostumado com as excentricidades e a vida intensa do tatuador. Após uma série de exames rápidos e uma conversa privada com Eduarda, o médico chamou Emanuel para a sala.

— Então, doutor? — Emanuel estava tenso, as mãos cruzadas sobre o peito, os músculos dos braços tatuados saltando sob a camisa. — O que ela tem? É grave?

O Dr. Arnaldo deu um sorriso tranquilizador, ajustando os óculos.

— Acalme-se, Emanuel. Fisicamente, a Eduarda é perfeitamente saudável. O que aconteceu foi uma combinação de fatores: uma sensibilidade extrema na mucosa vaginal, talvez intensificada pelo estresse emocional das últimas semanas, e, bem... — o médico pigarreou — o fato de você ser um homem de porte físico considerável e ela ser muito delicada. Houve pequenas fissuras, nada que um pouco de repouso e uma pomada específica não resolvam.

Emanuel soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.

— Mas ela sangrou duas vezes em menos de vinte e quatro horas — insistiu ele.

— O corpo dela está se adaptando a uma nova realidade — explicou o médico. — Mas eu notei algo mais, Emanuel. A pressão arterial dela estava um pouco alta. Ela está sob muito estresse em casa?

Emanuel desviou o olhar. Ele sabia exatamente qual era a fonte do estresse: a guerra fria com Sara.

— Vou resolver isso — disse ele, com uma determinação sombria.

Ao sair do consultório, Eduarda estava esperando na recepção, parecendo pequena na poltrona de couro. Ela olhou para ele com aquela expressão de "cachorro que caiu da mudança", como Sara costumava dizer, mas Emanuel só via nela uma necessidade desesperada de cuidado.

— Está tudo bem, pequena — disse ele, beijando-lhe a testa. — Mas você vai ficar de repouso. E antes de irmos para casa, tenho um lugar onde quero te levar.

— Para onde? — perguntou ela, curiosa.

— Um lugar onde o tempo parou, assim como você gosta.

Emanuel dirigiu até o centro antigo da cidade, parando em frente a um prédio discreto, sem placas chamativas. Era o ateliê de Sr. Lorenzo, um ourives de oitenta anos que trabalhava exclusivamente para colecionadores e para a alta aristocracia que ainda restava.

Ao entrarem, o cheiro de metal fundido e polimento envolveu os dois. Sr. Lorenzo, um homem de mãos firmes e olhos aguçados, sorriu ao ver Emanuel.

— O mestre das tintas veio visitar o mestre dos metais? — brincou o velho.

— Lorenzo, esta é a Eduarda. Eu quero algo para ela. Mas não quero nada que já exista. Quero algo que seja dela, e apenas dela.

Eduarda olhou ao redor, maravilhada com as ferramentas antigas e as pedras preciosas brutas sobre as bancadas.

— Manu, o que você está fazendo? — murmurou ela, puxando a manga da camisa dele. — Eu não preciso de joias.

— Sara tem diamantes, Duda. Diamantes são para quem quer brilhar para os outros — disse Emanuel, olhando profundamente nos olhos dela. — Para você, eu quero algo que tenha alma. Algo que represente quem você é para mim.

Ele se virou para Lorenzo.

— Eu quero uma peça em ouro rosé, com detalhes em filigrana que lembrem os vitrais góticos que ela tanto ama. E a pedra... nada de diamantes transparentes. Quero uma turmalina paraíba, da cor dos olhos dela quando ela está feliz. E quero que você grave, na parte interna, uma frase em latim.

— Qual frase? — perguntou o ourives.

— *Silentium est Aurum* — respondeu Emanuel. — O silêncio é ouro.

Eduarda sentiu as lágrimas voltarem, mas desta vez não eram de medo. Ela entendeu o recado. Emanuel estava validando o jeito dela de ser, o seu silêncio, a sua timidez que Sara tanto atacava.

— Lorenzo — disse Eduarda, aproximando-se da bancada com uma coragem que raramente demonstrava —, se for para ser inspirada em vitrais, poderia ter o desenho de uma rosa mística? Li que, na Idade Média, a rosa representava o segredo e a beleza que nasce entre os espinhos.

O ourives olhou para Emanuel com admiração.

— Ela sabe do que fala, meu jovem. Vai ser uma obra-prima.

Ao saírem do ateliê, o sol estava se pondo, tingindo o céu de São Paulo com tons de laranja e roxo. No carro, Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel.

— Obrigada, Manu. Por me ouvir.

— Eu sempre te ouço, Duda. Mesmo quando você não diz nada.

Quando chegaram à cobertura, a atmosfera mudou instantaneamente. Sara estava na sala, bebendo um martini, cercada por sacolas de compras. Ela havia passado a tarde gastando o limite do cartão de crédito de Emanuel como forma de vingança.

— Olha só, o casalzinho voltou da enfermaria! — exclamou ela, a voz já levemente alterada pelo álcool. — E então, ela vai sobreviver ou precisamos preparar o velório de virgem?

Emanuel parou no meio da sala, protegendo Eduarda com o próprio corpo.

— Sara, eu vou dizer isso apenas uma vez. A Eduarda está sob ordens médicas de repouso absoluto e zero estresse. Se você abrir a boca para uma única provocação, se você fizer um único comentário sobre a saúde dela ou sobre o que aconteceu hoje, eu vou tirar esse colar do seu pescoço e você vai passar o resto do mês em um hotel. Fui claro?

Sara ficou boquiaberta. Emanuel nunca havia falado com ela de forma tão direta e ameaçadora na frente de Eduarda.

— Você está me ameaçando por causa dela? — sibilou Sara, os olhos cheios de fúria.

— Estou estabelecendo limites — corrigiu ele. — Eu amo você, Sara, mas o seu comportamento é vulgar e desnecessário. A Duda não é sua inimiga, a menos que você escolha que ela seja.

Eduarda, mantendo sua carinha de santa e seu jeito manhoso, deu um passo à frente, saindo de trás de Emanuel. Ela olhou para as sacolas de compras de Sara e depois para o rosto da loira.

— Eu sinto muito que você se sinta tão insegura, Sara — disse Eduarda, a voz doce e calma, mas com um peso que fez Sara recuar um passo. — Deve ser difícil precisar de tantas coisas materiais para sentir que tem algum valor. Eu só preciso do Manu. E, pelo visto, hoje ele provou que isso é a única coisa que realmente importa.

Sara tentou avançar, mas Emanuel colocou a mão no peito dela, impedindo-a.

— Quarto. Agora, Sara.

A loira bufou, pegou seu martini e saiu batendo os pés, subindo para a suíte que dividia com Emanuel nas noites em que Eduarda não estava.

Emanuel suspirou, sentindo o peso do mundo. Ele levou Eduarda para o outro quarto, o refúgio dela, decorado com tons pastéis e prateleiras cheias de livros. Ele a ajudou a se deitar, cobrindo-a com uma manta de seda.

— Você foi corajosa hoje — disse ele, sentando-se ao lado dela.

— Eu só disse a verdade — respondeu ela, fechando os olhos. — Manu... você realmente a ama?

Emanuel hesitou por um segundo.

— Amo. Do meu jeito torto e estressado. Ela é o fogo que me mantém acordado. Mas você... você é a água que me permite continuar vivo. Eu não quero escolher, Duda.

— Você não precisa escolher agora — sussurrou ela, pegando a mão dele e levando-a aos lábios. — Mas lembre-se do que eu disse. O vidro corta. E às vezes, o sangue que sai não é só por causa do tamanho do corpo, mas por causa do tamanho do sentimento.

Emanuel ficou ali, no escuro, observando-a dormir. Ele sabia que a joia de Lorenzo seria entregue em alguns dias, e que aquele pedaço de ouro rosé e turmalina seria o símbolo de uma nova fase. Ele estava alimentando duas feras diferentes: uma que rugia e outra que sussurrava. E, pela primeira vez, ele se perguntou se teria força suficiente para manter as duas em sua jaula de ouro sem que elas se devorassem — ou o devorassem no processo.

Naquela noite, enquanto Eduarda dormia o sono dos justos e Sara se afogava em ressentimento no outro quarto, Emanuel foi para seu estúdio. Ele pegou uma máquina de tatuagem e, em um pedaço de pele sintética, começou a desenhar uma rosa mística cercada por diamantes quebrados.

A arte imitava a vida, e a vida de Emanuel estava se tornando a obra mais complexa e perigosa que ele já havia criado. Ele sabia que a viagem para York seria o teste final. Entre catedrais antigas e ruas de pedra, ele descobriria se o silêncio de Eduarda ou o grito de Sara ganharia o direito de ecoar para sempre em seu coração.