Nemhum
Entre o Veludo e o Aço
O silêncio na suíte principal da cobertura era denso, quase palpável, interrompido apenas pelo som rítmico da chuva de outono que começava a açoitar as imensas vidraças. Emanuel estava parado diante da janela, observando as luzes distorcidas de São Paulo, mas sua mente estava a quilômetros dali, perdida nos acontecimentos dos últimos dias. O episódio do sangramento de Eduarda ainda o assombrava. Ele, um homem que fizera carreira marcando peles com agulhas e tinta, sentia agora um medo irracional de tocar na própria namorada.
Atrás dele, sentada na beira da cama king-size, Eduarda o observava. Ela usava uma camisola de seda branca, tão fina que parecia uma segunda pele, realçando sua silhueta esguia e delicada. Seus cabelos castanhos caíam em ondas naturais sobre os ombros, e ela abraçava um travesseiro, com o queixo apoiado nele, mantendo aquela expressão manhosa que sempre desarmava Emanuel.
— Manu... — chamou ela, a voz saindo como um sussurro tímido que cortou a penumbra do quarto.
Emanuel se virou lentamente. A luz suave do abajur destacava as tatuagens em seus braços e pescoço, conferindo-lhe uma aura de força que contrastava com o olhar cansado e hesitante que ele dirigia a ela.
— Você deveria estar dormindo, pequena. O médico disse que o repouso é fundamental.
— Eu já descansei o dia inteiro — disse ela, fazendo um biquinho infantil que escondia uma determinação crescente. — Eu não sou doente, Manu. Eu só... eu só queria você perto de mim. Mas de verdade.
Emanuel caminhou até a cama e sentou-se na borda, mantendo uma distância segura, como se Eduarda fosse uma peça de cristal valiosa prestes a estraçalhar ao menor toque. Ele estendeu a mão e acariciou o rosto dela com o polegar, mas logo a recolheu.
— Eu estou aqui, Duda. Sempre vou estar.
— Não, você não está — rebateu ela, os olhos grandes e expressivos fixos nos dele. — Você está me tratando como se eu fosse um objeto de museu, algo que se olha, mas não se toca. Desde aquele dia... você não me beija mais com vontade. Você mal encosta em mim.
— Eu tenho medo, Eduarda — confessou ele, a voz rouca. — Ver você sangrando, ver você pálida daquele jeito... eu me senti um monstro. O Dr. Arnaldo disse que houve fissuras. Eu não quero te machucar de novo. Não consigo conviver com a ideia de ser a causa da sua dor.
Eduarda soltou o travesseiro e se aproximou dele, engatinhando pelo colchão com uma agilidade graciosa. Ela se ajoelhou à frente dele, ficando quase da mesma altura, e segurou as mãos grandes de Emanuel, forçando-o a sentir o calor da sua pele.
— A dor faz parte, Manu. Você mesmo diz isso sobre as suas tatuagens. A beleza nasce da entrega. Eu não tenho medo de você. Por que você tem medo de mim?
— Porque você é pequena, Duda. Você é delicada. — Ele suspirou, desviando o olhar. — Às vezes eu esqueço a minha própria força perto de você.
Houve um silêncio tenso. Eduarda sentiu uma pontada de ciúme e ressentimento que raramente permitia que aflorasse. Ela pensou em Sara. Pensou nos barulhos que vinham do outro quarto nas noites em que Emanuel achava que ela estava dormindo. Pensou na forma como Sara se exibia, como se fosse a única mulher capaz de satisfazer os instintos mais brutos daquele homem.
— Você não tem esse receio com ela, não é? — perguntou Eduarda, a voz subitamente mais baixa, carregada de uma malícia que Emanuel não esperava.
Emanuel franziu o cenho, surpreso pela direção da conversa.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu ouço, Manu. Eu não sou surda — disse ela, e um rubor subiu por seu pescoço, mas ela não desviou o olhar. — Eu sei que você não tem medo de foder a buceta da Sara com força. Eu ouço os gritos dela, ouço como você perde o controle com ela. Por que com ela você pode ser o animal que você é, e comigo você quer ser um santo?
Emanuel ficou paralisado. Ouvir aquelas palavras — "foder", "buceta" — saindo da boca de Eduarda, com sua carinha de anjo e sua voz de menina, foi como levar um choque elétrico. Ele nunca a ouvira falar de forma tão crua, tão... vulgar, à moda de Sara.
— Eduarda, não fale assim. Não combina com você — disse ele, tentando manter a compostura.
— Não combina? — Ela deu um riso curto, sem humor, e soltou as mãos dele, começando a desabotoar os pequenos botões da camisola com dedos ágeis. — Ou você só não quer aceitar que eu também tenho desejos? Que eu li o suficiente para saber que o que você faz com ela é o que eu quero que faça comigo?
— É diferente, Duda. A Sara... o corpo dela é diferente. Ela é feita para isso, ela tem silicone, ela tem uma estrutura que...
— Ela é larga? É isso que você quer dizer? — Eduarda o interrompeu, a timidez dando lugar a uma ousadia cortante. — É porque a minha bucetinha é pequena e apertada demais para você? É por isso que você me trata como uma criança e guarda a sua virilidade para a loira siliconada?
Emanuel sentiu o sangue latejar em suas têmporas. A provocação de Eduarda atingiu um ponto nevrálgico. Ele a desejava tanto que chegava a doer, mas a culpa e o instinto de proteção criavam uma barreira que ela acabava de derrubar com um chute de realidade.
— Você não sabe o que está dizendo — murmurou ele, a voz agora perigosamente baixa.
— Sei sim — disse ela, deixando a camisola escorregar pelos ombros, revelando o peito alvo, os mamilos rosados e a pele que parecia brilhar sob a luz do abajur. — Eu sou sua, Emanuel. Eu fui sua primeira e única "virgem", mas eu não quero ser sua boneca. Eu quero que você me use. Eu quero sentir que eu sou mulher o suficiente para te fazer perder a cabeça, do mesmo jeito que aquela vulgar da Sara faz. Ou será que eu sou apertada demais para o seu prazer?
Emanuel perdeu o controle. Em um movimento rápido, ele segurou a cintura dela e a puxou para o seu colo, forçando-a a sentar-se sobre sua ereção pulsante, ainda por cima do jeans. Eduarda soltou um arquejo, os olhos arregalados, mas não recuou. Pelo contrário, ela rebolou levemente, sentindo a dureza dele contra sua intimidade sensível.
— Você quer que eu pare de te proteger? — perguntou ele, os olhos escuros de desejo, as mãos apertando as coxas dela com uma firmeza que deixaria marcas. — Você quer que eu te trate como eu trato a Sara?
— Eu quero que você me trate como a mulher que eu sou — sussurrou ela, levando a mão à nuca dele e puxando-o para perto. — Me fode, Manu. Me fode até eu esquecer o meu nome. Não tenha medo de me quebrar. Eu sou muito mais forte do que você imagina.
Emanuel a beijou com uma ferocidade que nunca havia demonstrado antes. Não era o beijo doce de um protetor, era o beijo faminto de um homem que estava sendo desafiado em sua própria masculinidade. Ele a deitou na cama com um baque surdo e, em segundos, livrou-se de suas roupas.
Quando ele se posicionou entre as pernas dela, viu a hesitação voltar por um breve segundo ao notar como ela parecia pequena sob seu corpo robusto e tatuado. Mas Eduarda abriu as pernas para ele, envolvendo sua cintura com as coxas e puxando-o para dentro.
— Agora, Manu — ordenou ela.
Ele entrou com cuidado, sentindo a resistência imediata. Ela era, de fato, incrivelmente apertada, uma luva de veludo que envolvia cada centímetro dele com uma pressão quase insuportável. Eduarda soltou um gemido agudo, as unhas cravando-se nos ombros dele, os olhos se fechando com a intensidade da sensação.
— Duda... — ele começou a dizer, pronto para recuar.
— Não para — disse ela, ofegante. — Continua. Eu quero sentir tudo.
Emanuel começou a se mover, e a cada estocada, o som da carne batendo contra a carne preenchia o quarto. Ele não era mais o "cavaleiro branco" de Eduarda; ele era o tatuador bruto, o homem que conhecia a dor e o prazer como ninguém. Ele a preencheu completamente, sentindo o calor e a umidade dela, e a cada movimento, a timidez de Eduarda se transformava em uma luxúria voraz.
Ela não era passiva. Ela retribuía cada movimento, arqueando as costas, buscando mais profundidade, emitindo sons que Emanuel nunca imaginaria que viriam dela. Era uma música de entrega e poder.
— Você... você é tão apertada... — rosnou ele no ouvido dela, a voz carregada de uma satisfação primitiva. — É por isso que eu tenho medo. Você me aperta tanto que eu não consigo me segurar.
Eduarda deu um sorriso vitorioso entre os gemidos.
— Então não se segura — disse ela. — Esquece a Sara. Esquece o mundo. Só sente o quanto eu sou sua.
O ritmo acelerou. Emanuel esqueceu a cautela, esqueceu o médico, esqueceu até a chuva lá fora. Ele se perdeu naquelas curvas delicadas que escondiam uma força vulcânica. Quando o ápice chegou, foi devastador para ambos. Emanuel se derramou dentro dela com um grito sufocado, enquanto Eduarda tremia sob ele, as paredes de seu corpo contraindo-se em espasmos que o levaram à beira do desmaio.
Eles ficaram ali, abraçados, os corpos suados e as respirações tentando voltar ao normal. O silêncio que se seguiu não era mais tenso; era um silêncio de compreensão.
— Você está bem? — perguntou ele minutos depois, a voz cheia de uma ternura renovada, mas sem o medo de antes.
Eduarda se aninhou no peito dele, traçando com os dedos uma das tatuagens no esterno de Emanuel.
— Eu estou maravilhosa — disse ela, manhosa de novo, mas com um brilho de satisfação nos olhos. — Viu? Eu não quebrei.
— Não, você não quebrou — admitiu ele, beijando o topo da cabeça dela. — Você me destruiu, o que é bem diferente.
Enquanto isso, do outro lado da porta, no corredor, Sara estava parada, imóvel. Ela viera para tentar mais uma rodada de provocações ou talvez para seduzir Emanuel e reafirmar seu território, mas o que ouvira através da madeira maciça a deixara paralisada.
Ela ouvira a voz de Eduarda. Ouvira as palavras que a "santinha" usara. E, acima de tudo, ouvira a reação de Emanuel. Ela nunca o ouvira rugir daquele jeito com ela. Com Sara, era uma disputa de poder, um sexo atlético e visual. Mas o que acabara de acontecer naquele quarto era algo visceral, uma conexão que ela sentia, pela primeira vez, que nunca conseguiria alcançar.
Sara olhou para o colar de diamantes em seu pescoço, que brilhava mesmo na penumbra do corredor. De repente, a joia pareceu pesada demais, fria demais. Ela sentiu uma onda de ódio, mas também uma pontada de medo.
— Aquela sonsa... — sibilou Sara, as unhas de gel cravando-se nas palmas das mãos. — Ela não é tímida. Ela é um demônio.
Sara voltou para o seu quarto, batendo a porta com força, mas o som foi ignorado pelos dois amantes na suíte principal.
Lá dentro, Emanuel observava Eduarda adormecer. Ele sabia que a dinâmica entre os três havia mudado definitivamente naquela noite. Eduarda havia reclamado seu lugar não apenas como a protegida, mas como a mulher que detinha o controle sobre seus instintos mais profundos.
Ele pensou na viagem para York. Pensou nas paredes antigas e nos vitrais. Ele percebeu que, enquanto Sara era o brilho ofuscante do sol de meio-dia, Eduarda era a luz da lua: silenciosa, misteriosa e capaz de mudar as marés de sua alma com um simples sussurro.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o corpo de Eduarda colado ao seu. Ele ainda tinha receio, sim, mas agora era um receio diferente. Não era mais o medo de machucá-la fisicamente, mas o medo de tornar-se um escravo daquela doçura que, na intimidade, revelava-se mais viciante do que qualquer droga e mais permanente do que qualquer tatuagem que ele já tivesse feito.
A "santinha" havia mostrado suas garras, e Emanuel descobriu que adorava as marcas que elas deixavam em sua alma. O jogo de poder continuaria, mas agora, as regras eram outras. E Eduarda, com sua carinha de anjo e sua curiosidade insaciável, estava apenas começando a jogar.