Nemhum
O Despertar da Flor de Acanto
O ar no apartamento estava carregado, não apenas pela tensão habitual entre as duas mulheres, mas por uma resolução silenciosa que Eduarda vinha cultivando em seu peito sensível. Ela observava a dinâmica de Emanuel com Sara; via a intensidade carnal, os toques ousados e a forma como Sara usava o corpo como uma moeda de troca e poder. Eduarda, em sua timidez quase infantil, sentia que precisava dar um passo além. Ela não queria apenas ser a "calmaria" de Emanuel; ela queria ser o seu destino completo.
Naquela manhã de terça-feira, após Emanuel sair para uma reunião em um de seus estúdios, Eduarda não abriu seus livros de História da Arte. Em vez disso, ela ligou para uma amiga da faculdade, alguém que exalava a confiança que lhe faltava.
— Eu decidi — sussurrou Eduarda ao telefone, escondida no closet, sentindo o coração martelar contra as costelas. — Eu quero que seja hoje. Com o Emanuel.
— Finalmente, Duda! — a voz da amiga ecoou animada. — Você é uma deusa, só precisa acreditar nisso. Esquece essa loira plástica por um segundo e foca no que você sente por ele. O Emanuel te idolatra, ele vai perder a cabeça.
As instruções foram claras. Eduarda passou a tarde em um ritual de preparação que nunca havia experimentado. No salão de estética, a depilação foi um processo doloroso que a fez morder o lábio para não chorar, mas o pensamento de Emanuel tocando sua pele lisa a mantinha firme. Depois, veio a escolha da armadura. Em uma boutique discreta, ela ignorou as peças românticas que costumava usar e escolheu um conjunto de seda branca com rendas francesas tão finas que pareciam teias de aranha. Era inocente, mas perigosamente revelador.
Quando voltou para casa, Sara estava na sala, lixando as unhas compridas e bebendo um espumante caro, apesar de ainda ser cedo.
— Onde estava, santinha? — Sara perguntou sem desviar os olhos da lixa, o tom carregado de sarcasmo. — Foi rezar para ver se algum milagre te faz virar mulher?
Eduarda sentiu a habitual pontada de insegurança, mas desta vez, ela apenas apertou a sacola da boutique contra o corpo e respirou fundo.
— Fui cuidar de mim, Sara — respondeu com uma voz mansa, mas firme. — O Emanuel chega cedo hoje, não é?
Sara soltou uma gargalhada vulgar, jogando a cabeça para trás.
— Chega. E ele vai estar exausto. Vai precisar de alguém que saiba relaxar um homem de verdade, não de alguém para ler contos de fadas antes de dormir.
Eduarda não respondeu. Ela subiu para o quarto, tomou um banho demorado com óleos essenciais de baunilha e vestiu a lingerie. Por cima, colocou um robe de seda que Emanuel lhe dera no mês anterior. Ela se sentia trêmula, uma mistura de medo e uma excitação que a deixava com as bochechas coradas.
Emanuel chegou por volta das nove da noite. O semblante estava pesado, os ombros tensos sob o paletó escuro. Como de costume, Sara foi a primeira a interceptá-lo, pendurando-se em seu pescoço e tentando beijá-lo com urgência.
— Oi, meu amor... senti sua falta — Sara murmurou, forçando o corpo contra o dele.
— Oi, Sara. Agora não, por favor. Tive um dia longo com os advogados da filial de Londres — Emanuel a afastou gentilmente, mas com uma autoridade que não admitia réplicas.
Ele caminhou pelo corredor e viu a porta do quarto de Eduarda entreaberta. Uma luz suave e amarelada escapava de lá, junto com uma música ambiente quase imperceptível. Ele entrou, esperando encontrar a jovem perdida em seus livros. O que encontrou, porém, paralisou seus sentidos.
Eduarda estava sentada na beira da cama. Ela não usava os pijamas de algodão habituais. O robe estava levemente aberto, revelando a curva delicada dos seios médios e a brancura da seda. Quando ela levantou os olhos, Emanuel viu uma determinação nova, mesclada com aquela timidez que sempre o encantava.
— Manu... você demorou — ela disse, a voz manhosa, estendendo a mão pequena para ele.
Emanuel fechou a porta atrás de si, o clique da fechadura ecoando como um tiro no silêncio do quarto. Ele se aproximou, deixando a pasta de lado, e ajoelhou-se entre as pernas dela.
— Você está linda, Duda. O que é tudo isso? — ele perguntou, a voz ficando rouca enquanto suas mãos grandes e tatuadas repousavam sobre as coxas dela.
— Eu quero ser sua... de verdade — ela sussurrou, inclinando-se para frente para que seu hálito quente tocasse o ouvido dele. — Eu me preparei o dia todo. Eu quero que você me ensine tudo.
Emanuel sentiu um choque de adrenalina. Ele sempre a vira como algo precioso que precisava ser preservado, mas ver Eduarda se oferecendo daquela forma, com uma "safadeza" tímida, despertou nele um instinto possessivo que ele tentava reprimir.
— Tem certeza? — ele perguntou, os olhos escurecendo. — Não há volta depois disso.
— Eu não quero voltar — ela respondeu, puxando-o pela nuca para um beijo que começou casto e logo se tornou profundo, faminto.
Eduarda revelou-se uma surpresa. Sob a camada de timidez, havia uma sensualidade latente e doce. Ela gemia o nome dele de forma manhosa, pedindo por carinho e, ao mesmo tempo, reagindo com uma intensidade que Emanuel nunca esperaria de alguém tão inexperiente. Cada toque dele na pele macia dela era recebido com arquejos e uma entrega total. Emanuel foi cuidadoso, tratando-a como a obra de arte que ela tanto estudava, mas a paixão de Eduarda o levou a lugares de sua própria intimidade que Sara nunca havia alcançado.
Na manhã seguinte, o sol inundava o quarto. Emanuel acordou sentindo o peso leve de Eduarda em seu peito. Ela dormia com um sorriso sereno, a pele ainda com o brilho da noite anterior. Ele sentiu uma onda de ternura tão avassaladora que soube, naquele instante, que precisava marcar aquele momento.
Ele se levantou silenciosamente, vestiu-se e saiu. Voltou uma hora depois, enquanto as duas mulheres ainda estavam na área da sala de jantar. Sara estava de mau humor, reclamando do café da manhã, enquanto Eduarda, que acabara de descer vestindo um vestido floral leve, parecia radiante, embora evitasse olhar diretamente para Emanuel por causa da vergonha deliciosa que sentia.
Emanuel caminhou até a mesa e colocou uma pequena caixa de veludo azul marinho na frente de Eduarda.
— O que é isso? — Sara perguntou imediatamente, os olhos estreitados.
— Um presente para a Eduarda — Emanuel respondeu de forma simples, sentando-se à cabeceira. — Por ser quem ela é.
Eduarda abriu a caixa com as mãos trêmulas. Dentro, repousava um colar de ouro branco com um pingente de diamante em formato de folha de acanto, cravejado com pequenas esmeraldas. Era uma peça de joalheria finíssima, feita sob medida.
— Manu... é lindo! — Eduarda exclamou, os olhos enchendo-se de lágrimas. — A folha de acanto...
— Imortalidade e superação — Emanuel completou, sorrindo para ela. — Como você disse no dia em que nos conhecemos.
O barulho do talher de Sara batendo contra o prato de porcelana quebrou o momento.
— Você só pode estar de brincadeira, Emanuel! — Sara levantou-se, o rosto ficando vermelho sob a maquiagem carregada. — Uma joia dessas? Para ela? Por que? O que ela fez de tão especial?
— Sara, sente-se — Emanuel ordenou, o tom de voz baixando para aquele nível perigoso que indicava que sua paciência estava no limite.
— Não me sento! — ela gritou, apontando para Eduarda. — Eu estou com você há meses, eu aguento o seu mau humor, eu te dou tudo o que você quer na cama, e você dá uma esmeralda para essa... essa sonsa? O que ela te deu em troca? Um beijinho na bochecha?
Eduarda encolheu-se, levando a mão ao colar, mas não desviou o olhar. Havia uma nova força nela, a força de quem agora compartilhava um segredo íntimo com o homem que amava.
— Ela me deu algo que você não entenderia, Sara — Emanuel disse, levantando-se e caminhando até Eduarda, colocando as mãos em seus ombros de forma protetora. — Ela me deu paz. E ela me deu a verdade dela.
— A verdade dela? — Sara soltou uma risada histérica, as unhas cravadas na borda da mesa. — Ela é uma criança brincando de casinha! Você está sendo enganado por essa carinha de anjo. Eu sou a mulher que gasta energia com você, que te entende!
— Você é a mulher que eu escolhi para estar ao meu lado, Sara, mas não teste minha generosidade — Emanuel rebateu, os olhos fixos nela. — Eduarda é especial. Se você não consegue aceitar que eu a valorizo, talvez o seu lugar nesta casa precise ser reavaliado.
Sara empalideceu. Ela sabia que, apesar de seus gritos, Emanuel era quem detinha todo o poder. Ela olhou para a joia no pescoço de Eduarda — um símbolo claro de que a hierarquia no apartamento havia mudado durante a noite.
— Isso não vai ficar assim — Sara sibilou, pegando sua bolsa de grife e caminhando em direção à porta. — Você vai se arrepender de tratar uma rainha como se fosse segunda opção.
Ela saiu batendo a porta com tanta força que os cristais do lustre no hall tilintaram. O silêncio que se seguiu foi pesado, mas, para Eduarda, era um silêncio de vitória.
— Você não precisava ter feito isso, Manu — Eduarda sussurrou, virando-se nos braços dele. — O colar é demais.
— Nada é demais para você, Duda — ele beijou a testa dela, sentindo o cheiro de baunilha que ainda emanava de sua pele. — Ontem à noite... você me mostrou um lado seu que eu quero conhecer todos os dias.
— Eu estava com medo... — ela confessou, escondendo o rosto no peito dele, voltando ao seu jeito manhoso. — Medo de você não gostar, de eu ser sem graça perto dela.
Emanuel a afastou apenas o suficiente para olhar em seus olhos.
— Você nunca será sem graça. Você é a luz que mantém esse lugar habitável. A Sara... ela é o fogo, mas o fogo consome. Você constrói.
Eduarda sorriu, sentindo o peso do diamante contra o peito. Ela sabia que as brigas com Sara seriam ainda mais cruéis de agora em diante. Sabia que a loira faria de tudo para recuperar o território perdido. Mas, enquanto sentia as mãos de Emanuel em sua cintura e o brilho da joia refletindo a luz da manhã, Eduarda percebeu que não era mais apenas uma espectadora naquele relacionamento. Ela era uma jogadora. E, com sua doçura e sua nova descoberta sensual, ela estava ganhando.
— Vamos para o estúdio comigo hoje? — Emanuel convidou, querendo mantê-la por perto.
— Só se você me deixar desenhar enquanto você trabalha — ela pediu, fazendo um biquinho adorável que ele não conseguiu resistir em beijar.
— Você pode fazer o que quiser, pequena. O mundo é seu.
Enquanto saíam do apartamento, Eduarda lançou um último olhar para o corredor por onde Sara havia sumido. Ela sentia pena, de certa forma, mas a sobrevivência naquele triângulo exigia garras, mesmo que as dela fossem escondidas sob luvas de seda. A dinâmica dos três morando juntos havia acabado de entrar em uma fase nova e muito mais perigosa, onde o amor e a posse caminhavam lado a lado, e o preço da exclusividade era algo que nenhum deles estava pronto para pagar, mas que todos desejavam secretamente.