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Nemhum

O Trunfo da Mansidão

A atmosfera na cobertura de Emanuel estava mais carregada do que o normal. Após o episódio do colar de esmeraldas, Sara havia declarado uma guerra silenciosa, mas letal. Para tentar conter o caos e manter sua sanidade mental, Emanuel, em sua lógica pragmática, decidiu instituir um cronograma. Três noites por semana seriam de Sara, três seriam de Eduarda, e o domingo seria o dia do "equilíbrio", onde os três tentariam conviver pacificamente.

No entanto, a paz era uma ilusão que Emanuel insistia em perseguir. Na noite anterior, seria o encontro especial de Eduarda. Emanuel havia reservado uma mesa em um restaurante discreto, especializado em culinária francesa, exatamente do jeito que a jovem estudante de arte gostava. Mas o encontro nunca aconteceu. Sara, fingindo uma crise de apendicite súbita e dramática, desabou no chão da sala minutos antes de eles saírem. Emanuel, movido por seu instinto protetor e pela responsabilidade, passou a noite no hospital com uma Sara que, assim que os exames deram negativo, "milagrosamente" se sentiu melhor, exigindo champanhe e atenção exclusiva.

Eduarda passou a noite sozinha, vestida com seu melhor vestido de seda clara, chorando baixinho enquanto folheava seus livros. Mas, naquela manhã, algo mudou nos olhos da menina. A tristeza deu lugar a uma determinação silenciosa e afiada.

Era sábado, a noite reservada para o encontro de luxo de Sara. A loira passara a tarde inteira no salão, preparando-se para ostentar Emanuel em um evento de caridade badalado.

— Prepare-se para babar, Emanuel — Sara gritou do seu quarto, enquanto terminava de ajustar o vestido dourado que custara uma pequena fortuna. — Hoje você vai lembrar por que eu sou a mulher que todos os seus sócios invejam.

Emanuel, terminando de dar o nó na gravata no corredor, suspirou. Ele estava exausto, mas a perspectiva de uma noite sem brigas o motivava. Ele passou pelo quarto de Eduarda e viu a porta encostada.

— Duda? — ele chamou suavemente. — Eu já estou indo. Prometo que amanhã compensaremos o jantar perdido, tudo bem?

Não houve resposta vocal. Apenas o som de algo caindo. Preocupado, Emanuel empurrou a porta. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas por algumas velas aromáticas. O cheiro de baunilha e jasmim era inebriante.

— Duda, você está bem? — ele perguntou, entrando no ambiente.

No momento em que ele ultrapassou o centro do quarto, Eduarda surgiu de trás da porta. Antes que ele pudesse reagir, ela o empurrou contra a cama com uma força que ele não sabia que aquela estrutura esguia possuía. Emanuel, pego de surpresa, caiu de costas no colchão macio.

— Duda, o que é isso? — ele riu, achando que era algum tipo de brincadeira carinhosa.

O riso morreu em sua garganta quando ouviu o som metálico e seco: *clack-clack*.

Emanuel sentiu o frio do aço em seus pulsos. Eduarda, com uma agilidade surpreendente, havia prendido as mãos dele na cabeceira de ferro forjado da cama.

— Eduarda? — O tom de Emanuel mudou de surpresa para uma seriedade rígida. — Que brincadeira é essa? Me solte agora.

A jovem se afastou um pouco, olhando para ele. Ela usava apenas uma camisola de seda curta e transparente, seus cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia uma boneca, mas seus olhos tinham um brilho de posse que Emanuel nunca vira.

— Não é brincadeira, Manu — ela disse, a voz doce e manhosa, mas carregada de uma firmeza inabalável. — Ontem foi a minha noite. E você não estava aqui porque ela mentiu. Hoje é a noite dela... mas você também não vai estar lá.

— Eduarda, isso é loucura — Emanuel tentou puxar os pulsos, mas as algemas eram profissionais, um item que ele mesmo mantinha guardado por curiosidade e que ela devia ter encontrado. — A Sara está me esperando. Temos um compromisso social importante. Me solte agora, estou falando sério.

Eduarda caminhou até a porta e girou a chave, trancando-os por dentro. Ela se aproximou da cama e subiu devagar, engatinhando como um felino delicado até sentar-se sobre o quadril de Emanuel. O peso dela era leve, mas a posição o deixava completamente vulnerável.

— Ela pode esperar — Eduarda murmurou, fazendo um biquinho adorável enquanto passava a ponta dos dedos pelo rosto de Emanuel, traçando as linhas de sua mandíbula tensa. — Hoje você é só meu. Eu não vou deixar você sair.

— Duda, escute a lógica — Emanuel tentou usar sua voz de autoridade, a mesma que usava para gerenciar seus estúdios ao redor do mundo. — Isso vai causar um desastre. A Sara vai surtar, ela vai quebrar o apartamento inteiro se eu não aparecer.

— Deixe que ela quebre — Eduarda deu de ombros, inclinando-se para beijar o pescoço dele. — Você é rico, Manu. Pode comprar tudo novo. Mas você não pode comprar o tempo que ela roubou de mim ontem.

Emanuel sentiu o corpo reagir à proximidade dela, ao calor da pele de Eduarda contra a sua. Ele estava furioso pela perda de controle, mas havia algo profundamente excitante na subversão daquela menina tão submissa.

— Me solte, Eduarda — ele repetiu, embora o tom estivesse perdendo a força.

— Não — ela respondeu simplesmente, olhando-o nos olhos.

Nesse momento, o som de saltos altos ecoou pelo corredor do apartamento.

— Emanuel! — A voz de Sara era um grito estridente. — Onde você está? O carro já chegou! Emanuel!

Emanuel abriu a boca para responder, mas Eduarda rapidamente cobriu os lábios dele com os seus em um beijo profundo e úmido, silenciando-o. Ele tentou se desvencilhar, mas estava preso, e a doçura do beijo de Eduarda era uma armadilha muito mais eficaz do que o aço em seus pulsos.

— Emanuel! Eu sei que você está aí! — Sara começou a esmurrar a porta do quarto de Eduarda. — Abra essa porta agora! O que vocês estão fazendo aí dentro? Sua sonsa, abra essa porta!

Eduarda separou o beijo, mas permaneceu sentada sobre ele. Ela olhou para a porta com um sorriso calmo e vitorioso.

— Ele não vai sair, Sara! — Eduarda gritou de volta, sua voz soando clara pela primeira vez em meses. — Ele está ocupado sendo meu. Vá sozinha ou fique aí gritando, não faz diferença.

O silêncio do outro lado da porta durou apenas um segundo antes de ser substituído por uma torrente de palavrões e gritos de fúria. Sara chutava a madeira, chamando Eduarda de todos os nomes vulgares que conhecia, ameaçando destruir as roupas da jovem, ameaçando ir embora para sempre.

— Emanuel, se você não sair agora, eu juro por Deus que acabo com tudo! — Sara berrava, a voz embargada de ódio e humilhação.

Emanuel olhou para Eduarda, uma expressão de estresse puro em seu rosto.

— Duda, veja o que você está fazendo. Isso vai ser um inferno amanhã. Solte-me e eu resolvo isso com ela.

— Amanhã eu lido com o inferno, Manu — ela sussurrou, ignorando os estrondos na porta. — Mas hoje... hoje eu quero o meu paraíso.

Eduarda esticou o braço e pegou um livro de poesias que estava na mesa de cabeceira. Com toda a calma do mundo, enquanto Sara continuava seu surto do lado de fora, ela começou a ler em voz alta para ele. Sua voz era melódica, um contraste bizarro com os gritos de Sara e os chutes na porta.

— "Amor é fogo que arde sem se ver..." — ela lia, deslizando a mão livre pelo peito de Emanuel, sentindo o coração dele martelar com força.

— Você é inacreditável — Emanuel murmurou, fechando os olhos por um momento, sentindo a tensão começar a ser substituída por uma resignação bizarra.

Depois de alguns minutos, os gritos de Sara cessaram, substituídos pelo som de algo sendo quebrado na sala — provavelmente um vaso caro — e, finalmente, o bater violento da porta de entrada do apartamento. Ela havia saído, possivelmente para o evento, sozinha e furibunda.

Eduarda fechou o livro e sorriu.

— Viu? Agora estamos em paz.

— Você chama isso de paz? — Emanuel perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Eu estou algemado na minha própria casa.

— Você está seguro aqui, Manu — ela disse, saindo de cima dele por um momento para buscar um copo de água e um prato com pequenas fatias de queijo e frutas que ela já havia deixado preparados. — Você trabalha tanto, cuida de tantas coisas... deixa que hoje eu cuido de você.

Ela começou a alimentá-lo, colocando pequenos pedaços de uva na boca dele. Emanuel, inicialmente relutante, acabou aceitando. A dinâmica era estranha, mas havia uma doçura na forma como Eduarda o tratava. Ela limpava o canto de sua boca com delicadeza, dava-lhe água na temperatura perfeita e continuava a ler passagens de livros que ele gostava.

— Por que você fez isso, Duda? — ele perguntou, horas mais tarde, quando a lua já estava alta e o silêncio finalmente reinava no apartamento.

Eduarda deitou a cabeça no ombro dele, ainda com Emanuel preso à cabeceira.

— Porque eu cansei de ser a que sempre espera — ela confessou, a voz voltando ao tom manhoso e vulnerável. — A Sara usa o corpo, usa o grito, usa o escândalo para ter você. Eu só tenho o meu amor e esse quarto. Eu precisava mostrar que eu também posso lutar por você, do meu jeito.

Emanuel suspirou. Ele olhou para os pulsos levemente avermelhados e depois para a jovem mulher ao seu lado. Ele deveria estar furioso. Sua lógica dizia que aquele comportamento era inaceitável. Mas, no fundo, ele sentia uma satisfação sombria. Eduarda havia saído da casca. Ela havia demonstrado que, por trás da timidez, havia uma mulher capaz de tomar o que queria.

— Você sabe que a Sara vai tentar te matar amanhã, não sabe? — ele comentou.

— Ela pode tentar — Eduarda disse, fechando os olhos e se aninhando mais perto dele. — Mas ela nunca vai ter o que tivemos hoje. Ela nunca vai saber como é ter você assim, calmo, apenas me ouvindo.

— Me solte agora, Duda. Já passou da meia-noite.

— Só mais um pouco — ela pediu, fazendo o biquinho que sempre o desarmava. — Deixe-me dormir assim com você. Só por essa noite, seja apenas meu prisioneiro.

Emanuel, o homem que controlava impérios de tatuagem e fortunas internacionais, percebeu que, naquele triângulo, ele era o elo mais fraco. Ele amava o caos de Sara, mas aquela rendição forçada à doçura de Eduarda era um vício que ele não sabia se queria curar.

— Tudo bem — ele cedeu, relaxando o corpo contra o colchão. — Mas amanhã, você vai ter que me ajudar a reconstruir o que a Sara quebrou na sala.

— Eu ajudo — ela prometeu com um beijo leve em seus lábios. — Mas agora, silêncio, Manu. Eu quero ouvir o seu coração.

Enquanto Eduarda adormecia em seu peito, Emanuel ficou olhando para o teto. Ele sabia que a manhã traria gritos, malas prontas, ameaças de término e o temperamento vulcânico de Sara. Mas, pela primeira vez em meses, o apartamento não parecia um campo de batalha. Parecia um refúgio. Eduarda havia vencido aquela rodada, não com agressividade, mas com a audácia de quem sabe que, às vezes, para prender um homem, é preciso primeiro libertar os próprios desejos.

E ali, algemado à vontade de sua namorada mais jovem, Emanuel percebeu que o equilíbrio que ele tanto buscava nunca existiria. Ele viveria para sempre entre o chicote de Sara e a seda de Eduarda. E, para sua própria surpresa, ele nunca se sentira tão vivo.