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Nemhum

O Labirinto de Seda e Aço

A manhã no apartamento de cobertura nasceu com uma luz cinzenta, filtrada pelas cortinas pesadas que Eduarda fizera questão de manter fechadas. O silêncio era absoluto, um contraste gritante com a cacofonia de gritos e objetos estilhaçados que haviam marcado o início da madrugada. Emanuel despertou com os músculos do pescoço rígidos e uma dormência incômoda nos braços. Suas mãos ainda estavam presas à cabeceira, o metal das algemas agora morno pelo contato prolongado com sua pele.

Eduarda dormia calmamente ao seu lado, o rosto sereno enterrado no travesseiro, um contraste angelical com a mulher que, horas antes, o havia subjugado com uma audácia silenciosa. Emanuel observou-a por alguns minutos. A vulnerabilidade dela sempre fora o seu maior trunfo, mas agora ele via a lâmina escondida sob a bainha de veludo.

— Duda... — a voz dele saiu rouca, carregada pelo cansaço e pela falta de uso. — Duda, acorde. Já chega.

A jovem se espreguiçou com uma lentidão felina, abrindo os olhos grandes e expressivos. Ela sorriu ao vê-lo, um sorriso doce e manhoso que, por um instante, fez Emanuel esquecer que estava imobilizado.

— Bom dia, Manu — ela sussurrou, aproximando-se para beijar a ponta do nariz dele. — Você dormiu bem?

— Eu estou travado, Eduarda — Emanuel disse, tentando manter o tom firme apesar da posição desvantajosa. — A brincadeira acabou. Pegue a chave e me solte. A Sara já deve estar voltando ou acordando no outro quarto, e eu não quero que ela nos encontre assim.

Eduarda sentou-se na cama, deixando a camisola de seda escorregar levemente pelo ombro. Ela olhou para os pulsos dele, marcados pelo metal, e depois para o rosto sério do homem que amava. Sem dizer uma palavra, ela se levantou e caminhou até a mesinha de cabeceira, abrindo a gaveta.

Emanuel esperou o som do tilintar das chaves. Em vez disso, viu Eduarda pegar a pequena chave dourada e guardá-la dentro de um pequeno saquinho de cetim que ela trazia pendurado no pescoço, por baixo da roupa.

— O que você está fazendo? — ele perguntou, o cenho franzido.

— Eu decidi que não vou devolver agora — ela respondeu com uma calma que beirava a insolência. — Você disse que eu precisava aprender a me impor, não disse? Que a Sara era forte porque ela tomava o que queria?

— Eu não disse para você me manter como refém, Eduarda! — a voz dele subiu um tom, a autoridade de tatuador renomado e homem de negócios tentando retomar o espaço. — Isso passou dos limites. Me dê essa chave.

— Não — ela disse, aproximando-se novamente e sentando-se aos pés da cama. — Se eu te soltar agora, você vai correr para o lado dela. Vai tentar acalmá-la, vai pedir desculpas pelo que eu fiz e vai deixar que ela me pise de novo. Eu não vou deixar você ser o mediador hoje. Hoje, você vai sentir o que é não ter escolha, assim como eu não tenho escolha quando você decide passar a noite com ela porque ela gritou mais alto.

Emanuel respirou fundo, fechando os olhos. A lógica estava falhando. Ele tentava processar a mudança radical na dinâmica. A "menina" estava jogando o jogo dele, usando a posse e o controle — elementos que ele mesmo usava em sua arte e em sua vida — contra ele.

Antes que ele pudesse responder, o som de passos pesados e decididos ecoou pelo corredor. A porta do quarto, trancada por dentro, foi atingida por um chute violento.

— Abram essa porra agora! — O grito de Sara atravessou a madeira. — Emanuel, eu sei que você está aí com essa cadela! Se você não sair em cinco segundos, eu vou chamar a polícia e dizer que você está sendo mantido em cárcere privado!

Eduarda não se moveu. Ela apenas olhou para a porta com um desdém frio que Emanuel nunca vira em seu rosto.

— Ela não vai chamar ninguém — Eduarda comentou baixinho para Emanuel. — Ela tem medo demais de perder a mesada e o status que você dá a ela.

— Emanuel! — Sara gritava, a voz falhando pelo ódio. — Eu quebrei o seu vaso da dinastia Ming na sala! E se você não sair, a próxima coisa vai ser a sua coleção de relógios!

Emanuel sentiu o estresse latejar em suas têmporas. O caos que ele tanto evitara estava agora destruindo seu santuário.

— Sara! — Emanuel gritou de volta, tentando projetar calma através da porta. — Vá para o seu quarto. Eu sairei em um momento. Estamos conversando.

— Conversando? — Sara soltou uma risada histérica do outro lado. — Eu ouvi os barulhos ontem, Emanuel! Eu sei o que essa sonsa fez! Ela te prendeu, não foi? Eu vi as algemas sumirem do seu escritório! Ela é uma psicopata, Emanuel!

Eduarda levantou-se e caminhou até a porta, encostando o rosto na madeira.

— Eu não sou psicopata, Sara — Eduarda disse, sua voz suave soando terrivelmente nítida. — Eu só sou mais inteligente que você. Eu não precisei quebrar nada para ter a atenção dele a noite toda.

O silêncio que se seguiu foi curto, apenas o tempo de Sara processar a provocação. O que veio a seguir foi uma chuva de golpes contra a porta.

— Sua vadia! Garota de faculdade de merda! Eu vou acabar com você! Emanuel, abra essa porta ou eu juro que coloco fogo neste apartamento!

— Duda, chega! — Emanuel ordenou, sua voz agora carregada de uma fúria contida. — Me solte agora. Isso vai acabar em tragédia. Você não vê que ela está fora de si?

Eduarda voltou-se para ele, os olhos marejados, mas a expressão endurecida.

— Ela sempre está fora de si, Manu. E você sempre cede. Se eu te soltar, a vitória é dela. O escândalo dela terá vencido a minha dedicação.

— Não é uma competição, porra! — Emanuel puxou as algemas com força, o metal rangendo contra a madeira. — É a minha vida! É o meu apartamento!

— É a nossa vida — ela corrigiu, subindo na cama e ficando cara a cara com ele. — Você disse que nos amava igualmente. Mas você trata a Sara como uma rainha que precisa ser aplacada e a mim como uma criança que precisa de proteção. Eu não quero proteção, Emanuel. Eu quero poder.

Ela se inclinou e mordeu o lábio inferior dele, um gesto que misturava carinho e agressão. Emanuel sentiu um calafrio. O controle estava escorrendo por entre seus dedos.

Lá fora, o barulho cessou subitamente. O silêncio era ainda mais assustador.

— Sara? — Emanuel chamou.

Nenhuma resposta.

— Ela foi buscar algo — Eduarda comentou, parecendo indiferente.

Segundos depois, o som de metal batendo contra metal ecoou. Sara estava usando um dos troféus de golfe de Emanuel para tentar arrombar a fechadura. O impacto era rítmico, violento.

— Eu vou entrar! — Sara gritava entre as pancadas. — E quando eu entrar, eu vou arrancar cada fio de cabelo dessa garota!

Emanuel percebeu que a porta não aguentaria muito tempo. A madeira começou a rachar perto da maçaneta.

— Eduarda, a chave. Agora. É uma ordem — Emanuel disse, seus olhos fixos nos dela, a intensidade de sua personalidade controladora vindo à tona.

Eduarda hesitou por um segundo. O medo da autoridade de Emanuel lutou contra seu desejo de posse. Mas o som da porta cedendo foi o golpe final. Com um suspiro de derrota, ela puxou o saquinho de cetim do pescoço, mas, em vez de entregar a chave, ela a jogou para baixo da cama, em um canto escuro e de difícil acesso.

— O que você fez?! — Emanuel rugiu.

— Se ela entrar, ela vai ver que você é meu prisioneiro — Eduarda disse, a voz trêmula agora. — E ela vai ter que lidar com o fato de que você não fez nada para se libertar dela antes.

A porta finalmente cedeu com um estrondo. Sara entrou no quarto como um furacão dourado. O vestido da noite anterior estava amassado, a maquiagem borrada ao redor dos olhos, dando-lhe um aspecto de vilã de cinema. Ela segurava o taco de golfe como uma clava.

Ela parou no meio do quarto, ofegante, os olhos saltando das órbitas ao ver a cena: Emanuel, o homem poderoso e temido, algemado à cabeceira, e Eduarda, a "santinha", sentada calmamente ao lado dele.

— Mas o que... — Sara começou, a voz falhando pela incredulidade. — O que é isso?

— Sara, acalme-se — Emanuel disse, tentando manter a dignidade apesar da situação. — Abaixe isso.

Sara começou a rir, uma risada aguda e vulgar que ecoou pelas paredes.

— Olhe para você, Emanuel! O grande tatuador, o dono do mundo... preso por essa mosca morta! — Ela apontou o taco para Eduarda. — E você, sua vagabunda... você acha que isso te faz forte? Você acha que prendê-lo vai fazer ele te amar?

— Funcionou melhor do que os seus gritos, não foi? — Eduarda rebateu, levantando-se e ficando entre Sara e a cama. — Ele passou a noite comigo. Ele me ouviu. Ele me sentiu. Enquanto você estava lá fora, quebrando pratos como uma louca.

Sara avançou um passo, a fúria renovada.

— Eu vou te matar!

— Chega! — O grito de Emanuel foi tão potente que ambas paralisaram. — As duas, parem agora! Sara, jogue esse taco no chão. Eduarda, pegue a chave debaixo da cama. Agora!

A autoridade na voz dele era absoluta, a mesma que fazia seus funcionários tremerem em três continentes. Sara, por puro instinto de preservação, soltou o taco, que caiu no tapete com um baque surdo. Eduarda, sentindo que havia esticado a corda até o limite, ajoelhou-se e começou a tatear o chão escuro.

— Eu não estou achando... — Eduarda murmurou, a voz manhosa voltando a aparecer, agora tingida de pânico real.

— Procure direito! — Emanuel rosnou.

Sara cruzou os braços sobre os seios siliconados, um sorriso de escárnio voltando ao seu rosto.

— Que patético. A princesinha perdeu a chave do castelo.

— Cale a boca, Sara! — Emanuel disparou. — Vá para a cozinha e traga um copo de água. E não quebre mais nada, ou eu juro que você estará em um voo de classe econômica para a casa dos seus pais antes do meio-dia.

Sara bufou, mas a ameaça financeira sempre funcionava com ela. Ela saiu do quarto, batendo os pés, mas sem gritar.

Eduarda finalmente encontrou a chave, escondida sob o trilho do guarda-roupa. Ela se levantou, com o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas. Aproximou-se de Emanuel e, com as mãos trêmulas, abriu as algemas.

Assim que seus pulsos foram libertados, Emanuel sentou-se na cama, massageando a pele marcada. Ele não olhou para Eduarda de imediato. O silêncio no quarto era denso, carregado de uma energia perigosa.

— Manu... me desculpa — Eduarda sussurrou, tentando tocar o braço dele. — Eu só queria que você visse que eu também posso ser...

Emanuel segurou o pulso dela, não com violência, mas com uma firmeza que a fez parar.

— Você queria ser notada, Eduarda? Você foi. Você queria mostrar que tem garras? Você mostrou. Mas nunca mais, ouça bem, nunca mais ouse tirar a minha liberdade de escolha.

— Mas a Sara...

— A Sara é um problema que eu gerencio — ele a cortou, levantando-se e ficando em toda a sua altura. — E você, pelo visto, é um problema que eu subestimei.

Ele caminhou até a porta quebrada, parando antes de sair.

— Eu vou sair para caminhar. Quando eu voltar, quero a sala limpa. As duas. Trabalhando juntas. Se eu ouvir mais um grito ou o som de um vidro quebrando, este arranjo termina hoje. Fui claro?

Eduarda apenas assentiu, encolhida.

Emanuel saiu do quarto e encontrou Sara na cozinha, bebendo água direto da jarra. Ela o olhou com desafio, mas ele apenas passou por ela sem dizer uma palavra. Ele precisava de ar. Precisava de lógica.

Lá fora, o ar da manhã estava frio. Emanuel caminhou pelo parque próximo, sentindo a adrenalina baixar e o cansaço subir. Ele pensou em Eduarda. A doçura dela agora estava manchada por aquela exibição de controle. E pensou em Sara, cuja vulgaridade e agressividade eram, ironicamente, mais previsíveis do que a nova faceta de Eduarda.

Ele percebeu que a dinâmica havia mudado permanentemente. Eduarda não era mais a protegida; ela era uma competidora. E Sara, sentindo-se ameaçada em seu próprio terreno de manipulação, elevaria o nível do jogo.

Ao voltar para o apartamento, duas horas depois, ele encontrou uma cena surreal. Sara estava sentada no sofá, lixando as unhas, enquanto Eduarda, com uma vassoura e uma pá, recolhia os cacos do vaso da dinastia Ming. Não havia gritos, apenas um silêncio gélido e carregado de promessas de vingança futura.

— Onde você vai colocar essas flores agora, Duda? — Sara perguntou, o tom de voz pingando veneno. — Já que o vaso que o Emanuel te deu não existe mais?

— Eu vou comprar um novo — Eduarda respondeu sem olhar para ela. — E desta vez, vou escolher um que não quebre tão fácil. Um de metal, talvez. Para combinar com as algemas.

Sara travou o movimento da lixa, seus olhos encontrando os de Eduarda. Houve um momento de reconhecimento mútuo — as duas mulheres sabiam que a guerra estava apenas começando.

Emanuel entrou na sala, observando as duas. Ele sentiu uma pontada de orgulho bizarro misturado com um profundo esgotamento. Ele era o tatuador, o homem que marcava a pele, mas aquelas duas mulheres estavam redesenhando o mapa de sua vida.

— O almoço será servido em trinta minutos — Emanuel anunciou, sua voz neutra retomando o controle da casa. — Sara, ajude a Eduarda a terminar a limpeza. Duda, depois da limpeza, quero que você escolha o restaurante para o jantar de hoje. O de ontem foi cancelado, mas hoje teremos o nosso momento.

Sara abriu a boca para protestar, mas Emanuel ergueu a mão.

— E Sara, amanhã será o seu dia. Vamos às compras. Você mencionou que queria aquele conjunto de diamantes da joalheria nova, não foi?

Os olhos de Sara brilharam. A ganância era o seu ponto fraco, e Emanuel sabia exatamente como usá-lo para manter a paz.

— Ótimo — Sara disse, levantando-se com um sorriso triunfante para Eduarda. — Eu preciso de algo que brilhe mais do que essa esmeraldazinha que você deu para ela.

Eduarda não disse nada, apenas continuou a varrer. Ela sabia que tinha perdido a batalha da manhã, mas a noite anterior ainda ardia em sua memória como uma vitória secreta. Ela tinha a chave em seu pescoço, escondida, um lembrete de que ela podia, se quisesse, prender o mundo de Emanuel em suas mãos.

A dinâmica dos três morando juntos nos meses seguintes seria um exercício constante de equilíbrio sobre o fio da navalha. Emanuel, o mediador racional, veria suas energias serem sugadas pela disputa constante entre a vulgaridade confiante de Sara e a mansidão manipuladora de Eduarda.

Naquela tarde, enquanto Emanuel trabalhava em seu escritório doméstico, ele ouviu o som de risadas vindo da cozinha. Por um momento, ele pensou que elas tivessem feito as pazes. Mas, ao se aproximar, percebeu que eram risadas irônicas, trocas de insultos velados sob o pretexto de preparar o café.

— Você é tão básica, Eduarda — Sara dizia. — Acha que um livrinho de arte e um jantar francês seguram um homem como o Emanuel.

— E você acha que silicone e escândalo são suficientes — Eduarda rebateu, a voz calma. — Mas lembre-se, Sara... o fogo queima rápido. A água, como eu, molda a rocha com o tempo.

Emanuel voltou para o seu escritório e fechou a porta. Ele pegou sua máquina de tatuar e começou a desenhar em uma pele sintética. O desenho era complexo: uma folha de acanto entrelaçada em espinhos de rosa. Era a representação perfeita de sua vida.

Ele amava as duas. Amava o caos e a paz. O vulgar e o sublime. E, embora soubesse que aquele arranjo era uma bomba-relógio prestes a explodir, ele não conseguia se imaginar desarmando-a. Ele era o mestre de sua própria prisão, um homem rico e poderoso que, no final do dia, só queria ser disputado por aquelas duas forças da natureza.

A convivência continuaria sendo um campo de batalha, mas Emanuel percebeu que, no fundo, ele gostava da guerra. Pois era na tensão entre Sara e Eduarda que ele encontrava a inspiração para suas maiores obras e a prova constante de que, apesar de toda a sua racionalidade, ele ainda era um homem movido pela paixão mais primitiva e egoísta.

A noite caiu sobre a cidade, e enquanto ele se preparava para o jantar com Eduarda, sob o olhar vigilante e odioso de Sara, Emanuel sentiu o peso do colar de diamantes que teria que comprar no dia seguinte. Era o preço da sua paz. Um preço alto, mas que ele pagaria com prazer, contanto que pudesse continuar sendo o centro daquele universo de amor, ódio e sedas rasgadas.