Nemhum
O Filtro do Desejo e o Aroma da Obsessão
O sol da manhã entrava pelas amplas vidraças da cobertura, refletindo-se nas superfícies de mármore e vidro que Emanuel tanto prezava. O silêncio era uma mercadoria rara naquela casa, geralmente interrompido pelos saltos de Sara ou pelas reclamações ruidosas sobre a marca do hidratante ou a temperatura do espumante. Emanuel, sentado à cabeceira da mesa, revisava as planilhas de faturamento de seu estúdio em Berlim, mas sua mente estava em outro lugar. Ele sentia o peso daquela convivência tripla, uma arquitetura emocional que ele mesmo projetara, mas que ameaçava desabar a cada nova provocação.
Eduarda apareceu na cozinha como um espectro de suavidade. Ela vestia um robe de seda rosa pálido, os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela não disse nada de imediato, apenas aproximou-se de Emanuel e depositou um beijo casto em sua têmpora. O cheiro dela era sempre o mesmo: baunilha e algo que lembrava papel antigo, um aroma de biblioteca que o acalmava instantaneamente.
— Bom dia, Manu — sussurrou ela, com aquela voz manhosa que parecia um carinho físico. — Preparei algo especial para o seu café hoje.
Emanuel levantou os olhos do tablet, permitindo-se um meio sorriso. Eduarda era sua âncora de sanidade.
— Você sabe que eu não funciono sem cafeína, Duda. O que tem de especial?
— Um método diferente — respondeu ela, desviando o olhar com uma timidez que Emanuel sempre achou adorável, mas que agora escondia algo mais profundo. — Li em um dos meus livros de história sobre tradições antigas... simpatias de conexão. Dizem que o sabor fica muito mais intenso.
Eduarda voltou para o balcão da cozinha. Emanuel não viu o que aconteceu nos minutos anteriores, quando ela estava sozinha. Ele não viu quando ela, com o coração disparado e as mãos trêmulas, retirou a peça íntima de renda branca que usara durante toda a noite anterior — uma noite em que ele estivera no quarto de Sara, ouvindo os gemidos performáticos da loira. Eduarda sentira uma pontada de ciúme que a queimara por dentro, uma necessidade visceral de marcar seu território de uma forma que Sara jamais poderia imaginar.
Ela havia colocado a peça sobre o suporte do coador, ajustando-a com precisão cirúrgica antes de despejar o pó de café moído na hora. A água fervente, ao passar pelo tecido fino e impregnado com sua essência mais íntima, extraíra não apenas o aroma dos grãos, mas, em sua crença silenciosa e desesperada, a própria alma de sua feminilidade.
— Aqui está — disse Eduarda, colocando a xícara de porcelana preta à frente dele. O café estava escuro, fumegante e exalava um aroma terrivelmente convidativo.
Emanuel levou a xícara aos lábios. Ele deu o primeiro gole, fechando os olhos para apreciar o sabor.
— Diferente — murmurou ele, passando a língua pelos lábios. — Tem um retrogosto... terroso. Doce e salgado ao mesmo tempo. É encorpado, Duda. De onde você tirou esse grão?
— É o mesmo de sempre — mentiu ela, sentindo um calafrio de excitação percorrer sua espinha ao vê-lo beber. — O segredo está no filtro.
— Pois continue usando esse filtro — Emanuel deu outro gole longo, sentindo um calor estranho subir pelo peito. — Parece que ele me desperta mais do que o normal.
Nesse momento, o som estridente de chinelos de grife batendo contra o chão anunciou a chegada de Sara. Ela entrou na cozinha como um furacão de neon e artificialidade, vestindo um conjunto de ginástica que deixava pouco para a imaginação. O silicone de seus seios parecia desafiar a gravidade enquanto ela se jogava na cadeira oposta a Emanuel.
— Mas que cheiro é esse? — disparou Sara, torcendo o nariz perfeito e operado. — Parece que algo queimou. Ou que alguém esqueceu de lavar a louça.
Eduarda não se abalou. Ela serviu um copo de suco verde para Sara, colocando-o na mesa com uma delicadeza que beirava o deboche.
— É apenas o café do Emanuel, Sara. Se o seu olfato está tão sensível, talvez devesse parar de usar perfumes tão vulgares logo cedo.
— Vulgar é esse seu jeitinho de freira arrependida, garota! — Sara rebateu, pegando o suco e fazendo uma careta. — Emanuel, por que você está tomando esse troço preto? Onde está o meu cappuccino de avelã?
— A Duda fez o café hoje, Sara — disse Emanuel, sem tirar os olhos da xícara. Ele parecia hipnotizado pela bebida. — E está excelente. Você deveria experimentar.
Sara estreitou os olhos, observando a xícara de Emanuel e depois o rosto de Eduarda. Havia algo no ar, uma tensão que ela não conseguia identificar, mas que seu instinto de sobrevivência social detectava como uma ameaça. Sara era esperta; ela sabia que Eduarda, apesar da aparência frágil, era capaz de manipulações silenciosas.
— Não, obrigada. Prefiro coisas que eu saiba a procedência — Sara levantou-se e caminhou até o balcão, inspecionando a cafeteira. — Onde está o filtro que você usou, santinha? Não vejo o papel no lixo.
O coração de Eduarda saltou, mas ela manteve a expressão serena, lavando uma colher na pia.
— Eu já joguei fora, Sara. No lixo da área de serviço, junto com as borras. Por que o interesse súbito na minha culinária?
— Curiosidade — sibilou Sara, aproximando-se de Eduarda. Ela sentiu o cheiro da garota. Era o mesmo aroma que parecia emanar da xícara de Emanuel. — Você está com um cheiro estranho hoje, Eduarda. Mais forte. Mais... bicho.
— É apenas o meu perfume natural — respondeu Eduarda, virando-se para encarar a loira. — Algo que você não conhece, já que vive coberta de camadas de plástico e spray corporal.
— Chega, as duas! — Emanuel interveio, batendo a xícara (agora vazia) na mesa. — Eu não aguento mais essa disputa logo cedo. Sara, vá para a academia. Eduarda, você tem aula de História da Arte em meia hora, não tem?
— Tenho, Manu — disse Eduarda, voltando ao seu tom manhoso. Ela caminhou até Emanuel e passou os braços pelo pescoço dele, colando o corpo ao dele. — Gostou mesmo do café?
— Foi o melhor que já tomei — confessou ele, sentindo uma urgência súbita de tocá-la, uma atração que parecia mais química do que emocional naquele momento. — Quero que faça amanhã de novo.
— Com certeza — prometeu ela, lançando um olhar de soslaio para Sara, que observava a cena com os braços cruzados e uma expressão de puro desconfiança.
Sara não disse mais nada. Ela pegou sua bolsa de ginástica e saiu do apartamento, mas não foi para a academia. Ela parou no corredor, esperando o som da porta se fechar. Quando teve certeza de que Emanuel voltara para o escritório e Eduarda estava se arrumando, Sara entrou novamente no apartamento usando sua chave reserva, agindo com a furtividade de uma pantera.
Ela foi direto para a área de serviço. Vasculhou a lixeira principal, encontrando apenas restos de comida e embalagens plásticas. Onde estava o pó de café? Onde estava o filtro? Ela abriu a pequena lixeira de embutir sob a pia da lavanderia e lá encontrou a borra de café, despejada diretamente no saco plástico, sem nenhum rastro de filtro de papel ou metal.
— Estranho... — sussurrou Sara para si mesma. — Ela não usou filtro de papel. E o coador de metal está seco e limpo no armário superior.
Ela voltou para a cozinha, o cérebro trabalhando a mil por hora. Sara conhecia muitas histórias de mulheres desesperadas para segurar homens poderosos. Ela mesma já usara de artifícios caros, cirurgias e jogos mentais, mas o que Eduarda estava fazendo parecia algo mais primitivo, mais visceral.
Ela passou pelo quarto de Eduarda e viu a porta entreaberta. A jovem estava no banheiro, o som do chuveiro abafando qualquer outro ruído. Sara entrou no quarto, sentindo-se uma intrusa em um santuário de delicadeza. O quarto de Eduarda era cheio de rendas, tons pastéis e livros. Sobre a cama, havia uma pilha de roupas prontas para serem lavadas.
Sara começou a mexer nas peças, procurando algo. Ela não sabia exatamente o quê, até que percebeu a ausência de algo básico. Eduarda era metódica; ela sempre deixava o conjunto de lingerie que usara na noite anterior por cima da pilha para Emanuel ver quando passava por ali — uma forma silenciosa de mostrar sua pureza ou sua doçura. Mas a peça de ontem não estava lá.
— Onde está a calcinha branca, Eduarda? — murmurou Sara, os olhos faiscando.
Ela lembrou-se de um comentário que ouvira de uma antiga empregada de sua avó, sobre mulheres do interior que usavam "filtros especiais" para amarrar o coração dos maridos. Uma prática vulgar, suja, mas que diziam ser infalível.
— Não pode ser — Sara sentiu um misto de nojo e admiração doentia. — Ela não teria coragem. Aquela sonsa não teria estômago para isso.
Nesse momento, o chuveiro parou. Sara saiu do quarto rapidamente, voltando para a sala de estar. Ela sentou-se no sofá, cruzando as pernas e fingindo mexer no celular quando Eduarda apareceu no corredor, já vestida com um vestido leve de flores miúdas.
— Esqueceu alguma coisa, Sara? — perguntou Eduarda, a voz carregada de uma suspeita sutil.
— Esqueci o meu fone de ouvido — mentiu Sara, levantando-se com um sorriso plastificado. — Sabe como é, não consigo treinar sem a minha playlist de "mulher poderosa".
— Entendo. O silêncio deve ser ensurdecedor para alguém que não tem nada na cabeça — Eduarda caminhou até a porta, pegando sua bolsa de livros. — Tchau, Manu! — gritou ela para o escritório.
— Tchau, querida! — a voz de Emanuel veio de dentro, mais animada do que o habitual.
Assim que Eduarda saiu, Sara caminhou até a porta do escritório de Emanuel. Ela entrou sem bater. Ele estava debruçado sobre um desenho de uma fênix, as linhas pretas e precisas sendo traçadas com uma concentração absoluta.
— Emanuel, precisamos conversar — disse Sara, sentando-se na borda da mesa dele, o que sempre o irritava.
— Agora não, Sara. Estou em um fluxo bom aqui.
— É sobre a Eduarda. E sobre esse café que você tomou.
Emanuel largou a caneta e suspirou, encostando-se na cadeira.
— O que tem o café? Você está com ciúmes até da bebida agora?
— Não é ciúme, é higiene! — Sara inclinou-se para frente, o decote generoso tentando distraí-lo, mas os olhos dele pareciam distantes. — Você não notou nada de estranho? O cheiro, o gosto... Emanuel, aquela garota é louca. Ela está fazendo simpatias com você.
Emanuel soltou uma gargalhada curta e seca.
— Simpatias? Sara, você está assistindo muita novela. A Eduarda é uma estudante de arte, sensível e carinhosa. Ela só fez um café bom. Pare de tentar demonizar a menina só porque ela tem talentos que você não tem na cozinha.
— Talentos? — Sara levantou o tom de voz. — Emanuel, eu procurei o filtro! Ela não usou papel. Ela usou algo dela, eu tenho certeza! Aquela história de coar café em peça íntima... é nojento, é vulgar!
Emanuel ficou em silêncio por um momento. Ele lembrou-se do sabor. Era, de fato, diferente. Havia uma profundidade orgânica, uma conexão que ele não conseguia explicar, mas que o fazia sentir-se mais ligado a Eduarda do que nunca. Mas a ideia de Sara parecia absurda. Eduarda era tímida, virgem, quase uma criança em sua pureza.
— Você está delirando, Sara. E sua mente é que é vulgar por imaginar algo assim. A Eduarda nunca faria algo tão... primitivo.
— Você não a conhece como eu conheço! — Sara gritou, levantando-se. — As quietinhas são as piores! Ela está te enfeitiçando, Emanuel. Olhe para você, está com os olhos vidrados desde que tomou aquele gole.
— Saia daqui, Sara — disse ele, a voz baixando para aquele tom gélido que indicava que a discussão acabara. — Vá para a sua academia e gaste essa energia negativa. Se você tocar nesse assunto de novo, ou se ofender a Eduarda com essas calúnias, eu juro que repenso a sua permanência nesta casa.
Sara abriu a boca para retrucar, mas a expressão de Emanuel era de um aço inquebrável. Ela deu meia volta e saiu, batendo a porta com força.
Emanuel tentou voltar ao desenho, mas a semente da dúvida fora plantada. Não uma dúvida de nojo, mas de curiosidade. Ele passou a mão pelos lábios, ainda sentindo o rastro do café. Se Eduarda realmente fizera aquilo... se ela tivera a audácia de entregar sua intimidade de uma forma tão crua e ancestral para ele...
— Loucura — sussurrou ele para si mesmo.
Mas, ao mesmo tempo, ele sentiu um desejo avassalador de vê-la. De tocá-la. De entender que tipo de poder aquela jovem frágil estava exercendo sobre ele.
Enquanto isso, na faculdade, Eduarda assistia a uma aula sobre o simbolismo das cores no Renascimento. Ela não conseguia se concentrar. Sua mente voltava para a cozinha, para o momento em que vira Emanuel bebendo o café. Ela sentia-se poderosa. Pela primeira vez, ela não era apenas a "namorada boazinha" ou a "virgem manhosa". Ela era a detentora de um segredo que corria pelas veias dele.
Ela sabia que Sara suspeitava. Vira o olhar de rapina da loira sobre a cafeteira. Mas Eduarda não se importava. Sara podia ter o corpo esculpido, os gritos e a vulgaridade que chamava a atenção de todos, mas Eduarda tinha a essência. Ela tinha o controle invisível.
Ao final da tarde, Eduarda voltou para casa. Ela comprou um buquê de lírios brancos no caminho, um símbolo de pureza que ela sabia que irritaria Sara. Ao entrar no apartamento, encontrou Emanuel na sala, lendo um livro. Ele levantou-se assim que a viu.
— Manu! — ela correu para os braços dele, aninhando-se em seu peito. — Senti sua falta o dia todo.
Emanuel a abraçou com uma força incomum. Ele inalou o cheiro do pescoço dela. Era o mesmo cheiro do café. Doce, profundo, inebriante.
— O café de hoje... — começou ele, afastando-a um pouco para olhar em seus olhos. — Me deixou com muita energia.
— Que bom, meu amor — disse ela, com um sorriso angelical. — Quero cuidar de você sempre assim. De formas que ninguém mais consiga.
Sara apareceu no topo da escada, observando os dois. Ela estava com um copo de vodka na mão, o olhar sombrio. Ela vira a forma como Emanuel olhava para Eduarda — não era apenas proteção, era uma obsessão nascente.
— O jantar vai ser o quê? — interrompeu Sara, a voz carregada de sarcasmo. — Sopa de meias usadas? Ou talvez um chá de fitas de cabelo?
Emanuel nem se deu ao trabalho de olhar para trás.
— Sara, vá para o seu quarto se não consegue ser civilizada.
Eduarda olhou para Sara por cima do ombro de Emanuel. Ela não sentia medo. Ela sentia vitória. Ela caminhou até a cozinha para colocar os lírios em um vaso, e enquanto passava por Sara, sussurrou tão baixo que apenas a loira pôde ouvir:
— O segredo não está na receita, Sara. Está na entrega. Coisas que o silicone não consegue filtrar.
Sara estacou, o rosto ficando vermelho de fúria. Ela queria gritar, queria contar para Emanuel o que descobrira na lavanderia, mas sabia que ele não acreditaria. Ele estava fisgado. O café de Eduarda não era apenas uma bebida; era um pacto silencioso, uma marcação de território que ia além da pele.
Naquela noite, Emanuel não foi para o quarto de Sara. Ele ficou no quarto de Eduarda, ouvindo-a falar sobre arte, sentindo a suavidade de sua pele e o aroma de baunilha que parecia agora fazer parte de seu próprio ser. Ele não perguntou sobre o filtro. Ele não queria saber a verdade lógica. Ele preferia a ilusão doce e poderosa que Eduarda criara para ele.
Eduarda, deitada no peito dele, sorria no escuro. Ela sabia que Sara passaria a noite em claro, consumida pela desconfiança e pelo ódio. Mas o café já estava no sangue de Emanuel. E amanhã, ela faria questão de preparar uma xícara ainda mais forte. Pois no jogo de poder daquela cobertura, a mansidão de Eduarda revelara-se a arma mais letal de todas, e o aroma do café era o perfume de sua dominação absoluta.