Nemhum
O Veneno da Rosa Branca
A sexta-feira amanheceu com um brilho diferente para Eduarda. Pela primeira vez em meses, ela sentia que o mundo fora da cobertura de Emanuel a chamava com entusiasmo. O evento de gala da Faculdade de História da Arte era o ponto alto do semestre; uma exposição dos melhores trabalhos, seguida de um coquetel onde curadores renomados estariam presentes. Ela passara semanas preparando seu vestido — um modelo de cetim azul-claro que realçava sua pele alva e sua silhueta delicada — e Emanuel prometera acompanhá-la.
— Você vai estar a mulher mais linda daquela galeria, Duda — disse Emanuel enquanto terminava de tomar seu café, observando-a rodopiar timidamente na sala.
— Eu estou tão nervosa, Manu... — ela murmurou, aproximando-se dele com seu jeito manhoso, escondendo o rosto em seu pescoço. — Você promete que não vai me deixar sozinha nem por um minuto? Sabe como eu fico sem jeito com muita gente.
— Prometo, pequena. Vou ser sua sombra hoje — ele beijou o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro suave de amêndoas que ela exalava.
Tudo parecia perfeito, até que um grito estridente vindo do andar superior rasgou a harmonia da manhã.
— Emanuel! Socorro! Emanuel, eu não consigo respirar!
Emanuel largou a xícara instantaneamente, os olhos arregalados. Ele subiu as escadas de dois em dois degraus, com Eduarda logo atrás, o coração batendo na garganta. Ao entrarem no quarto de Sara, encontraram-na caída no tapete de pele, contorcendo-se e segurando o abdômen, o rosto vermelho e a respiração ofegante.
— Sara! O que houve? — Emanuel ajoelhou-se ao lado dela, a voz carregada de uma preocupação prática e imediata.
— Eu não sei... uma dor... uma pontada horrível aqui — ela gemeu, as unhas bem feitas cravando-se no braço de Emanuel. — Acho que estou tendo um colapso, Manu. Meu peito... está apertado...
Eduarda, inicialmente paralisada pelo susto, aproximou-se com os olhos marejados.
— Será que foi algo que ela comeu? — perguntou a jovem, a voz trêmula. — Quer que eu chame uma ambulância, Sara?
Ao ouvir a palavra "ambulância", Sara soltou um gemido ainda mais alto, apertando os olhos.
— Não! Não quero hospital... eu odeio hospitais. Só... só não me deixa sozinha, Emanuel. Por favor, eu estou com medo de desmaiar.
Emanuel, movido por seu instinto protetor e pela responsabilidade que sentia sobre a loira, pegou-a no colo e a colocou na cama com cuidado. Ele começou a verificar o pulso dela, a temperatura da testa, agindo com a rigidez de quem tenta controlar uma crise.
— Calma, Sara. Respira devagar. Duda, pegue um copo de água com açúcar e o medidor de pressão no meu banheiro, agora!
Eduarda correu para atender o pedido. Durante as duas horas seguintes, o apartamento tornou-se um cenário de drama médico. Sara alternava entre calafrios simulados, náuseas repentinas e uma fraqueza que a impedia de ficar em pé. Emanuel, exausto mas firme, não saiu do lado dela.
No entanto, por volta das seis da tarde, quando o sol começava a baixar e o horário de se arrumarem para o evento se aproximava, Eduarda começou a notar algo estranho. Ela entrou no quarto de Sara sem fazer barulho, trazendo uma toalha úmida, e viu a loira conferindo o reflexo no espelho da penteadeira enquanto Emanuel fora atender uma ligação de trabalho no corredor. Sara não parecia estar com dor; ela retocava o batom com um sorriso malicioso nos lábios. Assim que percebeu a presença de Eduarda pelo reflexo, Sara rapidamente voltou a se deitar, soltando um suspiro sofrido.
— Como você está, Sara? — Eduarda perguntou, a voz agora mais baixa, observando-a de perto.
— Ah, Duda... sinto como se fosse morrer — disse Sara, a voz subitamente fraca. — É uma pena que hoje era o seu dia da faculdade, não é? Mas o Emanuel nunca me deixaria assim... ele é tão cuidadoso.
Eduarda sentiu o sangue ferver sob a pele. A timidez geralmente a impedia de confrontar as pessoas, mas a maldade gratuita de Sara estava clara. Ela viu o brilho de deboche nos olhos azuis da loira, uma vitória silenciosa por ter estragado o único momento em que Eduarda seria a protagonista.
— Você está mentindo — sussurrou Eduarda, as mãos apertando a toalha.
— O quê? Como ousa? — Sara tentou gritar, mas lembrou-se de manter a voz baixa para não alertar Emanuel. — Eu estou doente, sua garota estúpida!
— Eu vi você no espelho — Eduarda deu um passo à frente, a doçura de seu rosto sendo substituída por uma máscara de decepção profunda. — Você só quer que ele não vá comigo. Você é má, Sara.
— Sou inteligente, querida — Sara sorriu abertamente agora, já que Emanuel ainda falava ao telefone. — Ele é meu. Eu namorava ele há quatro meses quando você apareceu com esse seu jeitinho de cadela abandonada. Se eu tiver que fingir um infarto para você não sair com ele, eu farei. Agora saia daqui e vá chorar nos seus livros de arte.
Eduarda saiu do quarto sentindo as lágrimas queimarem. No corredor, ela encontrou Emanuel, que guardava o celular com uma expressão de derrota.
— Duda... — ele começou, aproximando-se e segurando as mãos dela. — Eu sinto muito, pequena. Eu vi como você se preparou, mas a Sara está realmente mal. Eu não posso deixá-la aqui sozinha nesse estado. Pode ser algo sério, talvez apendicite ou uma crise nervosa.
— Manu, ela está mentindo — Eduarda disse, a voz manhosa embargada pelo choro. — Eu vi, ela estava rindo agora pouco. Ela só quer estragar meu dia.
Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto cansado. Para ele, aquilo era apenas mais uma briga de ciúmes entre as duas. Ele não tinha paciência para investigar quem estava falando a verdade; sua lógica dizia que, se alguém dizia estar com dor, ele precisava agir.
— Duda, não comece com isso agora. A Sara está pálida, ela mal consegue sentar. Por favor, seja compreensiva. Você é a mais sensível, a mais madura emocionalmente... entenda que eu preciso ficar. Posso te mandar com um motorista particular, o que acha?
— Ir sozinha? — Eduarda soltou um soluço. — Você sabe que eu não consigo, Emanuel! O evento era para nós dois. Eu queria que você visse minhas fotos na exposição.
— Eu sei, meu amor. Prometo que amanhã eu levo você para jantar no lugar mais caro da cidade e você me mostra tudo. Mas hoje, eu peço que você abra mão por mim. Pela paz da nossa casa.
Emanuel a beijou na testa de forma paternal e voltou para o quarto de Sara. Eduarda ficou parada no corredor escuro, ouvindo a voz de Sara tornar-se doce e dependente lá dentro: "Ai, Manu, que bom que você voltou... minha cabeça dói tanto... faz uma massagem?".
Eduarda caminhou até seu quarto. Ela olhou para o vestido azul estendido sobre a cama, um símbolo de sua humilhação. A timidez que sempre a definira parecia agora uma prisão, mas dentro daquela fragilidade, algo novo estava nascendo. Ela não era explosiva como Sara, não sabia gritar ou quebrar pratos. Sua vingança seria como ela: silenciosa, doce e inesquecível.
— Você quer paz, Emanuel? — ela sussurrou para o quarto vazio. — Pois você vai ter o tipo de paz que nunca imaginou.
Ela trocou o vestido por um pijama de seda simples e sentou-se na poltrona, esperando. Ela sabia que, em algum momento, Emanuel sairia do quarto de Sara para buscar algo ou para descansar.
Duas horas depois, Emanuel apareceu na cozinha para preparar um chá. Ele parecia exausto. Eduarda apareceu na porta, com os olhos vermelhos de choro, parecendo mais frágil e indefesa do que nunca.
— Manu... — ela chamou, a voz quase um sussurro.
— Oi, pequena. Você ainda está acordada?
— Eu não consigo dormir... estou me sentindo tão sozinha — ela caminhou até ele e abraçou sua cintura, encostando a bochecha em seu peito. — Eu entendo que você teve que ficar com ela. Você é um homem bom, por isso eu te amo.
Emanuel relaxou, sentindo a culpa diminuir.
— Obrigado por entender, Duda. Você é um anjo.
— Mas eu estou com um aperto no coração — ela continuou, olhando para ele com olhos pidões. — Você pode ficar um pouquinho comigo antes de voltar para lá? Só dez minutinhos? Eu preparei um escalda-pés para você no meu quarto... você trabalhou o dia todo e ainda cuidou dela. Você merece um carinho.
Emanuel, desarmado pela doçura e pela falta de cobrança de Eduarda, aceitou. Ele a seguiu até o quarto dela, onde o ambiente estava perfumado com lavanda e a luz era difusa.
— Sente-se aqui, Manu — ela o guiou até a poltrona e começou a tirar os sapatos dele com uma delicadeza quase ritualística. — Eu vou cuidar de você.
Enquanto Emanuel relaxava com os pés na água morna, Eduarda começou a massagear seus ombros. Ela se inclinou, sussurrando palavras de conforto em seu ouvido, fazendo-o esquecer o caos do quarto ao lado.
— A Sara é tão intensa, não é? — Eduarda comentou baixinho. — Ela exige tanto de você. Eu só quero ser o seu descanso.
— Você é, Duda. Você é o meu único momento de paz.
— Então fique aqui — ela pediu, sentando-se no colo dele e passando os braços pelo seu pescoço, deitando a cabeça em seu ombro. — Não volta para lá agora. Ela já deve estar dormindo. Deixa eu ser sua namorada um pouquinho também.
Emanuel fechou os olhos, deixando-se levar pela calmaria de Eduarda. Ele acabou pegando no sono ali mesmo, na poltrona, com a jovem em seus braços.
Enquanto isso, no quarto ao lado, Sara esperava. Ela esperou dez minutos, vinte, uma hora. A dor "insuportável" já havia passado, e agora ela estava consumida pela fúria de ter sido deixada sozinha. Ela se levantou, caminhando a passos largos até o quarto de Eduarda, pronta para armar um escândalo.
Ao abrir a porta, ela estacou. Emanuel dormia profundamente, com uma expressão de serenidade que Sara raramente via nele. Eduarda estava acordada, aninhada no peito dele. Ao ver Sara na porta, a jovem não se assustou. Ela apenas colocou um dedo sobre os lábios, pedindo silêncio, e lançou à loira um olhar tão frio e vitorioso que fez Sara recuar um passo.
Eduarda pegou o celular de Emanuel, que estava na mesa de cabeceira, e mostrou a tela para Sara. Ela havia acabado de enviar um e-mail para o gerente do banco de Emanuel — usando a senha que ele mesmo lhe dera para ajudá-lo com as contas — solicitando o bloqueio temporário do cartão adicional de Sara por "suspeita de fraude".
— O que você fez? — Sara gesticulou, sem voz, os olhos saltando das órbitas.
Eduarda apenas sorriu, um sorriso doce e manhoso, antes de se aconchegar mais a Emanuel e fechar os olhos, ignorando a existência da outra.
Naquela noite, Sara descobriu que a "santinha" tinha métodos de tortura muito mais eficazes do que gritos. Sem dinheiro, sem a atenção de Emanuel e trancada para fora da intimidade que Eduarda agora monopolizava com sua mansidão, a loira percebeu que a doença inventada fora o seu maior erro.
Emanuel acordou no meio da madrugada, ainda no quarto de Eduarda. Ele se sentia revigorado. Ao olhar para a jovem dormindo em seus braços, ele sentiu uma onda de proteção avassaladora.
— Você é preciosa, Duda — ele sussurrou.
Ele se levantou e foi até o quarto de Sara para ver se ela precisava de algo. Encontrou-a acordada, sentada na cama com uma cara de poucos amigos.
— Como você está, Sara? — ele perguntou, a voz agora mais distante e profissional.
— Eu estou bem, Emanuel. Mas o meu cartão não está passando! Eu tentei comprar um remédio online e deu recusado!
Emanuel franziu o cenho, o estresse voltando instantaneamente.
— Sara, são três da manhã. Eu resolvo isso depois. A Eduarda cuidou de mim agora pouco, ela foi tão compreensiva com o seu "ataque"... você devia agradecer a ela em vez de reclamar de cartões.
— Agradecer? Ela bloqueou meu cartão, Emanuel! Eu tenho certeza!
— Pare de ser paranoica, Sara. Por que ela faria isso? Ela mal sabe mexer no computador. Deve ter sido algum erro do banco por causa das suas compras exageradas ontem. Agora durma. Eu vou voltar para o quarto da Duda, ela está muito triste por ter perdido o evento e eu preciso compensar meu erro com ela.
Sara ficou assistindo-o sair, a boca aberta em choque. A vingança de Eduarda fora perfeita: ela usara a própria "maturidade" e "compreensão" que Emanuel tanto elogiara para isolar Sara em sua própria rede de mentiras.
Na manhã seguinte, Eduarda acordou com Emanuel trazendo o café na cama para ela.
— Hoje o dia é todo seu, pequena — ele disse, beijando suas mãos. — Vamos comprar aquele vestido novo que você viu na vitrine e depois vamos à galeria, só nós dois.
— E a Sara, Manu? — Eduarda perguntou com sua voz mais doce e preocupada. — Ela ainda está doente?
— A Sara está ótima, pelo visto — Emanuel respondeu com um tom de irritação. — Ela passou a manhã gritando com o gerente do banco. Acho que ela precisa de um tempo sozinha para se acalmar.
Eduarda sorriu para dentro de sua xícara de porcelana. Ela sabia que Sara estava furiosa, mas no jogo de poder daquela cobertura, a força bruta da loira não era páreo para a paciência de seda da morena.
Enquanto Emanuel se afastava para pegar o jornal, Eduarda olhou para o espelho. Ela ainda era tímida, ainda era manhosa, mas agora ela sabia que o silêncio era sua arma mais poderosa. E para Sara, o castigo estava apenas começando; afinal, uma "doença" tão grave quanto a que ela simulou certamente exigiria semanas de repouso absoluto, dieta leve e, claro, nenhum shopping — exatamente o que Eduarda gentilmente sugeriria a Emanuel durante o jantar.
A paz da casa fora restaurada, mas sob a superfície, a flor de acanto de Eduarda agora tinha espinhos que Emanuel mal podia esperar para descobrir, enquanto Sara, amordaçada por suas próprias mentiras, assistia ao seu reinado de plástico derreter sob o sol da nova favorita.