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Nemhum

O Eclipse da Obediência

A sexta-feira amanheceu com uma tensão elétrica que percorria os corredores de mármore da cobertura. Emanuel, sentado à cabeceira da mesa de jantar, revisava alguns contratos de licenciamento para seu novo estúdio em Tóquio, mas seus olhos frequentemente se desviavam para Eduarda. A jovem estava sentada ao seu lado, mexendo em uma tigela de frutas com uma lentidão quase coreografada. Ela usava um cardigã de tricô bege que parecia grande demais para seu corpo esguio, dando-lhe aquela aparência de vulnerabilidade que sempre desarmava os instintos mais lógicos de Emanuel.

— Manu... — ela começou, a voz saindo como um sussurro manhoso, quase um ronronar. — Você lembra que eu comentei sobre a festa de aniversário da Bia, da minha sala?

Emanuel largou o tablet e suspirou, massageando as têmporas. Ele conhecia aquele tom. Era o prelúdio de um pedido que ela sabia ser delicado.

— Lembro, Duda. Você disse que seria algo tranquilo, não foi?

— Sim, muito tranquilo! — Ela se inclinou para frente, os olhos grandes e brilhantes fixos nos dele. — Vai ser na casa dos pais dela, em um condomínio fechado na Barra. Só o pessoal da História da Arte. Música baixa, conversa sobre as exposições do próximo mês... coisa de nerd, você sabe.

Emanuel a observou por um momento. Eduarda raramente pedia para sair. Ela era sua "flor de acanto", a parte de sua vida que representava a pureza e o descanso em meio ao caos de seus negócios e da personalidade explosiva de Sara.

— Tudo bem, Duda. Se é na casa dos pais dela e você me promete que volta à meia-noite, eu concordo. Vou pedir para o motorista te levar e buscar na porta.

Eduarda abriu um sorriso radiante, levantando-se para abraçá-lo por trás, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Obrigada, Manu! Você é o melhor namorado do mundo. Eu prometo que me comporto.

O que Emanuel não percebeu foi o vulto loiro parado no batente da porta da cozinha. Sara, vestindo um robe de seda transparente que deixava pouco para a imaginação e segurando uma taça de espumante logo cedo, observava a cena com um sorriso de escárnio. Ela conhecia o "jogo da santinha" melhor do que o próprio Emanuel.

Horas mais tarde, enquanto Emanuel estava trancado em seu escritório, Sara passou pelo corredor e ouviu o som abafado de uma conversa vinda do quarto de Eduarda. A porta estava apenas encostada.

— ...claro que ele deixou! — A voz de Eduarda estava diferente, mais animada, sem o tom submisso que usava com Emanuel. — Ele acha que eu vou para a Barra ver slide de pintura. Mal sabe ele que a festa da Bia vai ser naquele galpão em Santa Teresa, com open bar e três DJs. Imagina se eu ia perder isso para ficar trancada aqui?

Sara sentiu uma onda de adrenalina percorrer seu corpo. Era a oportunidade perfeita. Ela não odiava Eduarda apenas por dividir Emanuel; ela a odiava pela hipocrisia, pela forma como a morena conseguia privilégios bancando a indefesa.

Sem fazer barulho, Sara caminhou até o escritório de Emanuel e entrou sem bater.

— Emanuel, querido, temos um pequeno problema de comunicação nesta casa — disse ela, jogando-se na poltrona à frente dele e cruzando as pernas longas.

— O que foi agora, Sara? Estou ocupado.

— Ocupado sendo feito de idiota pela sua "virgenzinha"? — Ela riu, uma risada seca e vulgar. — Eu acabei de ouvir a conversa dela no telefone. A festa "tranquila na Barra" é, na verdade, uma rave em um galpão caindo aos pedaços em Santa Teresa. Com direito a tudo o que você mais detesta.

Emanuel estacou. A caneta em sua mão quase quebrou sob a pressão dos dedos.

— Você tem certeza do que está dizendo?

— Vá lá e pergunte você mesmo, se tiver coragem de estragar o teatro dela — Sara deu de ombros, deliciando-se com a fúria que começava a emanar dele.

Emanuel levantou-se como um furacão e caminhou até o quarto de Eduarda, abrindo a porta com violência. A jovem deu um pulo, derrubando o celular na cama. Ela já estava quase pronta, usando um vestido preto curto que Emanuel nunca tinha visto.

— Onde é a festa, Eduarda? — A voz dele era um trovão contido.

— Na... na Barra, Manu. Eu te falei... — Ela gaguejou, a palidez natural tornando-se quase fantasmal.

— Não minta para mim de novo! — Ele gritou, aproximando-se. — Eu sei sobre o galpão em Santa Teresa. Eu sei sobre a mentira que você arquitetou para sair pelas minhas costas!

Eduarda olhou para a porta e viu Sara parada no corredor, com um olhar triunfante. O desespero tomou conta da jovem.

— Manu, me escuta... as meninas mudaram de ideia na última hora, eu ia te contar...

— Chega! — Emanuel apontou para o closet. — Tira esse vestido. Você não vai a lugar nenhum. Nem hoje, nem no próximo mês. Você provou que não tem maturidade para a liberdade que eu te dou.

— Não! — Eduarda explodiu em lágrimas, batendo o pé no chão. — Você não pode fazer isso! Eu passei a semana inteira esperando por isso! Todo mundo vai estar lá!

— Eu disse que você não vai! — Emanuel segurou-a pelos ombros, não com força para machucar, mas com uma firmeza que a imobilizou. — Você mentiu para mim, Eduarda. Olhou nos meus olhos e enganou o homem que te dá tudo!

Nesse momento, uma senhora elegante, de cabelos brancos perfeitamente alinhados e um colar de pérolas, apareceu no corredor. Era Dona Helena, mãe de Emanuel, que estava passando alguns dias na cobertura.

— Mas o que é essa gritaria? Emanuel, meu filho, solte a menina! — Helena entrou no quarto, postando-se entre os dois.

— Mãe, não se envolva. A Eduarda mentiu para mim e tentou ir para um lugar perigoso escondida — Emanuel explicou, a respiração pesada.

— Oh, Emanuel, ela é jovem! — Helena a abraçou, e Eduarda imediatamente se encolheu nos braços da sogra, soluçando alto, um choro que ecoava por todo o apartamento. — É apenas uma festa. Deixe a menina se divertir um pouco. Você é muito rígido, parece o seu pai!

— Ela não vai, mãe! É uma questão de respeito e segurança.

— Eu odeio você! — Eduarda gritou entre os soluços, a voz manhosa tornando-se aguda. — Você é um ditador! Você me trata como se eu fosse um objeto! Eu quero ir! Eu vou de qualquer jeito!

Ela tentou correr em direção à porta, mas Emanuel a bloqueou com o corpo. Eduarda começou a esmurrar o peito dele com os punhos pequenos, um ataque inofensivo fisicamente, mas carregado de um drama emocional que atrairia a atenção de qualquer vizinho.

— Me solta! Socorro! — ela gritava, a voz estridente. — Alguém me ajude! Ele está me prendendo!

— Eduarda, cale a boca! Os vizinhos vão ouvir! — Emanuel tentava contê-la, mas a jovem parecia possuída por uma crise de birra histérica.

Sara, encostada no batente da porta, gargalhava abertamente da cena.

— Olha só a santinha mostrando as garras! — provocou Sara. — Grita mais alto, Duda! Talvez o síndico venha te dar um pirulito para você parar de chorar.

— Cala a boca, sua piranha! — Eduarda gritou para Sara, perdendo completamente a compostura tímida por um segundo, antes de voltar a se esconder nos braços de Helena. — Manu, olha o que ela está falando de mim! Você deixa ela me insultar e não me deixa sair!

— Emanuel — Helena interveio novamente —, você está causando um escândalo desnecessário. Olhe o estado da pobre menina. Ela está tendo um ataque de nervos!

— Ela está fazendo cena, mãe! — Emanuel estava vermelho de raiva, o estresse acumulado atingindo o limite. — Eduarda, se você não parar de gritar agora, eu juro que...

— Vai fazer o quê? — Ela o enfrentou, os olhos vermelhos e o rosto inchado, mas ainda mantendo aquele ar de fragilidade que o confundia. — Vai me bater? Vai me trancar no quarto? Você já faz isso com a sua frieza!

Ela se jogou no chão, sentada sobre os calcanhares, chorando de forma convulsiva, as mãos cobrindo o rosto. O contraste entre a agressividade de Sara e o desespero infantil de Eduarda estava enlouquecendo Emanuel.

— Eu só queria ser feliz um pouquinho... — ela soluçava, a voz voltando a ser aquele fio de seda quebrado. — Eu estudo tanto, eu sou tão boa para você... e você me trata assim por causa de uma mentirinha boba...

Emanuel olhou para a mãe, que o reprovava com o olhar, e para Sara, que vibrava com o caos. Ele sentia-se cercado.

— A mentira não foi boba, Eduarda. Você me enganou. E para Santa Teresa você não vai. Ponto final.

— Então eu não saio mais de casa! — Ela se levantou e correu para a cama, enterrando o rosto nos travesseiros. — Eu vou entrar em greve de fome! Eu vou morrer aqui dentro e a culpa vai ser sua!

Emanuel saiu do quarto, batendo a porta com tanta força que o quadro no corredor tremeu. Ele precisava de ar. Sara o seguiu até a sala.

— Que show, hein? — disse ela, servindo-se de mais espumante. — Ela é boa, eu confesso. Quase me fez chorar... de rir.

— Cala a boca, Sara. Se você abrir a boca para falar mais um "a", você vai para um hotel agora mesmo — Emanuel a encarou com um olhar tão gélido que até ela recuou.

Ele caminhou até a varanda, olhando as luzes da cidade. O silêncio finalmente se instalou no apartamento, interrompido apenas pelos soluços abafados que vinham do quarto de Eduarda e pelos sussurros de consolo de Dona Helena.

Emanuel sentia o peso de sua escolha. Ele amava Eduarda por aquela pureza, mas a mentira dela havia aberto uma rachadura em sua confiança. E Sara... Sara era o veneno que ele conhecia bem, a vulgaridade que não mentia sobre ser o que era.

Minutos depois, Dona Helena apareceu na varanda.

— Ela adormeceu de tanto chorar, Emanuel. Você foi muito duro. Ela é uma criança em corpo de mulher.

— Ela tem vinte anos, mãe. E mentiu para mim.

— Todos mentem quando se sentem sufocados, meu filho. Você a protege demais. Ela vai acabar te odiando.

Emanuel não respondeu. Ele esperou a mãe se retirar e caminhou silenciosamente até o quarto de Eduarda. A luz estava apagada. Ele aproximou-se da cama e viu o rastro das lágrimas no rosto dela, que ainda soluçava suavemente durante o sono.

Ele sentou-se na beira da cama e passou a mão pelo cabelo dela. Eduarda se mexeu e, mesmo dormindo, segurou a mão dele, puxando-a para perto do rosto.

— Manu... desculpa... — ela murmurou entre sonhos, a voz carregada daquela doçura manhosa que era seu maior trunfo.

Emanuel sentiu a raiva se dissipar, substituída por uma exaustão profunda e um instinto possessivo que ele não conseguia controlar. Ele não a deixaria ir para galpão nenhum, não a deixaria se misturar com aquele mundo que ele considerava sujo. Ele a queria ali, sob suas asas, mesmo que para isso tivesse que enfrentar as crises de choro e as mentiras infantis.

Ele levantou-se e foi até o quarto de Sara. A loira estava deitada, mexendo no celular, com uma expressão de tédio.

— Satisfeita? — ele perguntou.

— Eu? Eu só ajudei a manter a verdade nesta casa, querido. Você deveria me agradecer por salvar sua "bonequinha" de se perder em Santa Teresa.

Emanuel deitou-se ao lado de Sara, fechando os olhos. Ele tinha as duas. A que o desafiava com a verdade nua e crua, e a que o envolvia em uma teia de seda e mentiras doces. O caos daquela noite era apenas mais um capítulo da dinâmica que ele mesmo criara.

No dia seguinte, Eduarda acordaria e não falaria com ele. Ela passaria o dia em silêncio, recusando-se a comer, fazendo-o sentir o peso de cada lágrima derramada. Emanuel acabaria comprando-lhe um presente caro, uma joia ou um livro raro, para pedir perdão por sua "rigidez". Sara faria algum comentário maldoso durante o jantar, e o ciclo recomeçaria.

Emanuel sabia que estava perdendo o controle, mas enquanto tivesse as mãos de Eduarda buscando as suas no escuro e o corpo de Sara provocando seus sentidos, ele continuaria sendo o prisioneiro voluntário daquela cobertura, onde a paz era uma ilusão e o amor era uma guerra de atrito entre a mansidão e a vulgaridade.