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Desejos à Meia-Noite e Conflitos de Ouro

O perdão, na vida de Emanuel, nunca foi algo concedido através de grandes discursos, mas sim através do silêncio que se suavizava com o tempo. Após a revelação bombástica no dia do casamento, o tatuador passou semanas tratando Eduarda com uma polidez gélida que a fazia chorar escondida entre os lençóis de seda. No entanto, a mansidão dela — aquela fragilidade quase infantil que o envolvia como uma névoa — acabou por vencer as barreiras do seu pragmatismo. Eduarda não era uma estrategista fria; era uma menina-mulher desesperada por amor e por uma família que ela idealizara em seus quadros de História da Arte. Emanuel, sendo o protetor nato que era, não conseguiu sustentar o papel de juiz por muito tempo.

Agora, com seis meses de gravidez, Eduarda parecia ter florescido de uma forma que deixava Emanuel hipnotizado e, ao mesmo tempo, exausto. A barriga já estava bem redonda, abrigando o pequeno Arthur, que chutava com uma força que Emanuel jurava ser herdada de sua própria determinação. Eduarda estava mais manhosa do que nunca. Ela não apenas caminhava pela casa; ela flutuava, sempre buscando o contato físico dele, sempre precisando de um carinho na nuca ou de um beijo na testa para se sentir segura.

Eram três horas da manhã de uma terça-feira chuvosa quando a mão pequena e quente de Eduarda tocou o ombro tatuado de Emanuel.

— Manu... — sussurrou ela, a voz arrastada e doce, carregada daquela manha que só ela possuía. — Manu, acorda, por favor.

Emanuel resmungou, virando-se para o lado. Ele tinha trabalhado doze horas seguidas no estúdio principal, finalizando uma cobertura complexas nas costas de um cliente VIP. O cansaço pesava em seus ossos.

— Hum... Duda? O que houve? Está sentindo alguma dor? — Ele despertou em um sobressalto, o instinto de proteção falando mais alto que o sono.

Eduarda sentou-se na cama, os cabelos longos caindo em ondas naturais sobre os ombros, a camisola de renda clara realçando a curva da barriga. Ela fez um biquinho, os olhos brilhando na penumbra do quarto luxuoso.

— O Arthur quer uma coisa, Manu. E se ele quer, eu também quero.

Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto e sentindo a barba por fazer.

— É desejo de comida, não é? O que é desta vez? Morangos com chantilly? Pizza de chocolate?

— Não... — Ela se aproximou, deitando a cabeça no peito dele e aspirando seu perfume. — Eu quero uma pamonha. Mas tem que ser aquela pamonha de sal com queijo derretido, bem quentinha. E eu quero agora.

Emanuel piscou, incrédulo.

— Duda, são três da manhã. Onde eu vou achar uma pamonha a esta hora? Não tem isso na despensa, e duvido que algum aplicativo entregue algo assim agora.

As lágrimas, sempre prontas para emergir no rosto de Eduarda, começaram a inundar seus olhos expressivos.

— Mas ele está chutando tanto, Emanuel... Parece que ele sabe que eu estou com vontade. Você disse que cuidaria de nós. Se você não for, eu vou ficar triste, e o bebê vai sentir.

Ela se encolheu, escondendo o rosto no travesseiro, soluçando baixinho. Era o golpe de misericórdia. Emanuel sabia que era uma manipulação emocional, mas a doçura de Eduarda tornava impossível qualquer resistência. Ele se sentou na beira da cama, derrotado pela própria adoração que sentia pela esposa.

— Tudo bem, tudo bem. Não chore, meu amor. Eu vou dar um jeito. Vou ligar para alguns contatos, procurar algum lugar 24 horas na periferia ou subornar a cozinha de algum hotel. Eu volto logo com a sua pamonha.

Eduarda levantou o rosto instantaneamente, o sorriso surgindo entre as lágrimas como o sol após a chuva.

— Você é o melhor marido do mundo, Manu. Traz duas? Uma pra mim e uma pro Arthur.

Emanuel saiu de casa amaldiçoando sua incapacidade de dizer "não" para aquela mulher. Enquanto dirigia seu carro importado pelas ruas desertas da cidade, ele pensava em como sua vida havia se tornado um equilíbrio precário. De um lado, a paz doméstica e manhosa de Eduarda; do outro, o furacão loiro e exigente que era Sara.

Sara também estava grávida, esperando Valentina. Mas, ao contrário de Eduarda, que se tornara uma madona renascentista, Sara parecia ter se transformado em uma versão ainda mais afiada de si mesma. Ela não pedia pamonhas de madrugada; ela exigia joias, reformas na cobertura que Emanuel comprara para ela e atenção constante para que sua "união simbólica" — que ela insistia em chamar de "O Evento do Século" — não fosse ofuscada pelo casamento de Eduarda.

No dia seguinte, Emanuel decidiu que precisava selar a paz entre as duas, ou pelo menos garantir que o final da gravidez fosse tranquilo. Ele foi até uma das joalherias mais exclusivas da cidade. Como um homem rico e bem-sucedido, ele sabia que o brilho do ouro e das pedras preciosas tinha o poder de acalmar ânimos, especialmente os de Sara.

Para Eduarda, ele escolheu um colar delicado de ouro branco com um pingente de safira azul, a cor que ela escolhera para o enxoval de Arthur. Era discreto, elegante e suave, exatamente como ela.

Para Sara, ele sabia que precisava de algo que "gritasse" luxo. Escolheu um bracelete de ouro amarelo maciço, cravejado de diamantes, com o nome "Valentina" gravado de forma exuberante. Além disso, comprou pequenos mimos para os bebês: um alfinete de ouro com um anjinho para o berço de Arthur e um par de brincos de diamante minúsculo para quando Valentina nascesse.

Ele marcou um jantar em um restaurante reservado, esperando que o ambiente neutro evitasse uma tragédia. Foi um erro de cálculo monumental.

Eduarda chegou primeiro, usando um vestido floral leve, os cabelos presos em um coque frouxo que a deixava com um ar de pureza angelical. Ela sorriu ao ver Emanuel e sentou-se ao seu lado, segurando sua mão por baixo da mesa.

— Você está mais calma depois da pamonha de hoje cedo? — Emanuel perguntou, beijando os dedos dela.

— Sim, Manu. O Arthur adorou. Ele ficou quietinho o resto da noite.

Nesse momento, o som de saltos altos batendo contra o chão de mármore anunciou a chegada de Sara. Ela entrou no restaurante como se estivesse em uma passarela de Milão. O vestido de seda vermelha era tão justo que cada curva de sua gravidez e de seus implantes de silicone parecia prestes a explodir o tecido. O cabelo loiro estava impecavelmente escovado, e a maquiagem era pesada para um jantar de início de noite.

— Cheguei! — exclamou Sara, sentando-se à frente deles sem ser convidada para a cordialidade. — Espero que não tenham começado sem mim. A Valentina está faminta, e ela só aceita lagosta hoje. Nada dessas porcarias de "desejos de pobre" que algumas pessoas têm.

Ela lançou um olhar venenoso para Eduarda, que imediatamente baixou os olhos e apertou a mão de Emanuel.

— Sara, por favor. Vamos ter um jantar civilizado — pediu Emanuel, sua voz assumindo o tom rígido que ele usava quando estava prestes a perder a paciência.

— Civilizado? Emanuel, eu passei o dia escolhendo o buffet da minha cerimônia. Você sabia que aquela cerimonialista teve a audácia de dizer que o bolo da "esposinha" aqui foi elegante? Eu quase a demiti. O meu bolo vai ter sete andares e folhas de ouro real.

— Eu não me importo com o bolo, Sara — sussurrou Eduarda, tentando manter a voz firme. — Só quero que nossos filhos nasçam com saúde.

Sara soltou uma risada ruidosa e vulgar, atraindo olhares de outras mesas.

— Ai, que fofa! A santinha do pau oco falando de saúde. Querida, saúde é o básico. O que importa é o berço onde eles vão deitar. E a minha Valentina vai deitar em seda.

Emanuel decidiu interromper a escalada da briga antes que os pratos começassem a voar. Ele retirou as duas caixas aveludadas do paletó.

— Eu trouxe algo para vocês. E para os bebês.

Os olhos de Sara brilharam como os de um predador. Ela praticamente arrancou a caixa maior das mãos dele. Ao abrir e ver o bracelete de diamantes, ela soltou um suspiro de satisfação, mas seus olhos rapidamente se voltaram para a caixa que Eduarda recebia.

Eduarda abriu a sua com cuidado, os olhos se enchendo de lágrimas ao ver a safira.

— Oh, Manu... É a cor do Arthur. É lindo. Obrigada por pensar em nós.

— Deixa eu ver isso — exigiu Sara, esticando o braço. — Safira? Emanuel, você deu uma pedra colorida para ela e diamantes para mim? O que isso significa? Que ela é a "tradicional" e eu sou a "cara"?

— Significa que eu escolhi o que combina com a personalidade de cada uma — respondeu Emanuel, sentindo a tensão na nuca. — Eduarda gosta de coisas delicadas. Você gosta de brilho.

— Eu gosto de ser a primeira! — Sara rebateu, batendo o bracelete na mesa. — E esses brincos para a Valentina? São menores do que o pingente dela! Eu quero que minha filha seja vista a quilômetros de distância.

— Sara, chega! — Emanuel elevou a voz, fazendo o restaurante silenciar por um segundo. — Eu gasto fortunas para manter vocês duas em conforto absoluto. Eu perdoei a Eduarda por uma falha grave, e estou aturando suas crises de estrelismo dia e noite. Eu sou um homem prático. Se vocês não conseguem sentar à mesa e apreciar o fato de que seus filhos terão tudo o que o dinheiro pode comprar, eu vou parar de ser tão generoso.

Eduarda começou a soluçar baixinho, escondendo o rosto no ombro de Emanuel.

— Eu não quero joias, Manu... Eu só quero que você não brigue. O Arthur está chutando, ele está assustado.

A manha de Eduarda agiu como um bálsamo para a irritação de Emanuel, mas como combustível para o ódio de Sara.

— Olha só para ela! — Sara apontou o dedo perfeitamente manicureado. — Fazendo a cena da vítima. "O Arthur está assustado". Me poupe, Eduarda! Você é uma sonsa manipuladora. Você acha que esse papel de casamento te faz melhor que eu? No final do dia, quem o Emanuel procura quando quer diversão e não um bando de lamúrias sou eu!

Eduarda levantou o rosto, as bochechas coradas, uma rara centelha de coragem surgindo em seus olhos sensíveis.

— Ele pode procurar você para a diversão, Sara, mas é para a minha cama que ele volta todas as noites. É a minha mão que ele segura quando está cansado. Você pode ter a maior festa do mundo, mas nunca vai ter o sobrenome dele no papel.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Sara ficou boquiaberta, chocada por ter sido enfrentada pela "mosca morta". Emanuel, apesar do estresse, sentiu um lampejo de orgulho pela esposa.

— Sua... sua vulgar! — Sara gritou, levantando-se da mesa. — Emanuel, eu não fico mais um minuto aqui! Eu vou para casa e quero que você mande o decorador da minha festa amanhã cedo. E quero diamantes maiores! Se essa garota acha que ganhou, ela não perde por esperar a minha entrada triunfal na cerimônia simbólica. Vai ser tão grande que o seu casamento vai parecer um velório!

Sara saiu do restaurante em um turbilhão de perfume caro e fúria, deixando para trás um rastro de indignação.

Emanuel suspirou profundamente, sentindo o peso do mundo em seus ombros. Ele olhou para Eduarda, que agora voltava ao seu estado de fragilidade, tremendo levemente.

— Desculpe, Manu... Eu não devia ter falado aquilo. Eu só... eu fico tão triste quando ela me ataca.

Emanuel a puxou para perto, beijando o topo de sua cabeça.

— Tudo bem, Duda. Você só defendeu o que é seu. Vamos comer. Você precisa se alimentar bem para o Arthur crescer forte.

— Você ainda me ama? — Ela perguntou, olhando-o com aqueles olhos que pareciam ler sua alma. — Mesmo depois de tudo o que eu fiz com as camisinhas? Mesmo com a Sara sendo tão... vibrante?

Emanuel olhou para a esposa, a mulher que ele escolhera para carregar seu nome e sua paz. Ele pensou na vida caótica que levava, no império de tatuagens que construíra e no cansaço que o consumia.

— Eu amo você, Eduarda. Do meu jeito prático e torto, eu amo. Você é o meu porto seguro, mesmo que esse porto às vezes tenha tempestades escondidas.

Eduarda sorriu, encostando a cabeça em seu ombro. Ela sabia que tinha vencido mais uma batalha. Sara podia ter os diamantes e o espetáculo, mas ela tinha o coração e a rotina de Emanuel. E, em breve, teria Arthur, o menino que seria a imagem e semelhança do pai, garantindo que o vínculo entre eles nunca mais pudesse ser quebrado.

Enquanto o jantar era servido, Eduarda já imaginava o rosto do filho, ignorando completamente o fato de que, a poucos quilômetros dali, Sara estava destruindo um vaso de cristal em seu apartamento, jurando que sua "união simbólica" seria o evento que humilharia Eduarda definitivamente.

A guerra estava longe de terminar, mas naquela noite, sob o brilho da safira e o conforto do perdão, Eduarda dormiu em paz, sentindo o futuro chutar suavemente dentro de si. Emanuel, porém, permaneceu acordado por muito tempo, observando o teto e imaginando como seria quando Valentina e Arthur finalmente chegassem ao mundo, trazendo consigo o peso final de suas escolhas.