Nenhum
Ouro, Pamonhas e o Caos sob o Mesmo Teto
O luxuoso triplex de Emanuel, com vista panorâmica para a cidade e decoração minimalista, nunca pareceu tão pequeno. A decisão de colocar as duas sob o mesmo teto no terço final da gravidez foi puramente pragmática — Emanuel queria ter certeza de que ambas estavam bem assistidas e sob seu olhar atento —, mas a prática estava se provando um pesadelo logístico e emocional.
A tarde de sábado começou com o som estridente de risadas que não pertenciam à suavidade de Eduarda. A mãe de Sara, Dona Valdirene, uma mulher que parecia uma versão de Sara trinta anos mais velha e com três vezes mais joias, havia chegado com um séquito de amigas da filha. O lado da cobertura que pertencia a Sara estava transformado em um salão de festas improvisado, com garrafas de champanhe sem álcool estourando e música pop no volume máximo.
— Olha só para essa barriga, Sara! — exclamou uma das amigas, uma loira de lábios preenchidos que mal conseguia sorrir. — A Valentina vai ser a bebê mais estilosa do Instagram. Já comprou o carrinho banhado a ouro que a gente viu?
— Óbvio, querida — respondeu Sara, desfilando com um robe de seda transparente que deixava seu abdômen proeminente e seus seios siliconados em total evidência. — O Emanuel reclamou do preço, mas ele sabe que para a minha filha nada é caro demais. Ele é louco por mim, faz tudo o que eu quero.
Do outro lado do amplo corredor, no quarto principal que dividia com Emanuel, Eduarda estava encolhida na poltrona de amamentação que acabara de chegar. Ela tapava os ouvidos com as mãos, sentindo uma pontada de ansiedade. O barulho a assustava, e o cheiro de perfumes fortes que vinha da sala de estar a deixava enjoada.
Emanuel entrou no quarto, fechando a porta com força para abafar o som da "festa" de Sara. Ele parecia exausto. Seus estúdios de tatuagem estavam em plena expansão, mas ele passava mais tempo mediando brigas domésticas do que desenhando na pele de seus clientes.
— Elas não param, Manu... — sussurrou Eduarda, esticando os braços para ele com aquele jeito manhoso que sempre o desarmava. — O Arthur está muito agitado com essa música. Eu queria tanto um pouco de paz.
Emanuel caminhou até ela e a puxou para um abraço, sentindo o volume da barriga dela contra seu corpo. Eduarda era macia, cheirava a talco e sabonete de amêndoas, um contraste absoluto com o cheiro de spray de cabelo e arrogância que emanava de Sara.
— Eu vou pedir para elas baixarem o tom, Duda. Prometo.
— Não adianta, Manu. A mãe dela é pior que ela. Elas estão comemorando que a festa simbólica vai ser em um iate. — Eduarda enterrou o rosto no peito dele. — Eu não me importo com iates, eu só queria... eu queria uma coisa.
Emanuel sentiu um calafrio. Ele conhecia aquele tom de voz. Era o tom do "desejo".
— O que o Arthur quer agora, meu amor? — perguntou ele, já tateando o bolso em busca das chaves do carro.
Eduarda olhou para ele com os olhos úmidos, fazendo um biquinho irresistível.
— Eu sonhei com uma coisa muito específica. Eu quero um acarajé. Mas não pode ser qualquer um. Tem que ser o daquela senhora que monta a barraca na praça do centro antigo, aquela que usa um tabuleiro de prata. E eu quero com muito camarão, mas sem pimenta, porque o Arthur não gosta de pimenta.
Emanuel suspirou, olhando para o relógio. O centro antigo ficava a quarenta minutos de distância, e o trânsito de sábado à tarde era infernal.
— Duda, o centro está um caos hoje. Eu posso pedir para um dos meus seguranças ir buscar ou tentar um delivery premium...
— Não! — Ela começou a soluçar, uma reação hormonal instantânea e dramática. — Se não for você, não vai ter o mesmo gosto. Você não quer fazer esse sacrifício pelo seu filho? Eu estou aqui aguentando essa mulher vulgar gritando no meu ouvido o dia todo, e você não pode buscar um acarajé para mim?
— Tudo bem, tudo bem! — Emanuel cedeu, beijando-lhe a testa. — Eu vou buscar. Fique aqui, tente descansar. Eu volto o mais rápido possível.
Ao sair do quarto, Emanuel deu de cara com o "comitê de recepção" de Sara no corredor. Valdirene, a sogra que ele evitava a todo custo, barrou seu caminho.
— Ora, se não é o genro mais generoso do Brasil! — disse a mulher, com um sorriso falso. — Emanuel, querido, estávamos discutindo que a Sara precisa de um ensaio fotográfico em Paris antes do parto. O que você acha?
— Eu acho que agora eu tenho que buscar um acarajé, Valdirene — respondeu Emanuel, seco, tentando passar por elas.
Sara, segurando uma taça de suco de cranberry, apareceu logo atrás, estreitando os olhos.
— Acarajé? Para a mosca morta? Emanuel, você vai sair de casa no meio da minha reunião de amigas para buscar comida de rua para a Eduarda?
— Ela está grávida, Sara. Tem desejos. Assim como você teve aquele desejo de comer caviar em plena segunda-feira de manhã — retrucou ele, sem parar de caminhar.
— Mas a Valentina é fina! — gritou Sara enquanto ele entrava no elevador. — O Arthur vai nascer com cara de bolinho de feijão! Você me paga, Emanuel!
O trajeto até o centro antigo foi um teste de paciência. O calor estava sufocante e o trânsito parecia não fluir. Emanuel, o homem que comandava estúdios em Londres, Nova York e Tóquio, estava ali, parado em um engarrafamento, preocupado se o camarão do acarajé estaria fresco o suficiente para sua esposa sensível.
Enquanto esperava, seu celular não parava de vibrar. Eram mensagens de Sara: fotos de vestidos de batizado que custavam o preço de um carro popular, seguidas de áudios de Valdirene reclamando que o ar-condicionado do triplex não estava "gelando o suficiente para as convidadas".
Depois de quase duas horas, Emanuel finalmente encontrou a barraca na praça. Ele comprou três acarajés, garantindo que o recheio estivesse exatamente como Eduarda pedira. O cheiro de dendê impregnou o interior de seu carro de luxo, mas ele mal se importou. Sua mente estava voltada para a imagem de Eduarda sorrindo e se aninhando nele.
Quando ele finalmente retornou ao apartamento, o cenário era de guerra.
A música tinha parado, mas o som de gritos vinha da cozinha. Emanuel correu e encontrou Sara e Eduarda em um impasse. Eduarda estava com os olhos vermelhos de tanto chorar, segurando um copo de leite, enquanto Sara, cercada por suas amigas, apontava o dedo para ela.
— Eu já disse, sua sonsa! Minha mãe quer usar a cozinha para preparar os canapés da festa, você não pode ficar aqui ocupando espaço com esse seu jeito lerdo de cozinhar aveia! — gritava Sara.
— Eu só estava com fome... — soluçava Eduarda. — Eu não fiz nada para vocês.
— Chega! — a voz de Emanuel ecoou, fazendo todas as mulheres saltarem.
Ele caminhou até o centro da cozinha e colocou o pacote de acarajé sobre a bancada de mármore. O cheiro forte de dendê se espalhou, fazendo as amigas de Sara torcerem o nariz com desdém.
— Sara, leve suas amigas para o seu lado do apartamento. Agora. Valdirene, o hotel que eu reservei para a senhora já está com o check-in pronto. O motorista está lá embaixo esperando.
— O quê? — Sara guinchou. — Você está expulsando a minha mãe? No meu estado?
— Eu estou garantindo que esta casa não vire um hospício antes dos meus filhos nascerem — disse Emanuel, com uma calma perigosa. — Eduarda é minha esposa. Este é o lar dela. Se vocês não podem respeitar o silêncio que ela precisa, então não podem ficar aqui.
— Você sempre defende ela! — Sara bateu o pé, as lágrimas de raiva borrando seu rímel caro. — Só porque ela faz esse papel de coitadinha! Mas espere só até a minha cerimônia. Eu vou ser a mulher mais comentada desta cidade, e você vai se arrepender de me tratar como segunda opção!
Sara saiu bufando, arrastando a mãe e as amigas para o andar superior. O silêncio finalmente se instalou, pesado e denso.
Emanuel suspirou e se voltou para Eduarda. Ela ainda tremia um pouco, mas seus olhos brilharam ao ver o pacote de acarajé.
— Você trouxe, Manu?
— Trouxe, Duda. Do jeito que você pediu. Sem pimenta, com muito camarão.
Ele a ajudou a se sentar à mesa. Eduarda começou a comer com uma satisfação quase infantil, limpando o canto da boca com o guardanapo de linho. Entre uma mordida e outra, ela buscava a mão de Emanuel, apertando-a com força.
— Sabe, Manu... — disse ela, com a voz mais calma. — Eu vi uma foto do seu pai quando era pequeno. Ele tinha o mesmo formato de rosto que você. Eu sei que o Arthur vai ser igualzinho. Ele vai ser um cavalheiro, não vai ser barulhento como elas.
Emanuel sentiu um aperto no coração. A doçura de Eduarda era sua fraqueza, mas ele não podia ignorar o fato de que ela também sabia como usá-la para isolá-lo de tudo o que não fosse ela.
— Eu só quero que vocês dois fiquem bem — disse ele, cansado.
— Nós estamos bem agora que você chegou — respondeu ela, manhosamente. — Mas... Manu?
— Sim?
— O Arthur disse que, depois do acarajé, ele adoraria um sorvete de pistache. Mas tem que ser daquela sorveteria italiana que abriu no shopping...
Emanuel fechou os olhos por um segundo, encostando a testa na mão. Ele era um homem rico, poderoso e respeitado, mas ali, entre o dendê e o perfume francês que ainda pairava no ar, ele percebeu que era apenas um peão no jogo de duas mulheres grávidas que não aceitariam nada menos do que sua alma.
— Eu vou buscar o sorvete, Eduarda — disse ele, levantando-se. — Mas depois disso, eu vou dormir. E ninguém, nem o Arthur, nem a Valentina, nem o espírito da rainha da Inglaterra, vai me acordar.
Eduarda sorriu, vitoriosa em sua timidez.
— Obrigada, querido. Traga o pote grande.
Enquanto Emanuel saía novamente para a noite da cidade, ele sabia que a paz era apenas uma ilusão temporária. No andar de cima, Sara já planejava como transformar o chá de bebê em um evento que ofuscaria o nascimento de Arthur. E no andar de baixo, Eduarda acariciava a barriga, sabendo que, a cada desejo atendido, ela amarrava Emanuel um pouco mais perto de si, em uma teia de seda, manha e manipulação silenciosa.
A guerra dos herdeiros ainda nem havia começado de verdade, mas o campo de batalha já estava banhado em ouro e dendê.