Nenhum
Vento, Couro e o Peso da Escolha
O sol de domingo refletia intensamente no cromo polido da Harley-Davidson Fat Boy de Emanuel, estacionada estrategicamente no pátio de pedra da mansão. A moto era o xodó de Emanuel, uma máquina bruta, potente e personalizada com detalhes em preto fosco que combinavam com suas tatuagens. Para ele, pilotar era o único momento em que o mundo silenciava; o ronco do motor abafava as vozes, as cobranças e o eterno cabo de guerra emocional em que sua vida se transformara.
Mas a paz durou pouco. O som da porta de vidro correndo anunciou que o silêncio estava prestes a ser estraçalhado.
— Emanuel, você não vai sair sem mim, não é? — Sara apareceu na varanda, usando um conjunto de couro sintético branco que parecia ter sido esculpido em seu corpo, realçando o busto siliconado e as curvas que ela fazia questão de exibir. — Eu já estou pronta. Preciso sentir o vento no rosto para esquecer o estresse daqueles advogados de falência.
Emanuel suspirou, ajustando as luvas de couro. Ele olhou para Sara, que segurava um capacete rosa metalizado, e sentiu a habitual mistura de atração e cansaço.
— Sara, eu ia dar uma volta rápida para clarear a cabeça... — começou ele, mas foi interrompido por um passo mais leve e discreto.
Eduarda saiu pela porta lateral, segurando Arthur pela mão. Ela vestia um jeans claro, uma blusa de algodão branca e uma jaqueta de camurça marrom que Emanuel lhe dera no inverno passado. Ela parecia pequena e delicada, mas seus olhos brilhavam com uma determinação silenciosa.
— Manu... você prometeu — disse Eduarda, com aquela voz manhosa que atingia o centro nervoso de Emanuel. — Você disse que me levaria para ver o pôr do sol na estrada velha. O Arthur vai ficar com a babá agora, eu já organizei tudo.
Emanuel olhou de uma para a outra. O pátio tornou-se um campo de batalha invisível. A moto só tinha dois lugares. E ambas sabiam que o assento do garupa era o prêmio máximo daquele domingo.
— Nem pensar, Eduarda! — Sara desceu os degraus, o salto batendo forte contra a pedra. — Eu estou trancada neste triplex há dias lidando com problemas sérios. Eu preciso sair. Você já tem o Manu o tempo todo com essa sua carinha de coitada. Hoje a garupa é minha.
— Eu não sou coitada, Sara — Eduarda respondeu, a voz trêmula, mas firme. — Eu sou a esposa dele. E ele me prometeu esse passeio. Você só quer a moto para tirar fotos e postar no Instagram, para fingir que sua vida ainda é perfeita.
— Ora, sua... — Sara deu um passo à frente, os olhos faiscando. — Eu amo a velocidade! Eu amo o jeito que o Emanuel pilota! Você fica aí atrás dele parecendo um saco de batatas, morrendo de medo de cada curva. Eu me inclino com ele, eu sinto a máquina!
Emanuel sentiu a pressão subindo por seu pescoço. Ele amava as duas, de formas desesperadamente diferentes. Amava a adrenalina e a vulgaridade magnética de Sara, o jeito como ela o desafiava e o incitava. E amava a paz, o cheiro de lavanda e a entrega absoluta de Eduarda, a mulher que conhecia seus silêncios.
— Chega! — Emanuel rugiu, fazendo as duas calarem-se instantaneamente. Arthur, percebendo a tensão, abraçou a perna da mãe. — Eu não sou um prêmio de loteria e essa moto não é um brinquedo de parquinho.
— Mas Manu... — Eduarda fez um biquinho, os olhos começando a marejar. — Eu estava esperando por isso a semana toda.
— E eu preciso disso para não ter um colapso! — Sara cruzou os braços, fazendo o couro do conjunto estalar.
Emanuel olhou para a estrada. Ele queria fugir de ambas, mas sabia que, se escolhesse uma, a outra transformaria sua noite em um inferno de cobranças ou de silêncio punitivo. Ele tomou uma decisão pragmática, típica de seu jeito controlador.
— Eu vou levar as duas. Mas não ao mesmo tempo.
— Como assim? — Sara perguntou, indignada.
— Vou levar a Eduarda primeiro até o mirante da estrada velha. É um trajeto curto, de vinte minutos. Deixo ela lá para ver o início do pôr do sol, volto e busco você, Sara. Aí nós três voltamos juntos no carro de apoio que o segurança vai levar depois.
— Eu não quero ir por último! — Sara protestou. — O sol já vai ter caído!
— Ou é isso, ou eu vou sozinho e ninguém sobe na moto hoje — Emanuel sentenciou, a voz gélida que não aceitava réplicas.
Eduarda sorriu vitoriosa, embora de forma discreta, e aproximou-se de Emanuel. Ela pegou o capacete preto fosco que ele lhe estendeu.
— Obrigada, Manu. Eu vou me segurar bem forte em você.
Sara bufou, chutando uma pedrinha no pátio.
— Vinte minutos, Emanuel! Se você demorar vinte e um, eu quebro os espelhos dessa moto!
Emanuel ajudou Eduarda a subir. Ela se acomodou no banco traseiro, passando os braços em volta da cintura dele e colando o corpo contra suas costas. Emanuel sentiu a maciez dela, o calor que emanava de seu corpo esguio. Ele deu a partida, e o ronco da Fat Boy vibrou pelo pátio, um som gutural que parecia ecoar o desejo de liberdade.
Eles saíram pelo portão, deixando Sara para trás, uma mancha branca de fúria e couro.
Na estrada, o vento batia no capacete de Eduarda, mas ela não sentia medo. Com Emanuel, ela se sentia invencível. Ela fechou os olhos por um momento, sentindo a vibração do motor entre suas pernas e o cheiro de couro e as notas amadeiradas do perfume de Emanuel. Ela apertou o abraço, sentindo os músculos do abdômen dele sob a jaqueta.
— Você está bem, Duda? — Emanuel gritou por cima do barulho do vento, inclinando a moto suavemente em uma curva.
— Estou feliz! — ela gritou de volta, encostando a bochecha no ombro dele. — Queria que essa estrada não tivesse fim. Queria que fôssemos só nós dois, longe de tudo.
Emanuel não respondeu, mas apertou a mão dela sobre sua cintura por um segundo. Ele gostava da leveza de Eduarda na moto. Ela não tentava controlar o movimento; ela apenas se fundia a ele, confiando plenamente em sua condução. Era um momento de conexão pura, quase espiritual.
Eles chegaram ao mirante. O céu estava tingido de laranja e púrpura. Emanuel estacionou e ajudou-a a descer. Eduarda tirou o capacete, os cabelos castanhos caindo desalinhados sobre os ombros, o rosto corado pelo vento.
— É lindo, Manu. Obrigada por me trazer primeiro. Significa muito para mim.
— Eu prometi, não prometi? — Ele a puxou para um beijo rápido. — Agora, espere aqui com o segurança. Eu vou buscar a Sara. Se eu não for, ela é capaz de incendiar a casa.
— Eu sei — Eduarda suspirou, a manha voltando. — Mas não corra tanto com ela, Manu. Não quero que você se machuque por causa da pressa dela.
Emanuel montou na moto e partiu de volta. O trajeto de retorno foi mais rápido. Ele sentia a urgência de resolver a situação. Quando chegou ao pátio, Sara estava sentada sobre o capô de seu próprio carro, batendo o pé ritmicamente.
— Dezenove minutos e quarenta segundos — disse ela, pulando do carro. — Pelo menos você foi pontual.
Ela colocou o capacete rosa e subiu na moto antes mesmo de Emanuel dar o comando. Diferente de Eduarda, Sara não o abraçou com delicadeza. Ela colou os seios siliconados contra as costas dele, as coxas apertando as dele com uma força possessiva.
— Agora me mostra o que essa belezinha sabe fazer, Manu — sussurrou ela no ouvido dele, a voz carregada de uma promessa sensual. — Esquece a condução de passeio de domingo. Eu quero velocidade.
Emanuel girou o acelerador com força, e a moto arrancou, deixando uma marca de pneu no pátio. Sara soltou um grito de alegria pura, jogando a cabeça para trás. Na estrada, ela era uma força da natureza. A cada curva, ela se inclinava com ele, quase antecipando seus movimentos, uma simbiose de adrenalina e metal.
— Mais rápido, Emanuel! — ela gritava, as mãos descendo da cintura dele para a frente de sua coxa, apertando o músculo com força.
Emanuel sentiu o sangue ferver. A pilotagem com Sara era um exercício de poder e tesão. Ela o provocava, o instigava a testar os limites. Enquanto Eduarda era o porto seguro, Sara era a tempestade que o fazia sentir-se vivo e perigoso.
Eles chegaram ao mirante em tempo recorde. O sol estava quase desaparecendo no horizonte, uma linha de fogo sobre o mar ao longe. Eduarda estava parada perto da mureta, observando a chegada deles com uma expressão neutra, mas seus olhos brilharam quando viu a mão de Sara na coxa de Emanuel.
Sara desceu da moto com uma agilidade felina, retirando o capacete e sacudindo a cabeleira loira, que parecia brilhar sob a luz crepuscular.
— Isso sim é andar de moto! — Sara exclamou, olhando para Eduarda com desdém. — Quase chegamos aos 160 na reta. Você devia tentar um dia, Duda. É melhor do que terapia.
— Eu prefiro chegar inteira e aproveitar a companhia do meu marido, Sara — Eduarda rebateu, aproximando-se de Emanuel e pegando a mão dele. — Você está suado, Manu. Foi uma viagem tensa?
— Foi uma viagem rápida — Emanuel disse, tentando mediar o clima.
Ele ficou no centro, entre as duas. De um lado, Eduarda, suave, cheirando a brisa e lavanda, segurando sua mão com uma posse silenciosa e emocional. Do outro, Sara, exalando perfume forte e adrenalina, encostando o ombro no dele, o corpo ainda vibrando pela velocidade.
— O pôr do sol é lindo, não é? — comentou Emanuel, olhando para o horizonte.
— É maravilhoso — disse Eduarda.
— É aceitável — disse Sara, bocejando. — Mas a volta vai ser no carro, não é? Eu não quero estragar meu cabelo com o sereno da noite.
— O carro de apoio já está chegando — Emanuel informou.
Enquanto esperavam, o silêncio caiu sobre o mirante. Emanuel sentia o peso das duas em sua vida. Era como a moto: ele precisava de equilíbrio para não cair. Se pendesse demais para um lado, o desastre era certo. Ele amava a paz de Eduarda, mas precisava do fogo de Sara. E o mais irônico era que ambas, em suas brigas e rivalidades, completavam o espectro de tudo o que ele era.
O carro de apoio, um SUV blindado dirigido por seu segurança de confiança, estacionou no mirante.
— Duda, Sara, entrem no carro — ordenou Emanuel. — Eu vou levar a moto de volta. Preciso de um tempo sozinho com a estrada.
— Ah, não! — Sara protestou. — Eu quero ir na moto de novo! Agora que está escuro é mais emocionante.
— Eu também queria ir com você, Manu... — Eduarda começou, com seu tom manhoso. — A noite está tão bonita.
Emanuel olhou para as duas e, pela primeira vez naquele dia, sorriu de verdade. Um sorriso cansado, mas decidido.
— Hoje, a garupa vai vazia. Eu já dei o que vocês queriam. Agora, eu quero o meu momento. Entrem no carro.
As duas se entreolharam. Por um breve segundo, a rivalidade foi substituída por uma indignação mútua contra a autoridade de Emanuel. Mas elas conheciam aquele tom de voz. Era o tom do Emanuel tatuador, do homem que comandava impérios e que não aceitava ser questionado.
Elas entraram no carro, Sara batendo a porta e Eduarda acenando tristemente pelo vidro.
Emanuel montou na Fat Boy. Ele esperou o SUV se afastar alguns metros antes de dar a partida. Quando o motor rugiu, ele sentiu um alívio imediato. Ele acelerou na direção oposta, sentindo o ar gelado da noite cortar sua jaqueta.
Ele pensou na sabotagem de Eduarda, no filho que agora os unia para sempre, na doçura que escondia uma manipuladora nata. Pensou na falência de Sara, na sua vulgaridade agressiva que o excitava e o irritava na mesma medida, na filha que era a cópia fiel da mãe.
Ele tinha duas namoradas, duas grávidas — agora duas mães —, dois mundos colidindo. Ele era o centro de um sistema solar caótico.
— Elas vão me enlouquecer — ele murmurou para si mesmo, sorrindo por baixo do capacete enquanto inclinava a moto em uma curva fechada, sentindo o pneu traseiro agarrar o asfalto com precisão.
Ele sabia que, ao chegar em casa, teria que lidar com o biquinho de Eduarda e as reclamações de Sara. Teria que decidir quem dormiria no quarto principal e quem ficaria com a suíte de hóspedes naquela noite. Teria que mediar quem escolheria o cardápio do jantar.
Mas ali, na estrada escura, iluminada apenas pelo farol potente da Harley, ele era apenas Emanuel. Nem pai, nem marido, nem amante, nem mediador. Apenas um homem e sua máquina, fugindo por alguns quilômetros do peso de ser amado por duas mulheres que se odiavam, mas que não sabiam viver sem ele.
Ele acelerou mais, o motor gritando na noite, um som de liberdade que ele sabia que teria fim assim que os portões da mansão se abrissem. Mas, por enquanto, o vento era o único que ousava tocá-lo sem pedir nada em troca. E isso, para Emanuel, era o maior luxo que o seu dinheiro e o seu poder poderiam comprar.