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O Silêncio do Mel e o Rugido do Trovão

A atmosfera na cobertura de Emanuel estava saturada, carregada de uma eletricidade estática que fazia os pelos do braço arrepiar. O ar condicionado central trabalhava no máximo, mas não era suficiente para esfriar o sangue de Sara, que andava de um lado para o outro na sala de estar, seus saltos agulha batendo no mármore como uma contagem regressiva para uma explosão.

Eduarda estava sentada na ponta do sofá de linho italiano, as mãos entrelaçadas sobre o colo, tentando parecer invisível. Ela usava um cardigã de lã macia, as mangas compridas escondendo suas mãos trêmulas. O contraste era quase violento: de um lado, a loira siliconada e agressiva, exalando um perfume importado forte e uma aura de confronto; do outro, a delicadeza de uma estudante de arte que parecia prestes a desmoronar ao menor toque.

— Eu não aguento mais essa encenação! — Sara disparou, parando abruptamente diante de Eduarda. — Você fica aí, com essa cara de santa, agindo como se fosse uma boneca de porcelana que vai quebrar se alguém falar um pouco mais alto. Você é patética, Eduarda. Uma parasita emocional que suga a energia do Emanuel com essa sua dependência doentia.

— Eu não... eu não sou assim, Sara — sussurrou Eduarda, a voz falhando, os olhos já começando a brilhar com as lágrimas que ela não conseguia mais conter. — Eu só quero paz. Eu amo o Emanuel.

— Paz? — Sara soltou uma risada estridente e vulgar, jogando a cabeça para trás. — Você quer é ser sustentada e protegida como uma criança! Você não é uma mulher, é um fardo. Você acha que ele gosta dessa sua "doçura"? Ele tem pena de você! Emanuel é um homem de verdade, um tatuador que lida com dor e sangue todos os dias. Ele precisa de uma mulher que o desafie, não de uma gatinha manhosa que chora por qualquer coisa.

— Para, por favor... — Eduarda soluçou, as primeiras lágrimas escorrendo pelo rosto fino. — Por que você é tão má comigo? Eu nunca te fiz nada.

— Você existir já é um insulto! — Sara avançou um passo, apontando o dedo perfeitamente manicurado para o rosto da jovem. — Você é sonsa. Usa essa timidez para manipular ele, para fazer ele se sentir o herói. Mas sabe de uma coisa? No fundo, ele está sufocado por você. Ele está exausto de ter que carregar esse seu drama o tempo todo.

Nesse momento, a porta da suíte principal se abriu. Emanuel saiu de lá com o rosto marcado pelo cansaço. Ele passara a noite inteira terminando um projeto de fechamento de costas para um cliente internacional e a manhã lidando com problemas financeiros em dois de seus estúdios. Suas olheiras eram profundas e a tensão em seus ombros era visível.

— O que está acontecendo aqui agora? — perguntou ele, a voz rouca e carregada de irritação.

— O que está acontecendo, Emanuel, é que eu cansei de fingir que essa garota não é um peso morto! — Sara gritou, virando-se para ele com os olhos faiscando. — Olha para ela! Já está chorando de novo! Qualquer coisa que eu digo, ela começa esse showzinho de vítima.

Emanuel olhou para Eduarda. A jovem levantou os olhos para ele, buscando o refúgio habitual, os lábios tremendo enquanto os soluços se tornavam mais audíveis. Ela esticou a mão em direção a ele, um gesto mudo pedindo proteção, pedindo para ser tirada dali e levada para o colo dele.

— Manu... ela disse coisas horríveis... ela disse que você não me ama... — Eduarda soluçou, a voz manhosa e quebrada.

Normalmente, Emanuel caminharia até ela, a envolveria em seus braços e mandaria Sara calar a boca. Mas hoje, o estresse acumulado agiu como um rastilho de pólvora. Ele olhou para as lágrimas de Eduarda e, pela primeira vez, não sentiu o instinto de proteção. Sentiu uma pressão insuportável no peito.

— Pelo amor de Deus, Eduarda! — ele explodiu, o grito ecoando pelas paredes da cobertura. — Chega! Eu não aguento mais um minuto desse choro! Eu chego em casa exausto, com a cabeça explodindo, e a única coisa que encontro é você soluçando pelos cantos e a Sara gritando no meu ouvido!

Eduarda paralisou. A mão que ela estendera caiu ao lado do corpo. O choque de ser rechaçada por ele foi pior do que qualquer insulto de Sara.

— Manu? — ela murmurou, a voz sumindo.

— Eu estou cansado, Eduarda! Cansado dessa sua manha, desse seu choro por tudo e por nada! — Emanuel continuou, o rosto vermelho de raiva reprimida. — Você tem vinte anos, não dez! Aprenda a se defender ou a ignorar, mas pare de jogar esse peso emocional em cima de mim o tempo todo! Eu não sou seu pai, sou seu namorado!

Sara deu um sorriso triunfante, cruzando os braços e observando a cena como se assistisse a um espetáculo de gala. Eduarda, por outro lado, sentiu o chão sumir. O olhar de Emanuel, antes seu porto seguro, agora era frio e impaciente.

— Você... você está dizendo que eu sou um fardo? — ela perguntou, as lágrimas agora caindo em cascata, mas o tom de voz era de uma mágoa profunda e silenciosa.

— No momento, sim! — Emanuel respondeu sem pensar, a raiva obscurecendo seu julgamento. — Eu preciso de silêncio! Eu preciso de paz, e você é tudo menos silenciosa com esses seus choros constantes!

Eduarda levantou-se devagar. Ela não disse mais nada. Não tentou se explicar, não implorou. Com o coração em pedaços, ela caminhou em direção à porta da entrada.

— Onde você pensa que vai? — Emanuel perguntou, o tom ainda ríspido, mas uma pequena ponta de consciência começando a surgir no fundo de sua mente.

Ela não respondeu. Abriu a porta e saiu, o som do clique da fechadura ecoando como um tiro no silêncio que se seguiu.

— Finalmente — suspirou Sara, caminhando até o bar para servir uma bebida. — Agora talvez a gente consiga ter uma conversa de adultos sem aquele barulho de fungada no fundo.

Emanuel ficou parado no meio da sala. O silêncio que ele tanto pedira agora parecia pesado demais. Ele sentou-se na poltrona, massageando as têmporas.

— Ela vai voltar daqui a dez minutos — ele murmurou para si mesmo. — Ela não tem para onde ir. É só mais uma manha.

Mas dez minutos se transformaram em uma hora. Uma hora transformou-se em três. Emanuel tentou ligar para o celular dela, mas caía direto na caixa postal. A raiva inicial começava a ser substituída por uma ansiedade corrosiva. Ele conhecia Eduarda; ela era frágil, tímida, e o mundo lá fora era um lugar assustador para alguém como ela.

— Onde ela está, Sara? — ele perguntou, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro.

— No shopping, gastando o seu dinheiro para te punir, provavelmente — Sara respondeu, sem tirar os olhos da revista.

— Ela saiu sem bolsa, Sara! Saiu só com o celular e a roupa do corpo! — Emanuel gritou, a ficha finalmente caindo. — E eu gritei com ela... eu disse que ela era um fardo.

Ele pegou a chave do carro e saiu correndo, ignorando os protestos de Sara. Ele percorreu as ruas próximas, parando em praças, cafés e livrarias que Eduarda costumava frequentar. Nada. O desespero começou a tomar conta. Ele ligou para a mãe de Eduarda, fingindo naturalidade, mas a mulher disse que não falava com a filha desde o dia anterior.

Foi só por volta das dez da noite que ele recebeu uma mensagem de um número desconhecido.

"Emanuel, a Duda está aqui em casa. Ela não para de chorar e não quer falar com você. Por favor, não venha aqui hoje. Ela precisa de espaço. — Bia."

Bia era a melhor amiga da faculdade, a única pessoa em quem Eduarda confiava plenamente além dele. Emanuel sentiu um alívio momentâneo por saber que ela estava segura, mas a fúria retornou logo em seguida — uma fúria contra si mesmo e contra a situação.

— Espaço? Ela mora comigo! Ela é minha! — ele rugiu dentro do carro, socando o volante.

Ele dirigiu até o endereço de Bia, um prédio simples na zona leste. Ele subiu e esmurrou a porta.

— Eduarda! Abre essa porta agora! — ele gritava, a voz carregada de uma autoridade que escondia o pânico.

Bia abriu apenas uma fresta, mantendo a corrente de segurança.

— Emanuel, vai embora. Ela está em estado de choque. Você destruiu ela hoje.

— Eu quero ver a minha mulher, Bia! Sai da frente!

— Ela não quer te ver. Ela disse que você tinha razão, que ela é um fardo, e que ela vai ficar aqui até decidir o que fazer da vida.

— Ela não vai decidir nada sem mim! — Emanuel sibilou, os olhos injetados. — Eduarda! Eu sei que você está ouvindo! Sai agora ou eu derrubo essa porta!

Lá de dentro, ele ouviu um soluço abafado, mas nenhuma resposta. Bia fechou a porta na cara dele.

Emanuel passou a noite no carro, estacionado em frente ao prédio. Ele estava enlouquecido. A ausência de Eduarda era como uma amputação. Ele percebeu que, embora amasse a intensidade de Sara, era a doçura dependente e manhosa de Eduarda que mantinha sua sanidade. Sem o "mel" dela para contrabalançar o "veneno" de Sara, ele estava se tornando um monstro de estresse e agressividade.

No dia seguinte, ele enviou flores, cestas de café da manhã, mensagens intermináveis de desculpas. Nada funcionou. Eduarda permanecia em silêncio.

No terceiro dia, ele não aguentou mais. Ele usou sua influência para conseguir a chave reserva do apartamento de Bia com o síndico (alegando uma emergência familiar) e entrou. O apartamento era pequeno e cheirava a chá e incenso. Ele caminhou até o quarto de hóspedes e encontrou Eduarda sentada na cama, envolta em um cobertor, olhando para o vazio.

Ela estava mais pálida, com olheiras profundas e o nariz vermelhinho de tanto chorar. Quando o viu, ela não gritou. Apenas se encolheu mais, os olhos se enchendo de lágrimas instantaneamente.

— O que você está fazendo aqui? — ela sussurrou, a voz rouca.

— Eu vim te buscar, pequena. Por favor... volta para casa. Eu não consigo dormir, eu não consigo trabalhar. A casa está um caos sem você.

— A Sara deve estar feliz — disse ela, uma lágrima solitária escorrendo. — Você disse que eu era um fardo, Manu. Você disse que estava cansado do meu choro. Eu não quero ser um peso para ninguém.

Emanuel caminhou até a beira da cama e tentou tocá-la, mas ela se esquivou. A rejeição dele havia criado uma ferida que a manha habitual não conseguia curar.

— Eu estava estressado, Eduarda. Eu não medi minhas palavras. Você sabe que eu sou explosivo.

— Você foi cruel — ela disse, e desta vez o choro rompeu com força. — Eu sou tímida, Manu. Eu sou sensível. Eu não sei ser forte como a Sara. Eu só tenho você... e você me chutou como se eu não fosse nada.

— Você é tudo para mim! — ele exclamou, caindo de joelhos ao lado da cama. — Eu fui um idiota, um monstro. Por favor, olha para mim.

Eduarda olhou para ele lá embaixo. O grande Emanuel, o tatuador renomado e rico, o homem que controlava tudo e todos, estava de joelhos no chão de um apartamento simples, com os olhos úmidos e as mãos trêmulas. Uma parte dela, a parte manhosa que sabia o poder que tinha sobre ele, sentiu um pequeno triunfo em meio à dor.

— Você me machucou muito — ela soluçou, escondendo o rosto nas mãos. — Eu quero voltar... eu quero o seu colo... mas eu tenho medo de você gritar comigo de novo.

— Eu nunca mais vou gritar com você, eu juro — ele disse, pegando as mãos dela e beijando as palmas. — Eu vou colocar a Sara no lugar dela. Eu vou te proteger de tudo, inclusive de mim mesmo. Só volta para casa. Eu não sou nada sem o seu carinho, sem o seu jeito.

— Você promete? — ela perguntou, estendendo o dedinho mindinho, um gesto infantil que ela sempre fazia quando queria um compromisso sério.

— Prometo — ele disse, selando o pacto com o próprio dedo, um sorriso triste surgindo nos lábios. — Eu te amo, Eduarda. Do seu jeito, com seu choro, com sua manha. Eu preciso disso.

Eduarda se inclinou para frente e se jogou nos braços dele, chorando copiosamente em seu ombro. Emanuel a apertou com uma possessividade feroz, sentindo o calor do corpo dela finalmente retornar para onde pertencia.

— Me leva para casa, Manu... — ela murmurou, manhosa, agarrando-se ao pescoço dele. — Mas eu quero que você me carregue até o carro. Meus pés estão cansados.

Emanuel sorriu, sentindo o alívio inundar sua alma. Ele a pegou no colo com facilidade, sentindo o peso leve e familiar.

— Eu te carrego até o fim do mundo, se você pedir.

Ao chegarem na cobertura, Sara estava na sala, pronta para lançar outro comentário ácido. Mas Emanuel passou direto por ela, carregando Eduarda como se ela fosse uma rainha ferida.

— Sara — ele disse, parando por um segundo, o olhar frio e definitivo. — Peça desculpas para a Eduarda. Agora.

— O quê? Você ficou louco? — Sara levantou-se, indignada.

— Peça desculpas ou arrume suas malas. Eu não vou permitir que você falte com o respeito com ela nunca mais. Este é o último aviso.

Sara olhou para Emanuel e viu que ele não estava brincando. Olhou para Eduarda, que estava aninhada no peito dele, olhando-a com uma mistura de timidez e triunfo silencioso por trás das lágrimas.

— Desculpa — resmungou Sara, a voz carregada de ódio contido.

Emanuel continuou caminhando até a suíte principal. Ele deitou Eduarda na cama grande, tirou seus sapatos e a cobriu com o edredom de seda. Ele deitou-se ao lado dela, deixando que ela se apoiasse em seu peito.

— Você está bem agora? — ele perguntou, acariciando os cabelos castanhos.

— Vou ficar... — ela disse, dando um suspiro longo e trêmulo, fechando os olhos enquanto buscava o batimento cardíaco dele. — Mas você ainda está de castigo, Manu. Vai ter que me dar muito carinho por uma semana inteira para eu esquecer o que você disse.

Emanuel riu baixo, beijando o topo da cabeça dela. O equilíbrio fora restaurado. Ele ainda tinha o fogo de Sara para seus momentos de intensidade e guerra, mas ali, naquele quarto, ele tinha o seu mel. E ele faria qualquer coisa, mataria qualquer um e se ajoelharia quantas vezes fosse necessário para garantir que aquele mel nunca mais parasse de adoçar sua vida.