Nenhum
O Brilho do Neon e o Gelo da Possessão
A noite de sexta-feira na cobertura de Emanuel tinha um sabor de estratégia e contenção. Ele havia decidido dedicar aquelas horas a Sara, em parte para recompensá-la pela humilhação pública na galeria, e em parte para manter as engrenagens de seu relacionamento original funcionando. Sara estava radiante, vestindo um conjunto de seda verde-esmeralda que destacava seu bronzeado e as curvas impecáveis. Ela falava sem parar sobre a nova campanha de marketing, enquanto Emanuel, impecável em um terno cinza, apenas acenava, embora sua mente estivesse, como sempre, dividida.
— Então, Manu, eu estava pensando... — Sara dizia, deslizando a mão sobre o braço dele enquanto caminhavam para o elevador — ... que depois do jantar no *Terraço*, poderíamos passar naquela festa privada do Igor. Ele adoraria te ver.
— Veremos, Sara. O jantar é o foco agora — Emanuel respondeu, sua voz mantendo aquele tom de autoridade calma.
Antes de saírem, ele passou no quarto de Eduarda. A jovem estava sentada na cama, cercada por livros de História da Arte, usando um pijama de flanela com estampas de ursinhos. Ela parecia tão pequena e inofensiva que Emanuel sentiu um aperto no peito.
— Vou sair com a Sara, pequena — ele disse, aproximando-se para beijar a testa dela. — Você vai ficar bem?
— Vou sim, Manu... — ela murmurou com aquele jeito manho, os olhos brilhando de uma forma doce. — A Bia e a Carol vêm me buscar. Vamos para a casa da Bia comer pizza e ver um filme de época. Não se preocupe comigo.
— Juízo. Quero você em casa até meia-noite. Se precisar de qualquer coisa, me ligue.
— Tá bom, Manu. Divirta-se.
Emanuel saiu sentindo-se tranquilo. Eduarda era seu santuário de paz, a garota que não lhe dava problemas, que preferia o silêncio dos livros ao caos das ruas. Era o equilíbrio perfeito para a energia frenética de Sara.
O jantar no restaurante de luxo transcorria conforme o planejado. Sara estava sendo charmosa, evitando conflitos, tentando reconquistar seu território. Emanuel relaxou, permitindo-se uma taça de vinho a mais. No entanto, o hábito de controle nunca o abandonava. No intervalo entre a entrada e o prato principal, ele pegou o celular para checar as notificações.
Ele abriu o Instagram e, por puro instinto, foi direto ao perfil de Eduarda. Ela raramente postava fotos, mas havia um novo "story".
O sangue de Emanuel gelou instantaneamente, seguido por uma onda de calor que subiu pelo seu pescoço, fazendo suas tatuagens parecerem vibrar sob a pele.
Na foto, Eduarda não estava em uma sala de estar comendo pizza. Ela estava sob luzes de neon rosa e azul, em um barzinho badalado da Vila Madalena. Ela usava um top de seda que Emanuel nunca tinha visto e um batom levemente mais escuro do que o habitual. Ela sorria para a câmera, segurando um drink colorido, enquanto ao fundo, vários homens circulavam pelo ambiente escuro e lotado. A legenda dizia: "Mudança de planos! A noite pede um pouco de brilho ✨".
— Algum problema, Manu? — Sara perguntou, notando a mudança drástica na expressão dele. O rosto de Emanuel estava rígido, os olhos fixos na tela com uma fúria que ela conhecia bem.
— Ela mentiu — Emanuel sibilou, a voz saindo como o rosnado de um animal ferido.
— Quem? A boneca de porcelana? — Sara esticou o pescoço para ver a tela e soltou uma risada estridente, carregada de veneno. — Olha só! A santinha resolveu sair da caixa. Eu te disse, Emanuel. Elas fingem ser puras para te prender, mas no fundo, querem o que todo mundo quer: diversão e atenção de outros homens.
— Cala a boca, Sara — Emanuel disse, levantando-se bruscamente, jogando o guardanapo sobre a mesa.
— Onde você vai? Nós nem pedimos o prato principal!
— O jantar acabou. Eu vou buscar a Eduarda. Agora.
Emanuel não esperou por Sara. Ele caminhou em passos largos até a saída, deixando a loira furiosa para trás, chamando o carro por um aplicativo de segurança privada. O trajeto até o bar foi um borrão de fúria. Ele imaginava Eduarda naquele ambiente, sendo observada, tocada, ou pior, sendo alvo de homens que não tinham ideia de que ela pertencia a ele. A ideia de qualquer outro par de olhos sobre a pele dela o fazia querer destruir tudo ao seu redor.
Quando o carro parou em frente ao bar, Emanuel nem esperou o motorista abrir a porta. Ele entrou no estabelecimento como um furacão. O som alto da música eletrônica e o cheiro de álcool e cigarro eletrônico o irritavam profundamente. Ele empurrava as pessoas sem cerimônia, seus olhos escaneando cada canto até que a encontrou.
Eduarda estava sentada em um banco alto, rindo de algo que uma das amigas dizia. Um rapaz, visivelmente interessado, estava inclinado sobre o balcão, falando algo no ouvido dela. Eduarda parecia desconfortável, mas sorria timidamente, tentando ser educada.
Emanuel sentiu o último resquício de sua paciência evaporar.
— Eduarda! — O grito dele cortou a música para quem estava perto.
A jovem virou-se bruscamente, o rosto empalidecendo no mesmo instante em que viu a figura imponente de Emanuel parado a poucos metros. O rapaz ao lado dela franziu o cenho, pronto para dizer algo.
— Quem é esse cara, Duda? — o rapaz perguntou.
Emanuel não deu tempo para resposta. Ele avançou, agarrando o braço do rapaz com uma força que o fez gemer.
— Eu sou o homem que vai quebrar a sua cara se você não sumir daqui em três segundos — Emanuel sibilou, os olhos injetados de raiva.
O rapaz, vendo o tamanho de Emanuel e a agressividade em seu olhar, não pensou duas vezes. Levantou as mãos e recuou, desaparecendo na multidão.
— Manu... o que você está fazendo aqui? — Eduarda começou a dizer, a voz tremendo, as lágrimas já inundando seus olhos grandes.
— Pro carro. Agora — ele comandou, a voz baixa e perigosa.
— Mas as minhas amigas...
— Eu não vou repetir, Eduarda.
As amigas tentaram intervir, mas um olhar de Emanuel foi o suficiente para calá-las. Ele pegou Eduarda pelo pulso — não com força para machucar, mas com uma firmeza que não admitia contestação — e a arrastou para fora do bar.
O silêncio dentro do carro era sufocante. Eduarda estava encolhida contra a porta, chorando baixinho, os soluços quebrando o ar pesado. Emanuel olhava para a frente, as mãos apertando o volante (ele decidira dirigir o próprio carro que enviara buscar) com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
— Você mentiu para mim — ele disse finalmente, a voz carregada de uma decepção gélida.
— Eu... eu não menti, Manu... — ela soluçou, escondendo o rosto nas mãos. — A gente ia comer pizza, mas a Bia disse que o bar era novo e... e que seria legal... eu não queria te irritar...
— Não queria me irritar? — Emanuel riu, uma risada sem humor. — Você foi para um antro, Eduarda! Cheio de homens desesperados para tocar em você! Você postou uma foto para o mundo ver onde estava! Você tem ideia do que eu senti vendo você naquele lugar enquanto eu achava que você estava segura em casa?
— Eu só queria sair um pouco... eu me sinto tão presa às vezes... — ela murmurou, a natureza manhosa tentando encontrar uma brecha na armadura dele.
— Presa? Eu te dou tudo! Proteção, luxo, amor! E você retribui mentindo e se expondo como uma qualquer?
— Eu não sou uma qualquer! — ela gritou entre o choro, a voz saindo aguda. — Eu sou a Eduarda! Você me trata como um objeto, como uma das suas tatuagens que você quer esconder no armário!
Emanuel freou o carro bruscamente em frente ao prédio, fazendo os pneus cantarem. Ele se virou para ela, o rosto a centímetros do dela.
— Você é minha, Eduarda. E o que é meu, eu protejo. E o que eu protejo, não fica se exibindo em bares sujos para qualquer imbecil tentar a sorte.
Ele saiu do carro e a puxou para fora. Ao entrarem na cobertura, Sara já estava lá, sentada no sofá com uma taça de vinho, observando a cena com um prazer mal disfarçado.
— Olha só quem chegou... a rainha da noite — Sara provocou, levantando-se. — E então, Manu? Encontrou ela no colo de algum universitário?
— Cala a boca, Sara! — Eduarda gritou, a raiva finalmente superando a timidez por um segundo.
— Como é que é? — Sara avançou, o rosto vermelho. — Você mente para ele, faz ele passar vergonha no restaurante e ainda quer gritar comigo? Você é uma sonsa, Eduarda! Uma garotinha manipuladora!
— Chega as duas! — O grito de Emanuel ecoou por toda a cobertura, fazendo ambas silenciarem imediatamente. — Sara, vá para o seu quarto. Agora. Eu resolvo isso com ela.
— Mas Emanuel...
— Agora! — ele rugiu.
Sara bufou, lançando um olhar de puro ódio para Eduarda antes de se retirar. Emanuel voltou sua atenção para a jovem, que agora estava sentada no chão da sala, abraçando os joelhos e chorando copiosamente.
— Levanta daí — ele disse, sua voz suavizando um pouco, mas ainda mantendo a rigidez.
— Não... eu quero ir embora... eu quero ir para a casa dos meus pais... — ela soluçava, o corpo tremendo em uma crise de insegurança absoluta.
Emanuel suspirou, sentindo a raiva ser lentamente substituída por aquele instinto de posse protetora. Ele se ajoelhou à frente dela e puxou suas mãos do rosto.
— Você não vai a lugar nenhum. Você é minha, Eduarda. Entenda isso de uma vez por todas.
— Você me odeia agora... — ela murmurou, olhando para ele com os olhos vermelhos e inchados, agindo de forma extremamente manhosa, buscando o perdão através da vulnerabilidade. — Eu sou uma idiota... eu só queria que você sentisse um pouco de ciúmes... para saber se você ainda se importa...
Emanuel parou. A confissão dela o atingiu. Ele a puxou para o seu colo, sentando-se no chão e envolvendo-a em seus braços fortes. Eduarda se aninhou imediatamente, escondendo o rosto em seu pescoço, molhando sua camisa com as lágrimas.
— Você é uma criança, Eduarda — ele sussurrou, acariciando os cabelos dela. — Uma criança perigosa. Você não precisa fazer essas coisas para eu me importar. Eu quase matei aquele sujeito hoje só por olhar para você. Você tem ideia do poder que tem sobre mim?
— Desculpa, Manu... desculpa... — ela repetia, a voz sumindo.
— Eu vou te perdoar desta vez. Mas haverá consequências. Você não vai sair sozinha nas próximas duas semanas. E o seu celular vai ficar comigo durante a noite.
Eduarda não protestou. Na verdade, uma parte dela — a parte que buscava aquela proteção quase sufocante — sentiu um alívio mórbido. Ela gostava de saber que ele ficava louco por ela. Gostava de saber que ele atravessaria a cidade para buscá-la.
— Tá bom, Manu... — ela disse, dando um beijo casto no pescoço dele. — Eu faço o que você quiser... só não fica mais bravo comigo.
Emanuel a apertou mais forte. Ele olhou para o corredor onde Sara estava escondida, provavelmente ouvindo tudo, e depois para a garota em seus braços. Ele era um homem prático, um tatuador que sabia que cada marca na pele tinha um preço e uma dor. Sua vida agora era um desenho complexo: o fogo de Sara, que o desafiava e o mantinha alerta, e a doçura dependente de Eduarda, que o fazia sentir-se um deus protetor.
Ele sabia que o que estava fazendo era doentio para os padrões normais. Mas Emanuel nunca fora um homem normal. Ele queria as duas. Ele precisava das duas. E se tivesse que arrancar Eduarda de bares ou conter a fúria de Sara todos os dias para manter aquele equilíbrio, ele o faria.
— Vamos para o quarto — ele disse, levantando-se com ela no colo. — Você precisa descansar. E eu preciso garantir que você entenda que o seu lugar é aqui, comigo, e em nenhum outro lugar do mundo.
Eduarda fechou os olhos, sentindo-se segura e possuída. Naquela noite, o neon do bar foi esquecido, substituído pela penumbra controlada da cobertura de Emanuel, onde ele era a única luz — e a única sombra — que ela tinha permissão de enxergar.