Nenhum
A Obsessão entre Corredores
O silêncio no apartamento de Emanuel era raro, mas hoje ele parecia ensurdecedor. Fazia duas semanas desde que Eduarda havia saído de seu estúdio. Duas semanas desde que ele, em um momento de distração causado por uma crise histérica de Sara por telefone, esqueceu-se de salvar o formulário de cadastro digital da nova cliente. Quando ele percebeu o erro, ela já tinha ido embora, deixando para trás apenas a memória do perfume suave de baunilha e a sensação da pele macia sob seus dedos.
Ele tentou de tudo. Vasculhou as redes sociais, procurou por "Eduarda, História da Arte", ligou para conhecidos na universidade, mas era como se ela tivesse evaporado. A frustração o tornava um homem difícil. No estúdio, seus assistentes pisavam em ovos; em casa, a convivência com Sara estava se tornando um campo minado.
— Emanuel, dá para você parar de encarar esse celular como se ele fosse te dar os números da loteria? — Sara cruzou os braços, encostada no batente da porta da cozinha.
Ela usava um conjunto de academia neon, tão justo que parecia uma segunda pele, e segurava uma coqueteleira. O silicone bem marcado e o bronzeado artificial reluziam sob a luz branca do teto.
— Eu estou esperando um e-mail importante de Londres, Sara. Negócios — mentiu ele, a voz seca, sem desviar os olhos da tela.
— Negócios, sei... — Ela caminhou até ele, o quadril balançando de forma exagerada, e sentou-se em seu colo, bloqueando sua visão. — Você está estranho desde aquela garota sonsa no estúdio. Aquela que parecia uma boneca de pano.
Emanuel sentiu um aperto na mandíbula. Ele odiava quando Sara tentava diminuir Eduarda, mesmo sem saber o impacto que a jovem tivera sobre ele.
— Não seja ridícula. Eu nem lembro o nome dela — ele disse, a mentira queimando em sua garganta. — Agora sai daqui, preciso me arrumar. Estamos sem nada na geladeira e eu prometi que passaríamos no mercado antes do jantar.
— Ai, que tédio! Manda o motorista ir, ou pede pelo aplicativo — Sara bufou, revirando os olhos e retocando o batom nos lábios volumosos.
— Eu preciso sair de casa, Sara. Respirar. Vamos logo.
O supermercado era um dos mais luxuosos da cidade, frequentado pela elite que preferia escolher seus próprios vinhos e queijos importados. Emanuel empurrava o carrinho com uma impaciência mal contida, enquanto Sara parava a cada cinco minutos para conferir seu reflexo nas portas de vidro dos refrigeradores ou para reclamar do preço de algo que ela nem pretendia comprar.
— Olha esse queijo, Emanuel! Oito miligramas de sódio? Minha retenção de líquido vai explodir — ela reclamava, jogando um pote de iogurte grego no carrinho.
Emanuel não ouvia. Seus olhos vagavam pelos corredores de forma automática, uma busca inconsciente que ele realizava em todos os lugares públicos desde que perdera o contato de Eduarda. Ele sentia falta daquela energia calma, daquele jeito manhoso que o fazia querer parar o mundo apenas para ouvi-la sussurrar.
E então, entre a seção de massas artesanais e os vinhos, ele a viu.
O coração de Emanuel deu um solavanco tão violento que ele quase perdeu o passo. Ela estava de costas, usando um cardigan oversized de tricô bege e uma saia florida que ia até os joelhos. O cabelo estava preso em um coque frouxo, com algumas mechas caindo delicadamente sobre o pescoço alvo.
— Emanuel? Você me ouviu? Eu perguntei se esse vinho combina com o risoto que... — Sara parou de falar ao notar a rigidez no corpo do namorado.
Ele não respondeu. Ele simplesmente começou a caminhar, deixando o carrinho e uma Sara confusa para trás.
— Eduarda? — A voz dele saiu mais baixa do que pretendia, carregada de uma urgência que ele não conseguiu esconder.
A garota se virou lentamente. Ao reconhecê-lo, seus olhos grandes se arregalaram e um rubor instantâneo cobriu suas bochechas. Ela segurava um pacote de macarrão como se fosse um escudo.
— Senhor... Emanuel? — Ela murmurou, a voz doce e vacilante.
— Eu procurei por você — ele disse, dando um passo para dentro do espaço pessoal dela, ignorando as convenções sociais. — Eu perdi seu contato. O sistema do estúdio falhou.
Eduarda baixou a cabeça, um gesto típico de sua timidez, e apertou os lábios, parecendo ainda mais pequena diante da figura imponente e tatuada de Emanuel.
— Ah... eu achei que... achei que o senhor tinha desistido de fazer minha tatuagem. Que eu tinha sido muito chata com meu medo de agulhas.
— Nunca — ele afirmou, a intensidade em seu olhar fazendo-a estremecer levemente. — Eu não desisto do que eu começo, Eduarda. Eu queria muito te ver de novo.
— Eu também queria... — ela confessou, com um sorriso mínimo e manhoso, olhando para ele por baixo dos cílios longos. — Fiquei triste quando não recebi a mensagem com o orçamento.
Emanuel sentiu uma vontade quase incontrolável de estender a mão e tocar o rosto dela, de protegê-la daquele ambiente frio e impessoal. Mas o som de saltos altos batendo com força no piso de mármore interrompeu o momento.
— Mas o que é isso? — A voz de Sara era como um chicote.
Ela parou ao lado de Emanuel, os olhos semicerrados e a expressão carregada de veneno. Ela olhou para Eduarda com um desprezo que faria qualquer outra pessoa recuar, mas a jovem apenas se encolheu, buscando inconscientemente a proximidade de Emanuel.
— Olha só se não é a "estudante de arte" — Sara ironizou, cruzando os braços sobre os seios siliconados. — O que foi, querida? Ficou sem dinheiro para o ônibus e veio pedir esmola para o meu namorado?
— Sara, cala a boca — Emanuel sibilou, os olhos faiscando de ódio.
— Não, Emanuel! Eu não sou idiota! — Sara elevou o tom, atraindo olhares de outros clientes. — Você me deixa falando sozinha no meio do corredor para vir atrás dessa... dessa mosca morta? O que você quer com ela?
Eduarda estava tremendo. Seus dedos apertavam a alça da bolsa de lona e seus olhos começaram a lacrimejar. Ela odiava conflitos; a agressividade de Sara a feria fisicamente.
— Eu... eu já vou embora — Eduarda sussurrou, a voz embargada. — Desculpe incomodar.
Ela tentou passar, mas Emanuel segurou seu pulso. Não com força, mas com uma firmeza possessiva que não deixava margem para discussões.
— Você não vai a lugar nenhum — ele disse para Eduarda, antes de se voltar para Sara com uma frieza glacial. — Sara, você vai pegar o carrinho, vai para o caixa e vai entrar no carro. Agora. Ou a gente termina aqui mesmo, na frente de todo mundo.
Sara recuou, boquiaberta. Emanuel nunca tinha falado com ela daquela forma, nunca tinha colocado o relacionamento deles em jogo por causa de outra pessoa. A humilhação brilhou em seus olhos loiros, mas o medo de perder o estilo de vida que Emanuel proporcionava falou mais alto.
— Você vai se arrepender disso, Emanuel — ela disse, a voz trêmula de raiva. — Essa sonsa não dura um dia no seu mundo.
Ela girou nos saltos e saiu pisando fundo, a fúria emanando de cada centímetro de seu corpo.
Emanuel soltou um suspiro pesado e voltou sua atenção para Eduarda. Ela estava com o rosto escondido entre as mãos, os ombros subindo e descendo em soluços silenciosos. O coração dele, que ele sempre considerou uma peça de engrenagem lógica, doeu.
— Ei... olha para mim — ele pediu, puxando-a gentilmente para um canto mais reservado, entre as prateleiras de vinhos caros.
— Ela me odeia... — Eduarda soluçou, limpando as lágrimas com as costas das mãos, parecendo uma criança perdida. — Eu não fiz nada para ela, Emanuel.
— Eu sei que não fez. Ela é assim, Eduarda. Ela é insegura e barulhenta — ele explicou, acariciando o braço dela para acalmá-la. — Mas você não tem que se preocupar com ela. Eu estou aqui. Eu protejo você.
Eduarda levantou os olhos úmidos para ele. A vulnerabilidade dela era um convite irresistível para o instinto protetor de Emanuel.
— Por que o senhor é tão bom comigo? — ela perguntou, de forma manhosa, encostando a cabeça no ombro dele por um breve segundo antes de se afastar, assustada com a própria audácia.
— Porque você é especial — ele respondeu, a voz rouca. — E porque eu quero que você faça parte da minha vida. Não só como cliente.
Eduarda corou, o coração batendo rápido sob o cardigan de tricô.
— Mas... e ela? Ela é sua namorada.
Emanuel deu um sorriso sombrio. Ele sabia que o que estava prestes a fazer era egoísta, talvez até cruel, mas ele não conseguia mais conceber sua vida sem os dois extremos. Ele precisava do fogo de Sara para se sentir vivo e da paz de Eduarda para conseguir respirar.
— Isso é algo que eu vou resolver — ele disse, pegando o celular dela com delicadeza. — Agora, anote seu número aqui. E não ouse sumir de novo.
Com as mãos ainda trêmulas, Eduarda digitou o número. Quando devolveu o aparelho, seus dedos roçaram nos dele, e ela sentiu aquela mesma eletricidade da primeira vez.
— Eu preciso ir... minhas compras — ela apontou para a cestinha no chão.
— Eu te levo em casa — Emanuel afirmou. Não era um pedido, era uma ordem suave.
— Mas e a Sara? Ela está no carro...
— Ela pode pegar um táxi — ele disse, com um descaso que surpreendeu a si mesmo. — Hoje, eu quero garantir que você chegue bem.
Enquanto caminhavam em direção à saída, Emanuel sentia o peso do olhar de algumas pessoas, mas não se importava. Ele tinha Eduarda ao seu lado, caminhando com passos curtos e se apoiando levemente em seu braço, buscando segurança.
Ao chegarem ao estacionamento, ele viu Sara dentro do SUV de luxo, o rosto vermelho de tanto chorar e gritar ao celular. Ele se aproximou da janela do motorista, entregou a chave para o segurança do mercado que o conhecia e deu instruções simples.
— Chame um Uber Black para a senhorita e peça para ele levá-la para casa. Eu vou levar a Eduarda no meu outro carro que está na revisão, mas que o motorista acabou de trazer.
A cena foi rápida. Sara começou a gritar de dentro do carro, batendo no vidro, mas Emanuel sequer olhou para trás. Ele guiou Eduarda até o segundo veículo, um sedã discreto mas potente, e abriu a porta para ela.
— Você está segura agora — ele murmurou enquanto fechava a porta.
Durante o trajeto até o pequeno apartamento de estudante de Eduarda, o silêncio era confortável. Ela observava as luzes da cidade com uma curiosidade doce, ocasionalmente comentando sobre a arquitetura de algum prédio antigo, deixando transparecer sua paixão pela História da Arte.
— Eu moro ali — ela apontou para um prédio antigo, com trepadeiras nas paredes. — É simples, mas eu gosto.
Emanuel estacionou e olhou para ela. No escuro do carro, Eduarda parecia ainda mais etérea.
— Eduarda — ele chamou, fazendo-a virar para ele. — Eu vou te ligar amanhã. Vamos terminar aquele desenho. E depois, quero te levar para jantar. Em um lugar calmo, onde ninguém vá gritar com você.
Ela deu um sorriso radiante, a timidez dando lugar a uma expectativa carinhosa.
— Eu adoraria, Emanuel. Obrigada por hoje.
Ela se inclinou e deu um beijo rápido em sua bochecha. O toque foi como uma brisa suave, mas deixou a pele de Emanuel queimando.
Ele esperou que ela entrasse no prédio antes de dar a partida. Seu celular não parava de vibrar com mensagens de ódio de Sara. Ele sabia que, ao chegar em casa, enfrentaria uma tempestade. Sara quebraria vasos, gritaria ofensas e provavelmente tentaria expulsá-lo de sua própria cama.
Mas, pela primeira vez em meses, o estresse de lidar com Sara não o incomodava. Porque ele agora tinha o antídoto. Ele tinha a imagem de Eduarda sorrindo para ele.
Ele dirigiu de volta para sua cobertura luxuosa, onde o caos o esperava. Ao entrar, encontrou Sara no meio da sala, cercada por malas abertas.
— Eu vou embora, Emanuel! Eu juro que vou! — ela gritava, jogando sapatos de grife dentro de uma mala de couro. — Você me trocou por aquela garota de brechó!
Emanuel caminhou calmamente até o bar, serviu-se de um uísque puro e sentou-se na poltrona de couro.
— Você não vai a lugar nenhum, Sara — ele disse, a voz calma e controladora. — Você me ama. E você ama a vida que eu te dou.
— Você me humilhou! — ela soluçou, caindo de joelhos no chão, a máscara de agressividade caindo para revelar sua dependência emocional.
Emanuel levantou-se, foi até ela e a puxou para um abraço firme. Sara se agarrou a ele como um náufrago, chorando em seu peito.
— Shhh... calma. Eu estou aqui — ele sussurrou, acariciando o cabelo loiro platinado. — Eu não vou te deixar. Mas as coisas vão mudar. Eu preciso de mais espaço. E você vai ter que aceitar isso.
— Você ainda me ama? — ela perguntou, olhando para ele com os olhos borrados de rímel.
— Eu amo você, Sara — ele disse, e era verdade. Ele amava a possessividade dela, o corpo que ele conhecia tão bem, a forma como ela o desafiava. — Mas eu também preciso de outras coisas.
Sara não entendeu o que ele queria dizer, mas o aperto dos braços de Emanuel era o suficiente para acalmá-la por enquanto.
Naquela noite, Emanuel deitou-se com Sara em seus braços, mas sua mente estava no pequeno apartamento com trepadeiras. Ele visualizou o futuro: Sara brilhando em festas ao seu lado, administrando seus negócios com sua garra implacável, e Eduarda em seu estúdio, sendo sua musa, sua protegida, o refúgio onde ele poderia baixar a guarda.
Era um plano ambicioso. Era perigoso. Mas Emanuel, o homem que construiu um império a partir do nada, não aceitava nada menos do que tudo. E ele teria as duas, custasse o que custasse.