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Entre o Sangue, o Pranto e a Promessa

O estúdio estava imerso em uma luz âmbar, suave, quase sagrada. Emanuel trabalhava com uma concentração que beirava a obsessão. O som rítmico da máquina de tatuagem era o único ruído no ambiente, uma pulsação constante que parecia ecoar as batidas do coração de Eduarda. Ela estava deitada na maca, os olhos fechados, as mãos apertando as bordas do estofado. De vez em quando, soltava um suspiro manho, um gemido baixo de desconforto que fazia Emanuel parar por um segundo e acariciar sua têmpora com a luva de látex.

— Está quase acabando, pequena — ele murmurou, a voz como um veludo sombrio. — Você está sendo tão corajosa.

— Dói um pouquinho... — ela sussurrou, abrindo os olhos úmidos e brilhantes. — Mas eu gosto quando você me olha assim.

Emanuel sentiu um calor subir pelo peito. O desenho em sua costela — um ramo de flores em traços finos, quase como uma aquarela — estava pronto. Ele limpou o excesso de tinta com uma delicadeza que nunca usava com seus outros clientes. Para ele, Eduarda não era uma tela; era um santuário.

— Pronto — ele disse, desligando a máquina. — Ficou perfeita. Exatamente como você.

Eduarda levantou-se devagar, cobrindo o corpo com a blusa leve, e olhou-se no espelho. Um sorriso tímido e encantado iluminou seu rosto. Emanuel a observou, já pensando no próximo passo. Ele queria que aquela noite fosse inesquecível. Ele queria que ela se sentisse a única mulher no mundo, apesar de saber que, em seu luxuoso apartamento, Sara provavelmente estava destruindo algum móvel caro em um acesso de ciúmes.

— Vá se arrumar — ele ordenou suavemente. — Vou te levar para jantar.

Algumas horas depois, o cenário era o restaurante mais exclusivo da cidade, um lugar com luz de velas e música clássica ao fundo. Eduarda estava deslumbrante em um vestido de seda verde-água, que realçava sua pele pálida e seus traços finos. Ela parecia uma ninfa deslocada em um mundo de tubarões. Emanuel, em seu terno sob medida que escondia as tatuagens nos braços, não conseguia tirar os olhos dela.

— Eu nunca estive em um lugar assim — ela confessou, brincando com a taça de cristal, o jeito manho e encabulado atraindo a atenção de Emanuel de forma magnética. — Tenho medo de quebrar alguma coisa.

— Se quebrar, eu compro o restaurante e mando consertar — Emanuel respondeu, com uma seriedade que a fez rir baixinho. — Comigo, você não precisa ter medo de nada, Eduarda. Eu quero te dar tudo o que há de melhor.

O jantar foi perfeito. Eles falaram sobre arte, sobre os sonhos dela de ser curadora, e Emanuel sentiu, pela primeira vez em anos, uma paz que o sexo frenético e as brigas com Sara nunca lhe proporcionaram. Mas a paz, no mundo de Emanuel, era um artigo de luxo com data de validade.

Ao saírem do restaurante, o ar frio da noite os atingiu. Emanuel passou o braço pelos ombros de Eduarda, puxando-a para perto, quando o som estridente de pneus cantando no asfalto cortou o silêncio da rua. Um conversível esportivo parou bruscamente em frente ao valet.

Sara saltou do carro antes mesmo de o motor desligar. Ela estava usando um vestido preto curtíssimo, saltos que pareciam armas e uma fúria que emanava de seus poros como fumaça.

— Eu sabia! — ela gritou, a voz ecoando pelas paredes de mármore do estabelecimento. — Eu sabia que você estava com essa cadela de novo!

Eduarda deu um pulo, o susto fazendo-a soltar um ganido baixo. Ela imediatamente se encolheu, escondendo o rosto no peito de Emanuel, os dedos cravando-se no tecido do terno dele.

— Sara, chega! — Emanuel rugiu, sua postura mudando instantaneamente para a de um predador protegendo sua presa. — Vá para casa agora!

— Casa? Que casa, Emanuel? Aquela que você pretende transformar em um orfanato para essa coitadinha? — Sara se aproximou, o rosto retorcido de ódio, apontando o dedo na direção de Eduarda. — Olha para ela! Ela nem consegue te encarar! É uma sonsa, uma criança que não sabe nem lavar as próprias calcinhas!

— Por favor... para... — Eduarda soluçou, o corpo tremendo violentamente. — Emanuel, eu quero ir embora...

— Você ouviu ela, sua vulgar! — Emanuel deu um passo à frente, os olhos negros de fúria. — Se você encostar ou disser mais uma palavra para ela, eu juro que...

— Você jura o quê? Vai me bater? Vai me expulsar? — Sara riu, uma risada histérica e carregada de mágoa. — Você não vive sem mim, Emanuel! Você gosta do meu silicone, gosta do meu jeito, gosta do que eu faço na cama! Essa aí não passa de um brinquedo de porcelana que você vai quebrar na primeira semana!

Eduarda não aguentou. A agressividade de Sara era como veneno em sua alma sensível. Ela soltou Emanuel e, em um ato de desespero, correu em direção à esquina, onde um táxi acabara de parar para desembarcar alguém.

— Eduarda! Espera! — Emanuel tentou segui-la, mas Sara se jogou na frente dele, agarrando seu braço com unhas compridas.

— Deixa ela ir! Deixa essa idiota sumir! — Sara gritava.

Emanuel viu, impotente, Eduarda entrar no táxi e o veículo arrancar. Ele se virou para Sara com um olhar que a fez recuar, o sangue fugindo de seu rosto loiro.

— Você acabou de cometer o maior erro da sua vida, Sara — ele disse, a voz tão baixa que era quase um sussurro mortal.

Ele a empurrou para o lado, pegou seu carro e dirigiu como um louco até o apartamento de Eduarda. Ele subiu as escadas correndo, bateu na porta repetidamente, mas não houve resposta. O silêncio que vinha de dentro era oco, aterrorizante. Ela tinha fugido.

No dia seguinte, após uma noite sem pregar o olho, o celular de Emanuel tocou. Era um número desconhecido.

— Emanuel? — A voz de Eduarda estava fraca, rouca de tanto chorar.

— Onde você está? Eu vou te buscar agora mesmo.

— Eu estou na casa dos meus pais... no interior. Eu não consigo, Emanuel. Aquela mulher... ela é assustadora. Eu não pertenço ao seu mundo.

— Você pertence a mim — ele afirmou, a autoridade em sua voz não deixando espaço para discussões. — Me mande a localização. Agora.

Três horas depois, o carro luxuoso de Emanuel estacionava em frente a uma casa simples, com jardim bem cuidado e cercas brancas. Eduarda estava na varanda, parecendo ainda mais frágil em um moletom largo. Seus pais, um casal de meia-idade com expressões severas e protetoras, estavam ao lado dela.

Emanuel saiu do carro, a presença imponente contrastando com a simplicidade do lugar. Ele caminhou até a varanda, ignorando o olhar de desconfiança do pai de Eduarda.

— O que o senhor quer com a nossa filha? — o homem perguntou, cruzando os braços. — Ela chegou aqui em frangalhos, chorando por causa de um homem rico e sua namorada louca.

— Eu vim buscá-la — Emanuel disse, olhando diretamente para Eduarda. — Eu quero que ela more comigo.

— O quê? — A mãe de Eduarda deu um passo à frente. — Vocês mal se conhecem! Nossa filha é uma menina de bem, estudante, sensível. Ela não é para ser levada assim por um estranho tatuado.

Emanuel sentiu a irritação crescer, mas ele se controlou. Ele precisava ser racional, mas a paixão por Eduarda o tornava impulsivo.

— Eu sei que parece loucura — ele começou, suavizando o tom. — Mas eu nunca senti isso por ninguém. Eu tenho recursos para dar a ela a melhor vida possível. Ela terá segurança, terá seus estudos pagos, terá tudo. E, acima de tudo, terá a minha proteção.

— Proteção contra quem? Contra a sua outra mulher que a atacou na rua? — o pai dela desafiou.

Emanuel respirou fundo, os punhos cerrados ao lado do corpo.

— Eu amo a filha de vocês. De um jeito que eu não consigo explicar. Eu não vou deixar que nada, nem ninguém, encoste um dedo nela novamente. Mas ela precisa estar perto de mim. Eu não consigo mais respirar sabendo que ela está longe e sofrendo.

Eduarda olhou para os pais, depois para Emanuel. Ela via a tensão nos ombros dele, a sinceridade quase dolorosa em seus olhos. Ela se sentia pequena, mas nos braços de Emanuel, sentia-se importante.

— Mãe, pai... — ela começou, a voz manha e doce voltando aos poucos. — Ele cuidou de mim. Ele me defendeu.

— Eduarda, você é muito jovem... — a mãe tentou intervir.

— Eu quero ir — ela interrompeu, caminhando até Emanuel e segurando a mão dele. — Eu me sinto segura com ele. Por favor.

Emanuel envolveu a cintura dela com o braço, um gesto de posse absoluta diante dos pais dela. O pai de Eduarda suspirou, derrotado pela determinação nos olhos do homem à sua frente e pela súplica no olhar da filha.

— Se você a magoar... — o velho começou.

— Eu morreria antes disso — Emanuel cortou, com uma promessa que soava como um juramento de sangue.

Ele ajudou Eduarda a pegar suas poucas malas. Enquanto caminhavam para o carro, ele sentiu uma vitória esmagadora. Ele a tinha. Ela estaria em sua casa, sob suas regras, protegida por suas paredes.

— E a Sara? — Eduarda perguntou baixinho, quando já estavam na estrada.

Emanuel olhou para o horizonte, um sorriso sombrio brincando em seus lábios.

— Sara vai ter que aprender a dividir o espaço, pequena. Você agora é minha. E ninguém tira o que é meu.

Eduarda encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos. Ela sabia que o futuro seria turbulento, que a presença de Sara seria uma sombra constante, mas o calor de Emanuel e a promessa de sua proteção eram tudo o que ela precisava para se sentir em paz. Emanuel, por outro lado, sentia o peso de suas duas paixões. O fogo e a água. O caos e a calma. Ele tinha as duas, e agora, o mundo teria que se ajustar à sua vontade.