Nenhum
O Escudo de Carne e Tinta
A tensão na cobertura de Emanuel era palpável, mas ele, em sua racionalidade quase fria, acreditava que o tempo e o luxo seriam capazes de domesticar até os instintos mais selvagens. Fazia uma semana desde o incidente com a serpente, e o clima de guerra fria entre Sara e Eduarda havia se transformado em um silêncio cortante. Emanuel, sentindo a necessidade de reafirmar seu controle e tentar uma trégua forçada, decidiu que os três sairiam para jantar. Não seria em um lugar público e barulhento, mas em um bistrô privativo, escondido em uma das ladeiras mais charmosas e discretas da cidade.
Emanuel observava as duas enquanto esperavam o elevador. Sara estava deslumbrante em um vestido de couro sintético preto, justo ao ponto de parecer uma armadura, com saltos que a deixavam quase da altura dele. Ela retocava o batom vermelho sangue, o olhar fixo no espelho, ignorando deliberadamente a presença ao seu lado. Eduarda, por outro lado, parecia uma pintura em tons pastéis. Usava um vestido de seda leve, cor de pêssego, e um cardigã fino por cima dos ombros. Ela mantinha as mãos entrelaçadas à frente do corpo, os olhos baixos, buscando a proximidade de Emanuel como um girassol busca o sol.
— Vamos? — Emanuel perguntou, sua voz firme quebrando o silêncio. Ele estendeu um braço para cada uma.
Sara enganchou o seu com uma possessividade agressiva, enquanto Eduarda deslizou a mão pelo antebraço dele com uma delicadeza manhosa, encostando a cabeça levemente em seu ombro.
— Eu não sei por que temos que ir a esse lugar escondido — reclamou Sara, enquanto desciam. — Poderíamos ter ido ao novo clube da zona sul. Lá, pelo menos, as pessoas sabem quem nós somos.
— Eu quero paz, Sara — Emanuel respondeu, sem olhar para ela. — E a Eduarda precisa de um ambiente calmo depois de tudo o que aconteceu.
Sara soltou um riso sarcástico, mas não retrucou. Eduarda apenas apertou o braço de Emanuel, sentindo-se protegida.
O jantar foi, previsivelmente, um exercício de paciência. Sara falava sobre os lucros recordes de um dos estúdios em Berlim, tentando dominar a conversa com termos técnicos de administração, enquanto Eduarda ocasionalmente comentava sobre a iluminação do local, comparando-a a uma técnica de claro-escuro de Caravaggio. Emanuel mediava, dando atenção a ambas, mas seus olhos demoravam-se mais na fragilidade de Eduarda, o que fazia as unhas de Sara cravarem-se na palma da própria mão sob a mesa.
Ao final da noite, decidiram caminhar os poucos metros até onde o carro de luxo de Emanuel estava estacionado. A rua era estreita, iluminada por lampiões coloniais, e o silêncio da madrugada era apenas quebrado pelo som dos saltos de Sara.
— Está um pouco escuro aqui, Manu... — sussurrou Eduarda, aproximando-se mais dele, a voz carregada de uma carência que sempre despertava o instinto protetor de Emanuel.
— Eu estou aqui, pequena. Nada vai acontecer — ele disse, passando o braço pela cintura dela.
— Deixe de ser frouxa, garota — Sara bufou, caminhando um passo à frente. — É só uma rua. O que você acha que vai sair dessas sombras? Um fantasma do museu?
As palavras de Sara mal haviam terminado quando uma figura surgiu bruscamente de trás de um furgão estacionado. O brilho do metal sob a luz fraca do lampião foi instantâneo. Um homem jovem, com o rosto parcialmente coberto por um capuz, apontava um revólver diretamente para o grupo.
— Parados! Ninguém se mexe ou eu estouro a cabeça de um! — o assaltante gritou, a voz trêmula mas carregada de uma adrenalina perigosa.
O tempo pareceu congelar. Emanuel sentiu a descarga de adrenalina percorrer seu corpo, mas sua mente, treinada para manter o controle em situações de estresse extremo, entrou em modo de defesa imediata.
— Calma. Ninguém vai reagir — disse Emanuel, a voz baixa e autoritária, enquanto movia o corpo para frente, colocando-se como uma barreira física entre o cano da arma e as duas mulheres.
Eduarda soltou um ganido sufocado e afundou o rosto nas costas de Emanuel, tremendo de forma incontrolável. Suas unhas finas enterravam-se no tecido do terno dele. Sara, por sua vez, ficou estática. Sua confiança habitual evaporou, substituída por uma palidez mortal. Ela não chorou, mas sua respiração tornou-se curta e ruidosa.
— Passa tudo! Relógio, carteira, as joias das dondocas! Agora! — o assaltante avançou, a arma balançando perigosamente entre a cabeça de Emanuel e a de Sara.
— Eu vou te dar tudo — Emanuel disse, mantendo as mãos visíveis e espalmadas. — Só mantém essa arma longe delas.
— Cala a boca! Passa logo! — O homem deu um passo à frente, visivelmente nervoso. O dedo dele apertava o gatilho com uma hesitação que era mais aterrorizante do que a certeza.
— Manu... — Eduarda soluçou baixinho, uma súplica desesperada que parecia vir do fundo de sua alma.
Emanuel sentiu a vibração do medo dela em suas costas e, ao mesmo tempo, viu o pânico mudo nos olhos de Sara. Em um movimento calculado, ele abriu os braços levemente, expandindo sua presença física para cobri-las o máximo possível.
— Sara, tira o colar e joga no chão. Eduarda, fica atrás de mim, não se mexa — ele comandou.
Sara, com as mãos trêmulas, tentou soltar o fecho do colar de diamantes, mas sua coordenação falhou.
— Eu... eu não consigo... — ela gaguejou, a voz sumindo.
O assaltante, irritado com a demora, avançou para cima de Sara, agarrando-a pelo braço e puxando o colar com força, rasgando a pele do pescoço dela. Sara soltou um grito de dor e terror.
— Ei! — Emanuel rugiu, dando um passo à frente, o instinto de proteção sobrepondo-se à cautela. — Deixa ela em paz! Pega a minha carteira!
O assaltante virou a arma para o peito de Emanuel, o cano a poucos centímetros do coração do tatuador.
— Você quer ser herói, é? Eu te mato agora, seu lixo!
Nesse momento, Eduarda, em um surto de pânico cego, tentou correr para o lado oposto, mas tropeçou nos próprios pés e caiu no asfalto. O som da queda fez o assaltante se assustar e virar a arma na direção da garota caída.
— Não! — Emanuel não pensou. Ele se atirou na frente de Eduarda, cobrindo o corpo esguio dela com o seu próprio, ao mesmo tempo em que esticava o braço livre para puxar Sara para trás de si.
Ele era o escudo. O homem rico, o mestre das tintas, o controlador de vidas, estava ali, agachado sobre a calçada, oferecendo suas costas e sua vida para proteger o "fogo" e o "mel" que compunham seu mundo.
— Atira em mim, se for atirar em alguém — Emanuel sibilou, os olhos fixos nos do assaltante, uma chama de fúria negra queimando em seu olhar. — Mas se você encostar nelas, eu juro que te busco no inferno.
A intensidade de Emanuel, a riqueza transbordando de seu porte mesmo naquela situação, pareceu intimidar o assaltante. O criminoso pegou a carteira que Emanuel havia jogado no chão e o colar que arrancara de Sara.
— Fiquem aí! Se alguém levantar, eu atiro! — o homem gritou, saindo em disparada em direção a uma motocicleta que o esperava na esquina.
O som do motor se afastando foi seguido por um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelos soluços convulsivos de Eduarda e pela respiração ofegante de Sara.
Emanuel não se moveu imediatamente. Ele continuou sobre Eduarda, sentindo o coração dela bater freneticamente contra suas costelas.
— Ele foi embora... ele já foi — Emanuel murmurou, a voz finalmente falhando um pouco enquanto a adrenalina começava a baixar.
Ele se levantou e ajudou Eduarda a ficar de pé. A garota estava em frangalhos; o joelho estava ralado e o vestido pêssego manchado de poeira, mas ela se jogou nos braços dele com uma força que quase o derrubou.
— Você ia morrer por mim... você se jogou na frente... — ela chorava, escondendo o rosto no pescoço dele, o corpo todo tremendo.
— Eu não ia deixar nada acontecer com você, pequena — ele disse, beijando o topo da cabeça dela com uma ternura absoluta.
Então, ele olhou para o lado. Sara estava de pé, encostada na parede de pedra de um prédio, a mão no pescoço onde o colar fora arrancado. Um filete de sangue escorria por seus dedos. Ela observava a cena de Emanuel consolando Eduarda com uma expressão impossível de decifrar — uma mistura de choque, inveja e uma gratidão relutante que ela odiava sentir.
Emanuel soltou Eduarda por um momento e caminhou até Sara. Ele pegou o rosto dela com as mãos, examinando o ferimento.
— Você está bem? — ele perguntou, a voz voltando ao tom prático e firme.
Sara olhou nos olhos dele. Ela vira o momento em que ele se posicionara entre ela e a morte. Vira que, apesar de todas as brigas e da presença de Eduarda, ele ainda era o seu porto seguro.
— Eu estou bem — ela disse, a voz rouca, tentando recuperar sua fachada de mulher forte, embora suas mãos ainda tremessem. — Ele levou o colar. Era um Cartier, Emanuel.
— Eu compro dez iguais se você quiser, Sara. O que importa é que você está inteira — ele respondeu, limpando o sangue do pescoço dela com o polegar.
Eduarda aproximou-se timidamente, o olhar cheio de preocupação para com Sara, apesar de tudo o que a loira já lhe fizera passar.
— Sara... seu pescoço... está doendo muito? — a voz de Eduarda era doce, sem um pingo de malícia ou vingança.
Sara olhou para a jovem. Pela primeira vez, não houve um comentário sarcástico ou um olhar de desprezo. O susto fora grande demais, e a visão de Emanuel protegendo as duas criara um vínculo temporário de sobrevivência que Sara não conseguia ignorar.
— Vai ficar uma cicatriz — Sara resmungou, mas o tom era de cansaço, não de ódio.
Emanuel passou um braço ao redor de cada uma, guiando-as em direção ao carro. O trajeto até a cobertura foi feito em silêncio. No banco de trás, Eduarda segurava a mão de Emanuel com força, enquanto Sara, no banco do carona, olhava para a janela, perdida em pensamentos.
Ao chegarem em casa, o ambiente que antes parecia um campo de batalha agora parecia um refúgio. Emanuel levou Eduarda para o banheiro e limpou seu joelho ralado com a paciência de um pai, enquanto Sara foi para o seu próprio quarto trocar de roupa.
Mais tarde, Emanuel encontrou as duas na sala. Eduarda estava encolhida no sofá grande, enrolada em uma manta de lã. Sara estava sentada na poltrona, com um curativo no pescoço e um copo de uísque na mão.
— Eu tomei uma decisão — Emanuel disse, ficando de pé no centro da sala. — O que aconteceu hoje mostrou que eu não posso falhar com nenhuma de vocês. Eu vou contratar segurança particular vinte e quatro horas para esta cobertura e para quando sairmos.
— Não precisa de tanto, Manu... — Eduarda começou, manhosa.
— Precisa sim — ele a cortou gentilmente. — Eu quase perdi vocês hoje. E eu não aceito perder nada do que é meu.
Sara deu um gole longo no uísque e olhou para Eduarda.
— Ele tem razão, garota. Se você vai viver aqui, tem que entender que o mundo não é um museu. Existem pessoas que matariam você por esse seu anelzinho de prata.
Eduarda baixou a cabeça, mas depois olhou para Sara com uma coragem renovada.
— Obrigada por não ter gritado com ele, Sara. Eu achei que ele ia atirar quando você gritou.
Sara desviou o olhar, desconfortável com a sinceridade da outra.
— Eu não fiz por você. Fiz por ele.
Emanuel sorriu internamente. Pela primeira vez, havia uma trégua. Não era uma amizade, e talvez nunca fosse, mas o perigo compartilhado havia criado um entendimento mútuo: ambas dependiam da força de Emanuel, e Emanuel precisava da existência de ambas para se sentir completo.
Ele caminhou até o sofá e sentou-se entre as duas. Eduarda imediatamente se apoiou em seu ombro esquerdo, buscando o calor de seu corpo. Sara, após um momento de hesitação, inclinou-se para a direita, encostando a cabeça em seu outro ombro.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o peso das duas mulheres sobre si. Ele era o eixo de um carrossel perigoso e fascinante. De um lado, a suavidade que o acalmava; do outro, a intensidade que o incendiava. Ele sabia que o assalto fora um lembrete cruel de que a vida era curta, e isso só reforçou sua determinação de ter tudo o que desejava.
— Eu vou cuidar de vocês — ele sussurrou, as mãos repousando sobre as pernas de cada uma. — Sempre.
Naquela noite, as luzes da cidade brilhavam lá fora, mas dentro da cobertura, o silêncio era de uma paz conquistada a duras penas. O mestre das tatuagens havia provado que sua pele não era apenas coberta de arte, mas feita de um material capaz de resistir a qualquer bala para manter seu tesouro seguro. O fogo e o mel finalmente haviam encontrado um ponto de equilíbrio, unidos pelo escudo de carne e tinta que os governava.