Nenhum
O Veneno sob a Seda
A convivência na cobertura de Emanuel assemelhava-se a um ecossistema frágil, onde a calmaria era apenas o prelúdio de uma tempestade iminente. Para Emanuel, ter as duas sob o mesmo teto era o ápice de seu controle; ele alternava entre a intensidade vulcânica de Sara e a mansidão etérea de Eduarda como quem troca de estação de rádio para ajustar o humor. No entanto, para Sara, cada risada tímida de Eduarda ou cada gesto manhoso que a garota fazia para atrair a proteção de Emanuel era como uma agulha perfurando seu ego inflado.
Sara não era mulher de dividir. Ela fora talhada na administração de crises e na agressividade do mundo dos negócios, e ver Emanuel tratar aquela "estudante de museu" como uma boneca de porcelana a levava ao limite da sanidade.
Naquela tarde, Emanuel havia saído para uma reunião de emergência em um de seus estúdios na zona sul. Eduarda estava trancada em seu quarto — um aposento que Emanuel decorara com tons pastéis e prateleiras cheias de livros de arte —, imersa em seus estudos sobre o Renascimento. O silêncio da casa era interrompido apenas pelo som dos passos pesados de Sara, que bebia um vinho caro enquanto observava a porta fechada da rival.
— Sonsa... — sussurrou Sara, os lábios pintados de um vermelho escuro contorcendo-se em desdém. — Vamos ver se você continua sendo essa coisinha fofa quando o medo bater de verdade.
Sara tinha um contato, um fornecedor de exóticos que ocasionalmente usava em sessões de fotos para as campanhas de marketing dos estúdios de tatuagem. Com um telefonema curto e uma quantia generosa de dinheiro, ela conseguiu o que queria: uma cobra não peçonhenta, mas de aparência intimidadora, uma jiboia jovem e ágil, entregue discretamente nos fundos do prédio.
Com o animal em uma caixa de transporte camuflada, Sara esperou o momento em que Eduarda foi até a cozinha buscar um copo d’água. Com a agilidade de quem planeja um golpe de mestre, a loira deslizou para dentro do quarto da jovem. Ela soltou a serpente sob a cama de lençóis de algodão egípcio, garantindo que o animal se escondesse entre as sombras.
— Boa sorte com o seu novo amiguinho, princesinha — murmurou Sara, saindo do quarto segundos antes de Eduarda retornar.
Eduarda entrou no quarto, fechando a porta com suavidade. Ela se sentia exausta. A tensão constante de morar com Sara a deixava emocionalmente drenada, e seu único refúgio era o colo de Emanuel ou aquele quarto. Ela sentou-se na beira da cama, puxando um caderno de esboços, quando ouviu um som. Um roçar leve, quase imperceptível, vindo debaixo do móvel.
— Algum rato? — sussurrou ela para si mesma, o coração começando a acelerar.
Ela se inclinou lentamente, o cabelo castanho caindo sobre o rosto fino. Quando seus olhos encontraram o brilho das escamas e o movimento sinuoso do corpo do réptil que começava a sair debaixo da cama, o mundo de Eduarda desmoronou.
O grito que escapou de sua garganta foi agudo, carregado de um terror primitivo. Ela tropeçou para trás, caindo contra a escrivaninha, derrubando seus pincéis e tintas.
— Emanuel! Socorro! Emanuel! — ela gritava, a voz embargada pelo choro histérico.
Na sala, Sara sorria, saboreando o som do pânico. Ela esperou alguns segundos, fingindo surpresa, e caminhou calmamente até a porta do quarto, abrindo-a com um estrondo falso.
— Mas o que é esse escândalo agora? — Sara perguntou, cruzando os braços e fingindo tédio. — Você viu uma barata, Eduarda? Que patético.
— Tem uma cobra! — Eduarda apontou com o dedo trêmulo, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto empalidecido. — Sara, por favor, me ajuda! Tem uma cobra no meu quarto!
Sara olhou para o animal, que agora deslizava pelo tapete felpudo, e soltou uma risada anasalada.
— Ah, é só um bichinho. Deixe de ser frouxa, garota. É por isso que o Emanuel vai cansar de você. Você é um fardo, uma criança chorona que não sabe lidar com a vida real.
— Tira ela daqui... por favor... — Eduarda estava encolhida em cima da cadeira da escrivaninha, soluçando violentamente, sua natureza manhosa e dependente aflorando no nível máximo. Ela buscava desesperadamente por proteção, mas a única pessoa presente era sua algoz.
Nesse exato momento, a porta principal da cobertura se abriu. Emanuel entrou, o rosto marcado pelo cansaço do trabalho, mas seus sentidos ficaram alertas no instante em que ouviu os soluços vindos do corredor. Ele correu, empurrando Sara para o lado ao entrar no quarto de Eduarda.
A cena que ele encontrou fez seu sangue ferver. Eduarda estava em estado de choque, pálida como um cadáver, e a serpente estava a poucos metros dela.
— Emanuel! — Eduarda se jogou da cadeira em direção a ele assim que o viu.
Ele a aparou no ar, sentindo o corpo dela tremer como uma folha ao vento. Ela se agarrou ao seu pescoço com uma força desesperada, escondendo o rosto em seu ombro, soluçando de forma convulsiva.
— Calma, pequena. Eu estou aqui. Eu peguei você — ele disse, a voz rouca e protetora, enquanto seus olhos escaneavam o ambiente e paravam no animal.
Emanuel não tinha medo de répteis; ele tinha várias tatuagens de serpentes e já havia trabalhado com elas em convenções. Com uma mão ainda segurando Eduarda possessivamente contra seu corpo, ele usou a outra para pegar uma fronha de travesseiro. Com movimentos precisos e rápidos, ele capturou o animal, fechando a fronha com um nó firme.
Ele se virou para Sara, que permanecia encostada no batente da porta, observando a cena com uma sobrancelha arqueada, mas um brilho de nervosismo começando a surgir em seus olhos loiros.
— Como isso entrou aqui, Sara? — A voz de Emanuel era um sussurro perigoso, o tom que ele usava antes de uma explosão controlada.
— Como eu vou saber? — Sara deu de ombros, tentando manter a fachada de indiferença. — As janelas estavam abertas. Talvez tenha vindo do jardim vertical do prédio. Essas coisas acontecem.
— Não minta para mim — Emanuel deu um passo à frente, ainda carregando Eduarda, que não soltava seu pescoço por nada. — Eu conheço essa espécie. Ela não é nativa dessa região, muito menos de jardins suspensos urbanos. Alguém colocou isso aqui.
— Você vai me acusar agora? Só porque essa sonsa resolveu dar um show de teatro? — Sara elevou o tom, sua agressividade defensiva vindo à tona. — Ela quer a sua atenção, Emanuel! Ela faz esse tipo de coisa para você sentir pena dela!
— Ela está tendo uma crise de pânico, Sara! — Emanuel rugiu, fazendo ambas as mulheres estremecerem. — Olhe para ela!
Eduarda soltou um ganido baixo, apertando-se ainda mais contra Emanuel.
— Eu quero ir embora, Manu... — ela sussurrou entre os soluços. — Ela quer me matar... ela colocou o bicho aqui... eu vi ela rindo...
Emanuel sentiu uma onda de fúria como nunca sentira antes. Ele amava Sara, amava a força e a inteligência dela, mas aquela crueldade ultrapassava os limites do que ele estava disposto a mediar. Ele caminhou até Sara, parando a centímetros do rosto dela.
— Se você tocar nela de novo, se você tentar assustá-la ou machucá-la mais uma vez, eu juro que você sai desta casa com a roupa do corpo e nada mais — ele sibilou. — Você acha que é poderosa porque administra meus negócios? Eu posso substituir você em uma manhã. Mas a Eduarda... se você encostar na pureza dela de novo, você vai descobrir por que as pessoas têm medo de mim.
Sara empalideceu sob a maquiagem pesada. Ela viu, pela primeira vez, que sua posição não era tão intocável quanto imaginava. O amor de Emanuel por Eduarda não era apenas um capricho; era uma obsessão protetora que ela havia subestimado.
— Você está me ameaçando por causa dela? — Sara perguntou, a voz trêmula de mágoa e raiva.
— Eu estou estabelecendo as regras da minha casa — Emanuel respondeu com uma frieza glacial. — Agora, saia da minha frente.
Ele passou por Sara, levando Eduarda para a suíte principal. Ele a deitou na cama grande, cobrindo-a com o edredom, e sentou-se ao seu lado, acariciando seus cabelos enquanto ela tentava recuperar o fôlego.
— Shhh... passou. Eu estou aqui. Ninguém vai te machucar, Eduarda. Eu prometo.
— Eu tenho medo, Manu... — ela disse, a voz manhosa e infantilizada pelo trauma. — Ela me olha como se quisesse me destruir.
— Ela não vai fazer nada. Eu vou colocar câmeras em todos os cômodos, e vou contratar uma acompanhante para ficar com você quando eu não estiver — ele declarou, sua mente prática já traçando planos de segurança total. — Você é minha prioridade agora.
Eduarda estendeu a mão e tocou o rosto de Emanuel, os olhos ainda vermelhos.
— Você ainda ama ela? Mesmo depois disso?
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento. A imagem de Sara, vibrante e feroz, ainda exercia um poder sobre ele. O conflito entre o amor que sentia pelas duas era uma ferida aberta.
— Eu não consigo simplesmente apagar o que sinto, Eduarda. Mas o que ela fez foi imperdoável. Ela vai ter que reconquistar o meu respeito. E você... você só precisa descansar.
Ele ficou com ela até que o sono da exaustão a vencesse. Quando saiu do quarto, encontrou Sara na sala, sentada no escuro, bebendo direto da garrafa de vinho.
— Você vai me expulsar? — ela perguntou, a voz carregada de uma vulnerabilidade rara.
Emanuel parou diante dela, as mãos nos bolsos da calça.
— Eu deveria. Mas eu sei que você fez isso por desespero. Você é competitiva e possessiva, Sara. Mas entenda uma coisa: se você quer continuar na minha vida, você vai ter que aceitar a Eduarda como parte dela. Não como uma inimiga, mas como algo que eu valorizo tanto quanto valorizo você.
— É impossível — Sara sussurrou. — Ela é o oposto de tudo o que eu sou.
— Exatamente — disse Emanuel. — E é por isso que eu preciso das duas. O dia em que você entender que a doçura dela não diminui a sua força será o dia em que teremos paz. Até lá, você está em observação. Se eu vir mais um gesto de hostilidade, acabou para você.
Sara baixou a cabeça, as lágrimas finalmente caindo. Ela não pediu desculpas — não era de seu feitio —, mas o silêncio que se seguiu foi uma aceitação amarga de sua nova realidade.
Emanuel voltou para o quarto e deitou-se ao lado de Eduarda, observando o peito da jovem subir e descer em um sono inquieto. Ele sentia a tensão em seus próprios músculos, a pressão de manter duas forças opostas em equilíbrio. Ele era o mestre das tintas, capaz de criar beleza a partir da dor das agulhas, e agora, sua própria vida era a tatuagem mais complexa que já tentara desenhar: uma obra onde o veneno e a seda teriam que aprender a coexistir na mesma pele.
Ele sabia que Sara não mudaria da noite para o dia, e que Eduarda continuaria sendo o alvo de suas provocações silenciosas. Mas ele também sabia que, sob sua guarda, aquele império de contrastes permaneceria de pé. Porque Emanuel não era um homem que aceitava perdas. Ele teria o fogo de Sara para queimar seus inimigos e a doçura de Eduarda para curar suas feridas. E, no final, ambas pertenceriam a ele, presas em sua teia de proteção, luxo e controle.