Nenhum
O Tríptico da Manipulação e o Nó de Veludo
A luz de velas do restaurante "L'Artiste" dançava nos olhos de Eduarda, que observava o cardápio com uma curiosidade quase infantil. Emanuel a observava, sentindo aquela familiar onda de proteção. Ele adorava como ela parecia pequena nas cadeiras de veludo, como se o mundo fosse grande demais para ela e ele fosse o único capaz de torná-lo seguro.
— O que você vai querer, pequena? — perguntou ele, a voz suavizada pela atmosfera romântica. — Peça o que quiser. Hoje é sobre comemorar o sucesso da sua curadoria.
— Eu não sei, Manu... — ela murmurou, manhosa, inclinando a cabeça para o lado. — Você escolhe para mim? Você sempre sabe do que eu gosto.
Emanuel sorriu, prestes a chamar o garçom, quando seu celular sobre a mesa começou a vibrar freneticamente. O nome "Sara" brilhava na tela como um sinal de alerta. Ele ignorou. A vibração parou, apenas para recomeçar dois segundos depois. E depois mais uma vez. Na quarta tentativa, ele atendeu, a expressão endurecendo.
— Sara, eu disse que estava ocupado. O que foi ago...
— Emanuel... — A voz do outro lado era um fio ralo, entrecortada por arquejos que soavam como agonia pura. — Eu não... não consigo respirar. Meu peito... dói muito. Eu caí na cozinha... por favor...
— Sara? Sara! — Emanuel levantou-se num salto, a cadeira raspando o chão com um ruído estridente. — Onde você está? Onde está o seu remédio?
— No chão... não alcanço... Emanuel, eu estou com medo... — O som de algo caindo, um baque surdo, foi seguido por um silêncio aterrorizante.
Emanuel empalideceu. Eduarda levantou-se também, os olhos arregalados de preocupação.
— O que houve, Manu? Ela está mal?
— Ela desmaiou. Disse que não conseguia respirar. Temos que ir agora!
O jantar foi abandonado. Emanuel dirigiu como um louco, furando sinais, enquanto Eduarda, no banco do passageiro, apertava as mãos contra o peito, rezando baixinho. Ela sentia uma culpa genuína por ter desejado uma noite a sós com ele, enquanto a outra mulher, por mais difícil que fosse, parecia estar morrendo.
Quando invadiram a cobertura, Emanuel correu para a cozinha. Sara estava caída perto da ilha de mármore, vestindo uma camisola de seda branca, a pele pálida e os lábios entreabertos. Ele a pegou no colo, desesperado.
— Sara! Fala comigo!
Ela abriu os olhos devagar, as pupilas dilatadas, e agarrou a camisa de Emanuel com uma força surpreendente para alguém que acabara de desmaiar.
— Você veio... — ela sussurrou, a voz trêmula. — Achei que... eu ia morrer sozinha...
— Calma, eu estou aqui. Vou te levar para o hospital.
— Não... — ela tossiu, uma tosse seca e dramática. — Só me leva para a cama. Acho que foi uma crise de arritmia... o médico disse que pode acontecer com estresse. Fica comigo? Por favor, Emanuel... não me deixa.
Eduarda, parada à porta da cozinha, observava a cena com o coração na mão. Ela se aproximou devagar, querendo ajudar.
— Eu posso pegar um copo de água com açúcar, ou...
— Sai daqui! — Sara sibilou, a voz subitamente forte por um milésimo de segundo antes de voltar ao tom moribundo. — Você já causou estresse suficiente por hoje.
Emanuel a levou para o quarto, deixando Eduarda sozinha na sala. A jovem estudante sentiu um nó na garganta. Ela caminhou até a cozinha para guardar as chaves que Emanuel havia jogado no balcão e, ao passar pelo corredor lateral que dava para o closet de Sara, viu algo que a fez parar.
A porta do closet estava entreaberta. No chão, um frasco de maquiagem artística — um pó translúcido usado para dar aspecto pálido à pele — estava caído, aberto. Perto dele, um espelho de mão e um lenço sujo de uma substância que imitava suor frio. Eduarda sentiu um calafrio. Ela caminhou até o quarto de Sara e espiou pela fresta da porta.
Sara estava deitada, com a cabeça no colo de Emanuel. Ele acariciava a testa dela, preocupado. Assim que Emanuel se virou para pegar um copo de água na cabeceira, Eduarda viu o reflexo de Sara no espelho da penteadeira. A loira não tinha os olhos fechados em agonia; ela estava olhando para as próprias unhas, com um sorriso de triunfo cruel nos lábios, antes de rapidamente retomar a expressão de sofrimento quando Emanuel voltou a olhá-la.
Eduarda recuou, sentindo o sangue ferver. A timidez era sua marca, mas a sensibilidade de historiadora da arte a tornava uma observadora implacável de detalhes. Ela fora enganada. Emanuel estava sendo manipulado. A mansidão de Eduarda não era fraqueza, e naquele momento, algo dentro dela se quebrou para dar lugar a uma resolução silenciosa e sombria.
Na manhã seguinte, Emanuel estava exausto. Passara a noite em claro cuidando de uma Sara que "milagrosamente" começou a melhorar ao amanhecer.
— Ela está dormindo agora — disse Emanuel, encontrando Eduarda na cozinha. — Sinto muito pelo jantar, pequena.
— Está tudo bem, Manu — ela disse, a voz mais doce do que o normal, escondendo a tempestade interna. — O que importa é que ela está bem.
— Você é um anjo, Eduarda. Eu não mereço sua paciência.
— Você merece tudo, Manu. — Ela se aproximou e o abraçou pela cintura, escondendo o rosto em seu peito. — Por isso, hoje à noite, eu preparei uma surpresa. Já que não pudemos jantar fora, vamos jantar no meu quarto. Só nós dois. Sem interrupções.
Emanuel sorriu, sentindo o peso do estresse diminuir.
— Eu adoraria.
O que Emanuel não sabia era que, enquanto ele tomava banho, Eduarda havia feito uma pequena "compra" em uma loja especializada que ele jamais imaginaria que ela frequentaria. No quarto dela, o ambiente estava transformado. Velas de baunilha queimavam, e uma música clássica suave preenchia o ar.
Sara, no quarto ao lado, planejava sua próxima "crise". Ela já havia separado um frasco de colírio para simular uma reação alérgica nos olhos. Ela esperaria o momento em que ouvisse os risos dos dois para atacar novamente.
Por volta das oito da noite, Emanuel entrou no quarto de Eduarda. Ela estava usando uma camisola de renda branca, parecendo uma visão de pureza.
— Entre, Manu. Feche a porta. Tranque-a — ela pediu, com aquele jeito manho que o deixava louco.
Ele obedeceu, girando a chave. Assim que se aproximou da cama, Eduarda o abraçou, guiando-o para que ele se sentasse.
— Eu quero te mostrar uma coisa que comprei para a nossa "exposição" particular — ela sussurrou no ouvido dele.
Antes que Emanuel pudesse processar a mudança no tom de voz dela, Eduarda tirou de trás do travesseiro um par de algemas de aço profissional, revestidas de veludo negro. Com uma agilidade que ele não sabia que ela possuía, ela prendeu o pulso esquerdo dele à cabeceira de ferro da cama.
— Eduarda? O que é isso? — Emanuel riu, achando que era uma brincadeira erótica.
— É para garantir que você não saia daqui, Manu — ela disse, prendendo o outro pulso.
— Ok, a brincadeira foi boa. Agora solta. Eu não gosto de me sentir preso — ele disse, a voz ficando séria quando percebeu que ela não estava rindo.
— Você não vai sair, Emanuel. Nem que a Sara grite, nem que ela finja que está morrendo, nem que a casa caia. Hoje, você é só meu.
Emanuel tentou puxar os pulsos, mas as algemas eram resistentes. O metal frio contrastava com o veludo. Ele sentiu uma pontada de raiva, o seu lado controlador sendo desafiado.
— Eduarda, solta agora. Isso não tem graça. Eu estou mandando.
Eduarda não se abalou. Ela se sentou na beira da cama, pegou um livro de poesias e começou a ler em voz alta, ignorando o tom autoritário dele.
— "O amor é um nó que não se desfaz com a força, mas com a paciência" — leu ela, calmamente.
— Eduarda! — ele rugiu, os músculos do braço saltando sob a pele tatuada. — Abre essa porcaria agora! Eu estou ficando nervoso!
Ela fechou o livro, levantou-se e buscou uma bandeja de frutas e queijos que havia deixado preparada. Ela pegou um pedaço de morango e o levou aos lábios dele.
— Você deve estar com fome. Não jantou ontem — ela disse, com um sorriso doce e manho.
— Eu não vou comer nada! Me solta, Eduarda! Eu não estou brincando!
— Se você gritar, ela vai ouvir. E se ela ouvir, vai vir aqui e ver que você está sob o meu controle. Você quer que a Sara veja o grande Emanuel tatuador algemado pela "menininha tímida"? — Ela inclinou a cabeça, os olhos brilhando com uma inteligência perversa.
Emanuel parou de lutar. O argumento dela atingira seu ponto mais sensível: o orgulho. Ele respirou fundo, tentando acalmar o coração.
— Por que você está fazendo isso?
— Porque eu vi a maquiagem dela, Manu. Eu vi que ela mentiu. E eu vi que você, tão racional e prático, é um bobo quando se trata dela. Eu não vou deixar ela roubar mais um minuto do nosso tempo com mentiras.
Emanuel ficou em silêncio por um longo tempo. A revelação de que Sara mentira o atingiu como um soco, mas a audácia de Eduarda era o que realmente o deixava em choque.
— Você me trancou... — ele murmurou, incrédulo.
— Eu te protegi — ela corrigiu, colocando o morango na boca dele. — Come, Manu. Você precisa de energia.
Durante as próximas horas, o quarto de Eduarda tornou-se uma bolha de isolamento. Sara, no corredor, começou a bater na porta cerca de meia hora depois.
— Emanuel? Emanuel, eu estou me sentindo tonta de novo! Abre aqui!
Emanuel abriu a boca para responder, mas Eduarda colocou a mão sobre os lábios dele, pressionando o corpo macio contra o dele.
— Shhh... — ela sussurrou. — Deixe-a gritar.
— Emanuel! Eu sei que você está aí com essa garota! — Sara gritava, esmurrando a madeira. — Eu vou desmaiar! Emanuel!
Do lado de dentro, Eduarda continuava manha. Ela pegou um copo de água e deu na boca de Emanuel, cuidando dele como se ele fosse um rei inválido. Ela lia trechos de História da Arte, falava sobre seus sonhos e, de vez em quando, deixava beijos leves no pescoço dele, ignorando os protestos que diminuíam de intensidade à medida que as horas passavam.
Emanuel estava furioso, sim. Sua mente racional gritava que aquilo era loucura. Mas, ao mesmo tempo, havia algo hipnótico na dedicação de Eduarda. Ela o alimentava, o hidratava e o envolvia em uma atmosfera de paz que ele nunca tivera. Pela primeira vez em anos, ele não precisava resolver nada. Não precisava mediar brigas. Ele estava apenas... ali.
Lá fora, Sara finalmente desistiu. Os gritos cessaram e o som de seus passos furiosos ecoou em direção ao próprio quarto. Ela estava espumando de ódio, planejando como destruiria Eduarda no dia seguinte, mas, por aquela noite, ela havia perdido.
— Ela parou — disse Emanuel, a voz cansada. — Agora me solta.
— Só amanhã de manhã, Manu — Eduarda disse, aninhando-se ao lado dele na cama, a cabeça em seu peito. — Eu disse que você seria meu por uma noite inteira.
— Você vai se arrepender disso quando eu me soltar — ele ameaçou, mas não havia mais convicção em sua voz.
— Talvez. Mas você vai se lembrar desta noite para sempre.
Eduarda dormiu calmamente, o rosto sereno de quem havia cumprido uma missão. Emanuel, porém, demorou a fechar os olhos. Ele olhava para as algemas e depois para a garota ao seu lado. Ele percebeu que subestimara Eduarda. Ela não era apenas água; ela era um oceano silencioso que, quando irritado, poderia afogá-lo em sua própria mansidão.
Ao amanhecer, a luz cinzenta da manhã filtrou-se pelas cortinas. Eduarda acordou, espreguiçou-se com um bocejo manho e, sem dizer uma palavra, pegou a chave no criado-mudo e soltou os pulsos de Emanuel.
Ele sentou-se na cama, massageando os pulsos avermelhados. Sua expressão era sombria, os olhos fixos nela. Eduarda sentou-se à sua frente, voltando à sua postura tímida, os ombros encolhidos.
— Você está bravo? — ela perguntou, a voz pequena.
Emanuel levantou-se, sua altura dominando o quarto. Ele caminhou até ela, parando a milímetros de seu rosto. A tensão era sufocante.
— Nunca mais — ele disse, a voz rouca e perigosa — faça isso de novo. Você entendeu?
— Eu entendi, Manu... — ela murmurou, olhando para baixo.
Ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo.
— Eu estou puto com você. De verdade. Mas... — Ele fez uma pausa, um brilho de admiração relutante cruzando seus olhos. — Você teve coragem. Ninguém nunca se atreveu a me desafiar assim.
Ele a soltou e caminhou até a porta. Antes de sair, ele parou.
— E sobre a Sara... eu vou resolver. Não ouse mentir para mim sobre o que você viu. Se ela estava mesmo fingindo, as coisas vão mudar nesta casa de um jeito que ela não vai gostar.
Emanuel saiu do quarto e encontrou Sara na sala, já vestida, com uma expressão de fúria absoluta.
— Onde você estava?! Eu quase morri ontem à noite e você se trancou com aquela vagabunda!
Emanuel caminhou até o bar, serviu-se de um café forte e olhou para Sara com uma frieza que a fez congelar.
— Engraçado você dizer que quase morreu, Sara. Porque eu encontrei a sua maquiagem de "cadáver" no closet.
Sara abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. O pânico brilhou em seus olhos.
— Emanuel, eu... eu posso explicar... eu estava me sentindo mal de verdade, eu só realcei para você notar...
— Chega — ele cortou, a voz como um trovão. — A Eduarda me provou ontem que eu tenho sido um idiota. Você mentiu para estragar o momento dela. A partir de hoje, Sara, se você tiver um ataque cardíaco na minha frente, eu vou chamar a ambulância, mas não vou deixar de jantar. Você perdeu o seu crédito.
Sara caiu no sofá, as lágrimas de verdade começando a surgir, mas desta vez Emanuel não se aproximou. Ele olhou para o corredor e viu Eduarda saindo do quarto, ainda com a camisola de renda, observando tudo com sua expressão doce e observadora.
Emanuel percebeu que seu plano de ter as duas estava funcionando, mas não da forma que ele imaginava. Ele não era o único mestre naquele jogo. Sara tinha o fogo, Eduarda tinha o nó de veludo, e ele... ele estava irremediavelmente preso entre as duas, amando o caos que ambas criavam em sua vida perfeitamente controlada.
— Eduarda — chamou Emanuel.
— Sim, Manu? — ela respondeu, manhosa.
— Vá se vestir. Temos muito o que conversar sobre as novas regras desta cobertura.
Sara olhou de uma para o outro, percebendo que a dinâmica de poder havia mudado. Eduarda não era mais a "intrusa". Ela era a jogadora que havia algemado o rei, e Sara teria que lutar muito mais sujo se quisesse recuperar seu território. A guerra sob o teto de Emanuel estava longe de terminar, mas, naquela manhã, o cheiro de baunilha de Eduarda parecia muito mais forte do que o perfume caro de Sara.