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O Eco das Grades de Cristal
A cobertura de Emanuel nunca pareceu tão silenciosa e, ao mesmo tempo, tão barulhenta. O silêncio vinha da ausência de música ou de risadas, mas o barulho era o da tensão constante, uma frequência aguda que vibrava entre as paredes de mármore e vidro. Seis meses haviam se passado desde o incidente no interior, e a rotina de Emanuel havia se tornado um exercício de equilíbrio entre a agressividade corporativa de Sara e a fragilidade emocional de Eduarda.
Eduarda recuperara parte de sua liberdade, mas era uma liberdade vigiada, uma coleira de seda que Emanuel segurava com punho de ferro. Ela podia ir à faculdade, mas apenas em horários rígidos, transportada por motoristas que eram, na verdade, seus carcereiros particulares. Ela podia circular pela casa, mas cada passo seu era monitorado por câmeras e pelo olhar onipresente de Emanuel.
Naquela tarde, o sol poente banhava a sala de estar em tons de laranja e púrpura. Eduarda estava sentada no chão, cercada por livros de História da Arte, tentando se perder nas cores de um catálogo sobre o Impressionismo. Ela usava um vestido de renda branca, curto e delicado, que contrastava com a mobília escura e moderna.
— Você ainda está com esse livro? — A voz de Sara cortou o ar como uma lâmina de aço.
A loira entrou na sala com a energia de um furacão. Ela vestia um terninho cinza impecável, os saltos agulha estalando contra o chão com uma precisão militar. Ela jogou sua bolsa de grife sobre a mesa de jantar e caminhou até Eduarda, parando acima dela como um predador observa uma presa que não oferece resistência.
— Emanuel disse que você deveria estar pronta para o jantar com os investidores de Dubai — continuou Sara, cruzando os braços. — Mas, em vez disso, você está aqui, parecendo uma criança perdida em um orfanato de luxo.
Eduarda levantou os olhos, a expressão suave e sensível imediatamente se transformando em uma máscara de insegurança. Ela fechou o livro devagar, os dedos roçando a capa com carinho.
— O Emanuel disse que eu não precisava me apressar, Sara — sussurrou Eduarda, a voz manhosa e baixa. — Ele disse que eu poderia descansar um pouco antes de começar a me arrumar.
— "O Emanuel disse", "O Emanuel disse"... — Sara ironizou, revirando os olhos. — Você não tem uma vontade própria, garota? Você é um peso morto nesta casa. Enquanto eu passo o dia limpando a sujeira dos estúdios e garantindo que o império dele não desmorone, você fica aqui, sendo "doce" e "frágil". Sabe o que a sua fragilidade faz? Ela drena a energia dele.
Eduarda sentiu o nó na garganta. As provocações de Sara eram diárias, uma chuva ácida que corroía sua autoestima pouco a pouco. Ela não sabia como revidar. Ela não tinha as palavras afiadas de Sara, nem sua confiança inabalável.
— Eu não dreno a energia dele... — disse Eduarda, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Eu cuido dele de um jeito que você não consegue. Eu dou paz a ele.
— Paz? — Sara soltou uma risada estridente e amarga. — Você dá a ele um problema constante. Você é uma vulnerabilidade, Eduarda. Aquele psicopata no interior foi só o começo. Enquanto você estiver aqui, agindo como uma vítima indefesa, você será o calcanhar de Aquiles do Emanuel. E eu não vou deixar você destruir o que nós construímos.
— Você me odeia porque ele me ama! — explodiu Eduarda, embora sua explosão fosse apenas um soluço mais alto. Ela se levantou, o corpo esguio tremendo sob o vestido de renda. — Você tem inveja porque ele me olha com ternura, e para você ele só dá ordens e trabalho!
Sara deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Eduarda. A diferença de altura e de presença era esmagadora.
— Ele te olha com ternura porque você é um bicho de estimação, Eduarda! — gritou Sara, o rosto ficando vermelho de irritação. — Ele te ama como se ama um objeto valioso e quebrado. Eu sou a igual dele. Eu sou o sangue e o suor. Você é só o enfeite que ele usa para se sentir um salvador. Você é patética!
Eduarda desabou. Ela se encolheu no sofá, escondendo o rosto nas mãos, os soluços sacudindo seus ombros. O silêncio de sua resposta era sua única defesa, uma sensibilidade que se fechava para o mundo exterior enquanto Sara continuava a gritar, a descarregar meses de frustração por ter que dividir o teto e o homem que amava com alguém que ela considerava inferior.
— Pare de chorar! — berrou Sara, gesticulando freneticamente. — Esse choro me dá náuseas! É sempre a mesma coisa. Você não enfrenta nada, você só se esconde atrás dessa cara de coitada!
— Já chega, Sara.
A voz veio do topo da escada, fria e desprovida de qualquer emoção. Emanuel estava parado ali, observando a cena. Ele não usava paletó, apenas uma camisa social preta com as mangas dobradas, revelando as tatuagens que subiam pelos seus braços como sombras vivas. Sua expressão era sombria, os olhos escuros e profundos como poços de obsidiana.
O silêncio caiu sobre a sala instantaneamente. Sara respirou fundo, tentando recuperar a compostura, enquanto Eduarda correu em direção a ele, subindo os degraus e se jogando em seus braços.
— Manu... ela não para... ela diz coisas horríveis — soluçou Eduarda, agarrando-se à camisa dele, buscando a proteção que era a base de sua existência.
Emanuel a segurou com firmeza, uma das mãos espalmada nas costas dela, a outra acariciando seus cabelos com uma possessividade mecânica. Ele olhou para baixo, para Sara, que permanecia no centro da sala, desafiadora.
— Eu ouvi os gritos lá de cima — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa. — Eu já te disse que não quero esse tipo de caos na minha casa, Sara.
— E eu já te disse que não suporto a incompetência emocional dela, Emanuel! — rebateu Sara, sem se intimidar. — Nós temos um jantar importante. Ela é uma distração. Ela é um risco. Você está ficando mole por causa dessa menina.
Emanuel desceu os degraus lentamente, levando Eduarda consigo, mantendo-a colada ao seu corpo. Ele parou diante de Sara. A tensão entre os três era quase palpável, um triângulo de poder, desejo e ressentimento.
— Eu não estou ficando mole — afirmou Emanuel, e havia uma crueldade silenciosa em seu tom. — Eu estou mantendo o que é meu. Eduarda é minha. Você é minha. A diferença é que ela entende o lugar dela. Ela é o meu refúgio. Você é a minha arma. Se a arma começar a disparar contra o refúgio, ela perde a utilidade para mim.
Sara empalideceu levemente, o insulto atingindo o alvo.
— Você está me ameaçando? — perguntou ela, a voz falhando por um milésimo de segundo. — Depois de tudo o que eu fiz por você?
— Eu estou estabelecendo a ordem — disse Emanuel, voltando sua atenção para Eduarda, que ainda soluçava baixinho contra seu peito. Ele levantou o queixo dela, obrigando-a a olhar para ele. — Pare de chorar, pequena. Você vai se arrumar. Quero que você use aquele colar de safiras que eu te dei. Ele combina com a cor da sua tristeza.
Eduarda assentiu, limpando as lágrimas com as costas das mãos, a submissão voltando a reinar.
— Sim, Manu... eu vou.
Ela subiu as escadas, deixando os dois a sós. Emanuel voltou seu olhar para Sara. A sombra em seu rosto parecia ter crescido.
— Você precisa parar de testar os limites dela, Sara — disse ele, caminhando até o bar e servindo-se de um uísque puro. — Eduarda não é como você. Ela não tem a sua casca. Se você continuar a quebrá-la, eu vou ter que consertá-la, e isso toma o tempo que eu deveria estar dedicando aos negócios.
— Você a ama, Emanuel? — perguntou Sara subitamente, a vulnerabilidade aparecendo pela primeira vez em seus olhos. — Ou você só ama o fato de que ela depende de você para respirar?
Emanuel bebeu um gole longo do uísque, sentindo o líquido queimar sua garganta. Ele olhou para o gelo no copo, pensativo.
— Eu a amo porque ela é pura — respondeu ele, a voz soando distante. — E eu te amo porque você é ambiciosa. Eu preciso da pureza dela para não esquecer quem eu sou, e preciso da sua ambição para ser quem eu quero ser. Por que é tão difícil para você aceitar que uma vida não exclui a outra?
— Porque dói, Emanuel! — Sara explodiu, as lágrimas de raiva brilhando em seus olhos. — Dói ver você protegê-la de mim como se eu fosse o monstro da história. Eu construí isso com você! Eu estava lá quando você não tinha nada além de uma máquina de tatuagem e um sonho. Ela só chegou quando o banquete estava pronto.
Emanuel caminhou até ela e colocou a mão livre em seu pescoço, apertando levemente, um gesto que era metade carinho e metade controle.
— Você é a rainha do meu império, Sara. Nada vai mudar isso. Mas ela é a joia da minha coroa. Um rei não joga fora sua joia só porque a rainha é ciumenta.
Sara fechou os olhos, entregando-se ao toque dele por um momento. Ela odiava o quanto precisava da validação dele, o quanto sua força dependia da aprovação daquele homem sombrio.
— Ela vai acabar destruindo você, Manu. A fraqueza dela vai te puxar para baixo.
— Deixe que eu me preocupe com isso — disse ele, soltando-a. — Agora, vá se arrumar. Quero as duas impecáveis hoje à noite. Quero que o mundo veja que Emanuel tem tudo o que um homem pode desejar: a força e a beleza, o ferro e a seda.
Sara saiu da sala sem dizer mais nada, a derrota amarga em sua boca.
Horas depois, o jantar transcorria em um restaurante privativo de altíssimo luxo. Emanuel estava sentado à cabeceira, uma figura de autoridade absoluta. À sua direita, Sara brilhava em um vestido de lantejoulas douradas, falando com eloquência sobre as taxas de juros e a expansão para o mercado asiático. À sua esquerda, Eduarda era uma visão de elegância romântica, usando um vestido de seda azul-marinho que realçava sua pele pálida e o colar de safiras que Emanuel insistira que ela usasse.
Eduarda falava pouco, limitando-se a sorrir timidamente e a responder de forma carinhosa quando Emanuel a incluía na conversa. Ela buscava a proximidade física dele o tempo todo, sua mão repousando sobre a coxa dele por baixo da mesa, um apoio silencioso que Emanuel retribuía com apertos possessivos ocasionais.
— A senhorita Eduarda é realmente uma joia, Emanuel — comentou um dos investidores, um homem idoso e influente. — Sua sensibilidade para a arte é fascinante.
— Ela é o meu melhor investimento — respondeu Emanuel, o olhar sombrio fixo na namorada.
Sara apertou o talher com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos. Ela odiava como Eduarda conseguia encantar as pessoas sem fazer o menor esforço, apenas sendo aquela figura frágil e doce.
O jantar terminou e eles voltaram para a cobertura. O álcool e a adrenalina da noite haviam deixado a tensão ainda mais alta. Assim que a porta se fechou, Sara se virou para Eduarda.
— Você agiu como uma idiota hoje — sibilou Sara. — "A arte é a expressão da alma"... que clichê barato, Eduarda. Aqueles homens riram de você pelas costas.
Eduarda, exausta e com os pés doendo, sentiu as lágrimas voltarem.
— Eles foram gentis comigo, Sara. Por que você tem que estragar tudo?
— Porque alguém tem que te dizer a verdade! — gritou Sara. — Você é uma decoração, nada mais!
— Sara, para o quarto. Agora — ordenou Emanuel, a voz soando como um chicote.
Sara olhou para ele, a fúria queimando em seus olhos, mas a autoridade dele era inquestionável. Ela subiu as escadas batendo os pés, deixando o eco de sua raiva para trás.
Emanuel voltou-se para Eduarda. Ela estava encolhida perto da janela, olhando para as luzes da cidade, os ombros sacudindo em soluços silenciosos.
— Venha aqui, pequena — chamou ele, sentando-se no sofá grande de couro.
Eduarda caminhou até ele e sentou-se em seu colo, escondendo o rosto em seu pescoço. Ela cheirava a baunilha e a tristeza.
— Ela me odeia tanto, Manu... por que ela não pode me deixar em paz? — soluçou ela, sua voz manhosa e quebrada.
— Ela é intensa, Eduarda. Ela não sabe lidar com a paz que você traz — disse Emanuel, acariciando as costas dela. — Mas você não precisa se preocupar com ela. Eu estou aqui. Eu sempre vou te proteger.
— Você promete? — perguntou ela, levantando o rosto para olhá-lo, os olhos úmidos e suplicantes.
— Eu prometo. Você é minha, Eduarda. Nada e ninguém vai te tirar de mim. Nem mesmo a Sara.
Ele a beijou com uma intensidade que era metade proteção e metade posse. Eduarda entregou-se totalmente, sua dependência emocional sendo alimentada por cada toque dele. Ela sabia que vivia em uma gaiola, mas contanto que Emanuel fosse o dono da chave, ela sentia que o mundo exterior não importava.
No quarto ao lado, Sara ouvia o silêncio que se seguia aos soluços. Ela estava sentada na cama, olhando para o vazio. Ela sabia que Emanuel estava com ela agora, confortando-a, sendo o herói que Eduarda precisava. A raiva de Sara não era apenas contra Eduarda, mas contra a sua própria incapacidade de ser aquela figura doce e frágil.
Emanuel, no entanto, permanecia no centro de tudo. Ele sentia o peso das duas em sua vida. A fúria de Sara o mantinha alerta, e a manha de Eduarda o mantinha calmo. Ele sabia que o conflito entre as duas nunca terminaria, que a guerra entre o silêncio de uma e os gritos da outra seria a trilha sonora de seus dias.
Mas ele não se importava. Enquanto ele pudesse segurar a mão de Sara nos negócios e sentir o corpo de Eduarda tremendo em seus braços à noite, ele tinha o controle total. Ele era o mestre do caos e o guardião da paz.
O sol começou a nascer no horizonte de São Paulo, iluminando a cobertura onde um homem sombrio dormia entre duas mulheres que o amavam de formas opostas e destrutivas. Emanuel sabia que o preço daquele equilíbrio era alto, mas ele estava disposto a pagar cada centavo. Ele tinha a seda e tinha o ferro. E, naquele labirinto de vidro que ele chamava de lar, ele era o único que sabia o caminho de saída — um caminho que ele nunca pretendia mostrar a nenhuma das duas.