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O Regresso do Predador e o Gosto do Medo
A luz que entrava pelas janelas da cobertura parecia mais fria naquela manhã. Eduarda estava sentada na ponta da cama, as mãos pequenas entrelaçadas sobre o colo, os olhos vermelhos e inchados denunciando uma noite de pranto silencioso. Emanuel, de pé diante do espelho enquanto abotoava os punhos de sua camisa social preta, observava o reflexo da namorada. Ele odiava vê-la assim, murcha como uma flor sem água, mas sua natureza sombria e possessiva gritava que mantê-la trancada era a única forma de garantir que ela continuaria sendo sua.
— Emanuel... por favor — sussurrou ela, a voz carregada de uma manha desesperada. — É o aniversário da minha prima. Minha tia não para de ligar. Eu sinto tanta falta da minha família. Só alguns dias.
Emanuel terminou de abotoar a camisa e se virou, caminhando até ela com passos lentos e predatórios. Ele se ajoelhou entre as pernas dela, segurando seu rosto delicado com as mãos tatuadas. O contraste entre a pele alva de Eduarda e a tinta escura de seus dedos era a imagem perfeita da dinâmica entre os dois.
— Você sabe que o mundo lá fora não é gentil com você, pequena — disse ele, a voz soando como um trovão baixo. — Especialmente agora, com esse... admirador anônimo rondando. Como posso deixar você ir para outra cidade sem mim?
— Eu vou ficar na casa da minha tia o tempo todo! — Eduarda se inclinou para frente, roçando o nariz no dele, buscando o ponto fraco do homem que a governava. — Eu juro. Eu não vou nem ao quintal se você não quiser. Eu só preciso sair destas paredes por um momento. Eu me sinto morrendo aqui.
Lágrimas frescas rolaram pelo rosto dela, e Emanuel sentiu o impacto. Ele era um homem prático e rígido, mas a vulnerabilidade de Eduarda era sua maior fraqueza. Ele não podia acompanhá-la; tinha uma fusão de estúdios em Londres sendo finalizada naquela semana e Sara estava no limite de sua paciência com suas distrações domésticas.
— Tudo bem — cedeu ele, fechando os olhos por um segundo. — Mas com condições. Dois seguranças meus estarão na porta da casa da sua tia. Você não desliga o celular um minuto sequer. E se eu sentir que você está me escondendo algo, eu mesmo busco você pelos cabelos. Entendido?
Eduarda soltou um soluço de alívio e se jogou nos braços dele, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Obrigada, Manu... obrigada! Eu te amo tanto.
Emanuel a apertou com força, aspirando o perfume de baunilha que emanava dela. Ele sentia uma premonição ruim, um aperto no peito que a lógica não explicava. Mas, ao ver o brilho voltando aos olhos dela, ele forçou o sentimento para o fundo de sua mente sombria.
A viagem para a pequena cidade no interior foi tranquila, mas Eduarda sentia o peso dos olhos dos seguranças de Emanuel sobre ela o tempo todo. Ao chegar na casa da tia, uma construção antiga e acolhedora, ela se sentiu momentaneamente livre. O cheiro de bolo de fubá e o barulho da família pareciam um bálsamo.
No entanto, a quilômetros dali, em um carro estacionado em uma esquina estratégica, olhos obsessivos observavam a chegada da jovem.
Vitor não era um estranho para Eduarda, embora ela mal se lembrasse dele. Ele a conhecera antes de Emanuel, antes de toda a riqueza e do isolamento. Ele fora o primeiro a se encantar pela timidez dela, mas o pai de Eduarda, percebendo a intensidade doentia no olhar do rapaz, o afastara com ameaças e violência. Vitor nunca aceitou. Para ele, Emanuel era apenas um usurpador que havia comprado o silêncio e o corpo de sua musa com ouro e segurança.
— Eu cheguei primeiro, Eduarda — murmurou Vitor para si mesmo, apertando o volante. — Ele não ama sua alma como eu amo. Ele só ama a posse.
Na segunda noite da visita, a festa de aniversário estava em pleno vigor. A casa estava cheia de parentes e amigos de infância. Eduarda, usando um vestido floral leve e romântico, tentava sorrir, mas seu pensamento estava em Emanuel. Ela sentia falta do toque firme dele, da segurança opressiva que, ironicamente, agora parecia ser a única coisa que a fazia se sentir inteira.
— Está tudo bem, querida? — perguntou a tia, aproximando-se com um prato de doces. — Você parece tão aérea.
— Estou bem, tia. Só estou um pouco cansada — mentiu ela, forçando um sorriso tímido.
— Vá tomar um ar no jardim dos fundos. Está uma noite linda e os seguranças do seu namorado estão logo ali no portão lateral. Ninguém vai te incomodar.
Eduarda assentiu e caminhou para o jardim. O ar da noite estava fresco. Ela se sentou em um banco de madeira, olhando para o celular, esperando uma ligação de Emanuel. De repente, um estalo de galhos quebrados a fez pular.
— Emanuel? — chamou ela, o coração batendo rápido.
— Ele não está aqui, Eduarda. Ele nunca estaria aqui por você.
Um homem saiu das sombras das árvores frutíferas. Ele era magro, com olhos que brilhavam com uma febre que Eduarda reconheceu instantaneamente. Era o olhar de alguém que não via a realidade, apenas a própria obsessão.
— Quem é você? — perguntou ela, levantando-se, a voz falhando. — Seguranças!
— Eles não vão ouvir — disse Vitor, dando um passo à frente. — Eu os distraí. Foi fácil. Emanuel confia demais no dinheiro dele, mas o dinheiro não compra a lealdade de quem tem medo de uma faca na garganta.
Eduarda tentou correr, mas Vitor foi mais rápido. Ele a segurou pelos pulsos com uma força que a fez soltar um grito abafado.
— Você não se lembra de mim, não é? — perguntou ele, a voz trêmula de emoção. — Eu te via na biblioteca todos os dias. Eu te mandava as cartas que seu pai queimava. Eu sou o homem que você deveria ter amado, antes daquele tatuador sujo te transformar em um troféu.
— Me solta! — Eduarda lutava, as lágrimas de pavor escorrendo. — Eu amo o Emanuel! Ele vai te matar!
— Ele não vai encontrar você — sibilou Vitor, puxando-a em direção ao muro baixo do fundo do jardim, onde um carro esperava com o motor ligado. — Eu vou te levar para um lugar onde a arte é real, onde você não vai ser apenas uma boneca siliconada para o prazer de um rico.
Eduarda sentiu o pânico paralisar seus membros. Ela era manhosa e sensível, não tinha a agressividade de Sara para lutar. Sua única arma era o seu choro e a esperança de que Emanuel cumprisse sua promessa de nunca deixá-la.
— Por favor... não faz isso — implorou ela, o corpo ficando mole de terror. — O Emanuel... ele cuida de mim...
— Ele te encarcera! — gritou Vitor, tentando forçá-la a subir no muro.
Nesse momento, um som ensurdecedor de pneus cantando no asfalto ecoou pela rua lateral. Um SUV preto subiu na calçada, parando a poucos centímetros do carro de Vitor. A porta se abriu antes mesmo do veículo parar totalmente.
Emanuel saiu do carro como uma sombra personificada. Seu rosto estava lívido, os olhos fixos na mão de Vitor que apertava o braço de Eduarda. Ele não esperou por explicações. Ele não hesitou.
— Solte-a — disse Emanuel, a voz tão baixa e perigosa que parecia vir do próprio chão. — Agora.
Vitor entrou em pânico. Ele puxou uma faca pequena do bolso e a encostou no pescoço de Eduarda.
— Afaste-se! Ela é minha! Eu a vi primeiro! Você a roubou de mim com o seu luxo!
Eduarda soluçava, sentindo o metal frio contra sua pele.
— Manu... — sussurrou ela, os olhos suplicantes.
Emanuel não se moveu. Ele não parecia assustado. Ele parecia um predador que acabara de encontrar a presa que ousou tocar em seu tesouro.
— Você acha que o tempo define a posse? — perguntou Emanuel, dando um passo à frente, ignorando a faca. — Eu marquei a alma dela. Eu sou o ar que ela respira e o teto que a protege. Você não é nada além de um erro que eu estou prestes a apagar.
— Eu vou matá-la! — gritou Vitor, as mãos tremendo.
— Você não tem coragem — afirmou Emanuel, com uma calma aterradora. — Porque se você encostar um dedo nela, eu garantirei que você implore pela morte por semanas antes que eu permita que ela venha.
A hesitação de Vitor foi o suficiente. Em um movimento rápido e brutal, Emanuel avançou. Ele desarmou o rapaz com uma técnica de quem já havia vivido em ambientes muito menos luxuosos do que sua cobertura atual. O som do osso do pulso de Vitor quebrando ecoou no jardim silencioso.
Emanuel jogou o homem no chão e começou a desferir golpes pesados e precisos. Não era uma briga; era uma execução.
— Emanuel, para! — gritou Eduarda, jogando-se sobre as costas do namorado, abraçando-o com força. — Por favor! Já chega! Me leva embora daqui!
O toque de Eduarda agiu como um interruptor. Emanuel parou com o punho no ar, a respiração ofegante, o rosto manchado com o sangue de Vitor. Ele olhou para trás e viu o terror nos olhos da mulher que amava.
Ele se levantou, ignorando o homem gemendo de dor no chão, e envolveu Eduarda em um abraço protetor, escondendo o rosto dela em seu peito para que ela não visse a violência que ele acabara de praticar.
— Está tudo bem, pequena — sussurrou ele, a voz voltando ao tom sombrio e possessivo. — Eu estou aqui. Eu disse que ninguém encostaria em você.
— Eu quero ir para casa — soluçou ela, agarrando-se à camisa dele. — Eu quero o meu quarto, quero a nossa cama... eu não quero mais sair de perto de você. Nunca mais.
Emanuel sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, mas que carregava uma satisfação profunda. Ele a pegou no colo, como se ela não pesasse nada, e caminhou em direção ao carro. Seus seguranças, agora aparecendo e parecendo devidamente envergonhados por terem sido enganados, aproximaram-se.
— Limpem essa bagunça — ordenou Emanuel, gesticulando para Vitor. — E certifiquem-se de que ele nunca mais consiga segurar uma faca ou uma caneta.
Dentro do carro, Emanuel acomodou Eduarda em seu colo. Ela tremia violentamente, escondendo-se sob o paletó dele.
— Você me salvou — murmurou ela, a voz manhosa voltando enquanto o choque passava e a necessidade de conforto assumia o controle. — Você sempre me salva.
— É para isso que você serve, Eduarda — disse ele, beijando-lhe a testa. — Para ser cuidada por mim. Mas agora você entende, não entende? O mundo lá fora quer te destruir. Só aqui, comigo e com a Sara, você está segura.
— Eu entendo — disse ela, fechando os olhos. — Eu não quero mais o sol, Manu. Eu só quero o seu submundo.
Emanuel ligou para Sara enquanto o carro se afastava da cidadezinha.
— Sara? — disse ele, a voz firme. — Prepare o médico na cobertura. Eduarda teve um susto, mas está voltando para casa. E Sara... cancele todos os compromissos dela para os próximos seis meses. Ela não vai sair debaixo do meu teto nem para ver a luz do dia.
Do outro lado da linha, Sara soltou um suspiro de alívio misturado com sua habitual ironia.
— Eu imaginei que você não conseguiria mantê-la longe por muito tempo, Manu. Traga a boneca de volta. Eu cuido do resto. Afinal, alguém tem que manter a ordem enquanto você banca o herói sombrio.
Emanuel desligou o celular e olhou para a jovem adormecida em seus braços. Ele a queria morando com ele para sempre, queria que ela fosse sua dependente, sua joia secreta. O susto com Vitor apenas solidificara seu plano. Agora, Eduarda não teria mais desejos de fuga. Ela seria sua Perséfone por escolha e por medo.
E enquanto o carro cortava a noite em direção à capital, Emanuel sabia que, apesar do sangue em suas mãos, ele havia vencido. Ele tinha as duas. Tinha a força de Sara para construir seu império e a fragilidade de Eduarda para dar sentido à sua existência. O equilíbrio fora restaurado, e ele não permitiria que ninguém, nem mesmo o destino, ousasse desafiar sua posse novamente.