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O Segredo Lapidado em Vidro

O clima na cobertura de Emanuel nunca era exatamente leve, mas naquela manhã, o silêncio parecia ter uma textura diferente. Emanuel estava na sala de jantar, os olhos fixos em um projeto de expansão para uma nova galeria em Madri, quando ouviu o som de passos apressados. Não eram os passos firmes e autoritários de Sara em seus saltos de grife, mas o caminhar leve e quase saltitante de Eduarda.

Ela entrou na sala segurando uma pequena caixa de veludo azul-marinho contra o peito. Seu rosto, geralmente pálido e sereno, estava iluminado por um rubor de excitação que Emanuel não via há semanas.

— Emanuel! — exclamou ela, a voz manhosa subindo uma oitava. — Olhe o que chegou para mim! Eu estava saindo para a faculdade e o porteiro me entregou.

Emanuel desviou o olhar do tablet, a expressão séria de sempre suavizando-se apenas um pouco ao ver a alegria dela.

— O que é isso, pequena? — perguntou ele, gesticulando para que ela se aproximasse.

Eduarda sentou-se no braço da poltrona dele, abrindo a caixa com dedos trêmulos. Dentro, repousava um broche de ouro branco em formato de lírio, cravejado com pequenos diamantes e uma pérola negra central de brilho hipnotizante. Era uma peça de uma delicadeza absurda, mas de um valor evidente.

— É a coisa mais linda que eu já vi — sussurrou Eduarda, os olhos brilhando. — Parece ter saído de um quadro do período romântico.

Emanuel sentiu uma pontada imediata de desconforto. Ele conhecia cada joia que comprava para suas mulheres, e aquela não era uma delas. Ele estendeu a mão e pegou a caixa, analisando a peça com o olhar clínico de um artista. Não havia cartão. Não havia remetente.

— Quem mandou isso, Eduarda? — A voz dele baixou de tom, tornando-se mais fria e cortante.

Eduarda encolheu os ombros, o gesto manhoso de quem busca proteção. Ela se inclinou contra o ombro dele, passando os braços pelo seu pescoço.

— Eu não sei, Manu... Não tinha nome. Talvez seja um admirador secreto da galeria? Ou algum colecionador que gostou do meu ensaio sobre curadoria? Não importa, não é? O que importa é que é perfeito. Combina tanto comigo... você não acha?

Emanuel não achava. Na verdade, a visão daquela joia em mãos alheias o preenchia com uma possessividade sombria. Ele era o provedor. Ele era o mestre daquela casa. A ideia de que alguém, em algum lugar, sentia-se no direito de presentear sua "joia mais preciosa" era um insulto direto à sua autoridade.

— Não — disse ele, fechando a caixa com um estalo seco que fez Eduarda pular. — Você não vai ficar com isso.

— O quê? Por que não? — O lábio inferior de Eduarda começou a tremer. — É só um presente, Emanuel. É arte! Você sempre diz que devemos valorizar o que é belo.

— Eu valorizo o que eu controlo, Eduarda — rebateu ele, levantando-se e caminhando até a janela, a silhueta alta e imponente contra o céu nublado de São Paulo. — Alguém está tentando marcar território na minha casa. Mandar uma joia sem nome é um jogo de poder. E eu não jogo com sombras.

Nesse momento, Sara entrou na sala. Ela usava um conjunto de seda preta, os cabelos loiros impecavelmente alinhados. Ela parou ao ver a tensão no ambiente e a caixa na mão de Emanuel.

— Mas que drama matinal é este? — perguntou ela, servindo-se de um café forte. — O que a santinha fez desta vez para te deixar com essa cara de quem vai tatuar um demônio na testa de alguém?

— Eduarda recebeu um presente — disse Emanuel, jogando a caixa sobre a mesa de centro. — Sem remetente.

Sara caminhou até a mesa e abriu a caixa. Seus olhos se estreitaram. Como administradora e mulher de negócios, ela sabia identificar o valor de algo instantaneamente. Aquele broche valia mais do que o carro de luxo de muitos empresários.

— Ora, ora... — Sara sorriu, mas era um sorriso carregado de veneno. — Parece que a pequena Eduarda não é tão invisível quanto tenta parecer. Quem diria que a estudante tímida andaria colecionando mimos de admiradores anônimos?

— Eu não fiz nada, Sara! — Eduarda protestou, as lágrimas agora escorrendo livremente. — Eu juro que não sei de quem é! Eu só gostei do broche... ele me faz sentir especial.

— Especial? — Sara soltou uma risada ríspida, caminhando em direção a Eduarda. — Você quer se sentir especial, use as joias que o Emanuel compra. Aceitar isso é abrir a porta para outro homem. É vulgar, Eduarda. Quase tão vulgar quanto você diz que eu sou.

— Não é verdade! — Eduarda gritou, escondendo o rosto nas mãos e soluçando. — Emanuel, por favor... não deixe ela falar assim comigo. Eu quero ficar com o lírio. É a única coisa que parece realmente minha!

Emanuel sentiu a fúria crescer. A manha de Eduarda, que geralmente o desarmava, agora o irritava profundamente porque estava direcionada a um objeto que ele não havia providenciado. Ele se virou, os olhos escuros e sombrios, a aura de controle absoluto emanando de cada poro.

— Eduarda, pare com esse choro — ordenou ele. — A joia fica comigo até que eu descubra quem a mandou. E se eu descobrir que você está escondendo algo, que houve algum contato, alguma conversa na galeria que você não me contou...

— Eu não estou escondendo nada! — Ela se jogou aos pés dele, segurando suas pernas de forma desesperada. — Eu sou sua, Emanuel. Você sabe disso. Eu só... eu só achei que você ficaria feliz por verem que eu tenho bom gosto.

Emanuel a puxou para cima, segurando-a pelos ombros com uma firmeza que a fez soltar um pequeno suspiro de surpresa.

— Eu não fico feliz quando outros homens olham para o que é meu, muito menos quando tentam adornar o que me pertence. Você entende isso?

— Sim... — sussurrou ela, tremendo.

— Ótimo.

Emanuel pegou a caixa e saiu em direção ao seu escritório privativo, trancando a porta atrás de si. Ele sentou-se à mesa e abriu a caixa novamente. O lírio parecia zombar dele. Ele pegou o celular e ligou para seu chefe de segurança.

— Quero as imagens das câmeras da entrada do prédio das últimas vinte e quatro horas — disse ele, a voz gélida. — E quero que rastreiem todas as entregas feitas para Eduarda na última semana. Se um entregador de joalheria pisou aqui, eu quero o nome da loja e quem pagou a conta. Agora.

Enquanto isso, na sala, o silêncio entre Sara e Eduarda era cortante. Sara terminou seu café, observando a morena que ainda chorava baixinho no sofá.

— Você é muito burra, sabia? — disse Sara, ajeitando o relógio de ouro no pulso. — Você acha que a manha vai te salvar de tudo. Mas o Emanuel é um homem de posse. Quando você aceita algo de fora, você quebra o contrato invisível que ele tem com a gente.

— Você só está com inveja porque ninguém te manda flores ou joias em segredo — rebateu Eduarda, limpando o rosto e tentando recuperar um pouco de dignidade. — Você é só um negócio para ele, Sara. Uma sócia que ele leva para a cama. Eu sou a alma dele.

Sara deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma fúria competitiva.

— A alma? Querida, ele acabou de te tratar como uma criança desobediente. Ele não te vê como alma, ele te vê como um animal de estimação que não pode fugir da coleira. E esse broche... seja lá quem mandou, acabou de apertar essa coleira no seu pescoço.

Eduarda não respondeu. Ela se levantou e caminhou para o quarto, fechando-se lá dentro. Ela sentia-se injustiçada. Amava Emanuel, amava a proteção e o luxo que ele oferecia, mas aquela joia... aquela joia representava uma liberdade poética que ela sentia estar perdendo.

As horas passaram de forma lenta. Emanuel não saiu do escritório nem para o almoço. Sara saiu para reuniões externas, deixando a cobertura mergulhada em uma tensão latente.

Por volta das cinco da tarde, Emanuel finalmente abriu a porta do escritório. Seu rosto estava mais fechado do que nunca. Ele caminhou até o quarto de Eduarda e entrou sem bater. Ela estava deitada na cama, lendo um livro de História da Arte, mas parecia não ter virado a página há horas.

— Levante-se — disse ele.

Eduarda obedeceu imediatamente, a postura submissa e manhosa voltando à tona.

— Você descobriu de quem é? — perguntou ela, esperançosa.

Emanuel caminhou até ela e abriu a palma da mão. O broche de lírio estava lá.

— A entrega foi feita por um serviço terceirizado. Pagamento em dinheiro vivo em uma joalheria de nicho no centro. Ninguém viu o rosto do comprador.

— Então... eu posso ficar com ele? — Ela estendeu a mão, os dedos roçando a pele de Emanuel.

Ele fechou a mão, prendendo os dedos dela junto com a joia.

— Não. Porque eu descobri outra coisa. O porteiro mencionou que, nos últimos três dias, um homem tem ficado parado do outro lado da rua, observando a entrada. E que esse homem estava lá quando você saiu para a galeria ontem.

Eduarda arregalou os olhos.

— Um homem? Quem?

— Eu não sei ainda — disse Emanuel, puxando-a para perto, o corpo dele agindo como uma muralha de ossos e músculos contra a fragilidade dela. — Mas ele mandou isso para você. Ele tocou o que é meu com os olhos, e agora tentou tocar com ouro.

— Emanuel, você está me assustando... — sussurrou ela, buscando o conforto do peito dele, mas encontrando apenas rigidez.

— Você deveria estar assustada, Eduarda. Mas não de mim. Deveria estar assustada com a ideia de que alguém acha que pode te tirar daqui.

Ele a conduziu até a penteadeira dela. Lá, ele abriu uma gaveta e tirou um estojo de veludo muito maior. Dentro, havia um colar de diamantes negros, pesados e imponentes.

— Você quer usar joias? Use as minhas — disse ele, colocando o colar no pescoço dela. O peso das pedras parecia sufocar a delicadeza de Eduarda. — Esse lírio... eu vou guardá-lo. Não porque é belo, mas porque é o troféu de um inimigo que eu ainda não conheço.

— Mas eu não gosto desse colar negro... ele é pesado, Emanuel. Ele me machuca — reclamou ela, a voz manhosa tornando-se um lamento.

— Ele é o sinal de que você pertence a mim — rebateu ele, olhando o reflexo dela no espelho. — Você vai usá-lo hoje à noite. Vamos jantar fora. Sara também irá. Quero que o mundo veja que, não importa quem mande flores ou broches, eu sou o dono da moldura.

Eduarda baixou a cabeça, as lágrimas caindo sobre os diamantes negros. Ela sentia-se protegida, sim, mas também sentia que a joia de Emanuel era uma corrente de luxo.

À noite, o jantar no restaurante mais caro da cidade foi um exercício de dominação. Emanuel sentou-se à cabeceira, com Sara à sua direita, usando um vestido justo e exibindo sua confiança habitual, e Eduarda à sua esquerda, encolhida, usando o colar de diamantes negros que parecia grande demais para seu pescoço fino.

— Você está maravilhosa, querida — provocou Sara, olhando para o colar de Eduarda. — Parece que o Manu resolveu te marcar com ferro e fogo desta vez.

— É apenas proteção, Sara — disse Emanuel, bebendo seu vinho. — Algo que você entende bem.

— Oh, eu entendo tudo sobre proteção — disse Sara, lançando um olhar de soslaio para Eduarda. — E entendo sobre como é perigoso quando algo "anônimo" entra na nossa zona de segurança.

Eduarda permanecia em silêncio, brincando com a comida no prato. Ela sentia o olhar de Emanuel sobre ela o tempo todo — um olhar sombrio, observador, como se esperasse que o tal admirador secreto surgisse das sombras a qualquer momento.

De repente, um garçom se aproximou da mesa com um pequeno envelope de papel artesanal.

— Para a senhorita Eduarda — disse o homem, entregando o envelope e retirando-se rapidamente.

Emanuel foi mais rápido. Ele interceptou o envelope antes que Eduarda pudesse tocá-lo. Sara parou de comer, a expressão de deboche sendo substituída por uma curiosidade gelada.

Emanuel abriu o envelope. Dentro, havia apenas um pequeno pedaço de papel com uma frase escrita à mão:

"O lírio combina com a sua alma, mas o diamante negro combina com a prisão dele. Em breve, você verá a diferença entre ser possuída e ser amada."

Emanuel amassou o papel com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ele olhou ao redor do restaurante, a fúria pulsando em suas têmporas. O ambiente sofisticado parecia subitamente pequeno demais para o seu ódio.

— Nós vamos embora — ordenou ele, levantando-se e puxando Eduarda pelo braço com uma urgência que a fez soltar um pequeno grito de susto.

— Emanuel, o que dizia o bilhete? — perguntou Sara, levantando-se também, a voz carregada de uma preocupação que ela raramente demonstrava.

— O bilhete dizia que alguém cometeu o erro de achar que pode me desafiar — respondeu ele, a voz soando como o gume de uma faca.

Eles saíram do restaurante sob os olhares curiosos dos outros clientes. No carro, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pela respiração ofegante de Eduarda. Ela estava apavorada. A manha e a doçura que ela usava para navegar no mundo não serviam de nada contra a tempestade que Emanuel estava se tornando.

Ao chegarem na cobertura, Emanuel conduziu as duas para a sala.

— Sara, amanhã você vai dobrar a segurança em todos os estúdios. Quero uma investigação completa sobre cada funcionário que teve contato com a Eduarda na galeria. Não me importa o custo.

— Considere feito — disse Sara, sua faceta administrativa assumindo o controle. Ela olhou para Eduarda com uma mistura de desprezo e pena. — Você realmente atraiu um problema para nós, não é, boneca?

Eduarda desabou no sofá, soluçando.

— Eu não fiz nada! Eu só queria o broche! Eu não conheço ninguém, eu juro!

Emanuel caminhou até ela e ajoelhou-se à sua frente. Ele pegou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhar para ele. O olhar dele estava sombrio, possuído por uma necessidade de controle que beirava a loucura.

— Você é minha, Eduarda. Cada traço do seu rosto, cada pensamento da sua mente, cada gota de sangue no seu corpo. Se esse homem acha que pode te oferecer "amor" tirando você de mim, ele vai descobrir que o meu "possuir" é a única coisa que vai mantê-lo vivo.

— Emanuel... você está me machucando — sussurrou ela, tentando se afastar.

Ele não soltou. Pelo contrário, aproximou o rosto do dela, o hálito quente de vinho e fúria batendo em sua pele.

— Você vai ficar trancada nesta casa. Não haverá mais galeria, não haverá mais faculdade até que eu encontre esse rastro. Você queria ser especial, Eduarda? Parabéns. Agora você é o centro da minha guerra.

Ele se levantou e olhou para Sara.

— Leve-a para o quarto. E certifique-se de que ela não tenha acesso a nenhum telefone ou internet que não seja monitorado por mim.

Sara assentiu, pegando Eduarda pelo braço. A morena não lutou. Ela estava quebrada, a manha substituída por um terror mudo. Enquanto era levada, ela olhou para trás e viu Emanuel parado no meio da sala, a silhueta solitária e poderosa, segurando o bilhete amassado em uma mão e o broche de lírio na outra.

Emanuel caminhou até a lareira e jogou o bilhete nas chamas. Ele observou o papel ser consumido, as palavras de "amor" transformando-se em cinzas. Depois, ele olhou para o broche. Ele não o jogou fora. Ele o guardou no bolso.

Ele teria as duas. Ele manteria Sara para gerir o caos e Eduarda para ser o seu refúgio, mesmo que esse refúgio agora tivesse que ser uma cela de ouro e diamantes negros. O mundo podia tentar enviar flores e joias, mas Emanuel era o tatuador — ele era o único que tinha o direito de marcar a pele e a alma de Eduarda para sempre.

A noite caiu sobre a cobertura, e enquanto Sara vigiava o sono sobressaltado de Eduarda, Emanuel permanecia no escritório, traçando planos de vingança. O admirador secreto não sabia, mas ele não havia enviado um presente; ele havia assinado sua própria sentença de morte. Porque no mundo de Emanuel, não havia espaço para sombras. Apenas para a luz crua de sua posse absoluta.