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Ouro e Sangue: O Preço da Exclusividade

A atmosfera na cobertura de Emanuel estava carregada, como se o ar tivesse sido substituído por eletricidade estática prestes a descarregar. O sol da tarde filtrava-se pelas cortinas de linho, iluminando a sala de estar onde o luxo se encontrava com a tensão. Emanuel estava sentado no sofá de couro italiano, as mãos tatuadas repousando sobre os joelhos, observando as duas mulheres que ocupavam os polos opostos de sua existência.

Ele havia decidido que precisavam de um momento de trégua. O estresse de gerenciar seus estúdios ao redor do mundo era pequeno perto do desgaste emocional de mediar a guerra fria entre Sara e Eduarda. Ele as amava, cada uma à sua maneira — a força bruta e a inteligência administrativa de Sara o mantinham no topo, enquanto a doçura e a vulnerabilidade de Eduarda o mantinham humano.

— Eu pedi que trouxessem algumas peças exclusivas de uma joalheria parceira — começou Emanuel, sua voz soando como um trovão distante, grave e contida. — Quero que este seja um momento de paz. Eduarda, você tem se esforçado para se integrar. Sara, você tem mantido os negócios em ordem. Ambas merecem um presente.

Eduarda, sentada em uma poltrona lateral, usava um vestido de seda champanhe que escorregava por seus ombros delicados. Ela olhou para Sara com um brilho de esperança nos olhos grandes e úmidos.

— Eu... eu realmente queria que hoje fosse diferente, Sara — sussurrou Eduarda, apertando as mãos de forma manhosa sobre o colo. — Emanuel gosta tanto de nós duas. Eu não quero ser um motivo de briga. Podemos tentar ser amigas?

Sara, que estava de pé perto do bar privativo, segurando uma taça de vinho tinto, soltou uma risada anasalada que transbordava ceticismo. Ela usava um conjunto de alfaiataria vermelho vibrante, o decote profundo destacando o silicone impecável e a postura desafiadora.

— Amigas? — Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada. — Docinho, eu administro impérios. Eu não brinco de casinha. Mas, se o Manu quer nos dar joias, quem sou eu para recusar um mimo?

Um funcionário da joalheria, que aguardava discretamente no hall, entrou na sala trazendo uma maleta de veludo negro. Ele a abriu sobre a mesa de centro, revelando relógios, pulseiras e colares que brilhavam sob a luz. No centro da maleta, porém, repousava a "Peça Única": um colar de platina com um diamante lapidado em forma de lágrima, cercado por safiras raras. Era uma joia que gritava elegância, mas também poder.

Os olhos de Eduarda brilharam. Para ela, aquela lágrima azul representava a melancolia e a beleza da História da Arte que tanto amava. Para Sara, era o símbolo máximo de status, algo que apenas a mulher "número um" de Emanuel deveria ostentar.

— É lindo... — murmurou Eduarda, inclinando-se para frente, a expressão carregada de uma admiração quase infantil. — Parece algo que uma princesa renascentista usaria.

— É magnífico — cortou Sara, aproximando-se da mesa com passos decididos, o som de seus saltos estalando no mármore. — E combina perfeitamente com o meu novo vestido para o baile de gala da semana que vem. Manu, eu quero este.

Eduarda empalideceu, o corpo encolhendo-se instantaneamente na poltrona. Ela olhou para Emanuel, os lábios tremendo levemente.

— Mas... Emanuel... você disse que eu poderia escolher algo que tocasse meu coração — disse ela, a voz ficando pequena e manhosa, buscando a proteção dele. — Eu nunca pedi nada caro, mas esse colar... ele é tão sensível. Ele parece comigo.

Sara soltou um bufo de impaciência, colocando a taça de vinho sobre a mesa com força excessiva.

— "Parece com você"? Faça-me o favor, Eduarda! Você mal tem pescoço para carregar uma pedra desse tamanho. Isso é uma joia de mulher, não de uma menina que ainda cheira a leite e livros velhos. Emanuel, eu sou a sua parceira. Eu estou ao seu lado nos contratos, nas crises, no crescimento dessa rede. Esse colar é o meu bônus por aturar tanta palhaçada nesta casa.

— Eu também sou importante! — Eduarda levantou-se, as lágrimas já começando a rolar por seu rosto fino. — Eu dou paz ao Emanuel. Eu cuido dele quando ele chega exausto. Eu não sou vulgar, Sara! Eu só quero uma coisa... uma única coisa que você também quer. Por que você tem que tirar tudo de mim?

— Porque eu cheguei primeiro! — Sara sibilou, aproximando-se de Eduarda, a diferença de altura e de energia tornando a cena opressiva. — Porque eu sou a base disso tudo, enquanto você é só um enfeite que ele pegou por pena da sua timidez doentia!

Emanuel, que até então permanecia em silêncio, sentiu a irritação borbulhar em seu peito. Ele odiava conflitos emocionais que não podiam ser resolvidos com lógica ou dinheiro. Ele queria as duas, queria o equilíbrio, mas a ganância de Sara e a dependência emocional de Eduarda estavam colidindo de forma desastrosa.

— Chega! — O grito de Emanuel ecoou pela sala, fazendo o funcionário da joalheria recuar dois passos, assustado.

Emanuel levantou-se. Sua presença parecia ocupar todo o espaço, a aura sombria e autoritária emanando dele como uma névoa pesada. Ele caminhou até a mesa de centro e pegou o colar de diamante e safiras.

— Eu trouxe vocês aqui para um momento de união — disse ele, a voz perigosamente baixa, os olhos fixos em cada uma delas alternadamente. — E o que eu recebo? Disputas de ego. Gritos. Lágrimas.

— Ela começou! — apontou Sara, embora sua voz tivesse perdido um pouco da confiança diante da fúria dele.

— Eu só queria ser amada... — soluçou Eduarda, escondendo o rosto nas mãos, o corpo tremendo em uma crise de insegurança.

Emanuel olhou para o colar em sua mão. Ele era um homem prático, mas naquele momento, a irracionalidade das duas o estava levando ao limite do estresse. Ele não suportava ver Eduarda se fechar naquele casulo de sofrimento, e não suportava a insolência competitiva de Sara.

— Vocês querem saber quem vai ficar com o colar? — perguntou ele, um sorriso amargo e sombrio surgindo em seu rosto severo.

Ele caminhou até a varanda da cobertura. O vento da tarde bagunçou seu cabelo curto enquanto ele olhava para o abismo de concreto da cidade abaixo.

— Emanuel, o que você está fazendo? — perguntou Sara, sua voz agora carregada de preocupação real.

Eduarda correu até ele, segurando seu braço com as mãos trêmulas.

— Emanuel, por favor... não fique bravo. Eu não quero mais o colar, eu juro! Eu só quero que você fique bem. Não me olhe assim...

Emanuel olhou para Eduarda. A manha dela, que geralmente o desarmava, agora parecia apenas mais um peso em seus ombros carregados. Ele olhou para Sara, que permanecia imóvel, a arrogância sendo substituída pelo medo de perder o controle da situação.

— Se uma joia é capaz de destruir a paz que eu tento construir aqui — disse Emanuel, voltando-se para o horizonte —, então nenhuma de vocês merece usá-la.

Com um movimento brusco e decidido, ele arremessou o colar de platina para longe. A joia brilhou uma última vez sob o sol antes de desaparecer na queda livre de trinta andares, perdendo-se em algum lugar entre os telhados e as ruas movimentadas de São Paulo.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara soltou um suspiro de horror, levando a mão à boca. Eduarda desabou no chão da varanda, chorando copiosamente, o rosto escondido entre os joelhos.

Emanuel voltou para a sala, passando pelas duas como se fossem estranhas.

— Eu vou para o estúdio — declarou ele, sem olhar para trás. — Não quero ser interrompido. Sara, cuide das planilhas de Berlim. Eduarda, vá ler seus livros. Quando eu voltar, espero que esta casa esteja em silêncio. Caso contrário, eu mesmo farei as malas de quem não estiver satisfeita.

Ele saiu, batendo a porta pesada de madeira, deixando para trás um rastro de tensão e o cheiro de seu perfume amadeirado.

Na varanda, Sara aproximou-se de Eduarda. A loira não tinha mais o olhar de deboche. Havia uma frustração profunda em seu rosto, uma percepção de que, naquela disputa, ambas haviam perdido para o homem que tentavam dominar.

— Você viu o que você fez? — perguntou Sara, a voz cansada. — Milhões de reais jogados no lixo porque você não consegue simplesmente aceitar o seu lugar.

Eduarda levantou o rosto, as bochechas manchadas de rímel, os olhos vermelhos refletindo uma mágoa que ia além da joia perdida.

— O meu lugar é ao lado dele, Sara. Assim como o seu. Eu tentei ser sua amiga. Eu tentei falar com você hoje cedo... mas você só sabe atacar. Você o deixa irritado, você o deixa sombrio.

— Eu o mantenho no topo! — rebateu Sara. — Sem mim, ele seria apenas um artista talentoso morando em um loft apertado. Eu transformei o nome dele em uma marca global. O que você deu a ele, Eduarda? Além de soluços e essa dependência irritante?

Eduarda levantou-se devagar, limpando as lágrimas com as costas das mãos. Ela parecia frágil, mas havia uma dignidade silenciosa em sua postura enquanto ela ajeitava o vestido de seda.

— Eu dei a ele um motivo para voltar para casa — respondeu Eduarda, a voz firme apesar do tremor. — Você dá o império a ele, Sara. Mas eu sou o que ele encontra quando o império se torna pesado demais para carregar. E se você não consegue entender que ele precisa de nós duas, então você é menos inteligente do que diz ser.

Sara ficou em silêncio. Pela primeira vez, a loira não tinha uma resposta sarcástica pronta. Ela observou Eduarda caminhar de volta para o interior da sala com aquela leveza que tanto a irritava, mas que agora parecia uma armadura de sensibilidade.

As horas se passaram em uma calmaria fúnebre. Sara se trancou no escritório, descontando sua raiva em e-mails e planilhas, enquanto Eduarda se refugiou na biblioteca, cercada por livros de arte, tentando encontrar conforto nas imagens de um passado mais simples.

Quando Emanuel retornou, já passava da meia-noite. Ele entrou na cobertura esperando encontrar o caos, mas foi recebido pelo silêncio e pelo aroma de chá de camomila que Eduarda havia preparado e deixado sobre a mesa, junto com um bilhete escrito em caligrafia delicada: "Sinto muito por hoje. Só queremos que você seja feliz. O chá está quente."

Ele caminhou até o quarto principal. Sara estava deitada, ainda acordada, olhando para o teto. Ela não disse nada quando ele entrou, mas afastou-se para dar espaço a ele, um gesto de rendição silenciosa.

Minutos depois, a porta do quarto se abriu levemente. Eduarda apareceu na fresta, usando uma camisola de renda fina, os olhos ainda um pouco inchados, mas a expressão doce.

— Emanuel? — sussurrou ela. — Eu posso... eu posso ficar aqui com vocês? Eu tive um pesadelo.

Emanuel suspirou, o estresse do dia começando a se dissipar diante daquela vulnerabilidade manhosa. Ele olhou para Sara, que deu de ombros, um sinal de que não iniciaria uma nova briga naquela noite.

— Venha, Eduarda — disse ele, estendendo a mão.

Ela correu para a cama, deitando-se entre os dois. Emanuel a abraçou por trás, sentindo o calor de seu corpo pequeno, enquanto sua outra mão buscava a de Sara sobre o lençol. Sara apertou os dedos dele com força, uma demonstração de posse que ele já conhecia bem.

— Eu amo as duas — murmurou Emanuel no escuro, a voz carregada de uma exaustão emocional profunda. — Mas não me testem novamente. Eu não sou um homem que aceita ser controlado por joias ou por birras.

— Eu sei, Manu — disse Sara, a voz baixa. — Sinto muito.

— Eu também sinto muito — completou Eduarda, aninhando-se no peito dele. — Eu só quero que fiquemos bem.

Naquela noite, a paz retornou à cobertura, mas era uma paz armada. A joia perdida no abismo era apenas um símbolo do que poderia acontecer se o equilíbrio fosse quebrado. Emanuel dormiu sentindo o perfume de ambas, sabendo que, embora tivesse o controle por agora, a guerra entre o fogo de Sara e a água de Eduarda continuaria a moldar sua vida, exigindo dele uma firmeza que beirava a crueldade para manter seu império — e seu coração — intactos.