Nenhum
A Fera Sob a Seda
O retorno da Toscana para a realidade febril de São Paulo deveria ter sido o momento em que Emanuel recuperaria o fôlego e o controle. Na sua mente lógica e estratégica, a lua de mel servira para "estabilizar" Eduarda, saciando sua carência e consolidando seu papel de esposa protegida. Ele imaginava que, ao cruzarem a porta da cobertura, o equilíbrio voltaria: Eduarda seria a presença doce e silenciosa nos jantares, enquanto Sara, com sua vulgaridade magnética e energia inesgotável, voltaria a ser o vulcão sexual que ele escalava quando precisava de adrenalina.
Contudo, Emanuel subestimou a metamorfose que ocorrera no silêncio dos vinhedos italianos. A Eduarda que desembarcou do jato particular ainda tinha o olhar baixo, a voz sussurrada e o jeito manhoso que fazia qualquer um querer carregá-la no colo, mas, por trás daquela fachada de porcelana, havia uma fome que ele não sabia como conter.
Mal haviam chegado ao apartamento, com as malas ainda sendo descarregadas pelos funcionários, e o ataque começou. Emanuel estava no corredor, falando ao telefone sobre uma nova convenção de tatuagem em Berlim, quando sentiu mãos pequenas e frias deslizarem por baixo de sua camisa.
— Duda, agora não... — sussurrou ele, tentando manter a voz firme enquanto o assistente falava do outro lado da linha.
Eduarda não respondeu com palavras. Ela se ajoelhou à frente dele, com uma agilidade que contrastava com sua timidez pública, e começou a desabotoar o cinto dele com uma urgência febril. Ela olhou para cima, os olhos grandes e úmidos, a expressão de uma criança pedindo um doce, mas as mãos trabalhavam com uma perícia pecaminosa.
— Eu senti falta do meu marido no avião — murmurou ela, a voz manhosa vibrando contra a pele dele.
Emanuel desligou o telefone sem dar tchau. Ele a puxou para cima, pretendendo levá-la ao quarto, mas Eduarda o empurrou contra a parede do corredor, atacando seu pescoço com mordidas e sucções que deixariam marcas impossíveis de esconder. Ali mesmo, entre quadros caros e o tapete persa, ela o possuiu pela primeira vez naquele dia. Foi voraz, barulhento e exaustivo.
O problema é que aquele foi apenas o começo.
Nas quarenta e oito horas seguintes, Emanuel descobriu que havia se casado com um súcubo disfarçado de estudante de História da Arte. Eduarda não lhe dava trégua. Se ele ia para o banho, ela aparecia com o pretexto de lavar suas costas, apenas para transformá-lo em seu brinquedo sob a água quente por quase uma hora. Se ele tentava ler um contrato no escritório, ela surgia usando apenas uma de suas camisas sociais, sentando-se em seu colo e exigindo sua atenção total até que ele estivesse trêmulo de cansaço.
No terceiro dia, Emanuel estava no seu estúdio principal, tentando finalizar o desenho de uma fênix para um cliente VIP. Ele sentia as costas doerem e as pernas pesadas. Foi quando a porta se abriu e Eduarda entrou, carregando uma sacola de papel.
— Trouxe seu almoço, amor — disse ela, com aquele sorriso doce que desarmava qualquer segurança.
— Obrigado, Duda. Eu realmente preciso comer, estou sem energia — admitiu ele, encostando-se na cadeira.
Eduarda trancou a porta. O clique da fechadura soou como um tiro de misericórdia nos ouvidos de Emanuel. Ela caminhou até ele, mas não abriu a sacola de comida. Em vez disso, sentou-se na mesa de desenho, afastando os esboços caros com um movimento descuidado das pernas.
— A comida pode esperar — sussurrou ela, puxando a gravata dele. — Eu quero sobremesa primeiro.
— Duda... é a sexta vez hoje. Eu sou homem, não uma máquina — Emanuel tentou rir, mas havia um fundo de desespero real em sua voz.
— Você é meu — ela respondeu, a manha dando lugar a uma autoridade possessiva que o deixava fascinado e apavorado. — E eu estou com saudade.
Ela o atacou ali mesmo, sobre a mesa de carvalho. Quando terminaram, Emanuel sentia-se como se tivesse corrido uma maratona. Seus músculos protestavam e sua mente estava nublada. Ele mal conseguia segurar a caneta de desenho.
Enquanto isso, no andar de cima da cobertura, Sara fervia.
Ela havia se preparado para o retorno de Emanuel como se fosse para uma guerra. Comprara lingeries que custavam o preço de um carro popular, fizera tratamentos estéticos e preparara um arsenal de provocações para lembrar a Emanuel quem era a verdadeira rainha daquela cama. Mas o que ela encontrou foi um homem que parecia um fantasma de si mesmo.
Emanuel evitava o quarto de Sara. Não por falta de desejo — pois o fogo dela ainda o atraía —, mas por pura incapacidade física.
Naquela noite, Sara finalmente perdeu a paciência. Ela invadiu o quarto de Emanuel e Eduarda, usando um conjunto de renda vermelha minúsculo, saltos altíssimos e uma maquiagem pesada que gritava "vulgaridade" e "poder".
— Já chega dessa palhaçada! — exclamou Sara, parando aos pés da cama. — Emanuel, você está em casa há três dias e mal olhou para mim. Eu não sou um móvel nesta casa!
Emanuel estava deitado, coberto apenas por um lençol. Suas olheiras eram visíveis. Ele olhou para Sara, e por um momento, ela viu um brilho de desejo, mas ele foi rapidamente substituído por um suspiro de fadiga profunda.
— Sara... eu estou exausto. O trabalho no estúdio... a viagem...
— Trabalho no estúdio? — Sara riu, uma risada estridente e cheia de escárnio. — Você acha que eu sou burra? Eu vejo o jeito que essa mosca morta olha para você. Eu vejo como você sai do quarto dela parecendo que foi atropelado por um caminhão!
Eduarda, que estava encolhida sob as cobertas, sentou-se devagar. Ela parecia tão pequena, tão frágil, com seus olhos grandes e o cabelo levemente bagunçado.
— Sara, por favor... não grite — pediu Eduarda, a voz sumindo de timidez. — O Emanuel precisa descansar. Ele não tem estado muito bem de saúde.
— Saúde? — Sara avançou para o lado da cama, apontando o dedo para Eduarda. — Você está sugando a vida dele, sua sonsa! Você faz esse papel de santinha, mas eu sei que você está trancando ele aqui dentro! Emanuel, levanta dessa cama agora e vem comigo. Eu preparei algo que vai fazer você esquecer essa dieta de açúcar que ela te dá.
Emanuel tentou se levantar, mas sentiu uma cãibra na coxa. Ele se sentou na borda da cama, passando a mão pelo rosto.
— Sara, eu realmente não consigo hoje. Por favor, entenda. Amanhã, talvez...
— Amanhã? — Sara estava roxa de raiva. — Você nunca me deu um "amanhã"! Você sempre me quis agora, em qualquer lugar! O que essa garota fez com você? Ela te deu algum tipo de calmante?
— Eu não fiz nada, Sara — disse Eduarda, com um beicinho manhoso, aproximando-se de Emanuel e abraçando-o por trás, apoiando o queixo no ombro dele. — Eu só cuido muito bem do meu marido. Não é, amor?
Emanuel sentiu as mãos de Eduarda descendo pelo seu peito por baixo do lençol. Ele estremeceu. Era um reflexo condicionado.
— Sai daqui, Sara — disse Emanuel, a voz rouca. — Eu preciso dormir.
Sara olhou para os dois, a fúria se transformando em uma humilhação insuportável. Ela, a loira siliconada que todos os homens cobiçavam, estava sendo rejeitada por um homem que preferia ficar nos braços de uma menina que parecia ter saído de um convento.
— Você vai se arrepender disso, Emanuel! — gritou ela, saindo do quarto e batendo a porta com força.
No silêncio que se seguiu, Emanuel soltou um suspiro longo. Ele sentiu o corpo de Eduarda relaxar contra o dele.
— Ela é tão barulhenta — sussurrou Eduarda no ouvido dele. — Você não precisa desse barulho, Emanuel. Você precisa de paz. Precisa de mim.
Ela começou a beijar a nuca dele, e Emanuel sentiu o pânico subir.
— Duda... por favor... eu preciso mesmo dormir. Eu não tenho forças.
— Eu sei, meu amor — disse ela, com uma doçura que escondia uma vontade de ferro. — Por isso eu trouxe um presente para facilitar as coisas.
Ela se inclinou sobre a mesa de cabeceira e puxou um par de algemas de couro forradas de veludo que ele nem sabia que estavam ali.
— O que é isso? — Emanuel perguntou, os olhos arregalados.
— Para você não precisar fazer esforço nenhum — ela respondeu com um sorriso angelical. — Eu faço tudo. Você só precisa ficar parado e ser meu.
Antes que Emanuel pudesse protestar, Eduarda, com uma rapidez impressionante, prendeu um de seus pulsos na cabeceira de ferro da cama.
— Duda, pare com isso! — ele tentou se soltar, mas a exaustão física o tornava lento.
— Shhh... fica quietinho, Emanuel — ela prendeu o outro pulso. — Você não disse que eu era a sua bonequinha? Pois agora você é o meu boneco.
Ela subiu sobre ele, retirando a camisola de seda em um movimento fluido. A luz da lua iluminava seu corpo esguio e delicado, mas seus olhos brilhavam com uma luxúria que Emanuel nunca vira em Sara. Sara era óbvia; Eduarda era profunda. Sara era um incêndio florestal; Eduarda era um afogamento lento em águas mornas.
— Eu vou cuidar de você a noite toda — prometeu ela, começando a se mover sobre ele com um ritmo hipnótico.
Emanuel fechou os olhos. Ele estava sendo devorado. Ele queria as duas, mas percebeu, com um pavor excitante, que Eduarda não tinha intenção de deixar sobras para ninguém. Ela estava consumindo cada grama de sua energia, cada gota de seu desejo, transformando-o em um prisioneiro de sua própria obsessão.
No quarto ao lado, Sara andava de um lado para o outro, bebendo uísque direto da garrafa. Ela ouviu o som da cabeceira da cama batendo contra a parede rítmica e repetidamente. Ela ouviu os gemidos de Emanuel — não eram gemidos de dor, mas de um prazer que beirava o delírio.
— Aquela vadia... — sibilou Sara, as lágrimas borrando seu rímel caro. — Aquela vadia tímida está matando ele.
Sara percebeu que sua estratégia de vulgaridade e impacto frontal não funcionava contra a manha letal de Eduarda. Eduarda não lutava pelo espaço de Emanuel; ela o ocupava inteiramente, como um gás silencioso que preenchia todos os pulmões.
Na manhã seguinte, quando o sol começou a entrar pela janela, Emanuel estava desmaiado de sono, ainda algemado, com marcas de unhas e dentes por todo o peito e ombros. Ele parecia um homem que havia sobrevivido a um naufrágio.
Eduarda, por outro lado, levantou-se radiante. Ela se vestiu com um vestido romântico de flores, calçou suas sapatilhas e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo simples. Ela parecia a personificação da inocência.
Ela caminhou até a cozinha, onde Sara estava sentada, com a aparência de quem não dormira um minuto.
— Bom dia, Sara — disse Eduarda, com uma voz doce e cristalina. — Vou preparar um café bem forte para o Emanuel. Ele teve uma noite... agitada.
Sara olhou para ela, o ódio transbordando.
— O que você quer, garota? Dinheiro? O nome dele? O que você quer para deixar ele em paz?
Eduarda parou de preparar o café e olhou diretamente para Sara. Pela primeira vez, a máscara de timidez caiu por um segundo, revelando uma frieza que fez Sara estremecer.
— Eu quero tudo, Sara — disse Eduarda, o tom de voz calmo e gélido. — Eu quero o corpo dele, a alma dele e cada segundo do tempo dele. Você acha que ele precisa de você porque você é "quente"? Eu sou o que ele precisa para se sentir vivo e o que ele precisa para morrer de prazer. Você é o passado. Eu sou o vício do qual ele nunca vai conseguir se livrar.
Ela voltou a sorrir, a bonequinha manhosa retornando instantaneamente.
— Você quer uma torrada? Eu fiz a mais, já que o Emanuel provavelmente não vai conseguir levantar para tomar café hoje.
Sara não respondeu. Ela sentiu, pela primeira vez na vida, que havia encontrado alguém muito mais perigoso do que ela jamais fora.
Emanuel acordou horas depois, quando Eduarda o soltou das algemas com um beijo terno na testa.
— Acorda, meu amor — disse ela, entregando-lhe uma xícara de café. — Você precisa se arrumar. Temos aquele jantar com os investidores hoje, lembra?
— Eu... eu não sei se consigo ir, Duda — Emanuel sentou-se, sentindo o mundo girar. — Estou sem forças.
— Ah, mas você vai — disse ela, acariciando o rosto dele. — Eu vou estar do seu lado, sendo sua esposa perfeita e tímida. E quando voltarmos... eu tenho uma surpresa nova para você.
Emanuel olhou para ela, sentindo uma mistura de adoração e terror. Ele conquistara o que queria: as duas mulheres. Mas ele percebeu que, enquanto Sara era uma tempestade que ele achava que podia controlar, Eduarda era o oceano profundo que estava, lentamente, engolindo-o por inteiro.
Ele bebeu o café, sentindo o efeito da cafeína, mas sabendo que nada seria suficiente para protegê-lo da fera que vivia sob a seda de Eduarda. Ele era o tatuador rico, o homem de controle, o dono de impérios. Mas ali, na intimidade daquela cobertura, ele era apenas a presa de uma menina manhosa que aprendera que o sexo era a corrente mais forte do mundo.
E Sara, observando da porta, sabia que sua luta não era mais para ter Emanuel, mas para não ser apagada pela sombra doce e letal que Eduarda projetava sobre todos eles. O triângulo estava mais vivo do que nunca, mas agora, o vértice mais frágil revelara-se o mais afiado. E Emanuel, exausto e fascinado, não tinha outra escolha a não ser continuar caindo naquela armadilha de prazer e manha.