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O Altar das Duas Faces

O ar na cobertura de Emanuel estava saturado com o cheiro de lírios brancos e o perfume amadeirado de velas importadas. Para o mundo exterior, Emanuel era o tatuador bilionário e enigmático que finalmente havia sido "domado". Para as duas mulheres em sua vida, ele era o arquiteto de um destino compartilhado que desafiava qualquer lógica moral.

Emanuel havia tomado sua decisão. Ele se casaria com Eduarda no civil e no religioso, atendendo às exigências de Helena e ao desejo de pureza que a jovem estudante de História da Arte despertava nele. Mas o fogo de Sara não poderia ser apagado com um contrato nupcial. Para "compensar" sua loira explosiva, ele prometera uma cerimônia simbólica, uma união de almas e sangue que ocorreria na mesma semana.

— Você acha que eu vou aceitar ser a "segunda", Emanuel? — Sara rugiu, jogando uma taça de cristal contra a parede do escritório dois dias antes do casamento oficial.

Emanuel não se moveu. Ele apenas observou os estilhaços brilharem no chão.

— Não é ser a segunda, Sara. É ser a outra face da mesma moeda. Eduarda terá o meu nome. Você terá a minha essência.

— Eu vou transformar a minha cerimônia em um evento que fará o seu casamento de igreja parecer um funeral de província — sibilou Sara, aproximando-se dele, as unhas cravadas no peito da camisa dele. — Se ela vai ter o papel, eu vou ter o espetáculo. Eu quero as joias, quero o local mais caro de São Paulo e quero que você sangre por mim naquela noite tanto quanto vai rezar por ela na manhã seguinte.

— Faça como quiser — Emanuel respondeu, segurando o rosto dela com força. — Apenas não toque nela.

O casamento com Eduarda foi uma visão de castidade e elegância romântica. A catedral estava repleta de flores claras. Eduarda caminhou até o altar como uma aparição, o vestido de renda francesa cobrindo cada centímetro de sua pele, o véu longo escondendo sua expressão de timidez extrema. Quando Emanuel levantou o véu, encontrou os olhos grandes e úmidos dela, brilhando com uma adoração quase infantil.

— Eu te amo, Emanuel — sussurrou ela, a voz manhosa e trêmula.

— Eu te protegerei para sempre, pequena — ele prometeu, selando o vínculo com um beijo casto diante de Deus.

Três dias depois, o cenário mudou drasticamente. Sara não escolheu uma igreja, mas um casarão abandonado e restaurado, iluminado apenas por tochas e luzes vermelhas profundas. Enquanto o casamento de Eduarda fora um hino à luz, a cerimônia de Sara foi um culto ao desejo. Ela vestia um figurino que mal poderia ser chamado de vestido: uma seda vermelha tão fina que parecia líquida, com fendas que subiam até o quadril e um decote que desafiava a gravidade, exibindo o silicone impecável de forma provocante.

— Hoje não há padres, Emanuel — disse Sara, diante de um pequeno grupo de amigos íntimos e influentes. — Hoje há apenas a verdade.

Ela fez questão de que a festa fosse regada ao champanhe mais caro e que a música eletrônica vibrasse até o chão tremer. Emanuel, vestido de preto, sentia a dualidade rasgando seu peito. Ele olhava para Sara e via o caos que o mantinha vivo; mas sua mente voltava para Eduarda, que o esperava em casa, pura e silenciosa.

A lua de mel, no entanto, foi o palco onde todas as certezas de Emanuel foram destruídas.

Ele levou Eduarda para uma vila isolada na Toscana. O plano era passar dias tranquilos, caminhando por vinhedos e cuidando da fragilidade de sua nova esposa. Na primeira noite, o jantar foi servido no terraço. Eduarda estava quieta, usando um vestido de seda rosa pálido, agindo com a timidez de quem temia o próprio reflexo.

— Você está cansada, Duda? — Emanuel perguntou, acariciando a mão dela. — Se quiser, podemos apenas dormir. Eu sei que tudo isso foi muito estressante para você.

Eduarda olhou para ele, os cílios longos batendo devagar. Ela deu um sorriso pequeno, aquele jeito manhoso que ele tanto amava.

— Eu não estou cansada, Emanuel. Só estou... ansiosa.

Quando entraram no quarto, a luz da lua filtrava pelas janelas altas. Emanuel esperava a passividade de sempre, o apoio emocional que ele estava acostumado a dar. Ele começou a desabotoar a camisa, mas parou quando viu Eduarda caminhar até a porta e trancá-la com um clique seco.

Ela se virou para ele. A expressão doce ainda estava lá, mas havia algo novo no brilho dos olhos.

— Emanuel... — ela chamou, a voz baixa e aveludada. — Você disse que eu era sua, não disse?

— Sim, pequena. Completamente minha.

— Então eu quero que você veja o que guardei só para você.

Eduarda desfez o laço do vestido. O tecido caiu no chão, revelando que, por baixo daquela aparência de menina romântica, ela usava uma lingerie de renda preta provocante, com recortes que Emanuel nunca imaginaria que ela conhecesse. Mas não foi apenas a roupa. Foi a postura.

Ela caminhou até ele, não com a hesitação de uma virgem, mas com a confiança predatória de quem sabia exatamente o efeito que causava.

— Você achou que eu era só uma boneca de porcelana, não foi? — ela sussurrou, passando as mãos pequenas e macias pelo abdômen tatuado dele. — Você achou que eu só queria proteção.

Emanuel sentiu o sangue latejar em suas têmporas. O contraste era avassalador. A Eduarda timida, que corava com um elogio na frente dos outros, estava agora mordendo o lábio inferior e olhando para ele com uma fome que rivalizava com a de Sara.

— Eduarda... — ele murmurou, a voz falhando.

— Shhh — ela colocou um dedo sobre os lábios dele. — Na frente deles, eu sou sua protegida. Aqui dentro... eu sou sua dona.

O que se seguiu foi uma revelação. Eduarda se mostrou uma "safada" de primeira linha, usando sua manha para conseguir exatamente o que queria. Ela era exigente, explorando cada centímetro do corpo de Emanuel com uma curiosidade insaciável e uma falta de inibição que o deixou em choque. Ela gemia o nome dele com uma mistura de inocência e luxúria que era o afrodisíaco mais potente que ele já havia experimentado.

— Mais, Emanuel... não para — ela pedia, as unhas cravando-se nas tatuagens das costas dele, a voz manhosa transformando ordens em súplicas irresistíveis.

Emanuel foi à loucura. Ele achava que precisava de Sara para o sexo selvagem e de Eduarda para a paz, mas Eduarda estava reescrevendo as regras. Ela era uma "salada" de contradições: o rosto de um anjo e os instintos de uma súcubo.

Na manhã seguinte, Eduarda estava sentada na cama, envolta nos lençóis brancos, com o cabelo bagunçado e uma expressão de absoluta serenidade. Quando o serviço de quarto trouxe o café, ela voltou instantaneamente ao seu papel de menina tímida, escondendo-se atrás de Emanuel e falando baixo, agradecendo com um aceno de cabeça recatado.

Assim que o garçom saiu, ela olhou para Emanuel e deu uma piscadela travessa.

— Ele achou que eu sou uma santinha, não achou? — ela riu, um som cristalino e provocador.

Emanuel sentou-se ao lado dela, ainda processando a noite anterior.

— Você é perigosa, Eduarda. Eu nunca imaginei...

— Você me deu o mundo, Emanuel — ela disse, subindo no colo dele e entrelaçando as pernas em sua cintura. — E eu vou te dar tudo o que você quiser. Eu sei que a Sara é o seu fogo. Mas eu posso ser o seu incêndio, se você souber como me acender.

Enquanto isso, em São Paulo, Sara não estava parada. Ela havia recebido fotos anônimas da lua de mel — Emanuel e Eduarda caminhando de mãos dadas, parecendo o casal perfeito. A fúria de Sara era fria agora. Ela sabia que a cerimônia simbólica fora apenas um consolo, mas ela não aceitaria as migalhas.

Ela ligou para o arquiteto que estava reformando o novo estúdio de Emanuel.

— Quero que o lounge privado seja decorado exatamente como eu pedi — ela ordenou, a voz cortante. — E quero que a inauguração seja no dia em que eles voltarem. Vou mostrar para aquela mosca morta que um anel no dedo não significa nada quando se trata de quem manda no coração — e na cama — do Emanuel.

Sara estava planejando um "ataque" de vulgaridade e luxo para a festa de inauguração, sem saber que a rival que ela tanto desprezava tinha garras muito mais afiadas do que sua aparência sugeria.

Na Toscana, Emanuel sentia-se um homem dividido em dois, mas pela primeira vez, ele não estava estressado com isso. Ele estava fascinado. Ele tinha Sara esperando por ele com sua agressividade loira e seu silicone impecável, pronta para uma guerra de poder. E tinha Eduarda, sua esposa "manhosa", que entre quatro paredes era capaz de fazê-lo esquecer o próprio nome com uma única palavra sussurrada.

— Emanuel? — Eduarda chamou, enquanto eles se preparavam para um passeio de barco. — Você está pensando nela?

Emanuel congelou por um segundo. Eduarda era emocionalmente intuitiva, ela sempre sabia.

— Eu estou aqui com você, Duda.

— Eu sei que está — ela disse, aproximando-se e ajeitando a gola da camisa dele com um gesto carinhoso. — E eu não me importo. Desde que, quando as luzes se apaguem, seja o meu nome que você grite. Ela pode ter o seu passado e as suas festas. Mas eu tenho o seu futuro... e o seu prazer.

Ela lhe deu um beijo rápido e doce, voltando a ser a menina tímida assim que saíram do quarto e encontraram os funcionários da vila.

Emanuel caminhou atrás dela, olhando para o balanço de seus quadris sob o vestido leve. Ele percebeu que havia criado um monstro de duas cabeças, e ele as amava igualmente. A vulgaridade de Sara o excitava, mas a depravação escondida sob a timidez de Eduarda o viciava.

O retorno para o Brasil prometia ser um campo de batalha. Sara estava armada com seu espetáculo e sua confiança inabalável. Eduarda estava armada com sua nova descoberta de poder e sua manha letal. E Emanuel? Emanuel estava exatamente onde queria estar: no centro de um furacão, sendo puxado por duas forças opostas, sem a menor intenção de se libertar de nenhuma delas.

Afinal, para um homem que vivia de marcar a pele para sempre, nada era mais permanente do que a obsessão por duas mulheres que representavam o céu e o inferno em uma mesma vida. E ele estava pronto para arder em ambos.