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A Marca da Obsessão
O sol da tarde de quarta-feira incidia sobre as colunas de mármore da Faculdade de Belas Artes, criando sombras longas que pareciam dançar conforme os alunos circulavam pelos corredores. Para Eduarda, aquele era o seu refúgio. Entre livros de iconografia e análises de pinceladas barrocas, ela se sentia segura, longe do mundo barulhento e das pessoas intensas demais que pareciam sugar sua energia.
Porém, desde a festa de noivado de Lucas, a paz de Eduarda havia se tornado uma fachada frágil. Cada vez que fechava os olhos, sentia o calor das mãos de Emanuel em seu braço e ouvia o timbre grave de sua voz. E, logo em seguida, vinha o rosto de Sara, as palavras venenosas e o sentimento de humilhação.
— Você está no mundo da lua de novo, Duda — disse Felipe, um colega de classe, aproximando-se com um sorriso gentil.
Eduarda despertou de seus pensamentos, ajustando a alça de sua bolsa de couro cru. Ela vestia um vestido floral leve, de tons pastéis, que terminava um pouco acima dos joelhos, e um cardigã fino de tricô. Era uma imagem de delicadeza pura.
— Só estou cansada, Felipe. A semana tem sido longa — ela respondeu, a voz mansa e um pouco manhosa, como se estivesse sempre pedindo desculpas por existir.
— Você não deveria se cobrar tanto. Vamos, eu te acompanho até o estacionamento. Ouvi dizer que abriu uma cafeteria nova aqui perto e... bem, eu adoraria levar você lá.
Eduarda corou, baixando o olhar. Felipe era o oposto de Emanuel: era previsível, doce e seguro. Exatamente o que ela sempre pensou que queria.
— Eu não sei, Felipe... eu tenho muita coisa para ler.
— Só uma xícara de café, prometo. Você precisa relaxar um pouco.
Eles começaram a caminhar em direção à saída, conversando sobre o último seminário. Felipe, em um gesto de carinho, colocou a mão sobre o ombro de Eduarda, guiando-a por entre os grupos de estudantes. Eduarda sentiu um leve desconforto, mas não o afastou. Ela não gostava de ser rude, e a proximidade física de alguém que não a ameaçava era, de certa forma, reconfortante.
O que ela não sabia era que, do outro lado da rua, dentro de um SUV preto de vidros escuros, um par de olhos negros a observava com uma intensidade predatória.
Emanuel estava estacionado ali há quase uma hora. Ele não era um homem de perder tempo, mas a imagem de Eduarda sob a luz do sol era algo que ele precisava processar. Ela parecia ainda mais etérea do que na noite da festa. No entanto, quando viu o braço do rapaz desconhecido envolver os ombros dela, a racionalidade de Emanuel, sua característica mais forte, simplesmente evaporou, dando lugar a um ciúme sombrio e possessivo que ele mal reconhecia.
Ele abriu a porta do carro e desceu. Emanuel não se importava em passar despercebido. Com sua postura firme, vestindo uma camisa preta básica que marcava seus músculos e deixava à mostra algumas tatuagens que subiam pelo pescoço, ele exalava uma aura de poder e perigo.
Eduarda congelou quando o viu. O riso de Felipe morreu no ar ao notar a mudança drástica na expressão da garota.
— Eduarda — a voz de Emanuel ecoou, fria e autoritária, cortando o barulho do campus.
Ela sentiu as pernas tremerem. O contraste entre o ambiente acadêmico e a presença bruta de Emanuel era chocante.
— Emanuel? O que... o que você está fazendo aqui? — Sua voz saiu quase como um sussurro, carregada daquela fragilidade que tanto o encantava e o irritava ao mesmo tempo.
Emanuel ignorou Felipe completamente, caminhando até parar a poucos centímetros dela. Ele invadiu o espaço pessoal de Eduarda sem hesitação, forçando-a a olhar para cima para encontrar seus olhos.
— Eu disse que queria falar com você. E eu não costumo dizer as coisas duas vezes.
Felipe, tentando manter alguma dignidade, deu um passo à frente.
— Ei, cara, quem é você? A Duda está comigo agora.
Emanuel finalmente desviou o olhar para o rapaz. Foi um olhar curto, carregado de um desprezo tão profundo que Felipe instintivamente recuou um passo.
— Ela não está com você — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa. — Ela só estava esperando que eu viesse buscá-la. Não é mesmo, Eduarda?
Eduarda olhou de um para o outro, sentindo o pânico subir pela garganta. Ela queria fugir, queria se esconder, mas o magnetismo de Emanuel a mantinha presa ao chão.
— Felipe, por favor... está tudo bem — ela disse, tentando evitar um confronto. — Ele é... um conhecido. Pode ir na frente, eu te ligo depois.
— Tem certeza, Duda? Ele parece...
— Eu tenho certeza. Por favor.
Felipe hesitou, mas a expressão de Emanuel deixou claro que qualquer resistência resultaria em algo desagradável. Ele se retirou, lançando olhares preocupados para trás.
Assim que ficaram "sozinhos" no meio do fluxo de estudantes, Emanuel voltou sua atenção total para ela. Ele estendeu a mão e, com o polegar, acariciou o lábio inferior de Eduarda, um gesto que era ao mesmo tempo um carinho e uma marcação de território.
— Você não deveria deixar qualquer um tocar em você assim — ele rosnou.
— Ele é meu amigo, Emanuel! E você... você não pode aparecer assim. Você tem namorada, você tem a Sara! — Ela tentou se afastar, mas ele segurou sua cintura com firmeza, puxando-a para mais perto.
— A Sara não está aqui. E o que eu sinto quando olho para você não tem nada a ver com ela.
— Isso é errado — ela choramingou, encostando a testa no peito dele, sentindo o perfume amadeirado que a embriagava. — Eu não sou esse tipo de garota. Eu não quero ser um caso, um segredo.
Emanuel sentiu o coração dela batendo descompassado contra o seu peito. A doçura dela era como um bálsamo para o estresse constante de sua vida, para a agressividade de seus negócios e a intensidade exaustiva de Sara. Com Eduarda, ele sentia que podia respirar. E, por isso, ele a queria. Ele a queria morando com ele, sob sua proteção, onde ninguém mais pudesse tocá-la ou olhá-la.
— Você não vai ser um segredo, Eduarda. Você vai ser minha.
— E a Sara? — Ela levantou os olhos, marejados. — Você vai terminar com ela?
Emanuel hesitou por uma fração de segundo. A imagem de Sara, loira, exuberante e cheia de uma energia que o incendiava, veio à sua mente. Ele ainda a amava. Ele amava a batalha que era estar com Sara. Mas ele precisava da paz que era estar com Eduarda.
— Eu vou resolver as coisas — ele disse, com uma convicção que não admitia réplicas. — Mas agora, você vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.
— Eu tenho aula em dez minutos...
— Não tem mais.
Ele a conduziu até o carro. Eduarda, em sua natureza manhosa e avessa a conflitos, não lutou. No fundo, uma parte dela ansiava por aquela dominação, pela sensação de ser tão desejada que um homem como Emanuel cruzaria a cidade apenas para buscá-la.
Dentro do carro, o silêncio era denso. Emanuel dirigia com uma das mãos, enquanto a outra repousava sobre a coxa de Eduarda, apertando-a levemente de vez em quando.
— Para onde estamos indo? — ela perguntou, a voz sumindo.
— Para um dos meus estúdios. O mais privado. Quero que você veja o que eu faço de verdade. Quero que você entenda quem eu sou antes de entrar na minha vida de vez.
Eduarda olhou pela janela, o coração dividido entre o medo e uma excitação proibida. Ela sabia que estava entrando em um terreno perigoso. Sara não aceitaria ser dividida, e ela mesma não sabia se suportaria a sombra de outra mulher. Mas, ao olhar para o perfil sério e decidido de Emanuel, ela percebeu que já estava sob o feitiço dele.
Alguns quilômetros dali, em um salão de beleza de luxo, Sara observava seu reflexo no espelho enquanto uma manicure cuidava de suas unhas compridas e vermelhas. Ela sentia uma inquietação estranha. Emanuel não atendia suas chamadas há horas, algo raro, já que ele sempre mantinha o controle de tudo.
— Ele está aprontando — murmurou Sara para si mesma, os olhos brilhando com uma mistura de ciúme e diversão competitiva. — Se ele acha que aquela mosca morta de vestido lavanda vai tirar o que é meu, ele não conhece a mulher que tem.
Sara pegou o telefone e discou o número de um dos assistentes de Emanuel. Ela era formada em administração, e embora não trabalhasse, sabia exatamente como rastrear os passos de seu homem.
— Oi, querido. Onde o Emanuel marcou a última reunião hoje? Ah, entendi... no estúdio da zona sul? Aquele que ele só usa para clientes especiais? Interessante.
Ela desligou o celular com um sorriso predatório.
Enquanto isso, Emanuel estacionava em frente a um prédio discreto de fachada industrial. Ele guiou Eduarda para dentro, passando por portas com reconhecimento digital até chegarem a um loft espaçoso, decorado com arte moderna, couro preto e luzes neon suaves. O cheiro de tinta e antisséptico era onipresente, mas ali parecia sofisticado.
— É aqui que eu crio — disse ele, levando-a até uma mesa de desenho onde dezenas de esboços estavam espalhados.
Eduarda se aproximou, fascinada. Eram desenhos de flores, deuses gregos e padrões geométricos de uma complexidade absurda.
— São lindos — ela sussurrou, tocando o papel com as pontas dos dedos. — Você tem uma sensibilidade técnica incrível, Emanuel. A proporção áurea nestes traços... é perfeita.
Emanuel sorriu, um sorriso real, que raramente aparecia.
— Você é a primeira pessoa que percebe a técnica antes do tema.
Ele se aproximou por trás dela, envolvendo-a em seus braços, as mãos espalmadas sobre o ventre de Eduarda. Ele inclinou a cabeça, aspirando o perfume de flores silvestres do cabelo dela.
— Eu quero você aqui, Eduarda. Quero que você estude seus livros de arte nesses sofás enquanto eu trabalho. Quero cuidar de você.
— Emanuel, isso é loucura... a Sara nunca deixaria...
— Eu não peço permissão, Eduarda. Eu decido. E eu decidi que quero você.
Eduarda virou-se nos braços dele, o rosto iluminado pela luz neon azulada do estúdio. Ela parecia tão pequena e frágil ali, cercada pela estética bruta de Emanuel.
— Você me assusta um pouco — ela admitiu, fazendo um biquinho manhoso que o fez querer beijá-la até que ela perdesse o fôlego.
— O medo é apenas o respeito pelo que é intenso demais — ele murmurou, aproximando o rosto do dela. — Não tenha medo de mim. Tenha medo de ficar longe de mim.
Quando seus lábios finalmente se encontraram, foi uma colisão de mundos. O beijo de Emanuel era exigente, possessivo, como se ele estivesse tatuando a alma dela naquele momento. Eduarda soltou um pequeno gemido, entregando-se ao abraço, as mãos subindo para os ombros largos dele, buscando proteção no próprio homem que representava o perigo.
Eles estavam tão perdidos um no outro que não ouviram o som do elevador chegando ao andar.
A porta se abriu com um estalo metálico.
— Mas que cena mais tocante! — A voz de Sara chicoteou o ar, carregada de sarcasmo e fúria.
Emanuel e Eduarda se separaram bruscamente. Eduarda limpou os lábios, o rosto ficando vermelho instantaneamente, enquanto se encolhia atrás de Emanuel.
Sara estava parada na entrada, usando um vestido vermelho sangue, extremamente curto, e saltos agulha. Seus cabelos loiros pareciam uma juba de leoa e seus olhos disparavam faíscas.
— Eu imaginei que você estivesse ocupado, Emanuel, mas não sabia que estava dando aulas particulares de "anatomia" para a estagiária de museu — Sara disse, caminhando para o centro da sala, cada passo um desafio.
— Sara, o que você está fazendo aqui? — Emanuel perguntou, sua voz assumindo aquele tom frio e controlado, embora seus dedos estivessem cerrados em punhos.
— Eu vim ver meu namorado. Mas parece que ele encontrou um novo brinquedo — ela olhou para Eduarda, que tremia visivelmente. — O que foi, gracinha? O gato comeu sua língua? Ou você só abre a boca para beijar o homem das outras?
— Eu... eu não... — Eduarda começou a chorar silenciosamente, a pressão da situação sendo demais para sua natureza sensível.
— Deixe ela em paz, Sara — Emanuel interveio, dando um passo à frente para protegê-la.
— Ou o quê? Você vai me expulsar? Depois de quatro meses, você vai me trocar por essa coisa sem sal que parece que vai quebrar se eu soprar com mais força?
Sara se aproximou de Eduarda, ignorando Emanuel por um momento. Ela era mais alta graças aos saltos e exalava uma confiança agressiva.
— Escute bem, boneca. O Emanuel gosta de coisas bonitas, e você é bonitinha de um jeito sem graça. Mas ele precisa de fogo, e você é apenas água morna. Ele vai se cansar de você em uma semana e vai rastejar de volta para a minha cama.
Eduarda soluçou, escondendo o rosto nas mãos. A agressividade de Sara a feria fisicamente.
Emanuel, vendo o estado de Eduarda, sentiu uma onda de proteção avassaladora, mas ao mesmo tempo, a visão de Sara ali, desafiadora e vibrante, ainda mexia com seus instintos mais básicos. Ele não queria que Sara fosse embora. Ele queria que ela ficasse, mas queria que ela aceitasse Eduarda.
— Chega! — Emanuel gritou, e o silêncio caiu sobre o loft. — Sara, você não vai embora. E Eduarda, você também não.
As duas mulheres olharam para ele, confusas.
— O que você está dizendo, Emanuel? — Sara perguntou, franzindo a testa.
— Estou dizendo que as regras mudaram. Eu não vou escolher. Eu amo você, Sara, pela sua força e pelo que temos. Mas eu quero a Eduarda. Eu preciso dela. E ela vai ficar comigo.
Sara soltou uma gargalhada incrédula.
— Você enlouqueceu? Você quer um harém agora?
— Eu quero o que me faz bem — Emanuel disse, caminhando até Eduarda e passando o braço por seus ombros, enquanto mantinha o olhar fixo em Sara. — E as duas me fazem bem de formas diferentes. Vocês podem lutar contra isso ou podem aceitar que a partir de hoje, as coisas serão do meu jeito.
Eduarda olhou para Emanuel com os olhos arregalados. Ela não conseguia imaginar viver naquela tensão, mas a ideia de perdê-lo agora parecia insuportável. Ela se apoiou nele, buscando o conforto que só ele parecia oferecer, mesmo sendo a fonte de todo o caos.
Sara cruzou os braços, o peito subindo e descendo com força. Ela olhou para a fragilidade de Eduarda e para a determinação sombria de Emanuel. Ela odiava a ideia, mas o desafio a excitava. Ela nunca recuava de uma briga.
— Você acha que pode nos controlar, Emanuel? — Sara perguntou, um sorriso perverso começando a surgir em seus lábios. — Tudo bem. Vamos ver quem aguenta mais tempo nesse seu joguinho. Mas não espere que eu seja gentil com a sua protegida.
Emanuel apertou Eduarda contra si. Ele sabia que o caminho à frente seria um campo de batalha, mas ele era um guerreiro por natureza. Ele tinha a força, tinha o império e, agora, tinha as duas mulheres que completavam seu mundo distorcido.
A história de amor, dor e posse estava apenas começando, e sob as luzes neon do estúdio de tatuagem, Emanuel marcou o destino de todas elas sem precisar de uma única gota de tinta.