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O Santuário de Vidro e a Tempestade de Seda
A cobertura de Emanuel era exatamente como ele: imponente, funcional e envolta em uma aura de controle absoluto. As janelas do chão ao teto ofereciam uma visão panorâmica da cidade, mas, para Eduarda, aquele lugar parecia um labirinto de vidro onde ela se sentia pequena demais, uma boneca de porcelana colocada em uma prateleira de aço.
Fazia apenas três dias que ela havia se mudado. Tudo aconteceu em um borrão de emoções. Emanuel não aceitou um "não" como resposta; ele mesmo enviou uma equipe para buscar os pertences dela na pequena pensão onde morava. Agora, ela se via cercada por lençóis de fios egípcios e o silêncio opressor de um luxo que não parecia pertencer a ela.
Eduarda estava sentada na ponta da cama king-size, vestindo um robe de seda rosa pálido que Emanuel havia comprado. Ela abraçava os próprios joelhos, os olhos grandes fixos na porta.
— Você parece um passarinho assustado que esqueceu como voar — a voz de Emanuel surgiu da porta, profunda e calma. Ele havia acabado de chegar de um de seus estúdios. Retirou o paletó escuro, jogando-o sobre uma poltrona, e começou a desabotoar os punhos da camisa, revelando as tatuagens que subiam pelos pulsos.
Eduarda estremeceu levemente, mas não desviou o olhar.
— É tudo muito grande aqui, Emanuel — sussurrou ela, a voz carregada daquela manha natural que o deixava desarmado. — Eu sinto que, se eu caminhar muito rápido, vou quebrar alguma coisa.
Emanuel caminhou até ela, sentando-se ao seu lado. O peso de seu corpo fez o colchão afundar, e Eduarda instintivamente se inclinou em sua direção, buscando o calor que ele emanava. Ele passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para o seu peito.
— Nada aqui é mais valioso do que você, Duda — disse ele, a mão subindo para acariciar os cabelos longos e macios dela. — Eu te trouxe para cá porque quero cuidar de você. Quero que você foque nos seus estudos, na sua arte. O resto, eu resolvo.
— Mas e a Sara? — O nome saiu como um sopro de medo. — Ela não parou de me mandar mensagens, Emanuel. Ela diz que eu sou apenas uma hóspede temporária. Que você vai se cansar do meu "jeito de criança".
Os olhos de Emanuel escureceram. Ele sabia que Sara não facilitaria as coisas. Ela ainda morava no apartamento dela, mas passava a maior parte do tempo ali, reivindicando seu espaço com a força de um furacão.
— A Sara tem o jeito dela de marcar território — Emanuel respondeu, a voz ficando mais rígida. — Mas ela sabe que eu não volto atrás na minha palavra. Você fica.
Nesse exato momento, o som de saltos altos batendo contra o piso de porcelanato da sala ecoou pelo corredor. Era um ritmo agressivo, confiante. Sara não batia na porta; ela simplesmente invadia.
— Emanuel! — a voz dela subiu de tom antes mesmo de ela entrar no quarto. — Eu espero que você já tenha decidido o que vamos fazer no jantar de amanhã com os investidores da rede de estúdios. E, por favor, me diga que você não vai levar a "menina-prodígio" para passar vergonha na frente de pessoas sérias.
Sara parou no batente da porta. Ela usava um conjunto de couro preto ultrajusto, os lábios pintados de um vermelho tão vibrante que parecia sangue. Quando seus olhos encontraram os de Eduarda, aninhada nos braços de Emanuel, o desdém foi instantâneo.
— Ah, vejam só. O ninho de amor ainda está em funcionamento — Sara debochou, cruzando os braços, o que realçava seu busto siliconado. — Você não se cansa de ser um peso morto, garota?
Eduarda se encolheu mais, escondendo o rosto no pescoço de Emanuel.
— Sara, chega — Emanuel ordenou, sua voz soando como um chicote. — Eduarda está sob minha proteção. Se você quiser continuar sendo bem-vinda aqui, vai ter que aprender a respeitar a presença dela.
— Respeitar? — Sara deu uma risada curta e amarga. — Eu administro sua vida, Emanuel. Eu entendo de negócios, de imagem, de poder. O que ela entende? De quadros velhos e de como fazer essa cara de choro que te manipula?
— Eu estudo História da Arte porque... porque o mundo precisa de beleza, não só de números — Eduarda disse, a voz trêmula, mas tentando se defender.
Sara deu um passo para dentro do quarto, inclinando-se sobre os dois. O cheiro de seu perfume caro e forte inundou o espaço, lutando contra a fragrância suave de Eduarda.
— Beleza? — Sara riu, tocando uma mecha do próprio cabelo loiro perfeitamente arrumado. — Querida, você é um rascunho. Eu sou a obra finalizada. Emanuel gosta de você agora porque você é uma novidade silenciosa, mas homens como ele precisam de adrenalina. E água com açúcar não mata a sede de ninguém por muito tempo.
— Já chega, Sara. Saia — Emanuel levantou-se, sua presença preenchendo o quarto de uma forma que até Sara recuou um milímetro. — Vá para a sala. Eu vou falar com você em um minuto.
Sara lançou um último olhar venenoso para Eduarda antes de girar nos calcanhares e sair, fazendo questão de bater a porta com força.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda começou a chorar, soluços baixos que sacudiam seus ombros delicados. Emanuel voltou para ela, ajoelhando-se no chão entre suas pernas e segurando suas mãos.
— Me desculpa — ela soluçou. — Eu não quero ser um problema. Talvez ela tenha razão. Eu não pertenço a esse mundo de vocês.
— Olhe para mim, Eduarda — Emanuel disse, forçando-a a erguer o queixo. — Você pertence a onde eu disser que pertence. Eu não sou um homem de dúvidas. Eu quero a Sara porque ela é o meu reflexo no mundo exterior, a força que eu preciso para os meus negócios. Mas eu quero você porque você é o único lugar onde eu posso baixar a guarda. Entendeu?
Eduarda assentiu, embora a insegurança ainda brilhasse em seus olhos. Ela se inclinou para frente, apoiando a cabeça no ombro dele, buscando o conforto que só ele parecia oferecer.
— Você promete que não vai me deixar? — ela sussurrou, a voz manhosa, quase infantil em sua necessidade de segurança.
— Eu prometo.
Emanuel a beijou na testa, sentindo uma onda de possessividade. Ele sabia que estava criando uma situação explosiva. Ter as duas sob o mesmo teto, ou ao menos sob o mesmo domínio emocional, era um desafio logístico e psicológico. Mas ele era um homem que moldava a pele das pessoas com agulhas; ele acreditava que podia moldar a realidade à sua vontade.
Mais tarde, naquela noite, Emanuel encontrou Sara na cozinha, bebendo uma taça de vinho tinto. Ela estava sentada na bancada de mármore, as pernas longas cruzadas.
— Você vai acabar destruindo ela, Emanuel — disse Sara, sem olhar para ele. — Ou ela vai acabar destruindo a gente.
— Eu sei o que estou fazendo, Sara — ele respondeu, servindo-se de um copo de água.
— Sabe? — Ela desceu da bancada e caminhou até ele, colando seu corpo ao dele. Suas mãos subiram pelo peito de Emanuel, sentindo a firmeza de seus músculos. — Você quer a pureza dela para se sentir um salvador, mas é em mim que você pensa quando a adrenalina sobe. Você quer a paz dela, mas é do meu caos que você se alimenta.
Emanuel a segurou pela nuca, puxando-a para um beijo feroz, carregado de uma paixão que beirava a raiva. Sara correspondeu com a mesma intensidade, mordendo seu lábio inferior. Era uma conexão carnal, bruta e familiar.
— Eu não vou abrir mão de nenhuma das duas — ele murmurou contra os lábios dela.
— Então prepare-se para o inferno — Sara sussurrou de volta, com um sorriso desafiador. — Porque eu não vou facilitar a vida da sua "santinha". Se ela quer viver no seu mundo, vai ter que aprender a sangrar.
Emanuel a soltou e saiu da cozinha, voltando para o quarto onde Eduarda já dormia um sono inquieto. Ele se deitou ao lado dela, observando a serenidade de seu rosto sob a luz do luar que entrava pela janela.
Ele sentia que estava equilibrando duas metades de sua própria alma. De um lado, a ambição, o sexo e o poder representados por Sara. Do outro, a sensibilidade, o carinho e a paz representados por Eduarda.
Na manhã seguinte, o café da manhã foi um exercício de tensão. Emanuel havia exigido que as duas se sentassem à mesa. Eduarda usava um vestido de algodão branco, simples e romântico, enquanto Sara estava com um robe de seda transparente sobre uma lingerie provocante.
— Duda, eu providenciei um motorista para te levar à faculdade hoje — Emanuel disse, quebrando o silêncio. — Não quero você andando de metrô com aquelas pastas pesadas.
— Obrigada, Emanuel — ela respondeu, dando um sorriso tímido. — É muito gentil da sua parte.
— Oh, que fofo — interrompeu Sara, passando geleia em uma torrada com movimentos exagerados. — O papai Emanuel cuidando da filhinha. Você também vai conferir se ela escovou os dentes e fez o dever de casa, querido?
Eduarda baixou os olhos para o prato, as bochechas queimando.
— Sara, o próximo comentário sarcástico e você vai passar a semana no seu apartamento sem meu cartão de crédito — disse Emanuel, sem alterar o tom de voz, mas com uma frieza que fez até Sara hesitar.
Sara bufou, mas se calou. Ela sabia exatamente até onde podia esticar a corda antes que Emanuel a cortasse.
— Eu tenho um trabalho de campo hoje no museu — Eduarda disse, tentando mudar de assunto, a voz baixa. — Vamos analisar algumas esculturas do século XIX.
— Interessante — disse Emanuel, olhando para ela com um interesse genuíno. — Talvez eu possa te buscar mais tarde e você me explica um pouco sobre o que viu.
— Eu adoraria.
Sara revirou os olhos, levantando-se da mesa.
— Bom, enquanto vocês discutem mármore e poeira, eu vou gastar um pouco desse limite de crédito que você mencionou, Emanuel. Afinal, alguém precisa manter a economia girando enquanto a "intelectual" observa estátuas.
Ela saiu da sala com um rebolado ostensivo. Emanuel suspirou, sentindo o peso da decisão que tomara.
— Ela me odeia, não é? — Eduarda perguntou, estendendo a mão sobre a mesa para tocar a dele.
Emanuel entrelaçou seus dedos nos dela. A pele de Eduarda era tão macia, tão diferente da pele firme e sempre tensa de Sara.
— Ela não te odeia, Duda. Ela tem medo de você.
— Medo de mim? Mas eu não sou nada perto dela.
— Você é tudo o que ela não consegue ser — Emanuel disse, levantando a mão dela e beijando os nós dos dedos. — Você é a calma. E a calma assusta quem só sabe viver na tempestade.
Eduarda sentiu um calor no peito. Ela sabia que a convivência seria difícil, que as provocações de Sara seriam constantes e que o julgamento do mundo cairia sobre eles se a verdade viesse à tona. Mas, ao olhar para Emanuel, para a segurança que ele emanava e a forma como ele a protegia, ela sentia que podia suportar qualquer coisa.
Ela era a protegida dele. E, naquele santuário de vidro e aço, ela começaria a aprender que o amor de um homem como Emanuel não era algo simples ou puro, mas era um território onde ela, finalmente, sentia que tinha um lugar para chamar de seu — mesmo que tivesse que dividir o trono com uma rainha de espinhos.
Emanuel observou Eduarda sair para a faculdade, e depois preparou-se para um dia longo em seus estúdios. Ele sabia que o equilíbrio era frágil. Sara era impulsiva e Eduarda era sensível demais. Em algum momento, as duas forças colidiriam de forma que ele não conseguiria controlar apenas com palavras ou autoridade.
Mas, enquanto olhava para o horizonte da cidade, o tatuador sentiu uma satisfação sombria. Ele tinha o que queria. A seda e o couro. A luz e a sombra. E ele faria qualquer coisa para manter as duas marcas permanentes em sua vida, como a tinta que ele cravava na pele de seus clientes: eterna e impossível de apagar.