Voltar ao resumo

Nenhum

O Doce Sabor da Submissão

O ar de São Thomé das Letras era carregado de uma névoa fria que subia das montanhas de pedra, serpenteando pelas ruas de quartzito como se a própria terra estivesse respirando. Emanuel havia cumprido sua promessa, mas, como tudo o que vinha dele, a promessa tinha um preço: o isolamento dourado. Ele não alugara apenas uma casa; ele tomara posse de uma mansão rústica no alto de um despenhadeiro, longe do barulho dos estudantes e da energia caótica das fogueiras do centro.

Eduarda estava sentada no parapeito de pedra da varanda, observando o pôr do sol que tingia o céu de um violeta profundo. Ela vestia um suéter de lã oversized, tão grande que as mangas cobriam quase totalmente suas mãos, e meias grossas. Entre seus lábios pequenos e rosados, havia um pirulito de cereja. O cabo plástico branco balançava conforme ela o movia com a língua, um hábito que se tornara sua principal válvula de escape para a ansiedade desde que saíra do hospital.

— Você vai estragar seus dentes antes dos vinte e um se continuar com esse vício — a voz de Emanuel surgiu das sombras da sala, densa e vibrante como o som de um violoncelo.

Ele caminhou até ela, a silhueta imponente recortada contra a luz fraca. Emanuel parecia ainda mais sombrio naquele cenário de pedras brutas; ele usava um casaco de couro preto e mantinha as mãos nos bolsos, os olhos escuros fixos no movimento rítmico que Eduarda fazia com o doce.

— É melhor do que não comer nada, não é? — sussurrou Eduarda, a voz abafada pelo pirulito. Ela tirou o doce da boca com um estalo suave, revelando a língua tingida de um vermelho artificial. — O açúcar me ajuda a não sentir tontura. E é doce... eu gosto de coisas doces.

Emanuel parou diante dela, invadindo seu espaço pessoal com aquela territorialidade silenciosa que o definia. Ele estendeu a mão e, com o polegar, limpou um rastro brilhante de açúcar no canto da boca de Eduarda. O toque foi lento, quase uma carícia, mas carregado de uma tensão que fez o estômago dela dar voltas.

— Eu prefiro que você busque energia em mim, não em açúcar barato — disse ele, inclinando-se para frente até que suas respirações se misturassem. — Onde está a Sara?

— No andar de baixo, reclamando que o sinal de internet é instável e que o vinho local tem "gosto de terra" — Eduarda deu um risinho tímido, aquele som manhoso que sempre amolecia a rigidez de Emanuel. — Ela disse que vai descer até a praça para ver se encontra algum lugar que venda champanhe de verdade.

— Ela não vai a lugar nenhum sozinha — Emanuel rosnou, a possessividade brilhando em seus olhos. — Enviei dois seguranças com ela. E você, Eduarda... você não sai desta varanda até que eu diga que é seguro.

Eduarda suspirou, voltando a colocar o pirulito na boca. Ela se sentia como uma boneca de cristal que ele guardava em uma caixa forrada de veludo. Era reconfortante, de certa forma, saber que ninguém no mundo poderia tocá-la enquanto Emanuel estivesse por perto, mas o peso daquela proteção às vezes a sufocava.

— Amanhã é a visita à Gruta do Sobradinho — disse ela, olhando-o com olhos pidões. — O grupo vai sair às oito da manhã. Você vai me deixar ir, não vai? Você prometeu no hospital.

Emanuel não respondeu de imediato. Ele pegou o cabo do pirulito entre os dedos e, com um movimento firme, tirou-o da boca de Eduarda. Ele segurou o doce contra a luz, observando a cor vermelha translúcida, antes de levá-lo aos próprios lábios, provando o sabor da cereja e da saliva dela.

— Eu prometi que você viria para a cidade. Não prometi que te deixaria entrar em buracos úmidos e escuros com trinta desconhecidos — ele disse, a voz ficando ainda mais grave. — Mas, se você se comportar... se você me mostrar que recuperou suas forças... eu posso considerar.

Eduarda sentiu o rosto arder. O jeito como ele a olhava, como se estivesse decidindo se ela era digna de uma recompensa, despertava nela uma submissão que a assustava e a excitava. Ela se apoiou no peito dele, as mãos pequenas agarrando a lapela de seu casaco de couro.

— Eu me comporto, Emanuel... eu juro. Eu tomei todas as vitaminas hoje. E comi a sopa que a cozinheira fez.

— Bom — ele murmurou, passando a mão livre pelas costas dela, sentindo a delicadeza de sua espinha sob o suéter. — Porque eu não suportaria ver você desmaiar de novo. Minha paciência com a sua fragilidade está chegando ao limite, Duda. Eu quero você forte. Quero você pronta para mim.

O som de passos pesados e o aroma de um perfume floral agressivo anunciaram a chegada de Sara. Ela entrou na varanda como um raio, jogando sua bolsa de grife sobre uma mesa de ferro.

— Este lugar é o fim do mundo! — exclamou Sara, ajeitando o cabelo loiro que o vento da montanha havia desarrumado. — Emanuel, os seus "seguranças" são uns brutamontes. Eles não me deixaram entrar em uma loja de cristais porque disseram que o ambiente não era controlado. Eu sou sua namorada ou sua detenta?

Emanuel soltou Eduarda, mas manteve uma mão possessiva em seu ombro.

— Você é o que eu decidir que você é, Sara. E hoje, você é alguém que precisa se acalmar e aceitar que estamos aqui pela saúde da Eduarda.

Sara olhou para Eduarda, notando o pirulito na mão de Emanuel e a expressão de adoração submissa no rosto da garota. Um sorriso sarcástico surgiu em seus lábios siliconados.

— Ah, entendi. O momento "papai e filhinha" foi interrompido? — Sara caminhou até eles, parando propositalmente perto de Emanuel, deixando seu corpo roçar no dele. — Sabe, Emanuel, se você queria brincar de casinha com uma criança, poderia ter comprado uma boneca que não precisasse de soro na veia.

— Sara, não comece — Eduarda pediu, a voz sumindo.

— Não comece o quê, querida? — Sara se aproximou de Eduarda, tirando o pirulito da mão de Emanuel e jogando-o por cima da balaustrada, em direção ao abismo. — Esse doce é ridículo. Você tem vinte anos, não dez. Se quer algo na boca para se distrair, deveria aprender a pedir coisas de mulher adulta.

Eduarda olhou para onde o pirulito caiu, sentindo as lágrimas pinçarem seus olhos. Era uma coisa pequena, mas a agressividade de Sara sempre a atingia como um soco.

— Por que você faz isso? — sussurrou Eduarda. — Eu não te fiz nada.

— Você existe, querida. Isso já é o suficiente para me irritar — Sara rebateu, virando-se para Emanuel com um olhar desafiador. — E você, Emanuel? Vai ficar aí parado deixando ela choramingar por causa de um doce de um real?

Emanuel observou as duas. O contraste era absoluto: a loira vulgar e poderosa, exalando uma sexualidade agressiva e um controle social nato; e a morena delicada e manhosa, que buscava refúgio em sua sombra e se comunicava através de silêncios e sensibilidade. Ele sentiu aquela velha e familiar puxada em seu peito. Ele amava o fogo de Sara, a forma como ela o desafiava e o mantinha em alerta. Mas ele necessitava da doçura de Eduarda, do jeito que ela se moldava a ele como argila fresca.

— Eu não vou tolerar brigas nesta casa — Emanuel disse, sua voz saindo como um trovão silencioso que fez ambas se calarem. — Sara, você vai descer e pedir que preparem o jantar. Agora.

— E se eu não for? — Sara arqueou uma sobrancelha, testando os limites como sempre fazia.

Emanuel deu um passo em direção a ela, a expressão tão sombria que o sorriso de Sara vacilou.

— Se você não for, eu vou garantir que sua próxima viagem seja de volta para o seu apartamento, sozinha, e sem acesso a nenhuma das minhas contas por um mês. Eu fui claro?

Sara bufou, soltando um palavrão baixo, mas deu as costas e saiu da varanda, batendo os saltos com força. Ela sabia quando Emanuel estava falando sério, e o tom de voz dele não deixava dúvidas de que sua paciência estava no fim.

Sozinho novamente com Eduarda, Emanuel sentiu o corpo dela relaxar contra o seu. Ela estava tremendo levemente.

— Ela me odeia tanto... — murmurou Eduarda.

— Ela tem inveja, Duda. Inveja de que eu olho para você e sinto vontade de proteger, enquanto para ela eu só sinto vontade de dominar — ele a pegou no colo, como se ela não pesasse nada, e a levou para dentro, sentando-se com ela em uma poltrona de couro larga diante da lareira acesa.

Ele buscou no bolso do casaco um novo pirulito — ele havia comprado um pacote inteiro, prevendo que Sara faria algo do tipo. Ele abriu o papel plástico com os dentes e o entregou a Eduarda.

— Coma — ordenou ele.

Eduarda aceitou o doce, sentindo-se pequena e cuidada. Ela se aninhou no colo dele, o sabor da cereja novamente inundando seus sentidos.

— Emanuel? — ela chamou, após alguns minutos de silêncio, apenas com o estalar da lenha na lareira.

— Hum?

— Por que você quer as duas? Não seria mais fácil... se fosse só uma? Se a sua vida não fosse tão cheia de brigas?

Emanuel acariciou o rosto dela, os dedos traçando o contorno de sua mandíbula fina. Seus olhos negros refletiam as chamas da lareira, dando-lhe um aspecto quase diabólico, mas suas mãos eram surpreendentemente gentis.

— A facilidade é para homens fracos, Eduarda. Eu sou um tatuador; eu lido com a dor para criar beleza. Minha vida é feita de contrastes. A Sara é a minha tinta preta, as linhas grossas, o impacto que o mundo vê. Você... você é o sombreamento, a suavidade, o detalhe que dá profundidade à peça. Sem ela, eu sou incompleto. Sem você, eu sou apenas bruto.

Eduarda fechou os olhos, absorvendo as palavras. Ela não entendia completamente aquela lógica possessiva, mas sentia a verdade nela. Emanuel era um homem de excessos. Ele não queria apenas uma vida; ele queria todas as sensações possíveis.

— Mas ela me machuca — disse Eduarda, a voz manhosa. — Ela diz coisas horríveis.

— E eu estou aqui para curar as feridas que ela abre — Emanuel inclinou-se e beijou o pescoço de Eduarda, um beijo que era ao mesmo tempo um consolo e uma promessa de posse. — Ela nunca vai cruzar a linha, Duda. Eu não vou deixar. Mas você precisa aprender a ser minha também na frente dela. Não tenha medo. O ódio dela é a prova do meu poder sobre vocês duas.

Eduarda tirou o pirulito da boca e o ofereceu a ele, um gesto de partilha e submissão. Emanuel aceitou, sentindo o doce e o calor dela. Naquele momento, no topo de uma montanha mística, cercado pelo frio e pelo silêncio, ele se sentia o dono do universo.

— Amanhã — disse Emanuel, voltando o doce para a boca dela —, eu vou com você à gruta.

Os olhos de Eduarda brilharam.

— Sério?

— Sim. Mas você vai usar as roupas que eu escolher. E não vai se afastar de mim por um segundo. Se algum daqueles garotos da sua faculdade olhar para você por tempo demais, nós voltamos para casa na mesma hora.

— Tudo bem — ela concordou prontamente, abraçando o pescoço dele. — Eu só quero estar com você.

Emanuel a apertou mais forte. Ele sabia que a viagem a São Thomé seria um teste. Sara tentaria provocar Eduarda a cada passo, e Eduarda usaria sua fragilidade para atrair a proteção dele, criando um ciclo de tensão que o alimentava. Ele era o tatuador, e aquelas duas mulheres eram sua pele favorita. Ele as marcaria com suas vontades, seus caprichos e seu amor sombrio até que não restasse nada delas que não pertencesse a ele.

— Durma agora, pequena — sussurrou ele, enquanto a carregava em direção à cama. — Amanhã o dia será longo. E eu quero que você esteja pronta para me mostrar que é a minha melhor obra de arte.

Eduarda adormeceu com o sabor da cereja ainda em sua boca, sentindo-se segura nos braços do homem que era seu salvador e seu carcereiro. Enquanto isso, no quarto ao lado, Sara bebia o resto do vinho, os olhos fixos na porta, planejando sua próxima jogada. O eclipse da vontade de Emanuel estava completo; ele tinha o sol e a lua sob seu comando, e não pretendia deixar o dia amanhecer para nenhuma das duas sem que fosse sob as suas ordens.

O jogo em São Thomé das Letras estava apenas começando, e as pedras daquela cidade seriam testemunhas de um amor que não conhecia limites, moralidade ou paz — apenas a satisfação absoluta de um homem que decidiu que o mundo era pequeno demais para ele ter que escolher uma coisa só.