Nenhum
O Eclipse da Vontade
A cobertura de Emanuel, antes um monumento ao minimalismo e à autoridade, havia se tornado um ecossistema complexo e perigoso. Três meses haviam se passado desde que o arranjo pouco convencional se estabelecera. Três meses de silêncios cortantes no café da manhã, de perfumes que se digladiavam no ar e de um Emanuel que, cada vez mais, agia como um monarca absoluto sobre seu domínio privado.
Eduarda estava sentada no chão do estúdio de Emanuel, rodeada por mapas, guias de viagem e cadernos de anotações. Seus olhos brilhavam com uma vivacidade que Emanuel raramente via. A faculdade de História da Arte havia organizado uma excursão de campo para São Thomé das Letras, a cidade mística de pedra em Minas Gerais. Para ela, era mais que uma viagem acadêmica; era um respiro, uma chance de ver o mundo fora das paredes de vidro e da vigilância constante de Sara e Emanuel.
— Veja, Emanuel! — disse ela, a voz doce e animada enquanto ele entrava no cômodo. — O professor disse que vamos visitar as grutas e estudar a arquitetura vernacular das casas de pedra. São Thomé tem uma energia única, dizem que é um dos sete pontos energéticos da Terra. Eu já fiz a lista de tudo o que preciso levar.
Emanuel parou no meio do quarto, ainda vestindo a camisa social preta da qual havia dobrado as mangas. Ele olhou para os folhetos espalhados no chão e depois para a figura frágil e radiante de Eduarda. Seu rosto, geralmente impenetrável, endureceu.
— São Thomé das Letras? — perguntou ele, a voz baixa e carregada de uma autoridade sombria. — Aquela cidade cheia de trilhas perigosas, grutas úmidas e estradas de terra no meio do nada?
— Não é perigoso se formos com o grupo, Emanuel — explicou ela, aproximando-se dele com o seu jeito manhoso, buscando a mão dele para entrelaçar a sua. — O ônibus da faculdade é seguro e vamos ficar todos na mesma pousada. Eu realmente preciso disso.
Emanuel soltou a mão dela com uma frieza que a fez recuar.
— Você não vai, Eduarda.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda piscou, processando as palavras.
— O quê? Mas... por que não?
— Porque eu não posso te proteger lá — disse ele, aproximando-se até que ela ficasse prensada entre ele e a mesa de desenho. — Você é desastrada, é sensível, e eu não conheço essas pessoas que vão com você. Não vou permitir que você se enfie no meio do mato, longe dos meus olhos, onde qualquer coisa pode acontecer.
— Eu não sou sua prisioneira! — protestou ela, a voz subindo uma oitava, as lágrimas já começando a inundar os olhos grandes. — É uma viagem de estudos, Emanuel!
— É uma decisão final — sentenciou ele, o olhar fixo e escuro, sem dar margem para discussão.
Sara, que passava pelo corredor e ouvia a conversa, encostou-se no batente da porta, um sorriso irônico nos lábios perfeitamente pintados.
— Ora, ora... parece que a passarinha quer fugir da gaiola dourada — debochou Sara, olhando para as próprias unhas. — Emanuel está certo, querida. Você não aguenta meia hora de trilha sem torcer esse tornozelo fino. Fique aqui, onde tem ar-condicionado e alguém para limpar sua bagunça.
— Cala a boca, Sara! — gritou Eduarda, surpreendendo a ambos. Ela se voltou para Emanuel, o rosto vermelho de frustração. — Eu vou. Eu já paguei a taxa e eu vou!
— Você não vai — repetiu Emanuel, agora com uma calma gélida que era muito mais assustadora que um grito. — Se você tentar sair por aquela porta com uma mala, eu darei ordens aos seguranças do prédio para não te deixarem passar. Você quer ser tratada como adulta? Então entenda que, nesta casa, a minha palavra é a lei que garante a sua segurança.
Eduarda desabou. Ela correu para o quarto que dividia com Emanuel e trancou a porta. Nos dias que se seguiram, a doçura que o encantava transformou-se em uma resistência passiva e desesperada. Ela tentou a manha, chorando nos braços dele durante a noite, implorando com a voz embargada, mas Emanuel permanecia irredutível.
Quando a manha não funcionou, ela recorreu ao seu último recurso: o fechamento emocional. Eduarda parou de comer.
No início, Emanuel achou que era apenas um capricho, uma pirraça de criança. Mas quando o terceiro dia chegou e ela mal havia tocado em um copo de suco, a preocupação começou a corroer sua fachada de controle.
— Coma, Eduarda — ordenou ele, colocando um prato de risoto à frente dela na mesa de jantar.
Eduarda apenas olhou para o prato com apatia. Ela parecia mais pálida, as olheiras destacando-se em sua pele de porcelana.
— Eu não tenho fome — sussurrou ela, a voz fraca.
— Ela está fazendo cena, Emanuel — disse Sara, embora houvesse uma nota de desconforto em sua voz enquanto observava a fragilidade da outra. — Coma logo isso, garota, antes que você desmaie e sobre para mim ter que te carregar.
Eduarda não respondeu. Ela se levantou, cambaleou levemente e voltou para o quarto.
A greve de fome durou uma semana. Eduarda passava a maior parte do tempo deitada, recusando-se a falar ou a olhar para Emanuel. O corpo dela, que já era esguio, começou a definhar. A pele tornou-se quase transparente e a vivacidade de seus olhos deu lugar a um brilho febril.
O colapso aconteceu em uma tarde de terça-feira. Emanuel estava no estúdio quando recebeu uma ligação histérica de Sara.
— Emanuel! Vem para casa agora! A mosca morta desmaiou no banheiro e eu não consigo acordar ela!
Emanuel nunca dirigiu tão rápido. Quando entrou na suíte, encontrou Eduarda nos braços de Sara. Sara, pela primeira vez, parecia genuinamente assustada, segurando a cabeça de Eduarda enquanto tentava passar álcool sob o nariz da garota.
— Ela está gelada, Emanuel! — gritou Sara.
Emanuel pegou Eduarda no colo. Ela pesava quase nada. O coração dele martelava contra as costelas, um pânico primitivo substituindo sua lógica habitual.
— O que você fez consigo mesma, sua pequena idiota? — rosnou ele, embora sua voz tremesse.
No hospital particular para onde ele a levou, o diagnóstico foi rápido: anemia severa, desidratação e um quadro de exaustão física e emocional.
Emanuel estava sentado na poltrona ao lado da cama hospitalar. O ambiente era frio, iluminado por luzes fluorescentes que tornavam tudo ainda mais estéril. Eduarda estava conectada a um soro e a bolsas de vitaminas. Ela parecia uma boneca quebrada, perdida entre os lençóis brancos.
Sara estava em um canto da sala, inquieta, andando de um lado para o outro.
— Você viu o que aconteceu? — perguntou Sara, a voz carregada de uma irritação defensiva. — Ela quase morreu por causa de uma viagem para ver pedras. Ela é louca, Emanuel. Totalmente instável.
— Cale a boca, Sara — disse Emanuel, sem tirar os olhos de Eduarda. Sua aparência era sombria; o cabelo estava desarrumado e havia uma sombra de barba em seu rosto. — Ela não é louca. Ela é desesperada.
— E você é um ditador — rebateu Sara, cruzando os braços. — Você apertou o pescoço dela até ela parar de respirar. O que você esperava?
Emanuel levantou-se e caminhou até a janela, olhando para o estacionamento do hospital. Ele sentia um ódio profundo de si mesmo por ter permitido que chegasse a esse ponto, mas a ideia de deixá-la ir para longe ainda o aterrorizava. O controle era sua forma de amar, mas ele estava percebendo que, no caso de Eduarda, o controle era um veneno.
— Eu não posso deixar ela ir sozinha, Sara — murmurou ele.
— Então vá com ela! — exclamou Sara, impaciente. — Leve a mim, leve seus seguranças, transforme a excursão da faculdade em uma comitiva real, mas não deixe ela se matar só para provar que tem vontade própria.
Emanuel virou-se para ela, os olhos brilhando com uma ideia nova e perigosa.
— Você iria? Para o meio do mato, para uma pousada de estudantes?
Sara fez uma careta de nojo, mas depois deu de ombros, um brilho astuto surgindo em seu olhar.
— Se for para evitar que você fique com essa cara de velório e que ela morra no nosso tapete da sala, eu vou. Mas eu quero o melhor quarto daquela cidade, e você vai me pagar em diamantes por cada picada de mosquito que eu levar.
Eduarda soltou um gemido fraco na cama. Emanuel correu para o lado dela imediatamente. Os olhos de Eduarda se abriram devagar, focando no rosto dele.
— Emanuel... — sussurrou ela, a voz quase inaudível.
— Eu estou aqui, pequena. Estou aqui.
— Eu não quero mais... o soro... eu quero ir para casa — ela começou a chorar, lágrimas silenciosas escorrendo pelas têmporas.
Emanuel segurou o rosto dela com as duas mãos, o polegar limpando o rastro das lágrimas. Sua expressão era uma mistura de adoração e uma possessividade que beirava a obsessão.
— Você vai para casa, Eduarda. E você vai comer cada grama do que os médicos mandarem. Você vai se recuperar.
— E a viagem? — perguntou ela, a esperança lutando com a fraqueza.
Emanuel suspirou, encostando a testa na dela.
— Nós vamos. Os três. Eu vou alugar a melhor casa de São Thomé das Letras. Você vai fazer suas visitas com o seu grupo durante o dia, mas à noite, você volta para mim. Eu vou estar lá, Sara vai estar lá. Você não vai sozinha, mas você vai.
Eduarda soltou um suspiro trêmulo, uma pequena centelha de vida voltando ao seu rosto.
— Você promete?
— Eu prometo — disse ele, a voz assumindo um tom sombrio. — Mas entenda uma coisa, Eduarda: nunca mais tente uma manobra dessas. Se você se machucar de novo para me atingir, eu juro que tranco você naquele apartamento e jogo a chave no fundo do oceano. Eu prefiro você me odiando, mas viva e sob o meu teto, do que livre em um caixão. Entendido?
Eduarda estremeceu com a intensidade dele, mas assentiu. Ela sabia que tinha vencido uma batalha, mas a guerra pela sua autonomia estava longe de terminar. Emanuel não havia cedido por bondade, mas por um desespero possessivo que agora a envolveria ainda mais.
Sara aproximou-se da cama, olhando para Eduarda com uma mistura de pena e rivalidade.
— Parabéns, boneca. Você conseguiu o que queria. Agora trate de melhorar, porque eu não pretendo passar minhas férias em Minas Gerais cuidando de uma doente. Eu quero diversão, e se você não puder me acompanhar nas bebidas, pelo menos tente não desmaiar nas fotos.
Eduarda deu um sorriso pálido, a primeira demonstração de afeto em dias. Ela estendeu a mão fraca em direção a Sara, que, após hesitar por um segundo, a segurou com as pontas dos dedos, as unhas vermelhas contrastando com a pele pálida da garota.
Emanuel observava a cena, sentindo uma satisfação distorcida. Ele teria as duas em São Thomé. Ele teria o controle, a proteção e a presença de ambas em um ambiente novo.
Naquela noite, enquanto o soro terminava de pingar, Emanuel não saiu do lado de Eduarda. Ele observava cada respiração dela, cada movimento de seus cílios. Ele era o tatuador que não suportava ver uma tela ser danificada sem sua permissão. Eduarda era sua obra mais delicada, Sara era sua obra mais vibrante, e ele era o mestre que manteria as duas sob seu domínio, custasse o que custasse, mesmo que para isso tivesse que quebrar o mundo ao redor delas.
O hospital era apenas uma pausa. A verdadeira tempestade começaria nas montanhas de pedra, onde o misticismo e a obsessão de Emanuel se encontrariam sob o céu estrelado de Minas Gerais. E ele estava pronto para marcar aquele território como seu, para sempre.