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O Veneno na Taça de Cristal

A brisa matinal de São Thomé das Letras trazia o cheiro de terra úmida e o frescor das pedras, mas dentro da mansão, o clima era de uma sofisticação tensa. Emanuel estava sentado à cabeceira da mesa de jantar, observando o movimento das três mulheres à sua frente. A chegada de Helena, a mãe de Eduarda, havia injetado uma nova e imprevisível variável naquela equação que ele tentava, a todo custo, equilibrar.

Helena era uma mulher de quarenta anos que mal parecia ter trinta. Jovem, moderna e com uma elegância despojada, ela usava calças de linho e uma camisa de seda que flutuava ao redor de seu corpo esguio. Ela gostava de Emanuel; via nele a estabilidade e o poder que sua filha, em sua fragilidade crônica, parecia necessitar. No entanto, Helena não era cega.

— Este lugar é realmente místico, Emanuel — disse Helena, levando a xícara de café aos lábios com uma graça que Eduarda claramente herdara. — Entendo por que você quis trazer a Duda para cá. Ela parece... um pouco mais corada hoje.

— Ela está se recuperando, Helena — Emanuel respondeu, sua voz grave ressoando com autoridade. — Faço questão de que ela tenha o melhor acompanhamento possível.

Eduarda, sentada ao lado da mãe, deu um sorriso pequeno e manhoso, inclinando a cabeça para o ombro de Helena. Ela vestia um vestido de tricô leve, cor de creme, que a fazia parecer uma pintura pré-rafaelita.

— O Emanuel cuida muito bem de mim, mamãe — sussurrou Eduarda, lançando um olhar de soslaio para o namorado, buscando aquela aprovação silenciosa que a alimentava.

— Cuida até demais — interrompeu Sara, entrando na sala de jantar com o barulho estridente de seus saltos agulha. Ela usava um robe de seda curto demais, com estampas de onça, e seus cabelos loiros estavam armados em um desalinho planejado. — Às vezes eu esqueço se moro em uma cobertura ou em um berçário de luxo.

Helena arqueou uma sobrancelha, seus olhos percorrendo a figura de Sara com uma análise clínica. A vulgaridade ostensiva de Sara sempre fora um ponto de atrito silencioso, mas agora, com a presença da mãe de Eduarda, a provocação parecia ter ganhado um novo fôlego.

— Bom dia para você também, Sara — disse Helena, com uma polidez gélida. — Imagino que a convivência em grupo exija paciência, especialmente quando as personalidades são tão... contrastantes.

— Contrastantes é um eufemismo, querida — Sara sentou-se à mesa, servindo-se de uma taça de suco de laranja com movimentos bruscos. — O Emanuel tem essa mania de colecionar coisas. Eu sou a joia da coroa, e a sua filha... bem, ela é o amuleto de boa sorte que ele carrega para se sentir um bom homem.

Eduarda baixou o olhar instantaneamente, seus dedos brincando com a borda da toalha de mesa. A humilhação gratuita de Sara era como um veneno que ela bebia diariamente, gota a gota.

— Sara, já chega — Emanuel interveio, o tom de voz baixando para aquele registro perigoso que costumava silenciar seus estúdios de tatuagem. — Não comece o dia testando minha paciência.

— Ah, me poupe, Emanuel! — Sara riu, uma risada anasalada e irônica. — A Helena é uma mulher moderna, ela sabe como o mundo funciona. Você não vai fingir para ela que isso aqui é um romance de época, vai? Você me ama porque eu te incendeio, e mantém a Duda por perto porque ela é o seu descanso de tela. É um arranjo prático, não é, Helena?

O silêncio que se seguiu foi cortante. Helena olhou para a filha, vendo as lágrimas já começarem a marejar os olhos de Eduarda. A sensibilidade da jovem era sua maior virtude e sua maior fraqueza, e ver aquela agressividade ser despejada sobre ela fez o instinto materno de Helena finalmente transbordar.

— Emanuel — disse Helena, sua voz agora desprovida de qualquer calor —, eu gostaria de dar um passeio com a minha filha. Sozinhas. Acho que o ar da montanha fará bem para uma conversa de mulher para mulher.

Emanuel hesitou. Ele odiava perder o contato visual com Eduarda, odiava não saber exatamente o que estava sendo dito a ela. Mas Helena era a mãe, e ele ainda mantinha uma fachada de respeito pelas normas sociais básicas.

— Claro — disse ele, embora seus olhos negros estivessem fixos em Eduarda como se desse uma ordem silenciosa para que ela não se deixasse influenciar. — O motorista pode levar vocês até o mirante.

— Não será necessário — Helena levantou-se, estendendo a mão para a filha. — Vamos caminhar aqui por perto. Quero sentir o chão sob meus pés.

Assim que as duas saíram, Emanuel permaneceu à mesa, sua mandíbula cerrada. Sara deu um gole no suco, observando-o com um brilho de triunfo nos olhos.

— Você está perdendo a mão, Emanuel — provocou ela. — A sogrinha não gostou do que viu. E se a Duda resolver que quer ser a "única" na vida de algum garotinho da faculdade, o que você vai fazer? Tatuar a sua marca na testa dela para ela não esquecer a quem pertence?

— Cale a boca, Sara — Emanuel levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente. — Vou para o escritório. Não me interrompa.

No entanto, Emanuel não foi para o escritório. A inquietação o dominava. Ele contornou a casa por fora, caminhando silenciosamente sobre a grama baixa até se aproximar de um jardim de inverno nos fundos, onde Helena e Eduarda haviam parado para conversar. As paredes de vidro e a estrutura de pedra permitiam que o som ecoasse, e ele se posicionou atrás de uma pilastra larga, as mãos cerradas nos bolsos, o coração batendo com uma ansiedade que ele se recusava a admitir como medo.

— Duda, olhe para mim — a voz de Helena era firme, mas carregada de uma ternura dolorida. — O que você está fazendo com a sua vida, minha filha?

— Eu amo o Emanuel, mamãe... — a voz de Eduarda saiu embargada, manhosa, buscando refúgio na própria fragilidade. — Ele me protege. Ele me deu tudo o que eu sempre sonhei.

— Ele te deu uma gaiola de ouro, Eduarda! — Helena rebateu. — E pior, ele te deu uma gaiola que você tem que dividir com aquela mulher vulgar. Eu vi como ela falou com você. Eu vi como o Emanuel permitiu que ela te humilhasse antes de dizer qualquer coisa. Isso não é amor, minha querida. Isso é posse. É um egoísmo doentio de um homem que quer ter o fogo e a paz sem abrir mão de nada.

— Mas ele diz que precisa de mim... — soluçou Eduarda.

— Todo homem que quer controlar uma mulher diz que precisa dela — Helena segurou o rosto da filha com as duas mãos. — Você é jovem, Duda. É linda, inteligente, estuda o que ama. Você merece um homem que olhe para você e não veja apenas uma "parte" da vida dele, mas a vida inteira. Você merece ser a única. Você merece alguém que te defenda daquela mulher, e não alguém que te coloque na mesma mesa que ela como se você fosse um prato em um banquete.

Emanuel, escondido nas sombras, sentiu uma onda de fúria subir por seu pescoço. Suas tatuagens pareciam queimar sob a pele. Como Helena se atrevia a tentar desmantelar o que ele havia construído com tanto cuidado? Ele havia salvado Eduarda da mediocridade, havia dado a ela um propósito sendo o seu centro de gravidade.

— Eu não sei se consigo viver sem ele, mamãe — Eduarda admitiu, sua voz fraquejando. — Ele é tão forte... eu me sinto segura nos braços dele.

— Você se sente segura porque ele te convenceu de que você é fraca demais para andar sozinha — Helena insistiu, sua voz subindo de tom. — Deixe ele, Eduarda. Venha comigo. Vamos voltar para a cidade, você termina sua faculdade, conhece pessoas novas... pessoas que saibam te valorizar sem precisar de uma "reserva" no quarto ao lado. Esse arranjo vai te destruir. Você vai definhar até não sobrar nada dessa doçura que ele diz tanto amar.

Emanuel apertou o punho contra a pedra fria da pilastra. O medo, frio e cortante, finalmente se instalou em seu peito. E se ela ouvisse? Eduarda era influenciável, era sensível aos apelos emocionais. A ideia de chegar em casa e encontrar o quarto dela vazio, o cheiro de flores silvestres desaparecendo de seus lençóis, era algo que sua mente racional não conseguia processar.

Ele não admitiria. Ele não permitiria.

— Ele nunca vai mudar, Duda — continuou Helena. — Homens como o Emanuel não mudam; eles apenas aprimoram suas técnicas de controle. Hoje é uma viagem a São Thomé, amanhã será a proibição de você ver seus amigos, e depois... você será apenas uma sombra naquela cobertura. Escolha você mesma, minha filha. Escolha a sua dignidade.

Eduarda não respondeu de imediato. O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade para Emanuel. Ele queria invadir o jardim, pegar Eduarda pelo braço e levá-la para longe daquela influência "corrosiva". Mas ele sabia que, se fizesse isso agora, confirmaria todas as palavras de Helena.

— Eu... eu vou pensar, mamãe — disse Eduarda, por fim, a voz soando exausta. — Só me dê um tempo.

Emanuel não esperou para ouvir mais. Ele se afastou silenciosamente, voltando para dentro da casa por uma entrada lateral. Seus passos eram pesados. Ele entrou em seu escritório e trancou a porta.

Ele caminhou até a janela e observou as duas mulheres voltarem para a casa. Eduarda caminhava com a cabeça baixa, parecendo ainda mais pequena ao lado da mãe.

A racionalidade de Emanuel estava em guerra com seu instinto predatório. Ele amava Sara? Sim, de uma forma bruta, carnal e necessária. Mas Eduarda... Eduarda era o que ele tinha de sagrado. Ela era a pele limpa antes da primeira agulha, o momento de silêncio antes do caos. Ele não podia perdê-la.

— Ela não vai a lugar nenhum — murmurou ele para o vidro da janela, sua respiração embaçando a superfície fria.

Ele pegou o telefone e discou para seu assistente principal em São Paulo.

— Marcos? Prepare o jato. Vamos voltar para a capital amanhã à noite. E quero que você providencie a transferência da matrícula da Eduarda para aquela universidade privada perto da minha cobertura. Sim, aquela com segurança reforçada. E cancele qualquer compromisso dela para as próximas duas semanas. Ela vai precisar de "repouso absoluto".

Ele desligou o aparelho, sentindo um alívio sombrio. Ele aumentaria a vigilância. Ele a cercaria de tantos cuidados que ela não teria tempo para pensar nas palavras da mãe. Ele seria tão presente, tão protetor, que a ideia de deixá-lo pareceria uma sentença de morte para ela.

À noite, o jantar foi um evento silencioso. Sara, percebendo a tensão, estava estranhamente quieta, apenas lançando olhares de desprezo para Helena. Eduarda mal tocou na comida, mantendo-se encolhida em sua cadeira.

Após o jantar, Helena despediu-se, indo para a pousada onde estava hospedada, prometendo voltar na manhã seguinte para buscar a resposta da filha.

Emanuel levou Eduarda para o quarto. Ele a ajudou a se despir, seus movimentos sendo lentos e deliberados. Ele a vestiu com uma camisola de seda branca, quase virginal, e a sentou na beira da cama para escovar seus cabelos.

— Sua mãe parece preocupada com você, Duda — disse ele, sua voz soando suave, mas com um subtexto de aço.

Eduarda estremeceu levemente sob o toque da escova.

— Ela só quer o meu bem, Emanuel.

— Eu sei. Mas às vezes as pessoas confundem o que é "bem" com o que é "comum" — ele parou de escovar e girou a cadeira dela para que ficassem frente a frente. Ele ajoelhou-se entre as pernas dela, segurando suas mãos. — Ela quer que você tenha uma vida comum, com um homem comum que vai te dar uma rotina medíocre. Eu te dou o mundo, Eduarda. Eu te dou a minha proteção total. Você sabe que não sobreviveria lá fora sem mim. As pessoas são cruéis, elas iriam te machucar.

— A Sara me machuca — sussurrou ela, os olhos marejados.

— A Sara é um ruído passageiro — Emanuel mentiu, beijando as palmas das mãos dela. — Eu vou conversar com ela. Vou exigir que ela te trate com o respeito que você merece. Mas não me deixe, Duda. Se você for embora, eu não sei o que sou capaz de fazer. Minha vida perderia o equilíbrio, e quando eu perco o equilíbrio... as coisas ao meu redor tendem a quebrar.

Eduarda olhou para ele, vendo a intensidade quase assustadora em seus olhos. Ela sentia o peso daquela dependência mútua. Era doentio, ela sabia, mas era também a coisa mais forte que já havia sentido na vida.

— Eu não vou embora, Emanuel — ela disse, a voz saindo como um suspiro de rendição. — Eu não tenho para onde ir.

Emanuel sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, mas que exalava um triunfo sombrio. Ele a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Ótimo. Porque eu nunca permitiria que você me deixasse. Você é minha, Eduarda. Tão minha quanto a tinta que eu coloco na pele das pessoas. E tatuagens... elas são para sempre.

Na manhã seguinte, quando Helena chegou à mansão, encontrou os portões fechados. O segurança informou que o Sr. Emanuel e a Srta. Eduarda já haviam partido para o aeroporto em um voo antecipado.

Helena ficou parada na estrada de terra, olhando para a imensidão das montanhas de Minas Gerais. Ela sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela sabia que tinha perdido a filha para um eclipse de vontade que nenhuma luz parecia capaz de romper.

Dentro do jato particular, Eduarda dormia com a cabeça no colo de Emanuel, sob o efeito de um calmante leve que ele sugerira para "ajudar com o enjoo do voo". Do outro lado do corredor, Sara bebia um uísque puro, observando a cena com um misto de tédio e amargura.

Emanuel passava os dedos pelos cabelos de Eduarda, olhando pela janela para as nuvens abaixo. Ele havia vencido mais uma vez. Ele mantinha suas duas mulheres, suas duas metades, presas em sua órbita. O veneno na taça de cristal havia sido servido, e Eduarda o bebera de bom grado, preferindo a segurança de sua prisão ao medo da liberdade.

A guerra pela alma de Eduarda havia terminado, e o vencedor, como sempre, era o homem que se recusava a escolher entre o fogo que o consumia e a paz que o mantinha são. Emanuel estava no controle, e em seu mundo de sombras e seda, o "para sempre" era uma promessa que ele pretendia cobrar todos os dias.