Nenhum
O Pacto nas Sombras do Altar
A cobertura de Emanuel em São Paulo nunca pareceu tão opressora quanto naquela tarde nublada. O luxo, antes um símbolo de sua ascensão como o tatuador mais renomado do país, agora parecia apenas uma moldura cara para a tensão que se acumulava entre as paredes de vidro. Helena, a mãe de Eduarda, estava sentada no sofá de couro italiano, a postura ereta e o olhar fixo em Emanuel.
Eduarda havia sido mandada para o quarto por Helena, sob o pretexto de que precisavam de uma conversa de adultos. A jovem, com sua habitual manha, protestou baixinho, mas o olhar severo da mãe e o aceno imperceptível de Emanuel a fizeram ceder.
— Beba, Helena. É um safra especial — disse Emanuel, servindo um vinho tinto encorpado com a precisão de quem manuseia uma agulha sobre a pele.
Helena aceitou a taça, mas não bebeu. Seus olhos percorriam o apartamento, parando por um segundo na porta fechada do escritório, onde ela sabia que Sara provavelmente estava à espreita, ouvindo cada palavra.
— Eu não vim aqui para apreciar sua adega, Emanuel — começou Helena, a voz firme apesar do tremor leve nas mãos. — Eu vi o que aconteceu em São Thomé. Eu vi como minha filha está... diferente. Ela está mais pálida, mais dependente. Ela olha para você como se você fosse o ar que ela respira, e isso me assusta.
Emanuel sentou-se à frente dela, cruzando as pernas. As tatuagens em seus braços pareciam ganhar vida sob a luz suave dos lustres.
— Eu cuido dela, Helena. Eduarda tem tudo o que precisa. Estuda na melhor faculdade, tem os melhores médicos e a minha proteção absoluta.
— Proteção? — Helena soltou uma risada amarga. — Você a protege do mundo, mas quem a protege daquela mulher? Aquela Sara é um veneno, Emanuel. Ela é vulgar, agressiva e odeia a minha filha com cada fibra do ser dela. Eu vi como ela olha para a Duda. É um olhar de quem quer destruir, não apenas competir.
Emanuel suspirou, passando a mão pelo cabelo curto. O conflito entre as duas mulheres era a única variável que ele ainda não conseguira domesticar totalmente.
— A Sara tem o temperamento dela, mas ela sabe o lugar dela.
— Ela sabe? — Helena inclinou-se para frente. — Emanuel, seja sincero comigo. Você diz que ama as duas, que não pode escolher. Mas a minha filha é sensível. Ela é de porcelana. Se a Sara decidir quebrá-la, ela vai quebrar. Eu imploro a você, como mãe: proteja a Eduarda da Sara. Não deixe que aquela mulher a destrua psicologicamente.
Emanuel endureceu a expressão. A vulnerabilidade de Eduarda era, ao mesmo tempo, sua maior obsessão e sua maior preocupação.
— Eu nunca deixaria nada de mal acontecer com a Duda.
— Então prove — disse Helena, a voz baixando para um sussurro urgente. — Faça um pacto comigo aqui e agora. Prometa-me que, se um dia a situação se tornar insustentável, se um dia você for forçado pelo destino ou pelas circunstâncias a escolher apenas uma... você escolherá a minha filha.
Emanuel hesitou. O silêncio na sala era tão denso que se podia ouvir o zumbido dos aparelhos eletrônicos. Escolher. A palavra que ele vinha evitando há meses.
— Prometa-me mais — continuou Helena, aproveitando o silêncio dele. — Eu quero garantias. Não quero que minha filha seja apenas uma "moradora" ou uma amante de luxo. Se você a quer tanto, se quer que ela viva sob o seu teto e sob o seu comando, então dê a ela a dignidade que ela merece. Case-se com ela. No cartório e na igreja. Quero que ela seja a Sra. Emanuel perante Deus e os homens.
Nesse momento, escondida atrás da porta entreaberta do corredor, Sara sentiu o sangue ferver. Suas unhas perfeitamente feitas cravaram-se no batente de madeira. Casamento? Igreja? Cartório? Ela, que estava com Emanuel há meses antes daquela "mosca morta" aparecer, nunca recebera tal proposta. Ela era a parceira de negócios, a mulher que frequentava os eventos de elite ao lado dele, a que administrava as crises. A fúria borbulhava em seu peito, uma mistura de ciúme e humilhação.
Emanuel olhou para a aliança que não existia em seu dedo, e depois para Helena. A ideia de ter Eduarda vinculada a ele legal e espiritualmente era, de certa forma, a conclusão lógica de sua obsessão. Se ela fosse sua esposa, o controle seria absoluto.
— Eu aceito — disse Emanuel, a voz clara e decidida. — Eu prometo, Helena. Se chegar o dia da escolha, Eduarda será a minha prioridade. E eu me casarei com ela. Darei a ela o meu nome e a segurança jurídica e religiosa que você exige.
— Você jura? — Helena buscou os olhos dele, procurando qualquer sinal de mentira.
— Eu juro. Pela minha honra e por tudo o que construí. Eduarda será protegida da Sara e de qualquer outra ameaça.
Do corredor, um som de vidro se quebrando ecoou. Emanuel e Helena se viraram a tempo de ver Sara sair das sombras, o rosto transformado em uma máscara de ódio. Ela havia derrubado um vaso de cristal que decorava o aparador.
— Você só pode estar brincando! — gritou Sara, avançando para o centro da sala, ignorando a presença de Helena. — Você jurou o quê, Emanuel? Casamento na igreja? Prioridade para essa... essa coisinha manhosa?
— Sara, saia daqui agora — ordenou Emanuel, levantando-se, sua voz soando como um chicote.
— Não saio! — ela rebateu, aproximando-se dele até ficar a poucos centímetros de seu rosto. O cheiro de seu perfume forte e caro parecia preencher o ar como um desafio. — Eu estive com você quando você não era metade do que é hoje! Eu aguentei suas crises, seus horários, seus segredos! E agora você vai dar o título de esposa para uma menina que mal sabe se vestir sozinha? Que chora quando o vento bate mais forte?
— A Eduarda tem o que você nunca terá, Sara — disse Emanuel, com uma frieza que fez Sara recuar um passo. — Ela tem uma pureza que me mantém humano. E se você não consegue aceitar o lugar que eu te dei, talvez o seu lugar não seja mais nesta casa.
Sara soltou uma risada histérica, os olhos fixos em Helena, que observava a cena com um desprezo silencioso.
— Você ouviu isso, Helena? — perguntou Sara, apontando para Emanuel. — Ele está te vendendo uma mentira. Ele vai casar com ela, sim, mas vai continuar vindo para a minha cama. Ele vai continuar precisando do meu fogo porque aquela sonsa não tem sangue nas veias, tem água com açúcar!
— Chega! — Emanuel agarrou o braço de Sara com firmeza, não para machucá-la, mas para contê-la. — Você passou dos limites. Vá para o seu quarto. Agora.
— Isso não acabou, Emanuel — sibilou Sara, os olhos brilhando com lágrimas de raiva. — Você pode prometer o céu para essa velha e para a filha dela, mas eu não vou ser apagada. Se você tentar me colocar em segundo plano, eu vou fazer da vida daquela garota um inferno tão grande que nem todas as igrejas do mundo vão conseguir salvá-la!
Sara soltou-se do aperto dele e saiu da sala, batendo a porta de seu quarto com tanta força que o som ecoou por toda a cobertura.
O silêncio voltou, mas era um silêncio quebrado, cheio de estilhaços. Helena levantou-se, ajeitando o casaco.
— Você viu, Emanuel — disse ela, a voz carregada de aviso. — Isso é o que minha filha enfrenta todos os dias. Você fez uma promessa. Cumpra-a. Se eu souber que a Sara tocou um dedo na Eduarda ou que você voltou atrás na palavra sobre o casamento, eu mesma tirarei minha filha daqui, nem que eu tenha que chamar a polícia.
— Não será necessário — Emanuel respondeu, acompanhando-a até a porta. — O que é meu, eu protejo. E Eduarda é o meu bem mais precioso.
Assim que Helena saiu, Emanuel caminhou até o quarto de Eduarda. Ele abriu a porta suavemente e a encontrou sentada na cama, abraçada aos travesseiros, os olhos grandes e assustados. Ela tinha ouvido os gritos de Sara.
— Emanuel? — sussurrou ela, a voz trêmula, estendendo a mão para ele.
Ele atravessou o quarto e sentou-se ao seu lado, puxando-a para o seu colo. Eduarda se encaixou ali perfeitamente, como se tivesse sido feita sob medida para o seu abraço.
— Está tudo bem, Duda. Eu estou aqui.
— A Sara... ela estava brava. Ela disse coisas horríveis — Eduarda escondeu o rosto no pescoço dele, buscando o calor de sua pele tatuada.
— Esqueça a Sara — disse ele, acariciando os cabelos longos e macios dela. — Eu conversei com a sua mãe. Eu tomei uma decisão, pequena.
Eduarda olhou para ele, a curiosidade brilhando em meio à timidez.
— Que decisão?
Emanuel segurou o rosto dela com as duas mãos, olhando-a com uma intensidade que a fazia estremecer.
— Eu vou me casar com você. Quero que você seja minha esposa, legalmente, diante de Deus, diante de todos. Quero que você saiba que, não importa o que aconteça ou quem tente se atravessar no nosso caminho, você é a minha escolha final.
Os olhos de Eduarda se arregalaram. Um sorriso doce e surpreso surgiu em seus lábios, e ela o abraçou com força, soltando um pequeno suspiro de alívio e triunfo.
— Casar? De verdade? Com vestido branco e tudo?
— Com tudo o que você tiver direito — prometeu ele, beijando-lhe a testa.
Enquanto Eduarda se perdia no sonho do casamento, Emanuel olhava para a porta fechada, pensando na tempestade que Sara representava. Ele sabia que o pacto que fizera com Helena era um caminho sem volta. Ele estava selando o destino das duas mulheres. Sara seria a sua sombra, a sua paixão proibida e necessária, mas Eduarda seria o seu altar.
Ele manteria as duas, sim. Mas agora, o jogo tinha regras novas. E ele estava disposto a quebrar quem quer que fosse para garantir que sua boneca de porcelana nunca fosse tocada pelo fogo que ele mesmo ajudara a alimentar em Sara.
Naquela noite, enquanto Eduarda dormia um sono tranquilo nos braços de seu futuro marido, Sara, no quarto ao lado, destruía sistematicamente todas as roupas que Emanuel lhe dera, cada corte de tesoura sendo uma promessa de vingança. O triângulo amoroso, antes um equilíbrio precário de desejos, agora se transformara em um campo de batalha onde a pureza e a vulgaridade lutariam até o fim, sob o olhar atento e possessivo do homem que acreditava poder controlar o destino com a ponta de seus dedos.