Nenhum
O Labirinto do Desejo e o Trono de Lençóis
O calor em Pedra do Dragão naquela tarde não vinha apenas das aberturas vulcânicas da ilha ou do hálito quente de Caraxes e Vhagar. Havia uma eletricidade estática percorrendo os corredores da fortaleza, uma tensão que Daemon Targaryen, em toda a sua experiência como guerreiro e sedutor, reconhecia como um campo de batalha iminente. Ele estava exausto. Tinha passado o dia inteiro lidando com os meistres sobre o suprimento de comida de Porto Real e a inquietação dos senhores do Mar Estreito. Tudo o que ele queria era um banho frio e o silêncio de uma noite sem sonhos.
Mas, ao entrar em seus aposentos privados, ele percebeu que o silêncio seria a última coisa que encontraria.
Sentada na poltrona de veludo junto à lareira, Laena Velaryon bebia um vinho tinto, o tecido fino de sua camisola de seda prateada deixando muito pouco para a imaginação. Seus cabelos estavam soltos, uma cascata de luar que caía sobre seus ombros bronzeados. Do outro lado, perto da janela que dava para o mar, Alicent Hightower permanecia de pé. Ela usava um robe de seda verde esmeralda, apertado na cintura, que realçava a brancura de sua pele e a curva suave de seus quadris. Seus olhos verdes, geralmente tão calmos, brilhavam com uma determinação que Daemon raramente via.
O Príncipe Canalha parou no centro do quarto, as mãos nos quadris, soltando um suspiro pesado que fez seus ombros largos baixarem.
— Pelos deuses — murmurou ele, a voz rouca de cansaço. — Eu esperava encontrar paz, não um comitê de boas-vindas.
— Paz é o que você terá depois, Daemon — disse Laena, levantando-se com a elegância predatória de uma pantera. Ela caminhou em direção a ele, o cheiro de sal e especiarias exóticas seguindo seus passos. — Agora, eu exijo a sua atenção. Minha pele queima por você desde que o sol nasceu.
Ela envolveu o pescoço de Daemon com os braços, puxando-o para um beijo possessivo, um que carregava todo o fogo de sua linhagem Velaryon. Daemon retribuiu por instinto, sentindo o calor dela contra o seu corpo, mas, antes que pudesse se perder, sentiu um toque suave, porém firme, em seu braço.
Era Alicent. Ela não se afastou, nem abaixou a cabeça como costumava fazer quando Laena assumia o controle.
— Hoje não, Laena — disse Alicent, sua voz doce agora carregada de uma autoridade silenciosa. — Você sempre toma o que quer primeiro. Você usa sua chama para ofuscar tudo ao redor. Mas eu também sou esposa dele. E meus desejos não são menores que os seus.
Daemon separou-se de Laena, olhando de uma para a outra. Ele estava no limite. O desejo latejava em suas veias, alimentado pela visão daquelas duas mulheres magníficas, mas a mente estava saturada. Ele sabia que qualquer movimento em falso resultaria em lágrimas, discussões e um drama que ele não tinha energia para mediar.
— Eu não vou fazer isso — declarou Daemon, sua voz ganhando o tom cortante que usava com seus soldados. — Eu não sou um pedaço de carne para ser disputado entre dois cães famintos.
— Não somos cães, Daemon. Somos suas mulheres — retrucou Laena, os olhos violetas faiscando de indignação. — E eu não vou esperar na fila como se fosse uma serva.
— E eu não vou mais me retirar para o meu quarto em silêncio enquanto você se satisfaz — Alicent deu um passo à frente, ficando cara a cara com Laena. — Você acha que sua paixão é a única que importa? Eu passei a noite passada sozinha, ouvindo o vento, enquanto você ria nos braços dele. Esta noite, eu reivindico o meu lugar.
Laena soltou uma risada seca, cheia de escárnio.
— Você? Reivindicando? A doce e educada Alicent finalmente mostrou as garras? — Ela se virou para Daemon, ignorando a outra mulher. — Daemon, ignore essa bobagem. Venha para a cama. Eu farei você esquecer até o próprio nome.
Daemon sentiu a mão de Alicent deslizar para baixo, segurando a sua com uma força surpreendente.
— Se você for com ela agora, Daemon — disse Alicent, olhando-o fixamente nos olhos —, não me procure amanhã. Nem depois. Eu cansei de ser a sua cura para o cansaço enquanto ela é o seu prazer. Eu quero ser o seu prazer hoje.
O príncipe sentiu um arrepio. Alicent nunca falara daquela forma. A passividade que ele tanto amava nela fora substituída por uma fome crua, uma necessidade que parecia emanar de seus poros. Ao mesmo tempo, Laena pressionava o corpo contra as costas dele, as mãos descendo perigosamente para a frente de suas calças de couro.
— Estou pegando fogo, Daemon — sussurrou Laena em seu ouvido, a respiração quente provocando arrepios. — Sinta o quanto eu te quero. Não me negue isso por causa de um capricho dela.
— Não é um capricho! — exclamou Alicent, a voz subindo um tom, as faces coradas. — É justiça. É amor.
Daemon fechou os olhos por um segundo, sentindo a pulsação forte em seu pescoço. O estresse do dia se transformou em uma irritação palpável. Ele amava as duas, mas odiava a posição em que o colocavam.
— Chega! — Ele se afastou bruscamente de ambas, fazendo com que elas recuassem um passo. — Vocês querem o quê? Querem que eu escolha? Pois bem. Se eu escolher Laena, Alicent passará a semana amargurada, me punindo com o seu silêncio e sua tristeza. Se eu escolher Alicent, Laena incendiará metade da fortaleza com seu temperamento e me chamará de fraco.
— Eu não quero que você escolha por dever — disse Laena, cruzando os braços sobre os seios. — Quero que escolha por desejo. E nós dois sabemos quem você deseja mais quando o sangue ferve.
— Você é arrogante, Laena — disse Alicent, mantendo a postura ereta. — O desejo não é apenas fogo. É entrega. É conexão. Daemon, olhe para mim.
Daemon olhou. Alicent estava deslumbrante em sua resistência. Havia algo de perigoso nela naquela noite, uma quebra de protocolo que o excitava mais do que ele gostaria de admitir. Mas Laena... Laena era a tempestade que ele sempre soube navegar.
— Eu estou cansado — disse Daemon, sua voz baixando para um rosnado perigoso. — Meu corpo dói, minha mente está exausta e vocês duas estão aqui tentando me rasgar ao meio. Vocês dizem que me amam, mas estão agindo como se eu fosse um troféu de guerra.
— Queremos você, Daemon. Só isso — murmurou Laena, sua agressividade diminuindo levemente diante da exaustão visível dele.
— Então se me querem, parem de brigar — ele caminhou até a mesa de cabeceira e serviu-se de uma taça de vinho puro, bebendo-a de um gole só. — Eu não vou foder nenhuma de vocês enquanto houver esse veneno no ar.
Alicent aproximou-se dele, as mãos trêmulas, mas o olhar firme.
— Não há veneno em mim, meu amor. Há apenas saudade.
— E em mim há sede — completou Laena, aproximando-se pelo outro lado.
Daemon olhou para a cama vasta, coberta com peles de lobo e lençóis de seda negra. Ele teve uma ideia, uma que era tão perigosa quanto excitante, algo que desafiava a lógica de como ele vinha conduzindo seu casamento triplo.
— Vocês querem a minha atenção? — ele perguntou, um sorriso de lado, sombrio e provocador, surgindo em seus lábios. — Querem o meu corpo?
As duas assentiram, em silêncio, hipnotizadas pela mudança no tom de voz dele.
— Então vocês terão que compartilhar — disse ele, a voz como veludo sobre navalhas. — Não haverá "primeiro" ou "depois". Não haverá vencedora ou perdedora nesta noite.
Alicent arregalou os olhos, um rubor intenso cobrindo seu pescoço. Laena, por outro lado, arqueou uma sobrancelha, um brilho de compreensão e desafio surgindo em seu olhar.
— O que você está sugerindo, Daemon? — perguntou Laena, a voz quase um sussurro.
— Estou sugerindo que, se vocês duas me amam tanto e se dizem parte da mesma família, provem isso — ele deu um passo em direção à cama, desfazendo os laços de sua túnica. — Eu não vou escolher. Eu vou ter as duas, ao mesmo tempo, ou não terei nenhuma. E se uma de vocês sentir que não pode suportar a visão da outra nos meus braços, que saia agora.
O silêncio que se seguiu foi denso. Alicent olhou para Laena. Pela primeira vez, não havia apenas ressentimento ou timidez entre elas, mas uma avaliação mútua. Laena viu a determinação de Alicent em não ceder, em não ser deixada de lado. Alicent viu a vulnerabilidade escondida atrás do orgulho de Laena.
— Eu não vou embora — disse Alicent, sua voz firme apesar da timidez que ainda lutava para emergir. — Eu não vou deixar você sozinha com ele outra vez, Laena. Se este é o único caminho para estar com meu marido, que seja.
Laena soltou um suspiro longo, seus ombros relaxando. Ela olhou para Daemon, depois para Alicent. Uma parte dela odiava a ideia de dividir o ápice do prazer, mas a parte que conhecia a natureza selvagem dos Targaryen sentiu uma centelha de curiosidade pecaminosa.
— Você é muito esperto, Daemon — disse Laena, um sorriso lento e malicioso surgindo em seu rosto. — Quer transformar nossa briga em um banquete para você.
— Eu quero que minha casa pareça uma casa, não um campo de torneio — respondeu ele, terminando de se despir e sentando-se na beira da cama, expondo o corpo musculoso e marcado por cicatrizes. — Então? Quem vai ser a primeira a se aproximar? Ou vocês vão continuar aí paradas como estátuas?
Laena foi a primeira a se mover, mas, para a surpresa de Daemon, ela não foi até ele. Ela caminhou até Alicent. As duas mulheres ficaram a poucos centímetros de distância. Laena estendeu a mão e tocou o rosto de Alicent, o polegar traçando a linha de sua mandíbula.
— Você é bonita, Alicent — admitiu Laena, a voz baixa. — Às vezes eu esqueço disso porque estou ocupada demais odiando o modo como ele olha para você.
Alicent engoliu em seco, sentindo o toque quente da outra mulher.
— Eu nunca odiei você, Laena. Eu só queria que você me visse.
— Pois bem. Eu estou vendo — Laena segurou a mão de Alicent e a puxou em direção a Daemon.
O Príncipe Canalha observou, fascinado, enquanto suas duas esposas se aproximavam dele juntas. A tensão sexual no quarto atingiu um ponto de ebulição. Quando elas chegaram à beira da cama, Daemon puxou as duas para o seu colo, uma em cada perna.
— Sem dramas — avisou ele, as mãos grandes explorando as curvas das duas simultaneamente. — Apenas prazer.
— Apenas você — murmurou Alicent, escondendo o rosto no pescoço de Daemon enquanto sentia a mão de Laena acariciar suas costas.
— Apenas nós — corrigiu Laena, capturando os lábios de Daemon em um beijo, enquanto sua outra mão buscava a mão de Alicent, entrelaçando seus dedos pela primeira vez.
Naquela noite, as paredes de Pedra do Dragão testemunharam algo que nenhum bardo ousaria cantar. Não houve a vitória de uma sobre a outra, mas uma rendição mútua. Daemon, em sua sabedoria instintiva e egoísta, encontrara uma forma de silenciar a discórdia: afogando-a em desejo compartilhado.
Enquanto o fogo de Laena e a doçura de Alicent se fundiam sob o comando de Daemon, a rivalidade parecia desaparecer no calor da pele e nos gemidos que ecoavam pelo quarto. Pela primeira vez, Alicent não se sentiu uma intrusa, e Laena não se sentiu trocada. Elas eram, naquele momento, as duas metades de um homem que precisava de ambas para ser inteiro.
Quando a madrugada finalmente chegou, e o cansaço físico substituiu o estresse mental, eles estavam emaranhados em um mar de lençóis e membros. Daemon dormia no centro, um braço em volta da cintura de Laena e a mão da outra descansando sobre o peito de Alicent.
Laena, ainda acordada, olhou por cima do ombro de Daemon para Alicent. A jovem Hightower tinha os olhos fechados, uma expressão de paz absoluta em seu rosto.
— Você ganhou desta vez, Alicent — sussurrou Laena, quase inaudível. — Você nos forçou a isso.
Alicent abriu um olho, um pequeno sorriso vitorioso e cansado brincando em seus lábios.
— Nós ganhamos, Laena. Ele está aqui. Com nós duas.
Laena suspirou e fechou os olhos, encostando a cabeça no ombro de Daemon. A guerra não estava terminada, ela sabia. O ciúme voltaria com o sol, e a dor de compartilhar o coração de Daemon ainda a assombraria. Mas, por aquela noite, o jasmim e o fogo tinham encontrado um equilíbrio, e o Príncipe Canalha finalmente tinha a paz que tanto buscava, no meio da tempestade que ele mesmo criara.