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O Veneno Verde no Sangue do Dragão

A névoa matinal de Pedra do Dragão era espessa, carregada com o cheiro de enxofre e a umidade salgada do Mar Estreito. Alicent Hightower estava parada no parapeito de uma das torres mais altas, as mãos entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. O vento frio agitava seus cabelos castanho-dourados, mas ela não sentia o gelo. O calor que emanava de seu peito era de uma natureza diferente: um fogo lento, corrosivo, que ela tentava desesperadamente abafar com orações e dever.

Lá embaixo, na extensão rochosa que servia de pátio para os dragões, a cena que ela observava a feria mais do que qualquer adaga valiriana.

Daemon e Laena estavam juntos. Eles não estavam apenas conversando; eles eram uma sinfonia de prata e movimento. Daemon ria, um som raro e selvagem que ele raramente soltava perto da sobriedade de Alicent, enquanto ajudava Laena a ajustar a sela de Vhagar. A mão dele demorou-se na cintura dela, um toque possessivo e familiar. Laena inclinou a cabeça para trás, o perfil altivo e magnífico brilhando sob a luz pálida, e disse algo que fez Daemon puxá-la para mais perto, beijando-a com uma fome que parecia ignorar o resto do mundo.

Alicent sentiu uma pontada aguda no estômago. Ela sabia que ele a amava. Ela sentia isso no modo como ele a protegia, no modo como ele buscava seu colo quando o mundo se tornava pesado demais. Mas, ao ver a conexão ancestral entre aqueles dois — a conexão do sangue valiriano e do fogo dos dragões —, ela se sentia uma intrusa. Uma estrangeira em uma terra de deuses.

— A senhora deveria entrar, minha senhora. O vento está ficando mais forte.

Alicent virou-se, assustada. Era uma de suas aias, mas a jovem Hightower apenas forçou um sorriso pálido.

— Estou bem, Talya. Só... admirando a vista.

Mas não havia admiração em seus olhos verdes, apenas o brilho úmido do ciúme que ela considerava um pecado. Ela odiava a si mesma por sentir aquilo. Laena nunca fora cruel com ela, além de sua frieza defensiva. Alicent pregava a união, pregava a harmonia, mas ver Daemon olhar para Laena como se ela fosse a única criatura capaz de entender sua alma a fazia querer gritar.

Horas depois, o clima na fortaleza mudou. A Princesa Rhaenys, a Rainha que Nunca Foi, chegara de surpresa em Meleys, a Rainha Vermelha. A visita era política, mas em Pedra do Dragão, tudo acabava se tornando pessoal.

O almoço foi servido no pátio externo, para que pudessem observar os dragões. Meleys estava inquieta, sua couraça escarlate brilhando sob o sol do meio-dia, as narinas expelindo fumaça enquanto era alimentada por cuidadores.

Alicent tentava manter a compostura, servindo vinho e mantendo a conversa leve, mas seus olhos teimavam em seguir Daemon. Ele estava sentado entre as duas esposas, mas seu corpo parecia inclinado para Laena enquanto discutiam táticas de voo com Rhaenys.

— Você parece distraída, Alicent — comentou Rhaenys, sua voz profunda e observadora. — A vida em Pedra do Dragão não combina com a quietude de Vilavelha, eu presumo.

— É apenas o calor, Princesa — respondeu Alicent, ajeitando o vestido verde. — E a pequena Helaena não dormiu bem esta noite.

— Talvez seja o cheiro de dragão — disse Laena, sem olhar para ela, enquanto acariciava a mão de Daemon sobre a mesa. — Alguns nascem para ele. Outros apenas o suportam.

O comentário, embora sutil, atingiu Alicent como um tapa. Ela sentiu o sangue subir ao rosto. Daemon, percebendo a tensão, apertou a mão de Laena, mas não disse nada. Para ele, aquela dinâmica era natural, um equilíbrio de forças que ele governava. Ele não percebia que o equilíbrio estava pendendo para o abismo.

Após a refeição, a tensão explodiu de forma inesperada. Rhaenys decidiu levar Meleys para um voo curto antes de partir, e os cuidadores estavam tendo dificuldades para acalmar a dragão fêmea.

Alicent, desejando provar a si mesma — ou talvez a Daemon — que não tinha medo, aproximou-se da área de contenção. Ela carregava uma pequena cesta de frutas, pretendendo levá-las para os filhos que brincavam perto das arcadas.

— Alicent, afaste-se — avisou Daemon, levantando-se da mesa ao ver a proximidade dela com a fera vermelha.

— Eu estou bem, Daemon — respondeu ela, o tom de voz mais ríspido do que o habitual, alimentado pelo ressentimento acumulado da manhã. — Não sou feita de cristal.

Mas Meleys era uma criatura de instintos aguçados e humor volátil. A dragão sentiu a agitação emocional de Alicent, o cheiro do medo disfarçado de orgulho, e a energia caótica que emanava da mulher "estranha" ao sangue Targaryen. Quando um dos cuidadores tropeçou, Meleys soltou um rugido ensurdecedor, agitando sua cauda maciça.

O movimento foi rápido demais para os olhos humanos. A ponta da cauda, coberta de escamas duras como pedra, chicoteou o ar, atingindo a estrutura de madeira onde Alicent estava e, consequentemente, o ombro e o lado do rosto da jovem.

O impacto a lançou ao chão como uma boneca de pano.

— Alicent! — O grito de Daemon ecoou pelas pedras.

Ele foi o primeiro a chegar, deslizando pelo chão rochoso para alcançá-la. Laena e Rhaenys vieram logo atrás, o rosto de Laena pálido de choque.

Alicent estava atordoada. O lado direito de seu rosto estava coberto de sangue, e seu braço repousava em um ângulo antinatural. A dor era uma onda avassaladora, mas o que mais doía era a visão de Daemon olhando para ela com um terror que ela nunca vira.

— Levem-na para dentro! Chamem o meistre! Agora! — rugiu Daemon, pegando-a nos braços com uma delicadeza desesperada.

No quarto, o caos se instalou. O meistre trabalhava febrilmente para estancar o sangramento no rosto de Alicent. O ferimento não era profundo o suficiente para matá-la, mas deixaria uma marca, uma cicatriz fina que cortaria a perfeição de sua pele de porcelana. Seu ombro estava deslocado e severamente luxado.

Daemon não saiu do lado dela. Ele segurava a mão esquerda de Alicent, a expressão sombria, a mandíbula tão tensa que parecia prestes a quebrar.

— Por que você foi lá? — sussurrou ele, a voz carregada de uma mistura de raiva e angústia. — Eu disse para se afastar.

Alicent, sob o efeito do leite de papoula, olhou para ele com olhos marejados.

— Eu queria ser como ela — confessou, a voz fraca e embargada. — Eu queria que você não tivesse que me proteger o tempo todo. Queria que você me olhasse com o mesmo fogo com que olha para Laena quando ela está com Vhagar.

Daemon congelou. Ele olhou para a esposa, vendo a vulnerabilidade que ela tentara esconder sob vestidos verdes e sorrisos educados.

— Alicent... — Ele levou a mão ao rosto dela, evitando o curativo. — Você é a minha paz. Eu não preciso de duas tempestades. Eu amo Laena pela chama que ela é, mas eu amo você porque você é a única que consegue me trazer de volta para a terra.

A porta se abriu suavemente. Laena entrou, parecendo menor do que o habitual. Ela se aproximou da cama, observando o estado de Alicent. O ressentimento que habitualmente brilhava em seus olhos fora substituído por algo que se parecia muito com culpa.

— O meistre diz que ela vai ficar bem — disse Laena, a voz baixa, dirigindo-se a Daemon, mas seus olhos estavam fixos em Alicent.

Daemon assentiu, mas não soltou a mão de Alicent.

— Laena, por favor — pediu Alicent, tentando se sentar, mas soltando um gemido de dor.

— Fique deitada, sua tola — disse Laena, aproximando-se e, em um gesto raro, colocando a mão sobre a testa de Alicent. — Meleys é temperamental. Você não deveria ter tentado enfrentá-la.

— Eu não estava enfrentando a dragão — disse Alicent, olhando nos olhos violetas de Laena. — Eu estava enfrentando a mim mesma. E perdi.

Laena soltou um suspiro longo. Ela olhou para Daemon, vendo o modo como ele estava devastado pela dor de Alicent. Naquele momento, a ficha caiu para a filha de Driftmark. Ela sempre temera que o amor de Daemon por Alicent diminuísse o dela, mas ver a agonia dele provava que o amor dele não era uma torta a ser dividida, mas um oceano onde ambas estavam mergulhadas.

— Você não perdeu nada, Alicent — murmurou Laena, sua voz perdendo a habitual dureza. — Você quase morreu. E se tivesse morrido... este lugar teria se tornado cinzas. Daemon não teria suportado, e eu... eu não teria ninguém para me lembrar de que a bondade ainda existe.

Daemon olhou para as duas, surpreso pela admissão de Laena.

— Eu sinto muito — continuou Laena, olhando para Alicent. — Pelo modo como agi hoje. Pelo modo como ajo sempre. O meu ciúme é um veneno, eu sei. Mas ver você ali, caída... eu percebi que prefiro dividir o coração dele com você do que vê-lo quebrado pela sua ausência.

Alicent sentiu as lágrimas escorrerem. A dor física ainda estava lá, pulsante e cruel, mas o peso em seu peito parecia ter diminuído.

— Eu também sinto ciúmes, Laena — admitiu Alicent. — Eu sinto ciúmes de cada voo que vocês fazem. De cada palavra em valiriano que eu não entendo. Eu sinto que sou apenas uma sombra verde em um mundo de prata.

Daemon inclinou-se e beijou a testa de ambas, uma após a outra.

— Não há sombras aqui — declarou ele. — Há apenas o dragão e suas duas cabeças. Eu sou o fogo, mas vocês são o que me mantém queimando sem me consumir.

Naquela noite, Daemon não dormiu. Ele ficou sentado em uma poltrona entre a cama de Alicent e a janela, vigiando o sono agitado da esposa ferida. Laena permaneceu no quarto por um longo tempo, ajudando a trocar as compressas frias, um silêncio compartilhado finalmente se estabelecendo entre elas.

Nos dias que se seguiram, a recuperação de Alicent foi lenta. A cicatriz em seu rosto permaneceria, uma linha fina que descia da têmpora até a bochecha. Para Alicent, era uma marca de sua tolice; para Daemon, era uma lembrança constante de quão perto ele estivera de perder sua âncora.

Laena, por sua vez, começou a mudar. Ela não se tornou a melhor amiga de Alicent da noite para o dia, mas a hostilidade agressiva desapareceu. Ela começou a incluir Alicent nas conversas, a explicar as nuances do comportamento dos dragões e, às vezes, até a permitir que Alicent segurasse a mão de Daemon primeiro.

Certa tarde, quando Alicent já conseguia caminhar pelo jardim, ela encontrou Laena sentada perto da estátua de um dragão de pedra.

— Ele está lá embaixo com as crianças — disse Laena, sem se virar. — Aegon está tentando correr atrás de Baela e Helaena está escondida atrás de uma coluna, como sempre.

Alicent sentou-se ao lado dela, o braço ainda em uma tipoia de seda.

— Ele é um bom pai — comentou Alicent.

— Ele é um homem impossível — corrigiu Laena, com um meio sorriso. — Mas ele é nosso.

Alicent olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e roxo. Ela tocou a cicatriz em seu rosto, sentindo a textura da pele curada.

— Eu ainda sinto ciúmes, sabe? — confessou Alicent baixinho.

— Eu também — respondeu Laena, virando-se para ela. — E acho que sempre sentiremos. É o preço de amar um homem como Daemon Targaryen. Mas talvez... talvez possamos sentir ciúmes juntas, em vez de uma contra a outra.

Alicent sorriu, um sorriso verdadeiro que alcançou seus olhos verdes.

— Eu gostaria disso.

Daemon, observando-as de longe enquanto segurava Aegon nos braços, sentiu uma satisfação profunda. O sangue fora derramado, a dor fora sentida, mas das cinzas daquele acidente, algo novo estava crescendo. Pedra do Dragão ainda era um lugar de perigos e chamas, mas, pela primeira vez, parecia que o alicerce daquela família não era feito apenas de dever ou desejo, mas de uma compreensão frágil e preciosa.

Ele sabia que a paz era temporária, que o fogo de Laena e a insegurança de Alicent ainda colidiriam no futuro. Mas, por enquanto, enquanto as via conversando sob a luz do crepúsculo, o Príncipe Canalha sentia que tinha conquistado o reino mais difícil de todos: a harmonia dentro de seu próprio lar.

— Venham! — gritou ele para as duas, sua voz ecoando pelo pátio. — O jantar está pronto, e Aegon decidiu que quer comer as flores do jardim se vocês não se apressarem!

As duas riram, e Alicent, apoiada levemente no braço de Laena, começou a descer os degraus. O veneno verde do ciúme ainda corria em suas veias, mas agora, ele estava diluído em algo muito mais forte: a aceitação de que, naquela dança de fogo e gelo, cada uma delas tinha o seu lugar insubstituível. E Daemon, o dragão no centro de tudo, finalmente tinha suas duas cabeças olhando para a mesma direção.