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Sombras e Silêncios no Litoral

O som das ondas quebrando na areia da praia particular deveria ser o som da paz, mas para Emanuel, parecia o tique-taque de uma bomba relógio. A casa de praia era um refúgio de luxo, com janelas amplas e ventilação natural, mas o clima lá dentro estava mais denso do que o nevoeiro que subia do mar naquela madrugada.

Emanuel estava sentado na poltrona da suíte principal, observando Sara dormir. A loira, geralmente uma força da natureza imparável, parecia vulnerável envolta nos lençóis de seda. A gravidez de um mês, embora recente, já trazia mudanças: ela estava mais sensível aos cheiros, mais cansada e, estranhamente, mais suscetível a medos que antes desdenharia. O problema não era a gravidez em si, mas o que vinha ocupando a mente de Eduarda nos últimos dias, e como isso estava afetando o equilíbrio do trio.

Eduarda, que havia cedido e viajado com eles após o episódio da pirraça no loft, não estava agindo como a bailarina doce e manhosa de sempre. Ela estava obcecada. Desde que começara uma pesquisa para a faculdade de História da Arte sobre o folclore sacro e as representações da morte, a menina mergulhara em um abismo temático: a Procissão das Almas.

O celular de Emanuel vibrou no colo. Era uma notificação do sistema de segurança da casa. Alguém havia aberto a porta lateral que dava para o jardim dos fundos, que terminava em um antigo muro de pedra que separava a propriedade de uma pequena vila de pescadores e seu cemitério centenário.

Ele sentiu o sangue ferver. Emanuel levantou-se, cobrindo Sara com cuidado extra, e saiu do quarto a passos largos, mas silenciosos. Ele sabia exatamente quem encontraria.

Lá fora, a brisa marinha era fria. Eduarda estava parada perto do muro, vestindo apenas uma camisola leve de renda branca e um xale caído pelos ombros. Ela segurava um caderno de esboços e olhava fixamente para a silhueta das cruzes de pedra que se erguiam além do muro, sob a luz pálida da lua.

— O que você pensa que está fazendo aqui fora a essa hora, Eduarda? — A voz de Emanuel cortou o silêncio, carregada de uma autoridade perigosa.

Eduarda deu um pulo, o xale escorregando pelos braços esguios. Ela se virou, os olhos castanhos grandes e brilhantes, refletindo uma mistura de fascínio e culpa.

— Manu... eu só estava observando a luz. A tradição diz que, em noites como esta, o véu é mais fino. Eu precisava sentir a atmosfera para o meu ensaio sobre a Procissão das Almas. É estético, Emanuel. É arte.

Emanuel caminhou até ela, parando a poucos centímetros. Ele era muito mais alto, uma presença imponente que costumava ser o porto seguro dela, mas que agora era uma barreira de frustração.

— Arte? Eduarda, você está assustando a Sara! — Ele rosnou, tentando manter o tom de voz baixo para não acordar a casa. — Ontem à noite você ficou descrevendo aqueles rituais de mortos carregando velas de cera humana até ela ter um pesadelo. Ela está grávida! O médico disse que ela precisa de tranquilidade, não de histórias de terror contadas por uma menina que não sabe a hora de parar de ler livros mórbidos.

Eduarda inflou as bochechas, um gesto infantil que denunciava sua pirraça.

— Eu não estou contando histórias de terror! Estou compartilhando o que estou estudando. A Sara é adulta, Emanuel. Ela sempre foi a forte, a decidida. Agora eu não posso nem mais gostar de nada que você briga comigo? Tudo é sobre ela e o bebê agora?

— Não ouse seguir por esse caminho — Emanuel a pegou pelo braço, não com força, mas com uma firmeza inegável. — Eu mimo a Sara porque ela está carregando um filho meu, e porque ela, apesar daquela fachada de mulher fatal, está apavorada com a ideia de perder o controle do próprio corpo. E você, em vez de ser a doçura que sempre foi, está agindo como uma criança obcecada por cemitérios.

— É a minha pesquisa! — Eduarda se soltou, os olhos marejados. — Você ama a Sara loira, siliconada e poderosa, e quer que eu seja a bonequinha de porcelana que só dança e sorri. Mas eu também tenho pensamentos, Emanuel! Eu também tenho interesses que não são "fofos". Você está sendo injusto.

— Injusto? — Emanuel riu, um som seco e sem humor. — Eu trouxe vocês duas para cá para descansarem. Eu trabalho feito um condenado naqueles estúdios para que você possa estudar suas gravuras e ela possa ter a loja dela sem se preocupar com boletos. E o que eu recebo? Uma mulher grávida que não consegue dormir porque a outra está sussurrando sobre almas penadas no corredor.

— Se eu sou um estorvo, por que me trouxe? — Eduarda rebateu, a voz subindo de tom. — Você disse que se eu não quisesse vir, que não viesse. Eu vim por você! Mas parece que aqui eu sou apenas a "louca do cemitério".

— Chega, Eduarda. Para o quarto. Agora.

— Não!

Ela deu as costas a ele e começou a caminhar em direção à trilha que levava ao portão de ferro do cemitério da vila. Emanuel ficou parado por um segundo, incrédulo com a audácia.

— Eduarda! Se você passar por aquele portão, eu juro que...

— Você vai o quê? Me colocar de castigo? — Ela gritou por cima do ombro, a voz embargada pelo choro. — Eu vou ver o que eu quiser ver!

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o estresse latejar em suas têmporas. Ele sabia que se fosse atrás dela agora, a briga escalaria para algo que ele não queria. Ele precisava de calma. Ele voltou para dentro, o coração pesado.

No quarto, Sara estava sentada na cama, a luz do abajur acesa. Ela usava uma camisola de cetim curta, e seus cabelos loiros estavam levemente bagunçados. Ela parecia pálida.

— Onde ela foi? — perguntou Sara, a voz rouca.

— Ela está fazendo pirraça, Sara. Foi para perto do cemitério. Acha que a "Procissão das Almas" vai aparecer para ela fazer um esboço — Emanuel sentou-se na beira da cama, puxando Sara para seus braços. — Sinto muito por ela estar te assustando com essas bobagens.

Sara se aconchegou no peito dele, sentindo o calor das tatuagens dele contra sua pele.

— Eu não tenho medo de fantasma, Manu... eu tenho medo do jeito que ela olha para o nada quando fala disso. Parece que ela não está aqui. E eu me sinto... sei lá, vulnerável. Esse bebê está me deixando mole.

— Eu vou cuidar de tudo — Emanuel beijou o topo da cabeça dela. — Eu vou buscar aquela teimosa e amanhã mesmo a gente volta para a cidade se for preciso. Eu não vou deixar nada afetar vocês.

— Não briga tanto com ela — Sara murmurou, fechando os olhos. — Ela é sensível. Ela só está tentando se encontrar em algo que não seja apenas o ballet. Mas, sério... manda ela parar de falar de velas feitas de ossos. Isso é nojento.

Emanuel esperou Sara pegar no sono novamente, o que não demorou muito devido ao cansaço da gestação. Ele então se levantou, vestiu um casaco pesado e pegou uma lanterna potente. A diversão tinha acabado.

O cemitério da vila era um lugar pequeno, com muros baixos e lápides devoradas pelo salitre. O silêncio ali era absoluto, quebrado apenas pelo pio de uma coruja distante. Emanuel caminhou entre as sepulturas, a luz da lanterna cortando a escuridão, até que viu um vulto branco sentado no chão, encostado em um anjo de mármore decapitado pelo tempo.

Eduarda estava lá, encolhida, chorando baixinho. O caderno estava jogado ao lado, as páginas em branco.

— Duda... — A voz dele agora não tinha fúria, apenas um cansaço profundo.

Ela levantou o rosto. O nariz estava vermelho, e ela tremia de frio.

— Não veio nenhuma alma, Manu — ela soluçou. — Só o frio. E o silêncio.

Emanuel se ajoelhou na frente dela, envolvendo-a com seu casaco, ignorando o fato de que ele agora sentia o vento cortante.

— É claro que não veio, meu amor. Isso são lendas. O que é real é que você está aqui fora, se colocando em risco e deixando a Sara apavorada lá dentro.

— Eu só queria que você me visse como algo mais do que a "Duda boazinha" — ela disse, escondendo o rosto no peito dele. — A Sara é tão marcante, tão cheia de presença... e ela vai te dar um filho. Eu senti que precisava de algo profundo, algo sombrio, para compensar a minha falta de... de tudo.

Emanuel suspirou, apertando-a contra si. O perfume suave de Eduarda, que misturava resina de sapatilha e baunilha, acalmou seus nervos.

— Você não precisa compensar nada. Você é a paz que eu procuro quando o mundo está barulhento demais. A Sara é o meu fogo, mas você é a minha luz suave. Eu preciso das duas para ser um homem completo, você sabe disso. Mas essa obsessão... Duda, isso está passando dos limites. Você foi para um cemitério de madrugada sem dizer a ninguém!

— Eu sei... foi pirraça — ela admitiu, a voz abafada pelo casaco. — Eu queria que você viesse atrás de mim. Eu queria que você ficasse furioso porque isso significava que você ainda estava prestando atenção em mim, mesmo com o bebê da Sara.

Emanuel segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele.

— Escute bem: eu nunca, nunca vou deixar de prestar atenção em você. Mas eu não vou tolerar que você use medos ou superstições para manipular a situação, especialmente agora que a Sara está frágil. Ela te ama, do jeito torto e irônico dela, mas ela te ama. Ela não te vê como uma ameaça, e você não deveria vê-la assim.

Eduarda assentiu, as lágrimas finalmente parando de cair.

— Desculpa, Manu. Eu vou pedir desculpas para ela amanhã. E vou guardar esses livros no fundo da mala.

— Ótimo — Emanuel a levantou no colo, como se ela não pesasse nada, a mesma facilidade com que a carregava após os espetáculos de ballet. — Porque se eu ouvir a palavra "alma penada" mais uma vez neste fim de semana, eu confisco todos os seus cadernos de desenho.

Ela deu um pequeno sorriso manhoso, passando os braços pelo pescoço dele.

— Você ficaria muito bonito em uma procissão, Manu. Com todas essas tatuagens... pareceria um rei antigo.

— Eduarda! — ele repreendeu, mas havia um traço de riso em sua voz.

Ele a carregou de volta para a casa. O caminho era escuro, mas Emanuel conhecia cada passo. Ao entrar na suíte, ele a colocou com cuidado na cama grande, entre ele e Sara. A loira se mexeu durante o sono, sentindo a presença da menina, e esticou o braço, puxando a mão de Eduarda para perto de sua barriga, ainda sem volume, mas cheia de significado.

— Fica quieta, bailarina — Sara resmungou, sem abrir os olhos. — Se você falar de defunto agora, eu te jogo da varanda.

Eduarda soltou uma risadinha abafada e olhou para Emanuel, que se deitava do outro lado.

— Viu? — Emanuel sussurrou, cobrindo as duas. — Ela te conhece.

Naquela noite, o silêncio finalmente foi de paz. Emanuel, o protetor, o homem que dividia sua vida entre o verniz da arte e a tinta da pele, fechou os olhos sentindo-se, pela primeira vez em dias, no controle. Ele tinha suas duas mulheres ali, protegidas sob seu teto, sob seu cuidado. A Procissão das Almas podia esperar pela faculdade; ali, naquele quarto, a única coisa que importava era a vida pulsação constante que unia os três.

Mas, no fundo da mente, Emanuel sabia que a manhã traria novos desafios. Sara quereria mimos dobrados para compensar o susto, e Eduarda provavelmente tentaria convencê-lo de que um cemitério ao amanhecer tinha uma "luz divina" para fotos.

— Eu realmente não tenho um minuto de sossego — ele pensou, sorrindo na escuridão, antes de finalmente se entregar ao sono, guardado pelo fogo de uma e pela doçura da outra.

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