Nenhum
Doçura, Quedas e Revelações em Dobro
O sol da manhã entrava pelas janelas da casa de praia, mas o clima na cozinha estava longe de ser ensolarado. Emanuel, com sua postura firme e o olhar cansado de quem carregava o mundo nas costas, observava a cena diante de si. Sara estava sentada à mesa, o rosto inchado e as bochechas molhadas por lágrimas dramáticas que escorriam sobre sua maquiagem impecável. Ela segurava uma embalagem de papel dourado, agora completamente vazia.
— Eu só queria um... só mais um, Manu! — Sara soluçou, a voz saindo em um tom agudo que denunciava sua frustração hormonal. — Valentina queria esse chocolate. Eu sinto que ela está chutando de tristeza!
Emanuel suspirou, passando a mão pelos cabelos curtos. Ele estava em modo de proteção total desde que souberam que teriam uma menina. Valentina já era a dona do seu coração, e ver Sara naquele estado por causa de um desejo não realizado o deixava em frangalhos.
— Calma, meu amor. Eu compro mais. Eu mando buscar na cidade se for preciso — Emanuel disse, inclinando-se para beijar a testa da loira, que se aninhou em seu peito, buscando conforto no cheiro de tinta e perfume amadeirado dele.
Nesse momento, Eduarda entrou na cozinha. Ela usava seu collant de ballet preto sob um shortinho de moletom, os cabelos castanhos presos em um coque perfeito e a expressão serena de quem tinha dormido maravilhosamente bem.
— Bom dia! — disse ela, com aquela voz doce e manhosa que geralmente desarmava Emanuel.
Emanuel, no entanto, não se desarmou. Ele apontou para a embalagem vazia sobre a mesa.
— Eduarda, você comeu todos os chocolates que seus pais te deram? Todos?
Eduarda parou no meio do caminho para a geladeira, piscando os olhos, confusa.
— Comi... eles eram deliciosos. Por quê?
— Por quê? — Emanuel repetiu, a voz subindo de tom, a irritação acumulada dos últimos dias transbordando. — Porque a Sara está grávida, Eduarda! Ela teve um desejo por esses chocolates específicos e, quando foi procurar, você tinha devorado a caixa inteira sozinha. Você não pensa em ninguém além de si mesma?
Eduarda cruzou os braços, fazendo um biquinho de pirraça. Ela não se sentia nem um pouco culpada.
— Manu, os chocolates eram meus. Meus pais me deram de presente de formatura antecipado. Se a Sara queria, era só ter falado. Eu teria guardado alguns. Eu não sou adivinha!
— Você é egoísta! — Sara disparou entre um soluço e outro, embora no fundo não estivesse com raiva de Duda, apenas frustrada pela falta do doce. — Você sabe que eu estou comendo por dois!
— E eu estou dançando por dez! — Eduarda rebateu, a timidez dando lugar a uma teimosia infantil. — Eu gasto muita energia nos ensaios. Eu precisava de açúcar. Se você queria o chocolate da "bonequinha de porcelana", deveria ter pedido com educação.
— Chega! — Emanuel bateu a mão na mesa, fazendo as duas se calarem. — Eduarda, peça desculpas agora. Você sabe que a Sara está sensível.
— Não peço — Eduarda disse, dando as costas e pegando uma garrafa de água. — Eu vou para o ensaio. Tenho muito o que fazer antes da apresentação de gala.
Ela saiu da cozinha a passos rápidos, deixando o ar carregado. Emanuel queria ir atrás dela, sacudi-la até que a teimosia saísse, mas Sara o segurou pelo braço.
— Deixa ela, Manu. Ela está nervosa com esse espetáculo novo. Aquele diretor é um carrasco.
Emanuel sentou-se, sentindo uma pontada de ansiedade. Ele não gostava daquele espetáculo. Eduarda tinha contado que, em uma das cenas principais, ela seria içada por cabos de aço a quase dez metros de altura para representar a ascensão de uma alma. A ideia de sua pequena Duda pendurada por fios o deixava doente de preocupação.
Duas semanas se passaram. O trio voltou para a cidade, e a rotina se tornou um borrão de trabalho para Emanuel, cuidados com a gravidez para Sara e ensaios exaustivos para Eduarda. A tensão do episódio dos chocolates tinha sido enterrada sob camadas de necessidade mútua, mas Emanuel ainda sentia que algo estava errado com Eduarda. Ela estava mais pálida, mais cansada e, estranhamente, mais enjoada do que o normal para alguém que vivia de saladas e barras de cereais.
No dia do ensaio geral no grande teatro, Emanuel fez questão de estar presente. Sara, com sua barriga de dois meses começando a marcar levemente os vestidos justos, sentou-se na primeira fila, segurando a mão de Emanuel.
— Ela está linda, não está? — Sara sussurrou, observando Eduarda no palco, movendo-se com uma leveza que parecia desafiar a gravidade.
— Está — Emanuel concordou, os olhos fixos na bailarina. — Mas ela parece exausta. Olhe como ela está respirando pesado.
No palco, Eduarda sentia o mundo girar levemente. Ela atribuiu o mal-estar ao nervosismo e à dieta rigorosa para o papel. Era o momento do clímax. Os técnicos de palco prenderam os ganchos no seu cinto de segurança oculto sob o figurino de tule.
— Pronta, Eduarda? — o diretor gritou do fundo da plateia.
— Pronta! — ela respondeu, embora sua voz soasse fraca.
A música cresceu em um crescendo dramático. Eduarda começou a ser içada. Ela girava no ar, executando movimentos graciosos enquanto subia. O público fictício estaria maravilhado. Emanuel, no entanto, levantou-se da cadeira, o coração disparado.
— Algo está errado — ele murmurou.
Lá no alto, Eduarda sentiu uma pontada aguda no baixo ventre. Uma dor que a fez perder o fôlego. Sua visão escureceu por um segundo. O técnico, percebendo a hesitação, tentou ajustar a velocidade, mas um tranco seco ecoou pelo teatro. Uma das cordas de sustentação, desgastada por um erro de manutenção, estalou.
O grito de Sara ecoou no teatro vazio quando Eduarda despencou.
Não foi uma queda livre total; os outros cabos seguraram parte do peso, mas o impacto contra o tablado do palco foi violento. Ela caiu de lado, o corpo esguio chocando-se contra a madeira dura antes que os cabos a puxassem erraticamente para cima de novo.
— PAREM A MÁQUINA! — Emanuel gritou, saltando para o palco com uma agilidade nascida do puro pânico.
Os técnicos baixaram Eduarda rapidamente. Emanuel a pegou nos braços antes mesmo que ela tocasse o chão completamente. Ela estava inconsciente, o rosto branco como o figurino, e um filete de sangue escorria por sua perna, manchando a sapatilha de cetim rosa.
— Duda! Eduarda, fala comigo! — Emanuel implorava, a voz embargada.
Sara chegou logo atrás, ofegante.
— Meu Deus, Emanuel! O sangue... ela está sangrando!
O caos se instalou. Ambulâncias foram chamadas. Emanuel não soltou Eduarda por um segundo sequer, nem mesmo quando os paramédicos tentaram colocá-la na maca. Ele foi na ambulância, segurando a mão fria dela, enquanto Sara os seguia no carro de luxo, rezando como nunca havia rezado na vida.
No hospital, a espera foi um tormento. Emanuel andava de um lado para o outro, as mãos manchadas com o sangue de Eduarda, a mente processando o medo de perdê-la. Sara estava sentada em um canto, chorando silenciosamente, a mão protegendo o próprio ventre, sentindo a fragilidade da vida de forma visceral.
Horas depois, o médico apareceu. Ele tinha uma expressão séria, mas aliviada.
— O senhor é o responsável por Eduarda?
— Sou eu. Como ela está? — Emanuel perguntou, a voz falhando.
— Ela teve uma concussão leve e algumas escoriações pelo corpo. A queda foi amortecida pelos cabos restantes, o que salvou a vida dela — o médico fez uma pausa, olhando para o prontuário. — Mas o sangramento que vimos... bom, conseguimos estabilizar.
— Estabilizar o quê? — Sara se aproximou, limpando as lágrimas.
— A gravidez — o médico disse de forma direta. — Eduarda está grávida de quase dois meses. E, para nossa surpresa, são gêmeos. Um menino e uma menina.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Emanuel sentiu os joelhos fraquejarem e precisou se apoiar na parede. Eduarda? Grávida? Gêmeos?
— Ela... ela quase perdeu os bebês? — Emanuel perguntou, a voz num sussurro.
— Foi por pouco. O trauma da queda causou um deslocamento parcial, mas conseguimos intervir a tempo. Ela precisará de repouso absoluto. Nada de dança, nada de esforços. Ela teve muita sorte, e os bebês também.
Emanuel entrou no quarto do hospital com o coração na mão. Eduarda estava acordada, pálida, com um acesso no braço. Quando ela o viu, seus olhos se encheram de lágrimas, mas não eram lágrimas de medo pelos bebês.
— Manu... — ela soluçou.
Emanuel correu para o lado dela, beijando suas mãos.
— Shhh, está tudo bem. Os bebês estão bem, Duda. Você tem noção do milagre que aconteceu? Gêmeos, meu amor. Você está grávida de gêmeos.
Eduarda piscou, processando a informação por um segundo, mas logo sua expressão mudou para algo que Emanuel conhecia bem: a determinação teimosa.
— Gêmeos? — ela murmurou, surpresa, mas logo agarrou a manga da camisa dele. — Manu, você falou com o diretor? Eles conseguiram repor a corda?
Emanuel travou.
— O quê?
— A corda, Manu! O espetáculo é daqui a três dias. Eu preciso saber se a produção vai consertar o equipamento a tempo. Eu não posso deixar o corpo de baile na mão. Eu treinei meses para aquela ascensão!
Emanuel se afastou um passo, a incredulidade dando lugar a uma fúria fria e vibrante.
— Você está brincando comigo, não está? — ele perguntou, a voz baixa e perigosa. — Você quase morreu. Você quase matou nossos filhos. Gêmeos, Eduarda! E a sua preocupação é com a maldita corda do teatro?
— É o meu trabalho, Emanuel! — ela gritou de volta, a voz manhosa sumindo para dar lugar à pirraça. — Eu sou a estrela! Eu não posso simplesmente sumir. Se eles trocarem a corda por uma nova, de aço reforçado, não tem perigo...
— Você não vai a lugar nenhum que não seja para a nossa cama, em repouso absoluto! — Emanuel explodiu, fazendo Eduarda se encolher. — Você tem noção da gravidade disso? Você estava grávida e nem sabia! Estava se pendurando em fios, comendo chocolates como se não houvesse amanhã e ignorando todos os sinais do seu corpo!
Sara entrou no quarto nesse momento, ouvindo a gritaria.
— O que está acontecendo aqui?
— Ela quer saber da corda, Sara! — Emanuel apontou para Eduarda. — Ela quer voltar para aquele palco!
Sara olhou para Eduarda, a expressão de choque se transformando em uma seriedade que raramente mostrava. Ela caminhou até a cama e sentou-se ao lado da bailarina.
— Duda, olha para mim — Sara disse, a voz firme. — Eu sou a primeira a dizer para você ser independente e poderosa. Mas você tem duas vidas aí dentro. Além da Valentina aqui na minha barriga. Você quer mesmo arriscar o nosso futuro por causa de um aplauso?
Eduarda começou a chorar de novo, dessa vez um choro de criança pequena que sabe que perdeu a discussão.
— Mas... a produção... eles investiram tanto...
— Eu compro a droga da produção! — Emanuel rosnou, cruzando os braços. — Eu compro o teatro e fecho as portas se for preciso para garantir que você não chegue perto daquele palco até esses bebês nascerem. Você está proibida, Eduarda. Entendeu? Proibida.
Eduarda olhou para Emanuel, vendo o medo por trás da fúria dele. Ela sabia que tinha passado dos limites. Ela se apoiou em Sara, que a abraçou com cuidado.
— Eu vou ser mãe de gêmeos? — Eduarda perguntou, a voz voltando a ser pequena e manhosa.
— Vai, sua bailarina teimosa — Sara sorriu, beijando a bochecha dela. — E eu vou ter que dividir o Emanuel e os mimos com mais dois. E, desta vez, eu juro que guardo os chocolates para você.
Emanuel suspirou, sentindo a tensão deixar seu corpo aos poucos. Ele se aproximou e abraçou as duas, formando aquele círculo de proteção que era sua razão de viver.
— Três filhos — ele murmurou, a ficha finalmente caindo. — Eu vou ter três filhos de uma vez.
— Quatro, se você contar com a Eduarda quando ela resolve fazer pirraça — Sara provocou, fazendo Emanuel rir pela primeira vez em horas.
Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, ainda olhando para o teto, imaginando a sensação de ser içada. Mas então, sentiu a mão de Emanuel sobre seu ventre ainda plano e a mão de Sara sobre a dele. O palco era magnífico, mas aquele calor, aquela união caótica e profunda, era o único lugar onde ela realmente queria estar.
Mesmo que, secretamente, ela ainda estivesse pensando que, com uma corda de titânio, ela poderia ter terminado o espetáculo. Mas isso, ela decidiu, era melhor não contar para Emanuel. Pelo menos não até ele parar de ficar tão vermelho de raiva.