Nerd
Renascimento de Sangue e Neon
A morte tem um cheiro específico. Não é apenas o cheiro de decomposição que os filmes mostram, mas o cheiro de estagnação. Quando Mizi abriu a porta da sala naquela manhã de segunda-feira, o silêncio não era o seu habitual refúgio sarcástico; era um peso morto. Sua mãe estava caída perto da mesa de centro, a pele pálida contrastando com o tapete escuro. Ataque cardíaco, disseram os médicos depois.
Mizi não chorou no funeral. Por que choraria? Aquela mulher a ignorava sistematicamente há dezessete anos. O colarinho apertado do uniforme, as marcas roxas que Mizi escondia com as marias-chiquinhas, o bullying que sofria... sua mãe nunca quis saber. Para ela, Mizi era apenas um erro burocrático que precisava ser alimentado e vestido para manter as aparências. O luto de Mizi durou uma semana, mas foi um luto estranho: era o luto de quem finalmente respira depois de passar a vida inteira debaixo d'água.
A mudança foi rápida. Sua avó, uma mulher que exalava elegância e uma autoridade que Mizi nunca vira em ninguém, cruzou o oceano em dois dias. Ela não apenas assumiu a custódia; ela tomou conta da existência de Mizi.
— Que horror, minha querida — disse a avó, observando Mizi no terceiro dia da nova rotina. Ela apontou para os óculos de armação grossa e para as marias-chiquinhas frouxas. — Você está se escondendo atrás dessa fachada de "nerd invisível" por medo ou por preguiça?
— Por sobrevivência, vó — respondeu Mizi, bocejando. Ela estava jogada no sofá novo da casa luxuosa que a avó comprara perto da antiga residência. — Se ninguém me vê, ninguém me ataca. Quer dizer, essa era a teoria. Na prática, eu apanho igual.
A avó caminhou até ela e, com um movimento firme, tirou os óculos do rosto de Mizi.
— Ei! Eu não enxergo... — Mizi começou a protestar, mas parou.
— Você enxerga perfeitamente, Mizi. Você usa isso como um escudo — a avó sentenciou, caminhando até a janela e soltando os óculos no lixo. — E essas chiquinhas? Parecem orelhas de um cachorro triste.
Naquela manhã de segunda-feira, o retorno de Mizi ao Colégio Anakt não seria silencioso. A avó a obrigou a soltar o cabelo. Os fios rosa com pontas azuis agora caíam em ondas sedosas pelas costas, emoldurando um rosto que, sem a barreira das lentes, revelava olhos dourados afiados e predatórios. A maquiagem era mínima, apenas o suficiente para cobrir os resquícios das cicatrizes da semana anterior, mas o efeito era devastador.
O uniforme, antes abotoado até o queixo, agora tinha o último botão aberto. A gravata preta estava frouxa, e a saia, antes no joelho, fora levemente ajustada para uma altura que desafiava as normas, mas exalava confiança.
— Lembre-se, Mizi — disse a avó na porta de casa. — Você não é a presa. Você é o motivo pelo qual elas deviam ter medo do escuro. Se alguém encostar em você, quebre a mão dessa pessoa.
Mizi deu um sorriso de lado, um brilho sarcástico voltando aos seus olhos.
— Pode deixar, vó. O que é um peido para quem já está cagada, né?
— Mizi! Que vocabulário! — A avó riu, dando um tapinha no ombro da neta. — Agora vá. Arrase alguns corações.
— Você sabe que eu ainda gosto de mulher, né? — Mizi soltou, já descendo os degraus.
A avó soltou uma gargalhada alta.
— Então arrase os corações delas! Só não volte para casa com o uniforme sujo de sangue alheio, dá trabalho para lavar.
***
O corredor do 3º ano estava barulhento como sempre. O grupo de Ivan, Till, Hyuna, Luka e Sua estava reunido perto da entrada principal, a bolha habitual de caos e melancolia.
— Onde está aquele idiota do professor? — Till reclamava, chutando levemente o armário. — Se ele demorar mais cinco minutos, eu vou embora.
— Você não vai a lugar nenhum, Till — disse Hyuna, encostada na parede com os braços cruzados. — Temos prova de literatura.
— Literatura é para gente morta — resmungou Till.
Luka, que lia um resumo no tablet, olhou para Hyuna e sorriu.
— Eu posso te ajudar a revisar os conceitos do romantismo depois, se quiser.
Hyuna piscou para ele, fazendo o loiro corar instantaneamente.
— Valeu, Luka. Você é um anjo.
Ivan, que estava ocupado tentando roubar o boné de Till apenas para ver o outro se irritar, parou abruptamente. Seus olhos pretos se fixaram em alguém que entrava pelo portão principal.
— Caralho... — Ivan murmurou, o sorriso de deboche desaparecendo por um segundo.
— O que foi agora, Ivan? — Sua perguntou, sem levantar os olhos de seu novo livro. — Viu um fantasma?
— Não — disse Ivan, sua voz carregada de uma curiosidade súbita. — Vi algo muito melhor. Olhem.
O grupo seguiu o olhar de Ivan. Uma garota caminhava pelo pátio central. O passo era firme, os ombros estavam para trás e o cabelo rosa flutuava com o vento. Ela não parecia estar apenas andando; parecia estar tomando posse do espaço.
— Quem é aquela? — Till perguntou, franzindo a testa. — Aluna nova?
— Não... — Hyuna estreitou os olhos azuis. — Espera. Aquele cabelo... as pontas azuis...
— É a nerd da sala B? — Luka perguntou, incrédulo. — A Mizi?
Sua finalmente fechou o livro, observando a figura se aproximar.
— Ela mudou a aura — comentou Sua, sua voz melancólica ganhando um tom de respeito. — Ela não está mais tentando desaparecer.
Mizi passou pelo grupo. Ela não olhou para eles, mas o perfume suave e a postura de quem não dava a mínima para nada deixaram um rastro de silêncio por onde passava. Ivan soltou um assobio baixo.
— Ela ficou... interessante — disse Ivan, o sorriso insuportável voltando, mas agora com um brilho diferente nos olhos.
No entanto, a paz não durou muito. Maria e suas duas seguidoras, as mesmas que haviam deixado Mizi sangrando na semana anterior, surgiram do corredor lateral. Elas ainda não tinham processado a mudança. Para elas, Mizi ainda era o saco de pancadas oficial.
— Ora, ora — Maria gritou, atraindo a atenção de todos no corredor. — A esquisita voltou! E resolveu se fantasiar de gente?
O grupo de Ivan parou para assistir. Till cruzou os braços, esperando o massacre habitual.
Maria caminhou até Mizi, parando a poucos centímetros.
— Onde você estava, sua vadia? — Maria perguntou, estendendo a mão para agarrar o cabelo solto de Mizi. — Achou que se ficasse em casa uma semana a gente ia esquecer o quanto você é patética?
O movimento foi rápido demais para a maioria ver. Antes que a mão de Maria tocasse um único fio rosa, Mizi segurou o pulso da garota no ar. O aperto foi tão forte que Maria soltou um ganido de surpresa.
— Não toca no meu cabelo — disse Mizi. Sua voz não era mais o sussurro cansado de antes. Era profunda, aveludada e carregada de um veneno letal. — A menos que você queira aprender a escrever com a mão esquerda pelo resto do semestre.
O corredor inteiro congelou. Até Till parou de mastigar o chiclete.
— Me solta, sua louca! — Maria tentou puxar o braço, mas Mizi a empurrou para trás com uma força desdenhosa.
— Você está latindo demais, Maria — Mizi disse, ajeitando a gravata frouxa com uma elegância irritante. — O excesso de laquê finalmente chegou ao córtex frontal? Eu cansei de brincar de vítima. Procure outro hobby. Ou melhor, procure um cérebro.
As seguidoras de Maria avançaram, mas Mizi apenas lançou um olhar dourado tão frio que elas hesitaram.
— O que foi? — Mizi perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Querem tentar? Eu estou com sono, mas garanto que consigo colocar as três para dormir antes do primeiro tempo.
Maria, vermelha de raiva e humilhação, gritou:
— Você vai se arrepender disso! Você não é nada!
Mizi apenas sorriu. Um sorriso que não chegava aos olhos, mas que era incrivelmente bonito e aterrorizante ao mesmo tempo.
— Eu sou a pessoa que você vai ter pesadelos a partir de hoje. Agora sai da frente. Você está bloqueando o meu oxigênio.
Mizi deu um passo à frente, trombando deliberadamente no ombro de uma das seguidoras, que quase caiu no chão com o impacto. Ela continuou caminhando em direção à sua sala, sem olhar para trás.
O silêncio no corredor era absoluto, interrompido apenas pelo som dos celulares vibrando.
— Cara... — Till soltou um riso curto. — Ela acabou de macetar a Maria na frente de todo mundo.
— O Instagram vai explodir — disse Hyuna, já pegando o celular. — O grupo "Confesse Anakt" já tem cinco fotos dela. Estão perguntando se é aluna nova.
Ivan não disse nada. Ele apenas observava as costas de Mizi sumindo no final do corredor. O sorriso dele era largo, quase predatório.
— Ela é foda — Ivan murmurou para si mesmo.
Luka olhou para Ivan e depois para onde Mizi tinha ido.
— Ela mudou completamente. Como alguém faz isso em uma semana?
— Às vezes — Sua disse, abrindo seu livro novamente —, você só precisa que o mundo te quebre o suficiente para você decidir usar os cacos como arma.
Dentro da sala de aula, Mizi sentou-se em sua cadeira habitual. Ela sentia os olhares queimando em suas costas, ouvia os sussurros e as notificações de mensagens chegando nos celulares dos colegas. Ela pegou o celular e abriu o Instagram por curiosidade.
*"Quem é a Deusa Rosa da Sala B?"* *"A nerd virou uma gostosa?"* *"Ela acabou com a Maria, eu vi!"*
Mizi bloqueou a tela e apoiou a cabeça na mesa, fechando os olhos.
— Que porra de barulho — resmungou ela, embora um pequeno sorriso de satisfação brincasse em seus lábios.
Ela ainda gostava de dormir. Ainda era sarcástica. Mas agora, o Colégio Anakt sabia que Mizi não era mais uma sombra. Ela era o próprio incêndio. E ela mal podia esperar para ver quem mais tentaria se queimar.