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Nerd

O Batismo de Fogo e o Eco das Confissões

A luz do sol que atravessava as janelas do refeitório do Colégio Anakt parecia brilhar de forma diferente naquela terça-feira. Talvez fosse apenas o contraste entre o brilho dourado dos olhos de Mizi e a atmosfera pesada de antecipação que pairava no ar. Mizi estava sentada em uma das mesas centrais, algo que ela nunca teria feito uma semana atrás. Ela usava o cabelo solto, as ondas rosa e azul caindo sobre os ombros com uma negligência estudada. O uniforme, impecável mas ligeiramente modificado, parecia ter sido feito sob medida para sua nova postura.

Ao lado dela, balançando as pernas e mastigando um chiclete com um barulho irritante, estava Vina. Vina era uma garota do segundo ano, de cabelos cinzas cortados em um estilo repicado e médio, com um jeito largado e uma jaqueta de couro por cima do uniforme que desafiava qualquer regra de vestimenta. Elas haviam se conhecido na detenção no ano anterior, duas almas que preferiam o silêncio ao barulho, embora Vina fosse muito mais inclinada a resolver problemas com os punhos do que com o sarcasmo.

— Eu te disse, Mizi — Vina falou, soltando uma bola de chiclete que estourou com um estalo seco. — Você fica muito melhor assim. Aquelas marias-chiquinhas pareciam antenas de rádio captando sinal de enterro.

Mizi soltou uma risada anasalada, apoiando o queixo na palma da mão e cruzando as pernas por baixo da mesa.

— Minha avó diria o mesmo. Ela acha que eu estava tentando me camuflar com a mobília velha da escola.

— E funcionou por um tempo — Vina deu de ombros. — Mas agora você é o centro das atenções. Olha só a cara daquelas hienas.

Vina apontou discretamente com o polegar para a entrada do refeitório. Maria e seu séquito avançavam como se estivessem marchando para uma guerra. O rosto de Maria estava lívido, uma mistura de humilhação acumulada e o desejo desesperado de retomar seu trono de rainha da escola.

O refeitório, antes barulhento, começou a baixar o volume. O som de talheres batendo nos pratos foi substituído pelo burburinho ansioso dos alunos que já pressentiam o espetáculo.

Maria parou diante da mesa de Mizi, as mãos batendo com força na superfície de plástico.

— Você acha que é alguém agora, não é? — Maria sibilou, a voz trêmula de raiva. — Só porque tirou os óculos e soltou esse cabelo ridículo? Você continua sendo a mesma órfã miserável que ninguém quer por perto.

Mizi nem se mexeu. Ela apenas olhou para baixo, um sorriso perigoso e contido brincando no canto de seus lábios, enquanto seus olhos dourados brilhavam com um divertimento cruel sob os cílios longos.

— Maria, sério? — Mizi perguntou, sem levantar a cabeça. — É a terceira vez que você tenta o mesmo discurso hoje. Seu repertório é tão limitado quanto sua média em matemática.

— Sua vadia! — Maria gritou, avançando para puxar Mizi pela gola da camisa.

Mas ela não chegou a tocar em Mizi. Vina, que parecia estar em um estado de relaxamento total, moveu-se com a velocidade de um bote. Ela se levantou em um salto e, com um empurrão firme e seco no peito de Maria, mandou a garota direto para o chão.

O impacto de Maria contra o piso frio ecoou pelo salão. O silêncio que se seguiu foi absoluto.

— O espaço pessoal é uma coisa linda, sabe? — Vina disse, limpando as mãos na calça. — Você deveria experimentar respeitar o das pessoas.

Mizi finalmente levantou o olhar. Ela se levantou lentamente, a saia balançando suavemente, e caminhou até onde Maria estava caída. O grupo das populares estava estático, em choque. Mizi inclinou-se, estendendo a mão para Maria em um gesto que parecia, à primeira vista, de ajuda.

— Oh, Maria... que tombo feio — Mizi disse, o tom de voz carregado de um sarcasmo tão denso que era quase palpável. — Deixa eu te ajudar. Não queremos que você estrague o resto do que sobrou da sua dignidade no chão sujo.

Maria olhou para a mão de Mizi e, em um surto de fúria cega, levantou-se de uma vez, desferindo um soco direto no rosto de Mizi.

O som do impacto foi seco. A cabeça de Mizi virou para o lado com a força do golpe. Um filete de sangue quente começou a escorrer de seu nariz, manchando a pele pálida e caindo sobre o colarinho branco.

Houve um suspiro coletivo no refeitório.

Mizi permaneceu imóvel por um segundo, a cabeça baixa. Então, ela passou a língua pelos lábios e soltou uma risada curta e sombria. Quando ela voltou o rosto para Maria, seus olhos não mostravam dor, apenas uma satisfação predatória.

— O meu nariz por um soco desses? — Mizi sussurrou. — Foi um preço barato.

Antes que Maria pudesse reagir, Mizi desferiu o contra-ataque. Não foi um tapa ou um empurrão. Foi um soco fechado, técnico e devastador, que atingiu o nariz de Maria em cheio. O som de osso quebrando foi audível para quem estava nas mesas mais próximas.

Maria caiu novamente, desta vez segurando o rosto enquanto o sangue jorrava entre seus dedos. O choro de dor e choque começou a ecoar, mas Mizi já estava se virando.

— Vamos, Vina — Mizi disse, pegando um lenço de papel no bolso e pressionando contra o próprio nariz. — O cheiro de desespero aqui está me dando náuseas.

As duas saíram do refeitório sob o olhar de centenas de pessoas. Em questão de segundos, os celulares estavam em chamas. O fórum "Confesse Anakt" estava tendo o seu dia mais movimentado em anos. Vídeos do soco de Mizi circulavam em todos os grupos de WhatsApp, com legendas que variavam de "A Vingança da Nerd" a "Mizi é a nova dona da escola".

***

A poucos metros dali, no corredor que levava às salas do terceiro ano, o grupo de Ivan estava reunido. Hyuna segurava o celular, mostrando o vídeo para Till e Luka, enquanto Sua permanecia encostada na parede, observando a tela de soslaio.

— Caralho! — Till exclamou, passando a mão pelos cabelos cinzas bagunçados. — Ela quebrou o nariz da Maria! Eu achei que a Mizi era feita de papel, mas a garota é metal puro.

— Ela nem hesitou — comentou Luka, ajustando a postura, visivelmente impressionado. — O soco foi... limpo. Ela sabe o que está fazendo.

Ivan deu uma risada alta, encostando-se no armário com os braços cruzados. Seu sorriso insuportável estava mais largo do que nunca.

— Eu disse que ela era interessante. Ela tem fogo nos olhos agora. Antes era só... cinzas.

Sua não disse nada. Seus olhos roxos estavam fixos no vídeo, especificamente no momento em que Mizi sorriu após levar o soco. Havia algo naquela expressão que mexeu com Sua de uma forma que ela não conseguia explicar. Uma melancolia que se transformou em poder.

De repente, o som de passos e conversas baixas veio do final do corredor. Mizi e Vina estavam passando. Mizi ainda segurava o lenço no nariz, mas caminhava com a cabeça erguida. Vina vinha ao lado, com as mãos nos bolsos, parecendo a guarda-costas mais descolada do mundo.

Um garoto do time de basquete, conhecido por ser um dos "pegadores" da escola, bloqueou o caminho delas com um sorriso galanteador.

— Ei, Mizi! — o garoto chamou, tentando parecer charmoso. — Aquele soco foi lendário. O que você acha de a gente comemorar sua vitória depois da aula? Eu conheço um lugar legal.

Mizi nem teve tempo de responder. Vina deu um passo à frente, encarando o garoto com um olhar de tédio profundo.

— Esquece, bonitão — Vina disse, a voz arrastada. — Ela é lésbica. Você não faz o tipo dela nem se nascesse de novo.

O garoto piscou, confuso, enquanto o grupo de Ivan, que estava perto o suficiente para ouvir, entrou em um estado de choque silencioso.

— Ah... — o garoto gaguejou, perdendo a postura. — Então... você e ela... vocês namoram?

Mizi soltou uma risada clara, tirando o lenço do nariz por um momento para revelar o corte que ainda sangrava levemente.

— Não, idiota — Mizi respondeu, sua voz sarcástica cortando o ar. — A gente é só amiga. Mas a Vina está certa. Você está perdendo seu tempo e o meu oxigênio.

As duas continuaram andando, deixando o garoto plantado no meio do corredor.

No grupo dos cinco, o silêncio era denso. Till olhou para Ivan, que tinha a sobrancelha arqueada. Hyuna soltou um assobio baixo.

— Bom, isso explica por que ela nunca deu bola para nenhum dos caras que tentaram mexer com ela antes — disse Hyuna, rindo. — Ela tem bom gosto.

Luka apenas assentiu, ainda processando a informação. Mas foi Sua quem teve a reação mais visível, embora tentasse esconder.

Sua sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha. A palavra "lésbica" ecoou em sua mente como um sino. Ela olhou para Mizi, que agora estava mais longe, conversando animadamente com Vina. O coração de Sua, geralmente tão calmo e melancólico, deu um salto descompassado.

— Ela é... — Sua começou a dizer, mas sua voz falhou.

— O que foi, Sua? — Ivan perguntou, notando a palidez incomum da amiga. — Ficou surpresa?

— Não é isso — Sua respondeu rapidamente, voltando a abrir seu livro para esconder o rosto que começava a esquentar. — Só achei... inesperado.

— Inesperado? — Till bufou. — Inesperado é o nariz da Maria ter virado uma sanfona. O resto é só detalhe.

Mas para Sua, não era apenas um detalhe. Ela sentia os pensamentos a mil por hora. Por que ela estava se sentindo assim? Ela mal conhecia Mizi. Elas nunca haviam trocado uma palavra. Mizi era da sala B, a nerd que agora era a sensação da escola, e Sua era a garota pálida e quieta do grupo dos populares. Seus mundos não se cruzavam.

Ou, pelo menos, era o que ela pensava.

Enquanto o sinal batia para a próxima aula, Sua olhou mais uma vez na direção de Mizi. O "Confesse Anakt" já estava explodindo com a nova bomba: a garota mais comentada do momento não estava interessada em nenhum dos príncipes da escola.

Sua fechou o livro com força, sentindo uma inquietação que não sentia há anos. O mistério de Mizi, com seu cabelo rosa, olhos dourados e agora sua orientação revelada, parecia um enigma que Sua, subitamente, sentia uma vontade desesperada de decifrar.

***

Na sala da 3º B, Mizi sentou-se no fundo, ignorando os olhares curiosos. Ela pegou o celular e viu a notificação do fórum.

*"BOMBA: Mizi, a exterminadora de populares, é do time das garotas! Adeus, rapazes, a concorrência agora é outra!"*

Mizi revirou os olhos e guardou o aparelho.

— O povo não tem o que fazer mesmo — ela murmurou para Vina, que sentava na fileira ao lado.

— Deixa eles falarem — Vina respondeu, abrindo o caderno. — Pelo menos agora ninguém vai vir com cantada barata.

Mizi sorriu, mas sua mente vagou por um momento. Ela lembrou-se do grupo que estava no corredor. Ela tinha notado os olhares deles. Especialmente o da garota pálida de cabelos pretos e olhos roxos. Sua, se não se enganava. Havia algo no olhar de Sua que não era apenas curiosidade ou choque. Era algo mais profundo, algo que Mizi, em todo o seu sarcasmo, não conseguia identificar.

— Escola é uma merda — Mizi pensou, apoiando o rosto na mão e fechando os olhos para tentar tirar um cochilo antes do professor chegar. — Mas pelo menos agora, a merda é divertida.

O sangue em seu nariz já havia secado, mas a adrenalina da mudança ainda corria em suas veias. O Colégio Anakt nunca mais seria o mesmo para Mizi, e Mizi nunca mais seria a mesma para o colégio. E no canto da sala A, Sua tentava ler a mesma página de poesia pela décima vez, sem conseguir tirar da cabeça a imagem da garota de cabelos rosa que, com um soco e uma confissão, havia virado seu mundo de cabeça para baixo.

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