Nerd
O Jogo das Sombras Douradas
A manhã de quarta-feira no Colégio Anakt carregava um magnetismo estranho. O ar parecia mais espesso, carregado pelos rumores que se espalhavam como pólvora seca. Mizi caminhava pelo corredor principal com uma postura que oscilava entre o desleixo absoluto e uma elegância felina. Seus cabelos rosa e azul estavam soltos, ondulando suavemente a cada passo. Ela mantinha as mãos atrás das costas, os dedos longos entrelaçados e apertando-se uns contra os outros — um tique nervoso que pouca gente notaria, mas que traía a ansiedade que ainda fervilhava sob sua pele, apesar da fachada de confiança.
Ao seu lado, Vina mantinha as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, o chiclete estalando ritmicamente entre os dentes.
— Você viu a cara do diretor hoje? — Vina perguntou, rindo baixo. — Ele parecia querer te dar uma medalha e uma suspensão ao mesmo tempo por causa do nariz da Maria.
— Ele que tente — Mizi respondeu, soltando um bocejo sarcástico. — Minha avó já mandou avisar que, se alguém me tocar, o processo vem antes da ambulância. Eu só quero dormir, Vina. Essa fama toda é exaustiva.
— Ah, para de ser mentirosa. Você está adorando ver todo mundo abrindo caminho como se você fosse o Mar Vermelho.
Mizi deu um sorriso de lado, mas não teve tempo de responder. Distraída com a conversa e com o movimento constante dos próprios dedos atrás das costas, ela não percebeu a curva fechada perto dos armários do 3º ano A.
O impacto foi inevitável.
Mizi colidiu contra algo — ou melhor, alguém — consideravelmente menor, mas firme. O baque surdo fez com que a outra pessoa desse um passo atrás, quase perdendo o equilíbrio.
— Ei, olha por onde... — Mizi começou a dizer, o tom sarcástico já armado na ponta da língua.
Mas as palavras morreram quando ela viu quem era. Sua estava parada ali, segurando um livro de capa dura contra o peito, a franja reta levemente bagunçada pelo esbarrão. Seus olhos roxos, profundos e geralmente melancólicos, estavam arregalados, fixos em Mizi com uma mistura de susto e algo que parecia uma curiosidade paralisante.
O corredor, que estava barulhento, subitamente baixou o volume. O grupo dos cinco estava logo atrás de Sua: Till com a cara fechada, Hyuna com um sorriso divertido, Ivan observando tudo com aquele olhar predatório e Luka com a expressão analítica de sempre.
Mizi não recuou. Em vez disso, o brilho dourado em seus olhos se intensificou. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Sua. Um silêncio sepulcral dominou o ambiente. Mizi passou a língua pelos lábios de forma lenta, um gesto que pareceu durar uma eternidade, enquanto seus olhos desciam para a boca de Sua e voltavam para os seus olhos roxos.
— Desculpe — Mizi murmurou, sua voz descendo para um tom aveludado e perigoso.
Sem aviso, Mizi estendeu as mãos e as posicionou firmemente na cintura de Sua. O toque fez a garota pálida estremecer visivelmente, o livro quase escorregando de seus dedos. Mizi se inclinou, aproximando o rosto até que a ponta de seus narizes quase se tocassem. A respiração de Sua falhou, e suas bochechas, antes pálidas, foram tingidas por um vermelho escarlate que subiu até as orelhas.
O corredor inteiro prendeu o fôlego. Hyuna arregalou os olhos, Ivan inclinou a cabeça para o lado, fascinado, e Till soltou um "Que porra...?" baixinho. Parecia que, a qualquer segundo, Mizi iria selar o destino daquela manhã com um beijo que quebraria todas as hierarquias da escola.
Mas, a milímetros de distância, Mizi parou. O sorriso que surgiu em seu rosto foi puramente sarcástico, desprovido de qualquer romance, embora carregado de uma provocação cruel.
— Com licença — Mizi disse, a voz agora clara e fria. — Eu preciso passar.
Com um empurrão leve, mas firme, Mizi moveu Sua para o lado, abrindo caminho como se ela fosse apenas um obstáculo irritante no corredor. Ela continuou andando sem olhar para trás, com Vina soltando uma gargalhada alta logo atrás dela.
— Caralho, Mizi! — Vina exclamou, batendo no ombro da amiga enquanto se afastavam. — Você é um demônio. Você viu a cara dela? Ela quase teve um colapso!
Mizi não respondeu de imediato. Ela apenas continuou caminhando, sentindo a adrenalina diminuir, mas mantendo o sorriso de lado.
— Ela estava no caminho — Mizi disse, simplesmente. — E eu odeio obstáculos.
No corredor, o grupo dos cinco permanecia estático, observando as costas da garota de cabelo rosa sumirem na multidão. Sua ainda estava parada no mesmo lugar, as mãos tremendo levemente sobre o livro, o rosto queimando em uma vergonha que ela não conseguia processar.
— Puta que pariu, Sua! — Hyuna explodiu em uma risada, aproximando-se da amiga e cutucando seu ombro. — Ela brincou com a sua cara na frente de todo mundo! Eu achei que vocês iam se atracar ali mesmo!
— Que merda foi essa? — Till perguntou, franzindo a testa. — Ela só... empurrou você depois de fazer aquela cena toda? Que garota maluca.
Ivan soltou uma risada anasalada, cruzando os braços e olhando para o teto, parecendo se deliciar com o caos.
— Ela é um gênio — Ivan comentou, o sorriso insuportável de volta. — Ela destruiu a moral da Sua e saiu como se nada tivesse acontecido. Ela sabe exatamente o poder que tem agora.
Luka, no entanto, não estava rindo. Ele mantinha os olhos fixos na direção por onde Mizi tinha ido, sua expressão séria e pensativa.
— Vocês viram? — Luka perguntou, a voz baixa, atraindo a atenção do grupo.
— Vimos o quê, Luka? O show de humilhação? — Till resmungou.
— Não — Luka disse, ajustando os óculos. — Antes de ela se aproximar, ela lambeu os lábios. Eu li sobre isso. Em certos contextos comportamentais, é um sinal de preversidade, de alguém que sente prazer em desestabilizar o outro. Ela não estava pedindo desculpas. Ela estava marcando território. Ela sabia exatamente o que o gesto faria com a Sua.
Sua finalmente soltou um suspiro trêmulo, tentando recuperar a compostura, embora o vermelho em seu rosto não desse trégua.
— Ela é só... arrogante — Sua disse, sua voz saindo mais fraca do que ela pretendia. — Ela queria chamar atenção.
— E conseguiu, né, "Sua-chan"? — Hyuna provocou, passando o braço pelo pescoço da amiga. — Você parecia uma estátua de gelo derretendo no sol. Admite, aquela nerd tem pegada.
— Cala a boca, Hyuna! — Sua rebateu, tentando se soltar, mas sem agressividade real.
— O Luka tá certo — Ivan interveio, aproximando-se de Sua com um olhar zombeteiro. — Ela te usou de escada para mostrar para a escola inteira que ela não tem medo de nenhum de nós. Nem de você, que é a mais "intocável" do grupo.
— Eu não sou intocável — Sua murmurou, voltando a olhar para o chão.
— Agora não é mesmo — Till riu, dando um tapa nas costas de Luka. — Vamos logo pra sala. A gente já perdeu tempo demais vendo esse teatro.
Enquanto o grupo se movia, Sua ficou um passo atrás por um momento. Ela tocou a própria cintura, onde as mãos de Mizi estiveram apenas alguns segundos antes. O calor do toque parecia ainda estar ali, uma marca invisível que a queimava. Ela nunca tinha se sentido tão vulnerável e, ao mesmo tempo, tão... vista.
Mais adiante, Mizi e Vina entravam na sala da 3º B.
— Você viu a cara do grupo dos populares? — Vina perguntou, sentando-se na mesa e balançando as pernas. — O loirinho parecia que estava vendo um fantasma e a morena descolada quase aplaudiu.
— Eles são todos iguais, Vina — Mizi respondeu, jogando a mochila na cadeira. — Acham que o mundo gira em torno deles só porque são o "grupo legal". Eu só queria passar, e a garota de franja estava ocupando o corredor inteiro com aquela aura melancólica dela.
— Ah, qual é, Mizi. Você lambeu os lábios e pegou na cintura dela. Isso não foi "só querer passar". Isso foi terrorismo psicológico.
Mizi deu de ombros, um brilho de deboche nos olhos dourados.
— Talvez. Mas funcionou, não funcionou? Ela saiu da frente.
— Ela saiu da frente e entrou em choque — Vina riu. — Eu aposto dez pratas que ela vai sonhar com você hoje.
— Que ela sonhe, então — Mizi disse, bocejando e apoiando a cabeça na mesa. — Se ela tiver pesadelos, pelo menos vai aprender a não ficar parada no meio do caminho.
Mizi fechou os olhos, mas a imagem do rosto de Sua, tão perto do seu, com aqueles olhos roxos transbordando confusão, permaneceu em sua mente por mais tempo do que ela gostaria de admitir. Ela sentiu uma pontada de satisfação, não apenas pelo poder, mas por algo que ela não sabia nomear.
No corredor da sala A, o grupo continuava a zoar Sua.
— "Com licença, preciso passar" — Hyuna imitava a voz de Mizi de forma exagerada, fazendo Ivan gargalhar. — E a Sua lá, toda derretida, parecendo que ia desmaiar!
— Já chega, Hyuna! — Sua exclamou, finalmente entrando na sala e sentando-se em seu lugar habitual, escondendo-se atrás do livro de poesias.
Mas as palavras no papel não faziam sentido. Tudo o que ela conseguia ver eram as pontas azuis do cabelo de Mizi e o brilho dourado de um olhar que, pela primeira vez na vida de Sua, a fizera sentir que ela não era a pessoa mais triste daquela escola. Havia algo em Mizi que era mais escuro, mais afiado e, de alguma forma, terrivelmente atraente.
— Preversa... — Sua sussurrou para si mesma, lembrando-se da palavra de Luka.
Ela olhou pela janela, observando o pátio vazio. O jogo no Colégio Anakt havia mudado. As peças não estavam mais onde deveriam estar, e Mizi, a nerd invisível que todos ignoravam, tinha acabado de derrubar o rei sem nem precisar de um xeque-mate. E Sua, pela primeira vez, não queria apenas ler sobre o drama dos outros; ela queria entender por que seu coração ainda batia tão rápido por causa de um esbarrão e um sorriso de escárnio.