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Neve do amor

Velocidade, Neve e o Peso dos Olhares

O despertador das 05:00 da manhã parecia tocar com uma melodia diferente naquela quarta-feira. Talvez fosse a expectativa para a viagem a Valle Nevado, ou talvez fosse a lembrança persistente do toque de Matias em seu braço na noite anterior. Giovanna saltou da cama com a agilidade de quem estava acostumada a não perder tempo. O apartamento estava silencioso, mas o aquecimento central mantinha o ambiente acolhedor contra os -1°C que faziam lá fora.

Gi seguiu para o banheiro e começou sua rotina. Lavou o rosto com seu gel de limpeza francês, aplicou o sérum e prendeu o cabelo em um coque firme. No closet, escolheu um conjunto de academia da Lululemon em tom cinza-chumbo: uma calça legging que realçava suas pernas torneadas pelo hipismo e um top cruzado nas costas. Por cima, um moletom oversized branco, seu estilo favorito, inspirado na estética despojada e chic de Alexandra Leclerc.

Na cozinha, o ritual de sempre. O whey de doce de leite com morangos batidos era o combustível necessário. Enquanto bebia, ela abriu o Instagram. Sua última postagem da neve caindo já passava das 200 mil curtidas. Ela sorriu ao ver um comentário de Kimi Antonelli: *"Too much snow for a Brazilian girl, isn't it? See you in Monza?"* (Muita neve para uma brasileira, não é? Te vejo em Monza?). Gi respondeu rapidamente em inglês: *"You know I handle the cold better than you handle a kart, Kimi! See you soon!"* (Você sabe que eu lido com o frio melhor do que você lida com um kart, Kimi! Vejo você em breve!).

Ela desceu para a academia do prédio, que era completa e tecnológica. Gi focou em um treino de cardio intenso e membros superiores. Entre uma série e outra de remada baixa, ela se filmou no espelho para o vlog semanal.

— Bom dia, pessoal. Quarta-feira, o frio aqui em Santiago está de matar, mas o treino não para. Hoje o foco é resistência, porque o fim de semana nas montanhas vai exigir muito — disse ela para a câmera, limpando o suor da testa com uma toalha.

De volta ao apartamento, o banho foi rápido. Ela precisava estar no escritório de advocacia para uma reunião importante sobre um caso de direito internacional. Trocou a roupa de academia por uma calça de couro preta de corte reto, uma camisa de seda branca e um scarpin clássico. Os cabelos castanhos foram soltos, caindo lisos e brilhantes até a cintura. Antes de sair, passou seu perfume favorito, um aroma de baunilha e madeira que deixava rastro.

No caminho para o trabalho em seu Volvo XC60, ela passou por uma cafeteria e pegou um "flat white" e um bowl de frutas para comer na faculdade mais tarde. O trânsito de Santiago estava calmo. No escritório, Gi era a estagiária que todos respeitavam. Ela não era apenas "a filha do Kaká"; ela era a garota que falava cinco idiomas e entregava petições impecáveis.

— Giovanna, você poderia revisar estes termos em italiano para o contrato da consultoria de Milão? — pediu o Dr. Ricardo, sócio sênior.

— *Certamente, dottore. Lo farò subito* — respondeu ela com um sorriso, já mergulhando nos documentos. (Certamente, doutor. Farei isso agora).

Às 16:00, ela saiu do escritório, trocou o scarpin por um tênis de corrida no carro e seguiu para o Parque Bicentenario. Era dia de corrida livre. O ar gelado entrava em seus pulmões, dando-lhe uma sensação de liberdade que só o esporte proporcionava. Ela correu 8km em um ritmo forte, sentindo cada músculo trabalhar. O corpo de Gi era o resultado dessa dedicação; ela amava ser forte e funcional.

Enquanto caminhava de volta para o carro, seu celular tocou. Era uma chamada de vídeo de sua irmã mais nova, de 7 anos.

— Gi! Você vai ver a corrida de domingo? O papai disse que o Lando vai ganhar! — a voz animada da pequena ecoou.

— Oi, meu amor! Claro que vou ver. Vou assistir com meus amigos aqui no Chile. Manda um beijo para a mamãe e para a maninha mais velha, tá? Amo vocês!

Ao desligar, Gi viu Matias encostado na BMW X6 branca, estacionada a duas vagas da dela. Ele estava com roupas de jiu-jítsu, provavelmente saindo do treino.

— Você corre como se estivesse fugindo de algo — comentou ele, cruzando os braços musculosos.

Gi parou, recuperando o fôlego, e sorriu de lado.

— Ou talvez eu esteja correndo em direção a algo, Matias. Já pensou nisso?

Ele se aproximou, o olhar verde fixo nela. O suor da corrida fazia a pele de Gi brilhar sob a luz do entardecer chileno.

— Você é sempre tão enigmática, Giovanna. O grupo está combinando de ir ao shopping agora comprar mantimentos para a viagem. Você vem?

— Vou sim. Só preciso passar em casa para um banho rápido. Nos encontramos lá em trinta minutos?

— Eu te sigo — disse ele, de forma protetora. — O trânsito está ficando pesado.

O encontro no shopping "Costanera Center" foi o caos divertido de sempre. Bruna, Jade, Charlotte, Maria Luiza, Arthur, Pedro, Henrique e João já estavam lá, enchendo carrinhos com chocolates, vinhos, queijos e carnes para o churrasco que fariam na montanha.

— Gi, olha esse casaco de esqui na vitrine! É a sua cara! — exclamou Jade, puxando-a para uma loja de grife.

Gi olhou o casaco, um modelo térmico ajustado com detalhes em pele sintética. Era caro, cerca de 800 mil pesos chilenos (aproximadamente 4.500 reais), mas ela amava investir em peças de qualidade que durassem anos.

— É lindo, Jade. Vou levar. Preciso de algo novo para as fotos que prometi postar — riu Gi, sendo prática.

Enquanto as meninas olhavam roupas, os meninos estavam na seção de esportes discutindo sobre as melhores ceras para as pranchas de snowboard. Matias, no entanto, estava sempre com um olho em Gi. Ele percebeu quando um rapaz se aproximou dela para pedir uma foto.

— Você é a filha do Kaká, não é? Sou muito fã dele e sigo você no Instagram! — disse o rapaz, animado.

Gi, com sua educação impecável, sorriu e posou para a foto.

— Sou sim, muito obrigada pelo carinho! — respondeu ela com simplicidade.

Matias se aproximou logo depois que o rapaz saiu.

— Você lida muito bem com isso — observou ele.

— Eu cresci vendo meu pai fazer isso com um sorriso no rosto, mesmo quando estava cansado. Aprendi que ser gentil não custa nada, Matias.

— É uma qualidade rara no nosso meio — disse ele, e por um momento, a barreira entre eles pareceu diminuir. — As pessoas costumam deixar o dinheiro subir à cabeça.

— Dinheiro é só uma ferramenta, não define quem somos — Gi respondeu, olhando-o nos olhos. — Meu pai sempre diz que o caráter vem antes do sobrenome.

Matias assentiu, parecendo impressionado.

— Vamos? O pessoal já está indo para o caixa.

Após as compras, o grupo decidiu jantar no apartamento da Gi. Ela se ofereceu para cozinhar. Enquanto os amigos se espalhavam pela sala moderna, Gi colocou um avental e começou a preparar um risoto de cogumelos trufados.

— Precisa de ajuda, chef? — perguntou Arthur, tentando roubar um pedaço de queijo.

— Sai daí, Arthur! Vai escolher um vinho com o Pedro — brincou ela, empurrando-o levemente.

Matias apareceu na cozinha logo em seguida. Ele não perguntou se ela precisava de ajuda; ele simplesmente começou a cortar os temperos com uma precisão impressionante.

— Você também cozinha? — perguntou Gi, surpresa.

— Morei um tempo na Itália para treinar jiu-jítsu. Ou aprendia a cozinhar, ou morria de fome — ele respondeu com um meio sorriso.

Trabalhar lado a lado na cozinha pequena era um desafio de espaço. Em vários momentos, seus ombros se esbarravam. O perfume de Gi se misturava ao aroma do risoto.

— O pessoal está comentando sobre nós — sussurrou Matias, inclinando-se para perto do ouvido dela enquanto mexia uma panela.

— Sobre o quê, exatamente? — Gi tentou manter a voz firme, embora seu coração tivesse acelerado.

— Que a gente finalmente parou de se ignorar.

— Eu nunca te ignorei, Matias. Você que é silencioso demais.

— Eu sou um observador, Giovanna. E o que eu vi hoje no parque, no shopping e agora aqui... eu gosto do que vejo.

Gi sentiu o rosto esquentar. Ela não era uma menina fácil de ser intimidada, mas Matias tinha uma intensidade que a desarmava.

— Foco no risoto, Matias. O pessoal está com fome — desconversou ela, embora estivesse sorrindo por dentro.

O jantar foi um sucesso. O risoto estava impecável, e para a sobremesa, Gi serviu um petit gâteau de doce de leite que fez todos suspirarem.

— Gi, casa comigo? — brincou João, limpando o canto da boca. — Esse doce é de outro mundo!

— Tira o olho, João! A Gi é muita areia pro teu caminhãozinho — retrucou Bruna, rindo.

Matias permaneceu em silêncio, mas seus olhos verdes não saíam de Gi.

Quando todos foram embora, já passava da meia-noite. Gi ajudou a arrumar a cozinha, sentindo o cansaço bom do dia produtivo. Antes de dormir, ela checou as notificações. Tinha postado uma foto nos stories da mesa de jantar com a legenda: *"Cozinhando para a família chilena 🇮🇹🇧🇷🇨🇱"*.

Havia uma mensagem direta de Matias.

*Matias: "O risoto estava bom, mas a companhia foi melhor. Boa noite, Gi."*

Ela sentiu um frio na barriga. Respondeu apenas com um emoji de lua e guardou o celular.

Na quinta-feira, a rotina seguiu o roteiro: academia às 05:00, faculdade, e à tarde, a aula de hipismo. Montar seu cavalo, "Trovão", era o momento em que ela desconectava de tudo. Ela saltou obstáculos de 1,20m com perfeição, sentindo a adrenalina correr pelas veias. Gi era corajosa; quanto mais alto o obstáculo, mais ela queria saltar.

Depois do haras, ela teve sua aula de italiano. Estava ficando fluente, conseguindo manter conversas complexas. À noite, ela começou a arrumar a mala para Valle Nevado. Escolheu suas melhores roupas térmicas, conjuntos de academia para os treinos matinais na montanha e, claro, seu novo casaco de esqui.

Na sexta-feira, o clima de ansiedade tomou conta do grupo. O estágio terminou mais cedo para Gi, que correu para casa para organizar o Volvo. Às 19:00, os dois carros estavam estacionados em frente ao prédio dela: o Volvo XC60 preto e a BMW X6 branca.

— Tudo pronto? — perguntou Pedro, animado, ajustando os óculos de neve.

— Prontíssima! O brownie está no carro, os equipamentos também — disse Gi, vestindo uma calça legging térmica e um casaco de lã batida marrom.

— Eu vou na frente com o Matias para ajudar com o GPS — disse Arthur.

— Eu vou com a Gi! — gritou Bruna. — Quero ir ouvindo a playlist de Fórmula 1 dela!

A subida para a montanha foi uma aventura à parte. As curvas sinuosas da estrada para Valle Nevado eram perigosas, cobertas de gelo, mas Gi dirigia com a confiança de quem já tinha enfrentado estradas na Europa. Pelo retrovisor, ela via os faróis da BMW de Matias logo atrás.

Ao chegarem na casa alugada — uma mansão de madeira e pedra com vista para as pistas de esqui —, o frio era intenso, cerca de -8°C. A neve caía pesada.

— Uau! Olha o tamanho dessa lareira! — exclamou Charlotte enquanto entravam com as malas.

A divisão dos quartos foi o caos de sempre, mas logo todos estavam acomodados. Gi ficou em um quarto com vista para o vale. Ela abriu a janela por um segundo, sentindo os flocos de neve atingirem seu rosto.

— É lindo, não é? — a voz de Matias veio da varanda ao lado, que era conectada à dela.

Ele estava apenas de camiseta, apesar do frio, segurando uma caneca de café.

— É mágico — respondeu Gi. — Eu nunca me canso dessa vista.

— Amanhã vamos descer a pista preta? — desafiou ele.

A pista preta era a mais difícil, apenas para especialistas.

— Você acha que eu tenho medo, Matias? — Gi sorriu, desafiadora. — Esteja pronto às 08:00. Eu não gosto de esperar.

— Estarei lá.

Gi fechou a porta da varanda e deitou-se. O fim de semana estava apenas começando, e entre as descidas na neve e o calor da lareira, ela sentia que algo importante estava prestes a acontecer. Ela era Giovanna, a garota que amava desafios, e Matias era, sem dúvida, o desafio mais interessante que ela já tinha encontrado.

Antes de apagar a luz, ela postou uma foto da sua bota de neve contra o tapete de pele da casa: *"Mountains calling... 🏔️❄️"*.

Os comentários começaram a pipocar. *@Jade_Real: "Amanhã o bicho vai pegar!"* *@LandoNorris: "Don't break a leg, Gi! I need you in one piece for the next race!"* (Não quebre uma perna, Gi! Preciso de você inteira para a próxima corrida!)

Gi sorriu, fechou os olhos e deixou o som do vento lá fora embalar seu sono. Amanhã seria um dia de velocidade, adrenalina e, quem sabe, de quebrar o silêncio de vez.