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Neve do amor

Adrenalina Branca e o Calor da Lareira

O sol ainda não tinha surgido atrás dos picos nevados da Cordilheira quando Giovanna despertou. O silêncio da montanha era absoluto, interrompido apenas pelo estalo ocasional da madeira da casa se ajustando ao frio extremo de -12°C. Gi saltou da cama com a energia de quem vivia para aqueles momentos. Ela vestiu sua primeira camada térmica de lã merino, seguida por uma calça de esqui preta de corte impecável e ajustado, que realçava suas pernas longas e fortes. Por cima, o casaco novo que comprara no shopping, um modelo off-white com detalhes em grafite que a deixava com um ar de "rainha do gelo".

Ela prendeu o cabelo em uma trança embutida bem firme, para que nenhum fio atrapalhasse sua visão sob o capacete, e desceu para a cozinha. Para sua surpresa, Matias já estava lá. Ele usava um conjunto de neve todo preto, o que realçava ainda mais seus olhos verdes e a pele clara. Ele estava concentrado, encerando sua prancha de snowboard sobre a ilha de mármore da cozinha.

— Pensei que eu seria a primeira — disse Gi, pegando sua coqueteleira para preparar o whey de doce de leite.

— Eu não durmo muito quando sei que vou enfrentar uma pista preta — Matias respondeu sem desviar os olhos do trabalho. — Especialmente quando tenho uma competidora à altura.

— Competidora? — Gi riu, bebendo seu shake. — Achei que você fosse apenas o meu guia para garantir que eu não me perdesse na neblina.

— Você sabe muito bem que não precisa de guia, Giovanna. Você é mais independente do que metade dos homens que eu conheço — ele finalmente olhou para ela, um olhar de admiração genuína que a fez desviar o rosto por um segundo.

— Vamos logo. O primeiro teleférico abre em quinze minutos — cortou ela, pegando suas luvas e os esquis.

A subida no teleférico foi feita em um silêncio confortável. Eles observavam a vastidão branca lá embaixo. Quando chegaram ao topo da pista "La Chimenea", uma das mais desafiadoras de Valle Nevado, o vento soprava forte, carregando cristais de gelo.

— No três? — perguntou Matias, ajustando os óculos.

— No um — respondeu Gi, e antes que ele pudesse reagir, ela se impulsionou montanha abaixo.

A descida foi pura adrenalina. Gi esquiava com uma técnica refinada, o corpo inclinado perfeitamente nas curvas, os esquis cortando a neve compactada com um som rítmico. Ela sentia a velocidade queimar em seu rosto, a mesma sensação de liberdade que sentia quando galopava com Trovão ou quando assistia aos carros de Fórmula 1 rasgarem as pistas. Matias estava logo atrás, fazendo manobras agressivas no snowboard, mantendo o ritmo dela. No final da descida, ambos pararam em uma nuvem de neve pulverizada, ofegantes e rindo.

— Você é louca! — exclamou Matias, limpando a neve dos ombros. — Você quase me fechou naquela última curva.

— O nome disso é estratégia, Matias. Aprendi assistindo ao Lando e ao Kimi — ela piscou para ele, pegando o celular para registrar o momento.

Gi tirou uma selfie dos dois: ela com as bochechas coradas pelo frio e o sorriso radiante, e ele ao fundo, com uma expressão de quem estava se divertindo mais do que gostaria de admitir. Ela postou nos stories com a legenda: *"Sobrevivemos à primeira descida. Alguém avisa ao @LandoNorris que eu ganhei?"*.

Não demorou dois minutos para o celular vibrar. *@LandoNorris: "She's cheating, Matias! Don't trust her braking points!"* (Ela está trapaceando, Matias! Não confie nos pontos de frenagem dela!)

Matias leu por cima do ombro dela e soltou uma gargalhada curta e rouca.

— Pelo menos o seu amigo piloto me avisou a tempo. Vamos, o resto do grupo deve estar acordando agora.

O restante da manhã foi um caos maravilhoso. Bruna, Jade, Charlotte, Maria Luiza, Arthur, Pedro, Henrique e João se juntaram a eles. O grupo era uma explosão de cores e risadas nas pistas. Arthur e Pedro tentavam fazer manobras e acabavam enterrados na neve, para o deleite das meninas que gravavam tudo para o TikTok. Jade e Charlotte preferiam as pistas mais leves, parando a cada dez minutos para tirar fotos que pareciam saídas de uma revista de moda de inverno.

— Gi, faz um vídeo meu descendo? — pediu Maria Luiza. — Quero mostrar para o meu namorado que eu não sou tão lenta assim.

— Claro, Ma! Vai lá, eu te sigo com a câmera — disse Gi, demonstrando sua habilidade de esquiar e filmar ao mesmo tempo, mantendo a estabilidade perfeita.

Por volta das 14:00, a fome apertou. Eles se reuniram em um restaurante de montanha que servia fondue e carnes grelhadas. A mesa era longa, cheia de vinhos caros e risadas altas.

— Gente, a Gi e o Matias sumiram hoje cedo — comentou Henrique, servindo-se de uma taça de Malbec. — O que vocês estavam aprontando naquelas pistas pretas?

— Apenas garantindo que o nível do grupo não caísse — respondeu Matias, sentando-se propositalmente ao lado de Gi.

— Sei... — Bruna deu um sorriso malicioso. — O nível ou a tensão? Porque dá para sentir o clima daqui, amigos.

Gi sentiu o rosto esquentar, mas manteve a postura.

— A única tensão aqui é a das minhas pernas depois daquele slalom, Bruna. Não inventa.

— Ela é difícil, Bruna. Você sabe disso — disse Matias, com uma voz baixa que só Gi e os mais próximos ouviram.

Após o almoço, o tempo começou a virar. Uma nevasca mais forte se aproximava, e os patrulheiros da montanha sugeriram que todos voltassem para suas acomodações. O grupo retornou para a mansão, onde o clima de festa continuou, mas agora em um ambiente mais íntimo.

Gi decidiu que era hora de cumprir sua promessa. Ela foi para a cozinha e começou a preparar os famosos brownies de chocolate belga com flor de sal. O cheiro de chocolate derretido logo invadiu a casa, atraindo todos como imãs.

— Se esse brownie for metade do que o cheiro promete, eu me mudo para o Chile definitivamente — disse João, deitado no tapete em frente à lareira.

— Pode ir preparando as malas, João — disse Gi, retirando a assadeira do forno. — Porque ele está perfeito.

Enquanto o brownie esfriava, Gi subiu para tomar um banho demorado. Ela usou seus sais de banho favoritos e hidratou a pele com um creme de castanha que trouxera do Brasil. Vestiu um conjunto de loungewear de cashmere cinza, meias de lã grossas e deixou os cabelos soltos, apenas secos naturalmente. Ela se sentia revigorada.

Quando desceu, a cena na sala era acolhedora. A lareira estalava, garrafas de vinho estavam abertas e o grupo jogava um jogo de tabuleiro barulhento. Matias estava sentado em uma poltrona de couro, lendo algo no tablet, mas levantou o olhar assim que ela entrou.

— O brownie está pronto? — perguntou ele.

— Está. Vou servir.

Eles se encontraram na cozinha. Gi cortava os quadrados perfeitos, e Matias pegava os pratos.

— Você é muito boa nisso — ele comentou, observando-a. — Na advocacia, nos esportes, na cozinha... Existe algo que você faça mal, Giovanna?

— Eu sou péssima em perder — ela confessou, entregando um prato a ele. — E sou péssima em demonstrar quando algo me afeta.

Matias deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O calor da cozinha e o cheiro do chocolate criavam uma atmosfera densa.

— E o que te afeta agora? — ele perguntou, a voz caindo para um tom quase inaudível.

Gi olhou para os olhos verdes dele, sentindo aquela conexão magnética que tentava ignorar desde que chegara a Santiago.

— A forma como você me olha — ela respondeu com honestidade, sem desviar o olhar. — É como se você estivesse sempre tentando ler meus próximos pensamentos.

— Eu não preciso ler seus pensamentos para saber que você é a pessoa mais fascinante que eu já conheci, Gi. E eu já conheci muita gente.

Ele estendeu a mão e tocou uma mecha do cabelo dela, colocando-a atrás da orelha. O toque foi leve, mas carregado de eletricidade.

— Ei! Onde estão esses brownies? — a voz de Arthur vindo do corredor quebrou o momento.

Matias se afastou lentamente, dando um meio sorriso.

— Salva pelo gongo, Giovanna. Mas a noite ainda não acabou.

O resto da noite foi repleto de risadas e histórias. Eles comeram o brownie — que foi aclamado como o melhor do mundo — e depois começaram uma sessão de karaokê improvisada que fez até os vizinhos da montanha rirem. Gi cantou músicas brasileiras, fazendo todos tentarem acompanhar o ritmo, e Matias surpreendeu a todos cantando uma balada italiana com uma voz afinada e profunda.

Por volta das 02:00 da manhã, o cansaço finalmente venceu o grupo. Um a um, eles foram se retirando para seus quartos. Gi ficou por último, apagando as luzes da sala e verificando se a lareira estava segura.

Quando ela subiu para o seu quarto e saiu na varanda para olhar a neve uma última vez, encontrou Matias lá, encostado no parapeito da varanda dele.

— Ainda acordada? — perguntou ele.

— Só aproveitando o silêncio. Amanhã temos que acordar cedo para o hipismo na neve, lembra?

— Eu lembro. Gi... — ele hesitou por um segundo. — Obrigado por ter vindo para o Chile. Acho que a faculdade de Direito teria sido muito chata sem você.

— Boa noite, Matias — ela disse, sorrindo.

— Boa noite, Gi.

Ela entrou, fechou a porta de vidro e deitou-se. Antes de mergulhar no sono, pegou o celular para uma última postagem. Uma foto da lareira acesa com os pés do grupo ao redor.

*Legenda: "Família é onde o coração se sente em casa. Mesmo a -15°C. ❄️❤️"*

Minutos depois, as notificações brilharam. *@Kaka: "Que foto linda, Gi! Aproveitem cada segundo. Saudade!"* *@Matias_V: "O melhor lugar do mundo é aqui."*

Gi fechou os olhos com um sorriso nos lábios. Ela era a filha de um dos maiores jogadores do mundo, tinha uma vida de privilégios, mas ali, naquela casa de montanha, cercada por amigos que a amavam pelo que ela era, e com a promessa de um romance que acelerava seu coração mais do que qualquer pista preta, ela se sentia apenas Giovanna. E isso era mais do que suficiente.

O amanhã traria mais neve, mais velocidade e, com certeza, mais descobertas sobre o homem de olhos verdes que morava na porta ao lado. Mas, por agora, o silêncio da Cordilheira era a trilha sonora perfeita para seus sonhos. Ela adormeceu sentindo que o Chile não era apenas um lugar para estudar, era o lugar onde sua verdadeira história estava começando a ser escrita, capítulo por capítulo, com a coragem de quem não tinha medo de saltar, fosse de um obstáculo no haras ou em direção ao desconhecido de um novo amor.