Neve do amor
Ouro, Grama e o Calor de São Paulo
O sol de São Paulo era um contraste gritante com o cinza gélido de Santiago que Giovanna aprendera a chamar de lar no último ano. A mansão da família, no coração de um condomínio de luxo em Alphaville, exalava o perfume de grama cortada e o aroma inconfundível do churrasco brasileiro que o pai, Kaká, fazia questão de preparar sempre que as filhas estavam em casa. Gi respirou fundo, sentindo o calor da tarde de sábado na pele, um sentimento de pertencimento que só o Brasil proporcionava.
Ao seu lado, Matias parecia uma estátua de mármore esculpida, embora seus olhos verdes estivessem inquietos enquanto observava a imensidão da propriedade. Ele usava uma camisa de linho branca leve e calças de sarja bege, um estilo que Gi ajudara a escolher para enfrentar o calor de 28 graus. No pulso, o relógio que ela lhe dera de presente de um ano de namoro brilhava sob o sol.
— Respira, Mati — sussurrou Gi, entrelaçando seus dedos nos dele. — Meu pai já te adora pelo FaceTime, pessoalmente ele é ainda mais tranquilo. Só não mencione que você prefere o Messi ao Cristiano Ronaldo se o assunto for futebol clássico, apenas por segurança.
Matias soltou uma risada curta, apertando a mão dela.
— Eu sou um lutador de jiu-jítsu, Gi. Enfrento caras de cem quilos no tatame sem piscar, mas conhecer o maior ídolo do futebol brasileiro na casa dele... isso exige um preparo psicológico diferente.
— Você é o homem que me conquistou no meio de uma nevasca em Valle Nevado — disse ela, parando em frente à grande porta de madeira e olhando-o com adoração. — Um churrasco em família é fichinha.
A porta se abriu antes que Gi pudesse tocar a campainha. Suas irmãs, a mais velha e a pequena de 7 anos, correram para abraçá-la. O reencontro foi uma explosão de risos e gritos em português. Logo atrás, Kaká apareceu, com o sorriso que o mundo inteiro conhecia, mas que para Gi significava apenas "porto seguro".
— Seja bem-vindo à nossa casa, Matias — disse o pai de Gi, estendendo a mão com firmeza e depois puxando o rapaz para um abraço tipicamente brasileiro. — A Gi não fala de outra coisa há um ano. Finalmente vou conhecer o responsável por ela estar estudando italiano com tanto afinco.
— É uma honra, senhor — respondeu Matias, recuperando a postura educada e reservada que era sua marca registrada. — A Giovanna é a luz da nossa faculdade no Chile, eu apenas tive a sorte de ser quem ela escolheu para caminhar ao lado.
Gi sorriu, sentindo o peito inflar de orgulho. O resto da tarde foi um borrão de felicidade. Eles almoçaram na área externa, perto da piscina de borda infinita. Matias se integrou rapidamente, conversando com o pai de Gi sobre esportes e investimentos, enquanto Gi brincava com as irmãs e ajudava a mãe com as sobremesas. Ela era uma anfitriã impecável, mas seus olhos nunca perdiam Matias de vista. Ela via como ele era atencioso, como ouvia cada palavra do seu pai com respeito e como, secretamente, procurava o olhar dela a cada cinco minutos para garantir que estava tudo bem.
No final da tarde, quando o sol começou a baixar, Gi decidiu que era hora de mostrar a Matias o seu lugar favorito na casa: a academia particular e o tatame que o pai mantinha para manter a forma.
— Você prometeu, lembra? — disse ela, já vestida com um conjunto de academia da Alo Yoga em tom de lavanda, o cabelo preso em uma trança firme. — Um ano de namoro e você ainda não me ensinou os fundamentos básicos do jiu-jítsu.
Matias, que havia trocado a roupa social por uma bermuda de compressão e uma camiseta dry-fit preta, sorriu de lado, aquele sorriso que ainda fazia as pernas de Gi tremerem.
— Você tem certeza, Gi? Eu não vou pegar leve só porque estamos na casa do seu pai. No tatame, eu sou o professor.
— Eu não espero menos de você, Matias — ela o desafiou, subindo no tatame azul.
Eles começaram com um aquecimento. Matias era metódico. Ele explicava cada movimento com uma paciência que Gi achava fascinante. Ele a ensinou a se posicionar, a manter o centro de gravidade baixo e a usar a força do oponente contra ele mesmo.
— O jiu-jítsu é como o Direito, Gi — explicou ele, aproximando-se para ajustar a posição dos braços dela. — É sobre estratégia, alavanca e paciência. Você não precisa ser a mais forte, precisa ser a mais inteligente.
Ele se posicionou atrás dela para demonstrar um estrangulamento básico de defesa pessoal. O calor do corpo dele contra as costas dela, a firmeza de suas mãos guiando as dela, criou uma atmosfera que misturava foco e uma tensão romântica inegável.
— Aqui, você trava o braço — ele sussurrou perto do ouvido dela. — E usa o quadril para sair. Tenta.
Gi seguiu as instruções, e em um movimento rápido e funcional, conseguiu se desvencilhar, derrubando Matias (que claramente facilitou a queda) e caindo por cima dele. Eles riram, ambos ofegantes. Matias a segurou pela cintura, mantendo-a ali, sentada sobre ele no tatame.
— Você aprende rápido demais — disse ele, os olhos verdes brilhando com uma intensidade que transbordava amor. — Às vezes eu esqueço que você fala cinco línguas e monta cavalos de meia tonelada. Você é perigosa, Giovanna.
— Eu só sou perigosa porque tenho o melhor professor — ela respondeu, inclinando-se para beijá-lo.
O beijo foi profundo, calmo, selando o compromisso que haviam firmado um ano atrás. Ali, no silêncio da academia, longe das câmeras e das expectativas do mundo, eles eram apenas dois jovens apaixonados.
— Eu sou louco por você, sabia? — confessou Matias, acariciando o rosto dela com o polegar. — Às vezes, em Santiago, eu fico te observando na biblioteca da faculdade e me pergunto como tive tanta sorte. Você é a mulher mais incrível que já conheci, Gi. Simples, humilde, mas com uma força que me assusta e me encanta ao mesmo tempo.
— Nós somos um time, Mati — ela respondeu, deitando a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas aceleradas do seu coração. — Eu não trocaria nossa rotina no Chile, nossas viagens e até nossas discussões sobre leis por nada no mundo.
Mais tarde, Gi decidiu postar um carrossel de fotos para celebrar o aniversário de namoro. Ela escolheu a dedo as imagens que mostravam a essência do que eles eram.
*Descrição do post no Instagram de @Gi_Leite:* *Foto 1: Gi e Matias no tatame da mansão em SP, rindo, com Gi sentada sobre ele.* *Foto 2: Uma foto analógica deles em Valle Nevado, cobertos de neve, um ano atrás.* *Foto 3: Matias conversando com Kaká na beira da piscina, ambos sorrindo.* *Foto 4: Um vídeo curto de Gi fazendo o brownie favorito de Matias na cozinha do apartamento em Santiago.* *Foto 5: Eles dois arrumados para o jantar de aniversário, Gi em um vestido de seda esmeralda e Matias de terno.*
*Legenda: "Um ano de aventuras, aprendizados e muito amor. Do frio dos Andes ao calor de São Paulo, você é a minha melhor escolha. Feliz um ano, meu amor. ❤️🇧🇷🇨🇱 @Matias_V"*
Os comentários não demoraram a surgir:
*@LandoNorris: "Look at you two being all cute. I'm still the best third wheel you guys ever had! Happy anniversary!"* (Olhem só vocês dois sendo fofos. Eu ainda sou a melhor 'vela' que vocês já tiveram! Feliz aniversário!)
*@Kaka: "Lindos! É um prazer ter você na família, Matias. Mas lembre-se: eu vi o treino de jiu-jítsu da varanda, estou de olho! 😂"*
*@Jade_Real: "O casal que a gente respeita! Que venham muitos anos mais!"*
*@User88: "Imagina ser a Gi, rica, linda, inteligente e ainda namorar esse homem? O mundo é injusto!"*
À noite, a família se reuniu na sala de cinema para assistir a um GP de Fórmula 1 que estava acontecendo no fuso horário da Ásia. Gi sentou-se no chão, entre as pernas de Matias, enquanto ele fazia massagem em seus ombros.
— Olha o Lando! Ele está em P2! — gritou a irmã mais nova de Gi, apontando para a tela.
— Ele vai tentar a ultrapassagem na curva 4, quer apostar? — disse Gi, animada, pegando o celular para mandar uma mensagem de incentivo no grupo que tinha com o piloto e Kimi Antonelli.
— Eu não aposto contra você em nada que envolva velocidade, Gi — riu Matias, beijando o topo da cabeça dela. — Você tem o DNA de corrida nas veias.
O clima era de total harmonia. Matias sentia-se em casa, algo que ele não esperava que acontecesse tão rápido dada a magnitude da família de Giovanna. Mas era exatamente como ela dissera: eles eram simples. A riqueza estava nos detalhes, nas piadas internas, no carinho com que se tratavam.
No dia seguinte, antes de voltarem para Santiago para retomar a faculdade e o estágio, Gi e Matias tiveram um momento a sós na varanda do quarto dela. O sol estava nascendo, pintando o céu de São Paulo com tons de rosa e laranja.
— Você gostou de conhecer meu mundo aqui? — perguntou ela, encostada no parapeito.
— Eu gostei de ver que o seu "mundo" é exatamente como você: cheio de luz e verdade — respondeu ele, abraçando-a por trás. — Mas confesso que estou ansioso para voltar para o nosso Chile. Quero ver você correndo na rua no frio de 2 graus, quero te levar para jantar naquele lugar novo que abriu em Lastarria e quero continuar sendo o cara que acorda às 5 da manhã só para te ver treinar.
— Nós vamos, Mati. Temos muito o que construir ainda. O Direito é só o começo.
— Eu te seguiria para qualquer lugar, Giovanna. Seja para uma pista preta na neve ou para um tribunal em Haia. Desde que seja com você.
Gi virou-se nos braços dele, sentindo-se a mulher mais sortuda do mundo. Ela tinha a disciplina herdada do pai, a elegância natural de sua mãe e, agora, o amor incondicional de um homem que a via por inteiro.
— Feliz um ano, Matias — sussurrou ela.
— Feliz um ano, minha Gi.
Eles ficaram ali, observando o despertar da metrópole, sabendo que em poucas horas estariam atravessando os Andes de volta à sua rotina funcional, prática e intensamente apaixonada. A vida de Giovanna era um equilíbrio perfeito entre o privilégio e o propósito, e com Matias ao seu lado, ela sentia que não havia obstáculo, no hipismo ou na vida, que ela não pudesse saltar.
Ao embarcarem no jato particular para o retorno, Gi abriu seu caderno de italiano e começou a praticar. Matias sentou-se ao lado dela, pegando um livro de Direito Penal. Eles não precisavam de palavras o tempo todo; a presença um do outro era o diálogo mais profundo que existia. O Chile os esperava, com seu frio, seus desafios e a promessa de que aquele era apenas o primeiro de muitos anos que viriam.