Neve do amor
Entre Neve, Leis e o Brilho de um Novo Começo
O ar gelado de Valle Nevado parecia cristalizar cada respiração naquela manhã de sábado. Giovanna estava montada em um cavalo robusto, cujos cascos afundavam macios na neve fofa que cobria a trilha lateral da montanha. O cenário era digno de um filme: o céu de um azul profundo contrastando com a imensidão branca e o sol refletindo nos picos da Cordilheira. Matias cavalgava ao lado dela, em um garanhão negro que exalava força. Eles haviam se afastado do grupo, buscando a paz que só o isolamento da altitude proporciona.
— Você parece que nasceu em cima de uma sela, Gi — comentou Matias, observando a postura impecável dela. — É difícil acreditar que seu pai brilhava nos gramados enquanto você parece ter sido feita para o hipismo clássico.
— O esporte é disciplina, não importa o terreno — respondeu Gi, com um sorriso leve, ajustando as rédeas com as mãos protegidas por luvas de couro. — Meu pai me ensinou que a conexão com o animal, ou com a bola, é o que define o resultado. No hipismo, se você não respeita o cavalo, você não salta.
Eles pararam em um mirante natural onde a vista de Santiago, lá embaixo, parecia uma miniatura distante. O silêncio era interrompido apenas pelo sopro do vento. Matias desceu do cavalo e estendeu a mão para ajudar Giovanna. Quando ela tocou o chão, a proximidade foi imediata. O vapor de suas respirações se misturava no ar gélido.
— Eu passei meses tentando entender você, Giovanna — sussurrou Matias, a mão ainda segurando o braço dela, exatamente como na noite do jantar, mas agora sem a barreira das roupas pesadas de inverno. — Tentei me convencer de que era só curiosidade, mas a verdade é que você me desarmou desde o primeiro dia na faculdade.
— E por que o silêncio, então? — perguntou ela, sentindo o coração acelerar sob o casaco térmico.
— Porque eu queria ter certeza de que, quando eu fizesse isso, você não teria dúvidas de que eu não vejo apenas a "filha do craque" ou a "menina rica do Volvo" — ele se aproximou, os olhos verdes fixos nos dela. — Eu vejo a mulher que estuda até as duas da manhã, que corre 8km no gelo e que tem o coração mais generoso que já conheci.
Gi não respondeu com palavras. Ela reduziu o pouco espaço que restava entre eles. O primeiro beijo aconteceu ali, cercado pela neve eterna e pelo silêncio das montanhas. Foi um beijo lento, mas carregado da tensão de meses de observação mútua. O calor que emanava de Matias era o contraste perfeito para o frio de Valle Nevado. Naquele momento, o muro de silêncio ruiu definitivamente.
***
Cinco meses depois.
Santiago estava mergulhada no auge do inverno, e a rotina de Giovanna estava mais intensa do que nunca, mas agora com um novo ritmo. Eram 05:00 da manhã quando o despertador tocou. Gi se espreguiçou e sentiu o braço de Matias ao redor de sua cintura. Ele agora passava muitas noites no apartamento dela, ou ela no dele. A rotina de treinos continuava sagrada, mas agora era feita em dupla.
— Mais cinco minutos, Gi... — resmungou Matias, a voz rouca de sono, puxando-a para mais perto.
— Nem pensar, Mati! — ela riu, dando um beijo rápido no nariz dele. — Hoje o treino é de pernas e você prometeu que ia me ajudar no agachamento livre. Levanta!
Após o treino intenso e o habitual whey de doce de leite com morango, Gi se arrumou para a faculdade. Ela vestia uma calça de alfaiataria cinza e um suéter de gola alta preto, com um sobretudo de lã batida por cima — o puro estilo Alexandra Leclerc que ela tanto amava. Na garagem, eles se dividiram: Gi no seu Volvo XC60 e Matias na sua BMW X6. O namoro era oficial e público, mas eles mantinham a independência funcional que ambos prezavam.
No pátio da faculdade de Direito, o grupo de amigos já os esperava. Bruna, Jade, Charlotte, Maria Luiza, Arthur, Pedro, Henrique e João formavam um círculo barulhento.
— Olha lá o casal nota dez chegando em carros separados para manter o mistério — brincou Arthur, abraçando Gi.
— Mistério nenhum, Arthur. O porta-malas dela está cheio de livros de Direito Civil e o meu está cheio de luvas de jiu-jítsu — respondeu Matias, passando o braço pelo ombro de Gi de forma protetora.
— Gi, você viu a última postagem do Lando? — perguntou Jade. — Ele comentou na sua foto de ontem e a internet quebrou de novo!
Gi pegou o celular para checar. Na noite anterior, ela havia finalmente postado a foto oficial "assumindo" o relacionamento. Era uma foto em preto e branco, tirada em uma viagem que fizeram para o Atacama no mês passado. Na imagem, eles estavam sentados no capô da BMW, sob um céu estrelado, com Gi encostada no peito de Matias e ele beijando o topo da cabeça dela.
*Legenda: "Nosso próprio ritmo. 🇨🇱❤️"*
*Comentários:* *@LandoNorris: "Finally! I was tired of hearing her talk about 'the guy with the green eyes' during our calls. Congrats, mate! @Matias_V"* (Finalmente! Eu estava cansado de ouvir ela falar sobre 'o cara dos olhos verdes' nas nossas chamadas. Parabéns, parceiro!) *@Kaka: "Deus abençoe vocês! Fico feliz em ver sua felicidade, minha filha. Juízo, Matias! 😂"* *@KimiAntonelli: "Does he drive faster than you, Gi? If not, he's a keeper!"* (Ele dirige mais rápido que você, Gi? Se não, ele é para casar!) *@User44: "O casal mais bonito do Chile, sem dúvidas. Esse Matias é um deus!"* *@Bruna_Real: "Meus pais! Amo vocês!"*
— O Lando não perde uma oportunidade de me passar vergonha — comentou Gi, rindo enquanto entravam para a aula de Direito Internacional.
A tarde de Gi seguiu o fluxo produtivo de sempre. No escritório de advocacia, ela agora já redigia peças mais complexas. O Dr. Ricardo estava impressionado com sua evolução. Às 16:00, ela saiu do estágio e seguiu para o haras. O hipismo continuava sendo seu refúgio. Naquele dia, Matias foi assisti-la. Ele ficava na cerca, observando-a saltar obstáculos de 1,30m com uma técnica que beirava a perfeição.
— Você está cada dia mais rápida — disse ele, quando ela desmontou de Trovão e veio em sua direção, tirando o capacete e deixando o cabelo castanho cair em ondas.
— É a adrenalina — ela respondeu, ganhando um beijo carinhoso. — E o fato de saber que tenho um jantar especial me esperando.
— Jantar? Eu achei que íamos pedir sushi — disse Matias, confuso.
— Nada disso. Hoje eu vou testar uma receita de ravióli de abóbora com manteiga de sálvia que aprendi na minha aula de italiano. E de sobremesa, pavlova de frutas vermelhas.
A rotina deles era assim: um equilíbrio perfeito entre o luxo e a simplicidade. Eles podiam jantar no restaurante mais caro de Vitacura ou passar a noite cozinhando no apartamento moderno da Gi, ouvindo jazz e discutindo casos jurídicos ou estratégias da Fórmula 1.
Naquela sexta-feira à noite, a "Família" se reuniu no apartamento da Gi. O grupo era inseparável. Jade e Arthur já estavam oficialmente namorando, assim como Bruna e Pedro. A dinâmica era de total cumplicidade.
— Gente, o plano para o próximo fim de semana é Portillo! — anunciou João, abrindo uma garrafa de espumante. — Já aluguei a casa. Tem spa, vista para a Laguna del Inca e as melhores pistas de esqui da região.
— Portillo é incrível para fotos — disse Charlotte, já planejando os looks. — Gi, você tem que levar aquele seu macacão de neve vermelho.
— Vou levar, mas desta vez o Matias prometeu que vai me ensinar algumas manobras de snowboard — disse Gi, servindo a pavlova.
— Eu prometi? — Matias arqueou uma sobrancelha, rindo. — Acho que você se enganou, senhorita. Eu prometi te segurar se você caísse, o que eu duvido que aconteça, já que você é melhor que eu em quase tudo.
— Quase tudo — provocou Gi, encostando o ombro no dele. — Eu ainda não ganhei de você no jiu-jítsu.
— E nem vai. No tatame, as regras são outras — ele piscou para ela.
A noite seguiu com risadas, planos de viagens e muita comida boa. Gi olhava ao redor e sentia uma gratidão imensa. Ela tinha 18 anos, morava em um país que amava, estudava o que sempre quis e tinha amigos que eram irmãos de alma. E, claro, tinha Matias. O silêncio que antes os separava agora era preenchido por olhares que diziam tudo.
Antes de dormir, Gi fez seu habitual vlog para os seguidores. Ela mostrou a mesa do jantar, os amigos rindo ao fundo e terminou com um close nela e em Matias.
— O dia hoje foi longo, produtivo e cheio de amor — disse ela para a câmera. — Santiago tem esse poder de fazer tudo parecer mais intenso. Boa noite para vocês, e lembrem-se: não tenham medo de arriscar, seja em um salto de 1,30m ou em um novo país. Vale a pena.
Ela desligou a câmera e sentiu o beijo de Matias em seu pescoço.
— Você fala muito bem para o seu público, Gi. Mas eu prefiro quando você fala só para mim.
— Então é melhor eu ficar em silêncio agora — ela brincou, apagando a luz do abajur.
O frio lá fora continuava implacável, com a neve começando a cair levemente sobre as ruas de Santiago, mas dentro daquele apartamento, o calor de uma vida bem vivida e de um amor recém-descoberto era tudo o que Giovanna precisava para se sentir completa. Ela não era mais apenas a filha do jogador famoso; ela era a Giovanna, futura advogada, amazona, amiga leal e a mulher que conquistou o coração do observador mais atento da faculdade. E a aventura estava apenas começando.