Neve do amor
O Eco de Pequenos Passos nos Andes
Seis meses de casados haviam passado como um borrão de felicidade, trabalho duro e noites aconchegantes diante da lareira em Santiago. A rotina de Giovanna e Matias Bulletti era uma engrenagem perfeita. Eles ainda acordavam às 05:00, treinavam juntos e dominavam os tribunais chilenos durante o dia. No entanto, nas últimas duas semanas, Gi sentia que algo em sua própria "engrenagem" interna estava diferente. O cheiro do café da manhã, que ela sempre amou, começou a deixá-la enjoada, e o treino de hipismo com Trovão parecia exigir o triplo da energia habitual.
Era uma manhã de terça-feira, o ar lá fora estava a congelantes -4°C. Gi estava no banheiro, olhando para o pequeno bastão de plástico sobre a bancada de mármore. O coração dela batia tão forte que parecia ecoar nas paredes modernas do apartamento. Quando os dois riscos paralelos apareceram, nítidos e incontestáveis, ela perdeu o fôlego.
— Matias! — chamou ela, a voz embargada.
Matias entrou correndo, ainda vestindo sua calça de moletom cinza, com o semblante preocupado.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele, segurando o rosto dela.
Gi não disse nada, apenas estendeu o teste. Matias olhou para o visor, depois para Gi, e depois para o visor novamente. O advogado eloquente, capaz de vencer as discussões mais acirradas, emudeceu. Seus olhos verdes se encheram de lágrimas instantaneamente.
— Um bebê? — ele sussurrou, a voz falhando. — Gi, nós vamos ter um bebê?
— Vamos, Mati. O nosso pequeno Bulletti Rossi está a caminho — respondeu ela, rindo entre as lágrimas.
Matias a tirou do chão, girando-a no ar com um cuidado extremo, como se ela fosse feita de cristal. A partir daquele segundo, a vida de Giovanna mudou drasticamente. Matias, que já era protetor, elevou o cuidado a um nível quase poético.
Nos meses seguintes, a rotina funcional de Gi ganhou novas cores. Matias proibiu-a de carregar qualquer peso, inclusive as pastas pesadas de processos. Ele passou a acordar trinta minutos mais cedo para preparar o café da manhã: o whey de doce de leite agora era acompanhado por frutas picadas milimetricamente e torradas integrais. Todas as sextas-feiras, ele chegava do escritório com um buquê de flores frescas — ora tulipas, ora peônias — apenas para ver o sorriso dela.
— Mati, eu estou grávida, não doente — brincava ela, enquanto ele massageava seus pés inchados após um longo dia no tribunal.
— Você está carregando o nosso legado, Gi — respondia ele, beijando a barriga que começava a despontar. — Meu único trabalho agora é garantir que vocês dois tenham tudo o que precisam.
A fase do enxoval foi um evento à parte. Gi, com seu estilo impecável e prático, queria algo sofisticado, mas Matias tinha um sonho antigo. Em uma tarde de sábado, enquanto passeavam pelo shopping Parque Arauco, ele a puxou para uma loja de decoração infantil de luxo.
— O tema tem que ser Fórmula 1, Gi. É a nossa história, o nosso grupo, o que seu pai te ensinou — insistiu ele, com os olhos brilhando como os de uma criança.
E assim foi feito. O quartinho de Lorenzo Rossi Bulletti tornou-se uma obra de arte. As paredes eram de um cinza-claro minimalista, com quadros emoldurados de circuitos icônicos como Interlagos, Monza e Mônaco. O berço tinha detalhes em couro que lembravam o interior de um carro de luxo, e um móbile de miniaturas de carros de corrida — incluindo a McLaren de Lando e a futura Ferrari de Kimi — girava suavemente sobre o dossel.
— O Lando vai ter um treco quando vir isso — disse Gi, arrumando os pequenos macacões de grife que imitavam uniformes de piloto.
— Ele já prometeu que o primeiro presente de um ano será um mini kart elétrico — riu Matias, abraçando-a por trás, sentindo Lorenzo chutar contra suas mãos.
A gestação avançou com a serenidade de um inverno bem planejado. Gi continuou trabalhando até o oitavo mês, sendo a advogada brilhante de sempre, embora agora usasse vestidos de tricô elegantes que acomodavam seu barrigão. Ela sentia-se poderosa, uma mistura da força de Kaká com a doçura de sua mãe.
Na madrugada de 24 de julho, o inverno em Santiago estava no seu ápice. A neve caía silenciosa lá fora, cobrindo a cidade com um manto branco. Gi acordou com uma pressão diferente, uma onda de dor que ela reconheceu imediatamente.
— Mati... está na hora — sussurrou ela, apertando o braço dele.
O caos organizado começou. Matias, apesar do nervosismo, foi funcional. Pegou as malas já prontas, ajudou Gi a se vestir e dirigiu a BMW X6 com uma precisão cirúrgica pelas ruas desertas e geladas até a clínica.
O trabalho de parto foi longo e intenso. Gi mostrou a bravura que sempre teve nas pistas de esqui e no hipismo. Matias não soltou sua mão por um segundo sequer, sussurrando palavras de encorajamento em italiano e português.
— Você é a mulher mais forte que eu conheço, Gi. Só mais um pouco — dizia ele, limpando o suor da testa dela.
Exatamente às 04:56 da manhã, um choro forte e vigoroso ecoou pela sala de parto, rompendo o silêncio da madrugada andina. O médico colocou o pequeno embrulho nos braços de Giovanna.
— É o Lorenzo — disse ela, a voz sumindo pela emoção.
Lorenzo Rossi Bulletti nasceu perfeito. Tinha os cabelos castanhos e lisos da mãe, mas quando abriu os olhos pela primeira vez, o verde intenso de Matias brilhou sob as luzes da clínica. Era a combinação exata de duas linhagens de força e determinação.
No dia seguinte, o quarto da maternidade parecia um jardim. Mas o gesto mais marcante veio de Matias à tarde. Ele entrou no quarto carregando um arranjo tão grande que mal conseguia ver o caminho à sua frente. Eram exatamente 456 rosas — azuis e brancas — em homenagem ao horário exato do nascimento do filho.
— Quatrocentas e cinquenta e seis rosas para o momento em que minha vida mudou para sempre — disse ele, aproximando-se da cama onde Gi amamentava Lorenzo.
Ele se sentou ao lado dela e tirou uma caixinha do bolso. Dentro, havia um anel de ouro com uma esmeralda central, cercada por dois diamantes menores.
— A esmeralda para os olhos do nosso filho e os diamantes para representar você e ele, as joias da minha vida — declarou ele, deslizando o anel no dedo de Gi.
— Ele é lindo, Mati. Olhe para esses olhos... ele vai conquistar o mundo — disse Gi, encostando a cabeça no ombro do marido.
— Ele já conquistou o meu — respondeu Matias.
Poucas horas depois, o celular de Gi não parava de vibrar. O grupo de amigos já estava a caminho, e as redes sociais estavam em polvorosa. Gi postou a primeira foto oficial: a mãozinha de Lorenzo segurando o dedo de Matias, com a aliança de casamento e o novo anel de esmeralda ao fundo.
*Legenda: "Lorenzo Rossi Bulletti. 24/07 - 04:56h. O novo piloto da família chegou para mudar nossa rota e nos ensinar o verdadeiro significado de justiça e amor. Bem-vindo ao mundo, meu pequeno grande homem. 👣🏎️💙"*
Os comentários foram imediatos:
— @Kaka: "Meu neto! Que Deus te abençoe, Lorenzo. O vovô já está chegando com a bola e a chuteira, mas sei que o papai já garantiu o carro de corrida! Amo vocês!"
— @LandoNorris: "4:56? That's a decent lap time, Lorenzo! Can't wait to meet my new teammate. Congrats Gi and Matias, he's beautiful!" (4:56? Esse é um tempo de volta decente, Lorenzo! Mal posso esperar para conhecer meu novo companheiro de equipe. Parabéns Gi e Matias, ele é lindo!)
— @Jade_Real: "Já estamos na recepção! Preparem o coração porque a titia vai esmagar esse bebê!"
A vida em Santiago agora tinha um novo som: o balbuciar de Lorenzo. O apartamento moderno, que antes era o refúgio de um casal de advogados focado na carreira, agora tinha brinquedos de Fórmula 1 espalhados pelo tapete de design e o cheiro doce de bebê misturado ao aroma de café fresco.
Gi sentia-se completa. Ela olhava para Matias trocando a fralda de Lorenzo com uma concentração jurídica, e depois olhava para a neve caindo lá fora. Ela tinha a carreira que sonhou, o homem que amava e agora o fruto de uma história que começou com um silêncio carregado de tensão e se transformou em uma sinfonia de felicidade.
— Sabe, Mati — disse ela certa noite, enquanto Lorenzo dormia no berço de "piloto" —, eu achava que o auge da minha vida seria ganhar uma causa no Supremo Tribunal.
Matias olhou para ela, segurando sua mão.
— E agora?
— Agora eu sei que o auge é ver esses olhos verdes acordando todos os dias e saber que nós criamos algo muito mais importante do que qualquer lei.
Matias sorriu, puxando-a para um abraço. O inverno chileno podia ser rigoroso, mas dentro daquele lar, o calor da família Bulletti Rossi era eterno. Lorenzo era o início de um novo circuito, e Giovanna sabia que, não importa a velocidade da vida, ela sempre teria os melhores copilotos ao seu lado.