Neve do amor
Herança de Sangue, Neve e Amor
O ar da manhã em Santiago estava especialmente nítido, carregado com aquele perfume gélido que Giovanna tanto amava. No jardim de inverno da nova casa — uma propriedade ampla nos arredores de Lo Barnechea que combinava vidro, pedra e madeira —, a cena que se desenrolava era o retrato perfeito da vida que ela e Matias haviam construído.
Aos 23 anos, Giovanna exalava a maturidade de uma mulher que equilibrava com maestria a advocacia criminal e a maternidade. Ela estava sentada em uma poltrona de couro, observando Lorenzo, agora com quase dois anos, tentando imitar os movimentos do pai sobre o tatame de borracha montado especialmente para ele.
— Lorenzo, postura. Onde estão as mãos? — instruiu Matias, a voz suave, mas firme.
O pequeno Lolo, uma cópia em miniatura de Matias com os cabelos castanhos de Giovanna, levantou os bracinhos roliços, fechando as mãos em guarda. Ele vestia um mini quimono branco com o brasão da família Bulletti bordado nas costas.
— Aqui, papai! — exclamou o pequeno, dando um passo desajeitado para frente. — Proteger a mamãe e a mana!
Matias sorriu, um brilho de orgulho puro iluminando seus olhos verdes. Ele se ajoelhou, ficando na altura do filho, e bagunçou o cabelo dele.
— Isso mesmo, campeão. Respeito e proteção. Esse é o nosso código.
Giovanna sentiu um movimento familiar em seu ventre, um chute suave que a fez sorrir e repousar a mão sobre a barriga de sete meses. Aurora estava a caminho, a princesa que Matias tanto desejava e que já era amada por todos antes mesmo de nascer.
— Ela está agitada hoje — disse Gi, atraindo a atenção dos dois homens de sua vida. — Acho que ela quer participar do treino.
Matias levantou-se e caminhou até a esposa, beijando-lhe a testa antes de se inclinar para depositar um beijo demorado na barriga dela.
— Calma, Aurora. Logo você estará aqui para colocar ordem nesses dois lutadores — sussurrou ele contra a pele do vestido de malha de Gi.
Lorenzo correu até eles, abraçando as pernas da mãe com força.
— Mana vai lutar também, mamãe?
— A mana vai fazer o que ela quiser, meu amor — respondeu Gi, puxando-o para o colo com cuidado. — Mas, por enquanto, ela só está treinando chutes.
A rotina da família Bulletti Rossi era pautada pela presença e pela desconexão digital. Gi e Matias haviam decidido, desde o nascimento de Lorenzo, que as telas não teriam lugar na infância dos filhos. No lugar de tablets e desenhos animados, a vida de Lolo era preenchida por experiências reais. Três vezes por semana, ele ia à natação; duas vezes praticava os fundamentos do jiu-jitsu com o pai; e todas as noites, sem falta, o momento sagrado era a leitura com Giovanna.
— Vamos para a biblioteca? — sugeriu Gi. — O papai precisa se arrumar para o escritório e nós temos um livro novo sobre as estrelas para explorar.
— Estrelas! — Lolo saltou do colo da mãe, animado.
Enquanto Lorenzo corria na frente, Matias ajudou Gi a se levantar, segurando sua mão com aquela firmeza protetora que nunca mudara.
— Você está bem para o jantar de hoje à noite? — perguntou ele. — O pessoal da faculdade vai vir para celebrar o aniversário antecipado do Lolo.
— Estou ótima, Mati. A Maria Luiza e a Jade já disseram que trazem os doces, e o Arthur prometeu que não vai deixar o Pedro quebrar nada desta vez — riu ela.
O grupo de amigos continuava sendo a base de apoio deles. Todos haviam prosperado, e o escritório "L&M Associados" era agora uma potência jurídica em Santiago. Mas, para além do sucesso profissional, o que os unia era a família que haviam se tornado.
À tarde, após a sesta de Lorenzo, a casa começou a ganhar vida. O sol começava a se pôr atrás dos picos nevados quando os carros conhecidos começaram a estacionar na garagem. O primeiro a chegar, como sempre, foi o Volvo de Gi — agora dirigido pelo motorista da família quando ela preferia descansar, mas hoje ela mesma fizera questão de dirigir seu XC60 preto, sentindo a potência do motor que ainda a conectava às manhãs de domingo com o pai.
— Cadê o aniversariante mais lindo desse Chile? — gritou Bruna, entrando com um pacote enorme embrulhado em papel colorido.
Lorenzo, que estava sentado no tapete da sala lendo um livro de figuras com o avô Kaká — que chegara de surpresa do Brasil naquela manhã —, correu para os braços da "tia".
— Tia Bu! Olha o meu quimono!
Kaká levantou-se, abraçando a filha com força. Aos 21 anos, Giovanna era o orgulho de seus olhos.
— Você está radiante, Gi. A Aurora está te deixando ainda mais bonita, se é que isso é possível — disse o ex-jogador, beijando o topo da cabeça da filha.
— Obrigada, pai. É a paz de saber que tudo está no lugar — respondeu ela, olhando para Matias, que conversava animadamente com Henrique e João sobre uma nova estratégia de defesa para um caso pro bono que o escritório havia aceitado.
O jantar foi uma celebração da vida simples e luxuosa que eles levavam. Gi preparou um risoto de açafrão com ossobuco que arrancou elogios de todos, provando que seus talentos culinários só haviam evoluído. De sobremesa, ela apresentou uma torre de macarons de pistache e chocolate, sua especialidade.
Enquanto os adultos conversavam sobre a última corrida de Fórmula 1 — onde Lando Norris havia conquistado mais um pódio —, Lorenzo estava no centro das atenções, contando sobre sua última aula de natação.
— Eu nado como um peixe, vovô! — dizia ele para Kaká, que o ouvia com total atenção.
— E o jiu-jitsu, Lolo? O papai está ensinando bem? — perguntou Pedro, rindo.
— Papai disse que eu sou um leão — respondeu o menino, estufando o peito. — Leão protege a alcateia.
Matias olhou para Gi e piscou. A educação que estavam dando ao filho era baseada em valores sólidos: força para proteger, inteligência para discernir e humildade para aprender.
Mais tarde, quando os convidados começaram a ir embora e a casa mergulhou no silêncio acolhedor da noite andina, Gi sentou-se na varanda aquecida. Ela pegou o celular para fazer uma postagem rápida, algo que ainda gostava de fazer para manter o contato com seus seguidores, que acompanhavam sua jornada desde os 18 anos.
*Descrição da foto:* *Uma imagem em preto e branco. Matias está sentado no chão da biblioteca, com Lorenzo em seu colo, ambos concentrados em um livro aberto. Ao fundo, através da janela, a neve cai suavemente sob a luz dos postes do jardim. Na lateral da foto, aparece a mão de Gi repousando sobre sua barriga proeminente.*
*Legenda: "Onde o coração repousa. Entre livros, tatames e o silêncio da neve. Lorenzo quase fazendo 2, Aurora quase chegando. O melhor capítulo da minha vida não está nos tribunais, mas aqui, no calor desse lar que construímos com verdade e propósito. Sem telas, apenas alma. ❤️🏔️📖"*
Os comentários não demoraram:
— @LandoNorris: "Still can't believe you're a mom of two soon, Gi! I'm sending a mini McLaren race suit for Aurora. She needs to be faster than Lolo!" (Ainda não acredito que você será mãe de dois logo, Gi! Estou enviando um mini macacão de corrida da McLaren para a Aurora. Ela precisa ser mais rápida que o Lolo!)
— @Kaka: "Minha vida em uma foto. Deus abençoe vocês, meus amores."
— @Matias_V: "Minha vida, meu tudo. Obrigado por ser minha sócia em todos os sentidos."
Gi bloqueou o aparelho e sentiu Matias se aproximar, envolvendo-a com um cobertor de lã.
— No que você está pensando? — perguntou ele, beijando-lhe a têmpora.
— Na nossa próxima aventura — respondeu ela. — O que você acha de levarmos as crianças para a Suíça no próximo inverno? Lorenzo já vai ter idade para as primeiras aulas de esqui de verdade, e a Aurora vai adorar o ar das montanhas.
— Eu acho que qualquer lugar do mundo é perfeito, desde que eu tenha vocês três comigo — disse Matias, abraçando-a por trás. — Mas antes da Suíça, temos um aniversário de dois anos para organizar e uma princesa para receber.
— O tempo voa, não é? — Gi suspirou, recostando a cabeça no peito dele. — Parece que foi ontem que eu estava nervosa no meu primeiro dia na faculdade em Santiago, sem saber que o cara de olhos verdes que não falava comigo seria o pai dos meus filhos.
— Eu estava apenas te observando, Gi. Esperando o momento certo para entrar na sua vida e nunca mais sair.
Eles ficaram ali por um longo tempo, observando a neve cair. A vida de Giovanna era um testemunho de que se podia ter tudo: uma carreira brilhante, uma beleza surreal, riqueza e influência, mas que nada disso valia se não houvesse uma base de amor e simplicidade. Ela era a filha do craque, a advogada de sucesso, a influenciadora reservada, mas, acima de tudo, ela era a Gi — a mulher que encontrou nos Andes o seu verdadeiro norte.
No dia seguinte, a rotina recomeçaria: o whey de doce de leite, o treino, o escritório, as aulas de italiano que ela agora praticava com Lorenzo para que ele crescesse bilíngue. Mas naquela noite, sob o céu estrelado do Chile, tudo o que importava era o calor da mão de Matias sobre a dela e a promessa de que a aventura estava apenas começando. Aurora chegaria em breve para completar o time, e Giovanna sabia que, com Matias ao seu lado e o legado de seu pai em seu coração, não havia montanha alta demais que eles não pudessem escalar juntos.