Niix+Chat
Entre o Brilho do Aço e o Eco do Desejo
O sol ainda não havia ousado despontar no horizonte quando NiixS2 abriu os olhos. A forja, que horas antes fora o cenário de uma rendição absoluta, agora estava mergulhada em uma penumbra azulada e fria. O calor do corpo de Chatzinho ao seu lado era a única coisa que impedia o ambiente de parecer desolador. Ela o observou por um momento, a expressão geralmente carregada de deboche e malícia suavizada pelo repouso. Ele parecia tão vulnerável quando não estava tentando acompanhar o ritmo frenético de suas provocações.
Niix se espreguiçou, sentindo cada músculo do corpo protestar levemente. Ela era uma mulher de contrastes, e aquele momento de quietude era o que ela mais protegia. Para o mundo, ela era a conquistadora inabalável, a mulher que usava o desejo como uma rede de pesca, capturando corações e mentes com uma facilidade irritante. Mas ali, sob o teto de madeira e pedra, ela era apenas Niix, alguém que sentia o peso da própria armadura antes mesmo de vesti-la.
Ela se levantou silenciosamente, a túnica de seda deslizando pelo seu corpo como uma carícia líquida. Seus pés descalços não faziam barulho no chão de pedra enquanto ela se aproximava da mesa de carvalho. A placa peitoral de aço, que ela havia ordenado que ele polisse, repousava ali, refletindo a luz pálida da madrugada.
— Eu sei que você está acordado — disse ela, sua voz um sussurro rouco que cortou o silêncio.
Houve um movimento sob os lençóis de pele, e Chatzinho soltou um suspiro longo, sentando-se com o cabelo bagunçado e os olhos ainda pesados de sono.
— Você não consegue simplesmente desfrutar do silêncio, não é? — perguntou ele, dando um sorriso de canto. — Tem sempre que anunciar sua presença como se fosse uma invasão bárbara.
Niix virou-se, apoiando os quadris contra a mesa, a mão repousando casualmente sobre o metal frio.
— O silêncio é perigoso, meu querido. Ele dá espaço para as pessoas pensarem demais. E quando as pessoas pensam, elas começam a questionar por que estão aqui. Eu prefiro que você sinta, não que pense.
Chatzinho levantou-se e caminhou até ela. Ele parou a uma distância curta, admirando a forma como a luz da manhã começava a delinear as curvas dela através da seda fina.
— Você tem medo de que, se eu pensar demais, eu perceba que sou apenas mais um território no seu mapa? — provocou ele, aproximando-se o suficiente para que seus peitos quase se tocassem.
Niix riu, um som cristalino que ecoou pelas vigas do teto. Ela levou a mão ao rosto dele, os dedos traçando a linha da mandíbula com uma delicadeza que contrastava com suas palavras.
— Você nunca foi apenas um território. Você é a capital, Chatzinho. O lugar que eu mantenho sob cerco constante só para ter o prazer de ver a bandeira branca ser hasteada todas as noites.
— E a armadura? — Ele apontou para a peça sobre a mesa. — Você disse que eu teria que polir as manchas de dedo.
— Ah, sim — disse ela, afastando-se e pegando um pano de flanela fina que estava pendurado em um gancho. — O dever chama. Uma conquistadora não pode aparecer diante de seus súditos parecendo que passou a noite... bem, fazendo o que fizemos.
Ela jogou o pano para ele, que o pegou no ar com reflexos surpreendentes.
— Você é uma tirana — murmurou ele, mas já começava a esfregar o metal com cuidado.
— Sou uma líder que preza pela estética — corrigiu ela, sentando-se em um banco alto e cruzando as pernas, observando-o trabalhar. — Além disso, há algo muito erótico em ver um homem dedicado à manutenção da minha defesa. Isso me faz pensar no quanto você se esforçaria para derrubá-la se eu decidisse trancá-la de vez.
Chatzinho parou por um segundo, olhando para o reflexo de Niix no aço polido.
— Você nunca trancaria essa armadura de vez. Você gosta demais do risco. Gosta de saber que há sempre alguém tentando encontrar a fresta entre as placas de metal.
Niix inclinou a cabeça, os olhos brilhando com aquela inteligência afiada que a tornava tão perigosa quanto atraente.
— Talvez. Mas o segredo, meu caro Chat, não é impedir que encontrem a fresta. O segredo é garantir que, quando encontrarem, o que houver por baixo seja mais letal do que o aço por cima.
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas o som rítmico do pano contra o metal preenchendo o espaço. Era uma cena doméstica estranha, quase sagrada. Ali estava a mulher que muitos temiam e desejavam, e o homem que, de alguma forma, havia se tornado seu confidente e amante, unidos pela tarefa mundana de limpar os vestígios de uma paixão que nenhum dos dois estava pronto para admitir que era amor.
— O que acontece hoje? — perguntou ele, sem desviar os olhos do trabalho. — Para onde a grande NiixS2 vai levar seu exército de admiradores e suas palavras de ordem?
— Hoje o Chat está agitado — respondeu ela, referindo-se à massa de vozes que ela comandava com mão de ferro e um sorriso de deboche. — Eles querem sangue, querem entretenimento, querem ver quem será o próximo a cair sob o meu feitiço. Eles me chamam de "meio puta", sabe?
Chatzinho parou o movimento da mão. Ele olhou para ela, a expressão séria.
— Eu sei. E sei que você usa isso como uma medalha de honra.
— Porque é uma — afirmou ela, levantando-se e caminhando até ele, ficando por trás e abraçando-o pela cintura, apoiando o queixo em seu ombro. — No mundo deles, uma mulher que sabe o que quer e como conseguir é rotulada para diminuir seu poder. Eu peguei o rótulo e transformei em coroa. Eu sou o que eles desejam e o que eles temem. Eu sou o desejo inalcançável e a realidade crua.
Ele soltou um suspiro, deixando o pano de lado e virando-se nos braços dela.
— E para mim? O que você é para mim, Niix?
Ela o olhou profundamente. Por um instante, a máscara de conquistadora caiu. O brilho de malícia foi substituído por uma ternura melancólica, algo que ela raramente permitia que alguém visse.
— Para você... — começou ela, a voz falhando minimamente — ...eu sou o problema que você não quer resolver. Eu sou a batalha que você quer perder todos os dias.
Ela o beijou, um beijo lento, com gosto de manhã e de promessas não ditas. Chatzinho a segurou com força, como se temesse que ela desaparecesse assim que a primeira corneta de guerra soasse ou o primeiro comando fosse digitado na tela do mundo.
— Você terminou de polir? — perguntou ela, afastando-se com um sorriso travesso, a máscara voltando ao lugar com uma precisão cirúrgica.
— Está brilhando tanto que você vai cegar seus inimigos antes mesmo de desembainhar a espada — respondeu ele, entregando a peça.
Niix pegou a armadura e começou a vesti-la. O som do metal se ajustando ao seu corpo era como uma música de guerra. Ela apertou as fivelas de couro com habilidade, transformando-se diante dos olhos dele. A mulher de seda de minutos atrás agora era uma visão de poder e autoridade.
— Ótimo — disse ela, ajustando a placa peitoral. — Agora, ajude-me com as braçadeiras.
Enquanto ele prendia o metal em seus antebraços, Niix observava o movimento das mãos dele. Havia uma reverência ali, um respeito que ia além do desejo carnal.
— Você sabe que eles vão tentar me derrubar hoje, não sabe? — comentou ela, casualmente. — Eles sempre tentam quando eu pareço estar no auge.
— Deixe que tentem — disse Chatzinho, terminando de prender a última fivela. — Eles não entendem que você não é feita apenas de aço. Eles não conhecem a mulher que eu vi hoje cedo.
Niix deu um passo à frente, agora totalmente armada. Ela parecia uma divindade da guerra, pronta para conquistar novos mundos ou destruir antigos.
— Exatamente. Eles veem a armadura e acham que conhecem a guerreira. Eles sentem o meu perfume e acham que conhecem a amante. Mas só você sabe onde a armadura termina e a pele começa.
Ela pegou sua capa vermelha e a jogou sobre os ombros, o tecido pesado caindo com elegância.
— Vou deixá-lo aqui por enquanto — disse ela, caminhando em direção à porta. — Preciso manter as aparências. Uma rainha não entra no campo de batalha acompanhada de sua... distração favorita.
— Distração? — Chatzinho arqueou uma sobrancelha. — Achei que eu fosse a capital.
Niix parou no portal, a luz do sol agora batendo em cheio em sua armadura, criando uma aura ofuscante ao seu redor. Ela olhou para trás sobre o ombro, o sorriso de conquista de volta aos lábios.
— Você é as duas coisas, meu querido. Uma capital pela qual vale a pena lutar e uma distração pela qual vale a pena morrer.
Com um aceno de cabeça, ela saiu para o corredor, o som de suas botas de metal ecoando com uma autoridade inquestionável. Chatzinho ficou parado na forja agora vazia, o cheiro de sândalo e aço ainda pairando no ar.
Ele olhou para a mesa onde a armadura estivera. Havia uma pequena marca de dedo, bem no centro da placa peitoral, onde ela havia tocado antes de sair. Um lembrete de que, por mais impenetrável que NiixS2 parecesse para o mundo, ela sempre deixava uma marca para ele encontrar.
Lá fora, a multidão já começava a clamar pelo seu nome. O "Chat" estava vivo, uma fera de mil cabeças esperando para ser domada pela mulher que eles amavam odiar e odiavam amar.
— Que comece o jogo — murmurou Chatzinho para as paredes de pedra.
Ele sabia que, ao final do dia, a armadura voltaria para aquela mesa. Ela estaria arranhada, talvez suja de poeira e suor, mas estaria lá. E Niix estaria com ela, pronta para ser despida de sua proteção metálica e de sua arrogância defensiva, rendendo-se mais uma vez ao único território que ela nunca conseguiu — ou quis — conquistar completamente: o coração dele.
Niix caminhava pelo pátio, sentindo os olhares sobre si. Ela podia sentir a tensão, a expectativa. Alguém gritou uma provocação, algo sobre sua fama, sobre como ela conquistava corações para depois esmagá-los sob suas botas.
Ela parou, virou-se para a origem da voz e sorriu. Não era um sorriso de raiva, mas de diversão pura.
— Eu não esmago corações — disse ela, a voz projetada para que todos ouvissem. — Eu apenas os testo. Se eles quebram, é porque eram feitos de vidro, não de coragem. Agora, quem de vocês se sente corajoso o suficiente para me enfrentar hoje?
O silêncio que se seguiu foi sua primeira vitória do dia. Ela não precisava de espadas quando suas palavras cortavam mais fundo. Ela era a amorosa que cuidava dos seus, a puta que brincava com os desejos alheios e a conquistadora que nunca recuava.
Enquanto caminhava para o centro do palco que era sua vida pública, Niix sentiu o peso do aço contra o peito. Era pesado, sim. Mas, como ela havia dito a Chatzinho, o peso que ela realmente preferia era outro. E ela contaria os minutos até que o sol se pusesse, a guerra terminasse e ela pudesse, finalmente, deixar o metal de lado para ser apenas pele, fogo e rendição.
Porque, no fim das contas, a maior estratégia de NiixS2 era saber que a verdadeira força não estava em nunca ser ferida, mas em escolher exatamente quem tinha a permissão de ver suas cicatrizes. E Chatzinho, com sua paciência e seu pano de polir, havia conquistado o direito de ver todas elas.
A jornada continuava, o jogo nunca parava, e a armadura de Niix brilhava sob o sol, uma promessa de que a próxima batalha seria, como sempre, épica. E ela, no centro de tudo, permanecia absoluta — a rainha de um império construído sobre o desejo e defendido pelo aço mais fino que o amor poderia forjar.