No casamento..?
Sombras de Vodca e Segredos de Morcego
A sala de estar da Mansão Wayne, outrora um santuário de silêncio austero e mármore frio, fervilhava com uma energia que Alfred Pennyworth não testemunhava há décadas. O tilintar de cristais e o murmúrio de vozes sobrepostas criavam uma sinfonia caótica. Eva Wayne estava sentada em uma das poltronas de couro legítimo, com um copo de uísque em uma mão e Nikolas, agora sonolento, aninhado no vão do seu braço.
Dmitri estava de pé ao lado da lareira, mantendo uma conversa surpreendentemente técnica com Jason Todd sobre a eficácia de facas de combate em climas árticos. A postura do russo era relaxada, mas seus olhos azuis nunca deixavam de monitorar o perímetro da sala — um hábito de soldado que Bruce reconhecia e, em segredo, respeitava.
— Então, deixe-me ver se entendi — Eva disse, arqueando uma sobrancelha para Dick Grayson, que gesticulava animadamente. — Você está me dizendo que Bruce Wayne, o homem que tem um plano de contingência para o caso de a lua cair, pediu Selina em casamento em um telhado, no meio de uma perseguição, e ela quase disse não?
— "Quase" é uma palavra generosa — Jason interrompeu, soltando uma risada seca enquanto se afastava de Dmitri. — Ela fez ele suar, Eva. Foi a primeira vez que vi o "Grande Morcego" parecer um colegial levando um fora no baile de formatura.
— Eu não estava parecendo um colegial — a voz de Bruce surgiu das sombras perto da biblioteca. Ele caminhou até o grupo, segurando uma taça de água mineral com a rigidez de quem preferia estar patrulhando os becos do Beco do Crime.
— Ah, estava sim — insistiu Dick, dando um tapinha no ombro do mentor. — Você teve aquela expressão de "o mundo vai acabar" por três dias seguidos.
Eva soltou uma risada cristalina, um som que parecia estranho naquelas paredes.
— Algumas coisas nunca mudam. Bruce continua sendo o mestre do drama desnecessário e vocês continuam sendo o fã-clube que ele finge não amar.
Dmitri aproximou-se da esposa, colocando uma mão possessiva, mas gentil, em seu ombro.
— Em Moscou, dizemos que um homem que não sofre por amor é um homem que não tem alma — Dmitri comentou, seu sotaque russo dando uma gravidade poética à frase. — Pelo visto, seu irmão tem alma de sobra, Evangeline.
— Ou apenas um excesso de teimosia — ela retrucou, olhando para o marido com afeição. — Dmitri, querido, por que você não leva o Kolya lá para cima? Alfred disse que o berço está pronto. Ele está prestes a desmaiar e não quero que ele aprenda os palavrões do Jason antes dos três anos.
— Tarde demais para isso, tia Eva — murmurou Tim Drake, surgindo de trás de um sofá com seu notebook. — Eu o ouvi repetir algo que o Jason disse sobre a polícia de Gotham há dez minutos.
Jason deu de ombros, sem um pingo de remorso.
— O garoto precisa de vocabulário se quiser sobreviver aqui.
Dmitri pegou o filho com uma facilidade impressionante. Nikolas apenas resmungou algo em russo, afundando o rosto no pescoço do pai. Com um aceno de cabeça para Bruce e os outros, o militar subiu as escadas com Alfred, deixando Eva sozinha com os "meninos".
O silêncio que se seguiu foi denso. Sem a distração da criança e a presença imponente de Dmitri, o ar na sala mudou. Eva sentiu o peso dos olhares. Ela sabia o que eles queriam. Explicações. Motivos. O porquê de uma Wayne ter se tornado um fantasma.
— Podem perguntar — Eva disse, quebrando a tensão. Ela cruzou as pernas, revelando a linha elegante de seu vestido de seda escura. — Eu sei que vocês têm uma lista. Tim provavelmente tem um arquivo criptografado no computador.
Tim corou levemente, mas não negou. Foi Bruce, no entanto, quem deu o primeiro passo.
— Por que o exército, Eva? — Bruce perguntou, sua voz voltando ao tom grave e inquisitivo. — Você doou sua herança. Você poderia ter vivido em qualquer lugar do mundo como uma civil. Por que se casar com um oficial de inteligência russo e desaparecer no interior da Eurásia?
Eva olhou para o fundo de seu copo, observando o gelo derreter.
— Porque aqui, Bruce, eu era apenas a "outra Wayne". A Wayne que não era forte o suficiente para ser como você, mas também não era fútil o suficiente para ser como o resto da elite. Eu estava sufocando. Gotham é um buraco negro de expectativas.
Ela se levantou e caminhou até a janela, observando as luzes distantes da cidade.
— Quando conheci Dmitri, ele não sabia quem eu era. Para ele, eu era apenas uma mulher inteligente com um humor ácido em uma cafeteria em Berlim. Ele me deu algo que você nunca pôde me dar: anonimato. E o exército... o exército me deu disciplina. Algo para focar que não fosse a morte da mamãe e do papai.
— Você nos deixou para trás — disse Damian, que estava em silêncio até então, observando-a com seus olhos verdes analíticos. — Como herdeira de sangue, sua ausência foi uma falha de dever.
Eva virou-se para o sobrinho mais novo, um sorriso triste brincando em seus lábios.
— Damian, querido... às vezes, o maior dever que temos é com a nossa própria sanidade. Se eu tivesse ficado, eu teria me tornado uma versão muito pior de mim mesma. Eu teria me destruído tentando salvar uma cidade que não quer ser salva.
— E agora? — Dick perguntou, aproximando-se. — Você voltou apenas para o casamento? Ou a "Ovelha Negra" está pensando em voltar para o rebanho?
Eva soltou um suspiro longo.
— Eu vim pelo casamento. E vim para que meu filho conhecesse a família, por mais disfuncional que ela seja. Mas Gotham... Gotham ainda me dá calafrios.
— É mais do que isso — Jason interveio, seus instintos de rua captando algo no tom dela. — Você está olhando por cima do ombro desde que saiu do jato. Dmitri também. Vocês não estão aqui apenas como turistas em uma reunião de família.
Eva endureceu a postura. Por um segundo, a mulher sofisticada e debochada desapareceu, dando lugar a alguém que parecia ter sido forjada no gelo da Sibéria.
— Gotham nunca esquece um Wayne, Jason. E o passado do Dmitri não é feito apenas de medalhas e desfiles.
Bruce deu um passo à frente, a aura do Batman agora totalmente presente.
— Quem está atrás de vocês?
— Ninguém que você precise se preocupar... ainda — Eva respondeu, recuperando o brilho irônico nos olhos. — Mas vamos deixar os negócios para amanhã. Hoje, eu quero saber mais sobre essa gata que roubou o coração do meu irmão. Ela ainda usa o chicote, ou você a convenceu a trocar por um anel de diamantes?
Antes que Bruce pudesse responder, a porta da sala de estar se abriu e Selina Kyle entrou. Ela usava um vestido preto justo que parecia uma segunda pele e um sorriso que dizia que ela tinha ouvido pelo menos metade da conversa.
— Eu prefiro os dois, querida — Selina disse, caminhando com a graça de um predador até Bruce, enlaçando o braço no dele. — O chicote para o trabalho e o diamante para as festas chatas. Você deve ser a Eva. Já ouvi lendas sobre você.
Eva avaliou Selina com um olhar clínico, o mesmo olhar que usava para desarmar adversários em mesas de negociação. Após alguns segundos, ela sorriu.
— Você tem bom gosto, Bruce. Ela parece que poderia te matar enquanto você dorme e ainda assim fazer parecer um acidente elegante. Gostei dela.
Selina riu, aproximando-se para um abraço que Eva retribuiu com uma sinceridade surpreendente.
— Acho que vamos nos dar muito bem — Selina sussurrou no ouvido de Eva. — Mas seu marido... ele deixou o Alfred nervoso. O pobre homem não sabe se serve chá ou se presta continência.
— Dmitri tem esse efeito nas pessoas — Eva brincou, afastando-se. — Ele é um urso russo com modos de lorde inglês.
A conversa fluiu de forma mais leve por mais uma hora, mas Bruce permanecia em alerta. Ele conhecia a irmã. Sabia que Eva não voltaria para Gotham apenas por nostalgia. Havia uma tensão sob a superfície de cada palavra dela, uma vigilância que combinava perfeitamente com a de Dmitri.
Mais tarde, quando a mansão finalmente mergulhou no silêncio da madrugada, Eva subiu para o quarto. Dmitri estava sentado na beira da cama, já sem a farda, vestindo apenas uma camiseta preta que evidenciava suas cicatrizes nos braços. Ele estava limpando uma pistola desmontada sobre uma toalha branca, um ritual de paz para ele.
— O Kolya está dormindo? — Eva perguntou, fechando a porta e encostando-se nela.
— Como um anjo que nunca ouviu um tiro — Dmitri respondeu, sem levantar os olhos da arma. — Seu irmão é um homem perigoso, Eva. Ele já sabe.
— Bruce sempre sabe. Ele foi treinado para isso.
Dmitri montou a pistola com um clique seco e preciso. Ele se levantou e caminhou até ela, segurando seu rosto com as mãos grandes e calejadas.
— Nós não deveríamos ter vindo. O Conselho não vai gostar que você esteja de volta sob os holofotes. Gotham é uma vitrine, dorogaya.
— Eu precisava vê-lo, Dmitri. Precisava que ele soubesse que eu estou viva, que eu sou feliz. E precisava que minha família visse o que eu me tornei.
— E o que você se tornou, Eva Wayne? — ele perguntou, com um brilho de admiração nos olhos azuis.
— Uma sobrevivente — ela respondeu, puxando-o para um beijo. — Assim como todos nesta casa.
Lá embaixo, na Batcaverna, Bruce Wayne estava sentado diante do imenso monitor. Ele não estava revisando os planos para o casamento. Na tela, o dossiê de Dmitri Volkov estava aberto, junto com uma lista de movimentos recentes de grupos paramilitares na Europa Oriental.
— Alfred — disse Bruce, sem desviar os olhos da tela.
— Sim, patrão Bruce? — o mordomo respondeu, aparecendo com uma bandeja de café.
— Reforce a segurança do perímetro. E entre em contato com o Dick. Quero olhos em todos os hotéis onde os convidados do casamento estão ficando. Especialmente os que têm conexões com a Rússia.
— O senhor acha que a senhorita Eva está em perigo?
Bruce fechou o arquivo de Dmitri e abriu uma foto de Eva, tirada anos atrás, antes de ela partir. Ela sorria na foto, mas seus olhos já mostravam a mesma frieza que ele via no espelho todas as manhãs.
— Eva não está em perigo, Alfred. Eva é o perigo. E quem quer que esteja seguindo ela vai descobrir que a Mansão Wayne é o último lugar na Terra onde eles deveriam querer entrar.
O silêncio da caverna foi interrompido apenas pelo som rítmico de gotejamento de água nas estalactites. Gotham estava à espera. O casamento do ano estava chegando, e com ele, uma tempestade que nem mesmo os Wayne poderiam prever.
Eva, em seu quarto, olhou pela janela para a escuridão de Gotham. Ela sabia que Bruce estava lá embaixo, analisando cada detalhe de sua vida. Ela sorriu para o próprio reflexo no vidro.
— Bem-vinda ao lar, Eva — sussurrou para si mesma. — Tente não queimar tudo desta vez.
A noite continuou, fria e indiferente, enquanto dois mundos de violência e segredos colidiam sob o teto da mansão mais famosa de Gotham. A ovelha negra estava de volta, e ela não tinha vindo apenas para a festa; ela tinha vindo para acertar as contas com o passado, armada com o amor de um soldado e a fúria de uma Wayne.