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No casamento..?

O Brinde das Navalhas e o Peso do Sangue

A manhã em Gotham nunca trazia a promessa de um novo começo; trazia apenas uma luz acinzentada que revelava as cicatrizes da noite anterior. Na Mansão Wayne, o café da manhã era, tradicionalmente, um exercício de silêncio estratégico ou de caos controlado. No entanto, com a presença de Eva, Dmitri e o pequeno Nikolas, a dinâmica havia mudado drasticamente.

Dmitri estava sentado à mesa, vestindo uma camisa de linho impecável, cujas mangas dobradas revelavam o relógio robusto e a postura de quem poderia desarmar um homem com uma colher de prata. Nikolas, ao seu lado, tentava seriamente usar um garfo para comer panquecas, imitando a precisão do pai.

— Ele é assustadoramente coordenado para uma criança de dois anos — comentou Tim, entrando na sala com as olheiras de quem não dormia há trinta e seis horas. — Eu o vi organizar os guardanapos por cor e ângulo reto antes.

— Disciplina começa no berço, Timotei — respondeu Dmitri, sua voz profunda ecoando com uma ponta de humor seco. — Em Moscou, se você não organiza seus brinquedos, eles organizam você.

Eva entrou logo atrás, usando um roupão de seda bordô, os cabelos escuros ainda levemente úmidos. Ela se inclinou e beijou o topo da cabeça de Nikolas antes de se servir de café.

— Não dê ouvidos ao meu marido, Tim. Ele acha que "brincar" é um termo militar para exercícios de reconhecimento — Eva deu um sorriso de lado, sentando-se à frente de Bruce, que lia o jornal físico com uma concentração quase teatral. — Dormiu bem, Bruce? Ou passou a noite atualizando meu dossiê?

Bruce baixou o jornal lentamente. Seus olhos encontraram os da irmã.

— O sistema de segurança da mansão detectou três tentativas de acesso remoto aos seus registros civis nas últimas seis horas — disse Bruce, direto ao ponto. — Todos vindos de servidores fantasiados em São Petersburgo.

Eva não vacilou. Ela levou a xícara aos lábios, sentindo o aroma do grão que Alfred preparava especialmente para ela.

— Apenas três? — ela arqueou uma sobrancelha. — Estão ficando lentos. Dmitri, você ouviu isso? O Conselho está economizando em hackers.

Dmitri parou o garfo no ar, seus olhos azuis tornando-se subitamente frios.

— Ou estão apenas testando as águas antes de enviar os mergulhadores.

— Do que vocês estão falando? — Dick Grayson entrou na sala, já com o uniforme de treino, transbordando uma energia que parecia ofensiva para aquela hora da manhã. — "Conselho"? "Mergulhadores"? Isso soa muito como problemas de família que envolvem explosões.

— Não são problemas seus, Dickie — Eva disse, seu tom suavizando, mas mantendo uma barreira clara. — São apenas os resquícios de uma vida que eu escolhi. Diferente da de vocês, a minha não envolve capas, mas envolve muitos segredos de Estado.

— Você é uma Wayne, Eva — Bruce interveio, sua voz assumindo aquele tom de autoridade que costumava encerrar discussões. — Se alguém está atrás de você ou do seu marido, está atrás de Gotham. E esta casa é protegida.

Eva soltou uma risada curta, quase um deboche.

— Bruce, querido, eu amo o seu complexo de herói, de verdade. Mas Dmitri e eu não somos civis indefesos. Se o passado resolver bater à porta, ele vai encontrar uma recepção russa, não um comitê de boas-vindas de Gotham.

A tensão foi interrompida pela entrada triunfal de Damian, que carregava uma espada de treino de madeira. Ele parou diante de Nikolas e o analisou como se estivesse diante de um novo recruta.

— O infante Volkov — disse Damian com seriedade. — Ele demonstra foco. Eu o levarei ao dojô após a refeição. Ele deve aprender a base da postura da Liga.

— Nem pensar, Damian — Eva cortou, divertida. — Se ele aprender a lutar com você agora, ele vai tentar derrubar o pai dele antes do almoço, e eu não quero móveis quebrados.

— Ele deve estar preparado — insistiu o menino. — Se o que o pai dele diz sobre Moscou é verdade, o treinamento deve ser rigoroso.

— Ele tem razão, dorogaya — Dmitri interveio, olhando para o filho com um orgulho silencioso. — Nikolas já sabe que a primeira regra de um Volkov é nunca ser a presa.

Bruce observava a interação com uma ruga de preocupação entre as sobrancelhas. Ele via em Dmitri um reflexo de si mesmo, mas sem as amarras morais que o Batman se impunha. Havia uma eficiência letal no russo que o incomodava, não por medo, mas por reconhecimento.

Após o café, enquanto os rapazes se dispersavam — Jason e Dick para a academia, Tim para o computador e Damian para suas obrigações —, Eva seguiu Bruce até o escritório. Ela sabia que a conversa da noite anterior tinha sido apenas o prefácio.

Ao entrar, ela fechou a porta e encostou-se nela, observando o irmão sentar-se atrás da imensa mesa de carvalho.

— Você vai se casar em três dias, Bruce — começou ela. — E, no entanto, você está mais preocupado com os meus inimigos do que com os seus convidados.

— Selina está cuidando dos convidados. Eu cuido das ameaças — Bruce respondeu, abrindo uma gaveta e tirando uma pasta. — Dmitri Volkov não é apenas um militar, Eva. O histórico dele no Spetsnaz é... impressionante. E o que ele fez depois de sair da ativa é um buraco negro nos arquivos da Interpol.

— Ele fez o que precisava para nos manter vivos — Eva caminhou até a mesa, apoiando as mãos sobre a superfície. — Quando eu saí de Gotham, eu não queria apenas deixar o dinheiro para trás. Eu queria deixar a vulnerabilidade. Dmitri me ensinou que a única forma de não ser uma vítima é ser mais perigosa do que quem te caça.

— E quem está caçando vocês? — Bruce insistiu.

Eva hesitou. O olhar frio e analítico de Bruce era difícil de sustentar, mesmo para ela.

— Existe uma facção dentro da inteligência russa que não aceitou bem a "aposentadoria" do Dmitri. Ele sabe demais, Bruce. E eu... bem, eu sou a esposa dele. Eles acham que eu sou o ponto fraco.

— Eles claramente não te conhecem — Bruce murmurou, um raro brilho de reconhecimento em seus olhos.

— Não, não conhecem. Mas eles sabem que eu sou uma Wayne. Eles acham que, se me pegarem em Gotham, o escândalo internacional seria o suficiente para silenciar o Dmitri para sempre.

Bruce levantou-se e caminhou até a janela que dava para os jardins.

— Eu não vou deixar nada acontecer com você. Nem com o menino.

— Eu sei que não vai — Eva aproximou-se dele, tocando seu braço. — Mas eu não voltei para me esconder atrás da sua capa, Bruce. Eu voltei porque você é meu irmão. E porque eu queria que você visse que eu encontrei algo que vale a pena proteger.

— Você o ama — não foi uma pergunta.

— Com cada fibra do meu ser — ela sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto. — Ele me viu no meu pior momento, quando eu era apenas uma herdeira quebrada em uma cidade estrangeira, e ele não tentou me consertar. Ele apenas me deu uma arma e me ensinou a atirar.

— Um método romântico — ironizou Bruce.

— Para mim, foi — ela riu.

Enquanto isso, nos jardins da mansão, Dmitri Volkov caminhava com a elegância de um lobo em território novo. Ele sentia os olhares. Sabia que, escondidos nas sombras das árvores ou atrás das câmeras de segurança, os "filhos" de Bruce o observavam.

Ele parou perto da fonte de mármore e acendeu um cigarro, algo que Alfred certamente desaprovaria, mas que ele fazia com uma naturalidade aristocrática.

— Você sabe que o fumo faz mal para os reflexos, certo? — a voz de Jason Todd veio de cima de um muro de pedra.

Dmitri soltou a fumaça lentamente, olhando para o rapaz que estava sentado de forma desleixada, limpando uma de suas pistolas.

— Meus reflexos estão bem, jovem Todd — Dmitri respondeu em seu inglês perfeitamente modulado. — O fumo apenas acalma os nervos quando se está em uma casa cheia de vigilantes amadores.

Jason saltou do muro, caindo silenciosamente no gramado.

— "Amadores"? Isso dói, russo. A gente limpa esta cidade toda noite enquanto você estava... o que mesmo? Caçando ursos na Sibéria?

Dmitri deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Jason não recuou, mas seus músculos se retensionaram.

— Eu estava em lugares onde a luz de um sinal no céu não traz esperança, mas atrai ataques aéreos — disse Dmitri, seu tom de voz caindo para uma oitava quase sussurrada. — Eu respeito o que vocês fazem aqui. É uma forma nobre de loucura. Mas não confunda minha cortesia com fraqueza.

Jason sorriu, um sorriso desafiador que Eva reconheceria instantaneamente.

— Eu gosto de você. Você é direto. A Eva sempre foi assim também. Ela era a única que conseguia irritar o Bruce tanto quanto eu.

— Ela fala de você com carinho, Jason — Dmitri relaxou a postura, jogando a bituca do cigarro no chão e esmagando-a com a bota. — Ela diz que você é o único que entende que, às vezes, o mundo precisa de um martelo, não de um bisturi.

— Ela disse isso? — Jason pareceu genuinamente surpreso.

— Ela disse. E ela também disse que, se eu precisasse de alguém para cobrir minhas costas em Gotham, você seria o único que não hesitaria em puxar o gatilho.

Jason guardou a arma no coldre oculto e estendeu a mão.

— Se alguém vier atrás dela ou do garoto, eles vão descobrir que o "martelo" de Gotham está bem acordado.

Dmitri apertou a mão dele com uma força que fez os ossos de Jason protestarem silenciosamente. Era um pacto de soldados.

Dentro da mansão, os preparativos para o casamento continuavam. Selina Kyle estava no centro do salão de baile, discutindo arranjos de flores com Alfred, quando Eva se juntou a elas.

— Flores brancas, Selina? — Eva perguntou, avaliando as rosas. — Achei que você fosse mais do tipo "orquídeas negras e segredos".

— Bruce quer algo tradicional — Selina deu de ombros, mas seus olhos brilhavam com diversão. — E eu decidi dar a ele esse prazer. É mais fácil esconder uma adaga em um buquê de rosas do que em um de orquídeas.

— Touché — Eva sorriu. — Precisa de ajuda com alguma coisa? Eu sou excelente em organizar logísticas complexas e em lidar com convidados indesejados.

Selina olhou para Eva, o olhar de uma mulher que reconhecia outra de sua mesma espécie.

— Na verdade, eu estava esperando que você me ajudasse com o vestido. Alfred é maravilhoso, mas ele tem uma visão muito... vitoriana de como uma noiva deve ser.

— Considere-me sua consultora oficial de rebeldia — Eva piscou.

As duas subiram para os aposentos superiores, deixando Alfred sozinho com seus pensamentos. O mordomo observou as duas mulheres Wayne — uma de sangue, outra por escolha — e sentiu um calor que não sentia há muito tempo. A família estava completa, ou o mais próximo disso que os Wayne poderiam chegar.

No entanto, a paz era uma mercadoria escassa em Gotham.

Ao cair da tarde, um envelope preto foi entregue nos portões da mansão. Não havia remetente, apenas o selo de cera com o brasão de uma unidade militar russa extinta.

Alfred levou o envelope até Bruce, que estava na biblioteca com Eva e Dmitri. O silêncio caiu sobre a sala assim que o objeto foi colocado sobre a mesa.

Bruce usou um abridor de cartas para romper o lacre. Dentro, havia apenas um convite de casamento — o próprio convite de Bruce e Selina — mas com uma alteração. Os nomes de Bruce e Selina haviam sido riscados com tinta vermelha, e abaixo, escrito em cirílico, estava uma única frase.

Dmitri leu em voz alta, sua voz soando como o gelo quebrando sob os pés.

— "O sangue que foi doado deve ser devolvido à terra."

Eva sentiu um calafrio, mas não de medo. Era a adrenalina que ela conhecia tão bem. Ela olhou para o marido e depois para o irmão.

— Eles estão aqui — disse ela, sua voz firme como aço.

— Eles cometeram um erro — respondeu Bruce, levantando-se. — Eles trouxeram uma guerra para a minha casa.

— Não, Bruce — Dmitri corrigiu, verificando a faca oculta em seu pulso. — Eles trouxeram uma guerra para a nossa família. E eles não têm ideia de quão perigosos os Wayne podem ser quando estão acompanhados de um Volkov.

Eva caminhou até a janela e olhou para o horizonte de Gotham, onde o sol se punha em tons de sangue e ouro. Ela sabia que os próximos dias seriam marcados não apenas por votos de casamento, mas por um rastro de pólvora.

— Dick, Jason, Tim, Damian! — Bruce chamou pelo comunicador, sua voz ecoando por toda a mansão e pela caverna abaixo. — Protocolo de defesa nível cinco. Temos companhia.

— Finalmente — a voz de Jason veio pelo rádio, carregada de antecipação. — Eu já estava achando que esse casamento ia ser entediante.

Eva olhou para Dmitri e sorriu. Era um sorriso perigoso, o sorriso de uma mulher que tinha abandonado tudo, mas que estava disposta a queimar o mundo para proteger o que restava.

— Prepare o Nikolas, Dmitri. Alfred, leve-o para o bunker seguro.

— E você, Eva? — Bruce perguntou, já se dirigindo para a entrada secreta da caverna.

Eva Wayne tirou os saltos altos, jogando-os de lado, e puxou uma fita preta do bolso para prender o cabelo com firmeza.

— Eu? — ela olhou para o irmão com um brilho selvagem nos olhos azuis. — Eu vou mostrar a eles por que a ovelha negra fugiu de Gotham. Não foi porque eu tinha medo da escuridão, Bruce. Foi porque eu era escura demais até para esta cidade.

O som de motores se aproximando pelos portões da frente quebrou o silêncio da noite. A celebração estava prestes a começar, mas as únicas flores que seriam colhidas naquela noite seriam as da vingança. Gotham estava prestes a ver o que acontecia quando dois mundos de sombras se uniam para proteger o seu próprio sangue.