Voltar ao resumo

No casamento..?

Herança de Gelo e Pólvora

O bunker da Mansão Wayne não era apenas um abrigo contra desastres; era uma obra-prima de engenharia paranoica. Enquanto Alfred conduzia Nikolas — que segurava seu ursinho de pelúcia com uma seriedade perturbadora — para os níveis inferiores, o resto da família se dispersava com a precisão de um mecanismo de relógio.

Eva Wayne estava no centro do escritório, observando o irmão. Bruce não precisava mais de palavras. O modo como ele ajustava os abotoadores, a rigidez de seus ombros, a forma como seus olhos escaneavam os monitores ocultos nas paredes... o Batman estava assumindo o controle.

— Eles estão no perímetro sul — anunciou Tim através dos alto-falantes ocultos. — Três veículos táticos, sem placas. Equipamento de ponta. Eles não estão aqui para um sequestro discreto, Eva. Estão aqui para uma execução.

Dmitri Volkov, que até então parecia um convidado aristocrático, transformou-se em algo letal em segundos. Ele abriu um compartimento oculto em sua maleta de viagem, revelando uma pistola CZ-75 e várias facas de cerâmica.

— O Conselho de Sombras não envia mensagens para negociar — disse Dmitri, verificando o carregador da arma com um clique seco. — Eles enviam para apagar rastros. Eu sou o rastro que eles querem apagar. Eva é o troféu.

— Nesta casa, ninguém é troféu — rosnou Bruce. Ele apertou um botão sob a mesa e uma seção da estante de livros deslizou, revelando trajes e armamentos. — Dick, Jason, interceptem os veículos antes que cheguem ao pátio principal. Damian, fique no telhado. Ninguém entra, ninguém sai.

— Entendido, mestre — a voz de Damian ecoou, carregada de um entusiasmo sombrio.

Eva caminhou até um dos armários de Bruce. Ela não usava um traje de morcego, mas retirou um colete de Kevlar leve e uma jaqueta de couro reforçada. Ela pegou uma pistola Glock 17 que Bruce mantinha como reserva e a testou com uma familiaridade que fez o irmão parar por um segundo.

— Onde você aprendeu a manusear uma dessas com tanta rapidez? — perguntou Bruce, sua voz baixa.

— Na Sibéria, os invernos são longos, Bruce — respondeu Eva, prendendo o coldre na cintura. — E Dmitri é um instrutor muito exigente. Eu não passei esses anos todos apenas bebendo vodca e olhando para a neve.

— Eva — Dmitri aproximou-se dela, colocando a mão em seu pescoço, unindo suas testas por um breve momento —, mantenha-se perto de mim ou de seu irmão. Gotham é o território dele, mas esses homens são meus fantasmas.

— Eu não sou mais a garotinha que precisava ser protegida em Gotham, Dmitri — ela sorriu, um brilho perigoso nos olhos azuis. — Vamos mostrar a eles o que acontece quando se mexe com uma Wayne que aprendeu a falar russo.

Lá fora, o som de pneus fritando no cascalho e o primeiro estrondo de uma granada de luz ecoaram pelos jardins. A escuridão de Gotham foi rasgada por flashes de disparos.

No pátio, Dick Grayson movia-se como um borrão azul e preto, saltando entre as estátuas de mármore e desarmando os invasores com uma graciosidade quase insultante. Ao seu lado, Jason Todd não era nada gracioso. Ele usava a força bruta e a eficiência de rua, derrubando dois mercenários russos com coronhadas precisas.

— Eles são bons! — gritou Jason, desviando de uma rajada de submetralhadora. — Mas não sabiam que a recepção incluía um circo e um necrotério!

— Menos piadas, Jason, mais cobertura! — Dick rebateu, lançando um bastão de escrima que atingiu o joelho de um invasor.

Dentro da mansão, o primeiro grupo de elite conseguiu romper as janelas do salão de baile. Eram seis homens, vestidos com trajes táticos pretos, movendo-se em formação de diamante. Eles esperavam encontrar civis em pânico.

Em vez disso, encontraram Dmitri Volkov.

O russo surgiu das sombras como um espectro. Ele não gritou. Ele não hesitou. O primeiro homem caiu antes mesmo de perceber que Dmitri estava na sala, com a garganta atingida por um golpe preciso. Dmitri moveu-se entre eles com uma economia de movimentos que era pura arte militar.

— Vocês vieram de longe para morrer em solo estrangeiro — disse Dmitri em russo, sua voz soando como um veredito enquanto desarmava o segundo homem e usava o próprio corpo do adversário como escudo contra os disparos dos outros.

Do outro lado do salão, Eva Wayne surgiu, usando a cobertura das colunas. Ela não atirava para matar, mas seus disparos eram cirúrgicos. Ombro, joelho, mão armada. Ela se movia com uma elegância fria, a franja lateral caindo sobre o olho enquanto ela mantinha o foco.

— Você está perdendo a forma, Dmitri! — exclamou Eva, deslizando por trás de um sofá de veludo e derrubando um mercenário que tentava flanquear o marido. — Aquele ali quase te acertou!

— Eu estava apenas dando a ele uma falsa sensação de segurança, dorogaya! — respondeu Dmitri, quebrando o braço de outro invasor com um estalo audível.

Bruce apareceu logo em seguida. Ele não estava usando o traje completo, apenas a máscara e as manoplas sobre suas roupas sociais rasgadas, mas a aura de terror que ele emanava era o suficiente para fazer os mercenários restantes hesitarem. O Batman não era apenas um homem; era o mito de Gotham, e até os soldados mais endurecidos da Rússia tinham ouvido as histórias.

Em questão de minutos, o salão de baile estava em silêncio, exceto pelos gemidos dos feridos. Bruce caminhou até o líder do grupo, que estava caído perto da lareira, e o levantou pelo colarinho com uma única mão.

— Quem enviou vocês? — a voz de Bruce era um rosnado desumano.

O homem cuspiu sangue e sorriu, revelando dentes manchados.

— O Conselho... não para... por um casamento... Wayne. A herança... deve ser... limpa.

— A herança Wayne está bem protegida — disse Eva, aproximando-se e guardando a arma. Ela olhou para o mercenário com um desprezo profundo. — Digam ao seu mestre que, se ele enviar mais alguém para a minha casa, eu não vou apenas devolver os corpos. Eu vou pessoalmente a Moscou e vou queimar o Conselho de dentro para fora. E eu tenho o marido certo para me mostrar o caminho.

Dmitri limpou o sangue da faca em um lenço de seda e guardou-a. Ele olhou para Bruce, e por um momento, houve um entendimento silencioso entre os dois. Eles eram protetores de tipos diferentes, mas compartilhavam a mesma ferocidade quando se tratava de sua família.

— Bruce! — a voz de Tim veio pelo comunicador. — Temos um problema. Os veículos que Dick e Jason interceptaram eram apenas distração. Há um sinal de rádio vindo do antigo cemitério da família. Eles plantaram algo lá.

Bruce soltou o mercenário, que desabou no chão.

— Alfred, cuide dos feridos e chame a polícia. Eva, Dmitri, fiquem aqui.

— Nem pensar — disse Eva, já se dirigindo para a saída. — É o cemitério dos nossos pais, Bruce. Se eles tocaram em uma única pedra daquele lugar, eu vou querer vê-los implorar.

O grupo se moveu rapidamente pelos jardins até os limites da propriedade, onde o mausoléu da família Wayne se erguia sob o luar. Dick, Jason e Damian já estavam lá, cercando uma figura alta e magra que usava um sobretudo militar cinza.

O homem não parecia um mercenário comum. Ele tinha cabelos brancos cortados rente e uma cicatriz que atravessava o olho esquerdo. Ele estava parado diante do túmulo de Thomas e Martha Wayne, segurando um detonador.

— Major Volkov — disse o homem, sua voz arrastada e rouca. — Você sempre teve um gosto impecável para mulheres. Mas escolher uma Wayne foi o seu erro final.

— Ivanov — Dmitri deu um passo à frente, sua mão pairando perto da arma. — Eu deveria ter matado você na Chechênia.

— Você tentou. Mas o Conselho é resiliente — Ivanov olhou para Eva. — Olhe para você, herdeira Wayne. Doou bilhões para brincar de dona de casa com um traidor. Que desperdício de linhagem.

— Você fala demais para alguém que está cercado por cinco pessoas que podem te matar de formas que você nem imagina — disse Jason, com as pistolas apontadas para a cabeça de Ivanov.

— Se eu apertar este botão, o mausoléu explode — disse Ivanov, mantendo o polegar sobre o detonador. — Um presente de casamento para o seu irmão, Evangeline. As cinzas dos seus pais espalhadas pelo vento de Gotham.

Eva sentiu o sangue ferver. A ironia e o sarcasmo desapareceram. Ela deu um passo à frente, ignorando o aviso de Bruce.

— Você acha que nos atinge destruindo pedras e mármore? — a voz de Eva era fria como o gelo siberiano. — Meus pais não estão naquela tumba. Eles estão em cada decisão que o Bruce toma para salvar esta cidade. Eles estão no modo como eu protejo o meu filho. Você é apenas um homem triste tentando destruir memórias porque não tem futuro.

Ivanov estreitou o olho cicatrizado.

— Palavras bonitas. Vamos ver se elas sobrevivem à explosão.

Antes que ele pudesse pressionar o botão, um som sibilante cortou o ar. Um bat-rangue lançado por Bruce atingiu o pulso de Ivanov, fazendo-o largar o detonador. No mesmo instante, Dmitri disparou, atingindo o ombro do homem, enquanto Damian saltava das sombras com uma voadora que jogou Ivanov contra o chão.

Eva correu e chutou o detonador para longe, para as mãos de Tim, que rapidamente começou a desarmar o sinal.

Dmitri caminhou até Ivanov, que gemia no chão. Ele se ajoelhou e agarrou o homem pelo pescoço.

— O Conselho acabou para você, Ivanov. Se eu vir outra sombra russa em Gotham, eu não serei tão misericordioso quanto o meu cunhado.

Bruce aproximou-se, olhando para o túmulo de seus pais. O silêncio retornou ao cemitério, apenas o som da respiração pesada de todos preenchendo o ar.

— Vocês estão bem? — perguntou Dick, limpando o suor da testa.

— Estamos — respondeu Eva, abraçando o próprio corpo enquanto a adrenalina começava a baixar. Ela olhou para Bruce. — Sinto muito, Bruce. Eu trouxe isso para a sua porta.

Bruce olhou para a irmã. Ele colocou a mão no ombro dela, um gesto raro de afeto físico.

— Você não trouxe nada que já não estivesse aqui, Eva. Gotham sempre atrai o perigo. Mas desta vez, não precisei enfrentá-lo sozinho.

Selina apareceu logo depois, vinda da mansão, com o chicote enrolado na cintura e um olhar de quem tinha acabado de se divertir muito.

— O pátio está limpo. Alfred está preparando um chá... e talvez algo mais forte — ela olhou para a destruição ao redor. — Belo ensaio para o casamento, pessoal. Se a cerimônia for metade disso, será o evento do século.

Eva soltou uma risada fraca, encostando a cabeça no ombro de Dmitri, que a envolveu em um abraço protetor.

— Dmitri, acho que precisamos de férias depois deste casamento — murmurou ela.

— Dorogaya, nós estamos de férias — respondeu ele, beijando-lhe a têmpora. — Para os padrões russos, isso foi apenas uma recepção calorosa.

O grupo começou a caminhar de volta para a mansão. Jason e Damian discutiam quem tinha feito o movimento mais impressionante, enquanto Tim e Dick tentavam calcular os danos materiais. Bruce e Selina caminhavam à frente, em um silêncio confortável.

Eva parou por um momento e olhou para trás, para o mausoléu. Sob a luz da lua, as estátuas pareciam vigiar a família. Ela sentiu que, pela primeira vez em anos, o peso do nome Wayne não era apenas um fardo de dor, mas um escudo de lealdade.

Ao entrarem na mansão, o calor do hall de entrada os acolheu. Alfred estava lá, segurando Nikolas, que havia acordado e agora olhava para os pais com seus grandes olhos azuis.

— Mama! Papa! — o menino esticou os braços.

Eva o pegou no colo, sentindo o cheiro de sabonete e infância que ele carregava. Era por isso que ela lutava. Era por isso que ela tinha voltado.

— Tudo bem, Kolya — sussurrou ela. — Foram apenas fogos de artifício adiantados.

Dmitri colocou a mão nas costas de Eva, conduzindo-os para dentro. A noite em Gotham ainda era longa, e os segredos da família Wayne ainda estavam longe de serem totalmente revelados, mas naquela noite, a ovelha negra tinha provado que seu sangue era tão escuro e resistente quanto o de qualquer morcego.

— Amanhã — disse Bruce, parando no pé da escada —, vamos reforçar todos os protocolos. Mas agora... agora somos apenas uma família.

— Uma família armada até os dentes e com problemas mentais, mas ainda uma família — completou Jason, arrancando risadas de todos, até mesmo de um Bruce Wayne cansado.

Eva olhou para o irmão, para os sobrinhos, para o marido e para o filho. Gotham nunca esqueceria um Wayne, de fato. Mas depois daquela noite, o mundo também aprenderia a nunca subestimar o que acontecia quando um Wayne decidia lutar por quem amava.

A tempestade russa tinha passado, mas o brilho nos olhos de Evangeline Wayne mostrava que ela estava apenas começando a se sentir em casa novamente. E se o Conselho ou qualquer outro fantasma quisesse tentar a sorte, eles descobririam que o verdadeiro perigo de Gotham não usava apenas uma capa; às vezes, ele usava um vestido de seda, falava russo e não tinha medo de queimar o mundo para manter sua família segura.